Poemas neste tema
Outros
Castro Alves
Deusa Incruenta
À IMPRENSA
Ao Grêmio Literário`
ANTÍTESE A "TERRIBILIS DEÁ"
QUANDO ELA se alteou das brumas da Alemanha,
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha,
Na destra suspendendo a estrela da manhã...
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes,
Dos cimos do Peru... às grimpas do Hindustã!!...
Tinha na mão brilhante a trompa bronzeada!
Vestia o longo véu da vestal inspirada!
Era Palas talvez! ... talvez um serafim!...
O albor de Beatriz no imaginar do Dante!. . .
O olhar da Pitonisa em trípode gigante!
Do mundo — Anjo da guarda! enorme querubim!...
Ergueu-se! Olhou de roda os plainos do Universo...
No peito das Nações seu braço longo, imerso
Palpou-lhe o estrepitar do estoso coração!...
— Gênio e santa! — a mulher um grito ergueu profundo,
Abriu braços de mãe — pra acalentar o mundo,
Asas de Serafim — pra abrigar a amplidão.
Rugiram de terror ao ver-lhe o rir sublime...
O sátrapa, o chacal, a tirania, o crime...
O abutre, o antro, o mocho, o erro, a escravidão!
Disse a gruta pra o céu: "Que deusa é esta ingente?"
O espaço respondeu: "É a Diva do Ocidente!...
A consciência do mundo! o Eu da criação!"
E quando Ela surgiu, — os pólos se abraçaram!
O Zênite e o Nadir, — surpresos, se escutaram!
O Norte - ouviu, chorando, o soluçar — do Sul!
O abafado estertor do servo miserando,
Da deusa no clarim gigante reboando,
Clamou da terra — verde... ao firmamento — azul! ...
Uma noite... no chão da Grécia - peregrina,
A Deusa ajoelhou... da poeira divina
O fantasma de Homero então viram surgir!
"Ainda viajar" diz o velho em assombro...
"Quem és? "Eu sou teu guia... Encosta-te ao meu ombro."
— "Então, levas-me longe?" — "Eu levo-te ao porvir!"
No forum colossal da sempiterna Roma
De Cícero a figura apaixonada assoma
E de novo retumba o verbo atroador...
Tem hoje por tribuna imensa — a eternidade,
Por Forum o universo! é plebe — a humanidade!
A seus pés as nações! os séculos — em redor!
Quando a Bastilha vil tremia desraigada
E da mole ao sopé soava a martelada,
A catapulta humana, a voz de Mirabeau!...
Quando aquele ideal Quasímodo do abismo
Se agitava a ulular dos Reis no cataclismo,
— Sineiro que rebate aos séculos tocou!...
Eriçado, feroz, suado, monstruoso,
Magnífico de horror, divino, proceloso...
A Deusa se atirou nos braços do Titão!!
Mas, sentindo que o Deus inteiriçado tomba...
Dos tronos coa madeira — arvora-lhe a hecatomba!
Coas púrpuras dos reis — acende-lhe um clarão!
Seguiu do Childe errante o iate aventureiro...
Beijou-lhe a palidez ao Lord-Forasteiro,
De Veneza, a lasciva — à lânguida Stambul!
E, quando o Lara-Inglês expira, o Pajem louro
É Ela!... E fala... e aponta o firmamento de ouro,
Gulnar lembra a Conrado o seu país de azul!...
Quando a Polônia casta, essa Lucrécia nova,
Para fugir — a um leito, arroja-se a — uma cova...
E mata-se de nojo... aos beijos de um Czar...
Uma atriz funeral surge do negro palco,
Tira à chaga o punhal, descobre o catafalco...
E deixa sobre a Europa... o ferro gotejar!
— Amazona sombria — ela arrebata o Goethe
Na garupa a fumar do tártaro ginete,
Pela noite hibernal dos séculos ao sabá!...
Anjo, às vezes, no céu fatídico revca,
A buzinar de cobre os longos ares troa...
Ergue-se a meio o chão do escuro Josafá!
Salve, Deusa incruenta! Imensa Divindade!
— Barqueira desse mar — chamado a Eternidade! —
Que às margens do Cocito embarcas os heróis...
Em prol da Humanidade a Deus levas o grito.
Tens os olhos — na terra a boca — no infinito!
A meia lua aos pés! Na cabeleira — os sóis!!!
Quando Ela se alteou nas brumas da Alemanha,
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha,
Na destra suspendendo a estrela da manhã...
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes ...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes
Dos cimos do Peru às grimpas do Hindostã!!...
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Ao Grêmio Literário`
ANTÍTESE A "TERRIBILIS DEÁ"
QUANDO ELA se alteou das brumas da Alemanha,
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha,
Na destra suspendendo a estrela da manhã...
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes,
Dos cimos do Peru... às grimpas do Hindustã!!...
Tinha na mão brilhante a trompa bronzeada!
Vestia o longo véu da vestal inspirada!
Era Palas talvez! ... talvez um serafim!...
O albor de Beatriz no imaginar do Dante!. . .
O olhar da Pitonisa em trípode gigante!
Do mundo — Anjo da guarda! enorme querubim!...
Ergueu-se! Olhou de roda os plainos do Universo...
No peito das Nações seu braço longo, imerso
Palpou-lhe o estrepitar do estoso coração!...
— Gênio e santa! — a mulher um grito ergueu profundo,
Abriu braços de mãe — pra acalentar o mundo,
Asas de Serafim — pra abrigar a amplidão.
Rugiram de terror ao ver-lhe o rir sublime...
O sátrapa, o chacal, a tirania, o crime...
O abutre, o antro, o mocho, o erro, a escravidão!
Disse a gruta pra o céu: "Que deusa é esta ingente?"
O espaço respondeu: "É a Diva do Ocidente!...
A consciência do mundo! o Eu da criação!"
E quando Ela surgiu, — os pólos se abraçaram!
O Zênite e o Nadir, — surpresos, se escutaram!
O Norte - ouviu, chorando, o soluçar — do Sul!
O abafado estertor do servo miserando,
Da deusa no clarim gigante reboando,
Clamou da terra — verde... ao firmamento — azul! ...
Uma noite... no chão da Grécia - peregrina,
A Deusa ajoelhou... da poeira divina
O fantasma de Homero então viram surgir!
"Ainda viajar" diz o velho em assombro...
"Quem és? "Eu sou teu guia... Encosta-te ao meu ombro."
— "Então, levas-me longe?" — "Eu levo-te ao porvir!"
No forum colossal da sempiterna Roma
De Cícero a figura apaixonada assoma
E de novo retumba o verbo atroador...
Tem hoje por tribuna imensa — a eternidade,
Por Forum o universo! é plebe — a humanidade!
A seus pés as nações! os séculos — em redor!
Quando a Bastilha vil tremia desraigada
E da mole ao sopé soava a martelada,
A catapulta humana, a voz de Mirabeau!...
Quando aquele ideal Quasímodo do abismo
Se agitava a ulular dos Reis no cataclismo,
— Sineiro que rebate aos séculos tocou!...
Eriçado, feroz, suado, monstruoso,
Magnífico de horror, divino, proceloso...
A Deusa se atirou nos braços do Titão!!
Mas, sentindo que o Deus inteiriçado tomba...
Dos tronos coa madeira — arvora-lhe a hecatomba!
Coas púrpuras dos reis — acende-lhe um clarão!
Seguiu do Childe errante o iate aventureiro...
Beijou-lhe a palidez ao Lord-Forasteiro,
De Veneza, a lasciva — à lânguida Stambul!
E, quando o Lara-Inglês expira, o Pajem louro
É Ela!... E fala... e aponta o firmamento de ouro,
Gulnar lembra a Conrado o seu país de azul!...
Quando a Polônia casta, essa Lucrécia nova,
Para fugir — a um leito, arroja-se a — uma cova...
E mata-se de nojo... aos beijos de um Czar...
Uma atriz funeral surge do negro palco,
Tira à chaga o punhal, descobre o catafalco...
E deixa sobre a Europa... o ferro gotejar!
— Amazona sombria — ela arrebata o Goethe
Na garupa a fumar do tártaro ginete,
Pela noite hibernal dos séculos ao sabá!...
Anjo, às vezes, no céu fatídico revca,
A buzinar de cobre os longos ares troa...
Ergue-se a meio o chão do escuro Josafá!
Salve, Deusa incruenta! Imensa Divindade!
— Barqueira desse mar — chamado a Eternidade! —
Que às margens do Cocito embarcas os heróis...
Em prol da Humanidade a Deus levas o grito.
Tens os olhos — na terra a boca — no infinito!
A meia lua aos pés! Na cabeleira — os sóis!!!
Quando Ela se alteou nas brumas da Alemanha,
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha,
Na destra suspendendo a estrela da manhã...
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes ...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes
Dos cimos do Peru às grimpas do Hindostã!!...
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1 916
1
Antônio Massa
A Teia da Vida
Renda bordada
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
1 478
1
Castro Alves
A Minha Irmã Adelaide
Q UANDO SOZINHO e triste... em horas de amargura,
Tu sentes de meu seio a tempestade escura
As asas encurvar, no fúnebre oceano!...
Quando a esponja de fel embebe-me a lembrança!...
... Levantas-te de leve, é límpida criança!...
E deixas tuas mãos correrem no piano...
— Tualma — terna e meiga inclina-se inquieta
No abismo funeral das mágoas do poeta,
E sonda aquele pego... e rasga aquele arcano!
Após Nesse arquejar da vida, que me pesa,
Ouço... longe, uma voz que no infinito reza! ...
Na terra um soluçar choroso... É teu piano!
Quando no desviver das horas de atonia,
Das noites tropicais na morna calmaria,
Da mocidade o canto arrojo ao vento — insano...
E, perto de morrer, o amor anseio ainda!...
Que mulher me soletra essa harmonia infinda?
... É tua mão quempresta umalma ao teu piano...
E enquanto a flor rebenta à face da lagoa
E a lua vagabunda o céu percorre à toa,
Mirando na corrente o seio leviano;
Inda a terra minspira um sonho de ternura!...
... O gênio da desgraça, o gênio da loucura,
Tu sabes, qual Davi, curar no teu piano.
Criança! Que não vês como é sublime e santo
Fazer irmãos no amor e cúmplices no pranto
Mozart, o homem do Norte, e Verdi, o Italiano
Despertar ao relento o idílio de Bellini!
Fazer dançar Sevilha, ao toque de Rossini...
E o bolero estalar... nas teclas do piano!
Ai! toca! No meu ser acorda ainda um estro
À voz de Gottschalck — o esplêndido maestro —
Aos lampejos de luz — do Moço Paulistano —
Ai! toca!... Enche de sons o derradeiro dia
Daquele que só tem por sonho — uma harmonia!
Por única riqueza... a ti... e ao teu piano!
Tu sentes de meu seio a tempestade escura
As asas encurvar, no fúnebre oceano!...
Quando a esponja de fel embebe-me a lembrança!...
... Levantas-te de leve, é límpida criança!...
E deixas tuas mãos correrem no piano...
— Tualma — terna e meiga inclina-se inquieta
No abismo funeral das mágoas do poeta,
E sonda aquele pego... e rasga aquele arcano!
Após Nesse arquejar da vida, que me pesa,
Ouço... longe, uma voz que no infinito reza! ...
Na terra um soluçar choroso... É teu piano!
Quando no desviver das horas de atonia,
Das noites tropicais na morna calmaria,
Da mocidade o canto arrojo ao vento — insano...
E, perto de morrer, o amor anseio ainda!...
Que mulher me soletra essa harmonia infinda?
... É tua mão quempresta umalma ao teu piano...
E enquanto a flor rebenta à face da lagoa
E a lua vagabunda o céu percorre à toa,
Mirando na corrente o seio leviano;
Inda a terra minspira um sonho de ternura!...
... O gênio da desgraça, o gênio da loucura,
Tu sabes, qual Davi, curar no teu piano.
Criança! Que não vês como é sublime e santo
Fazer irmãos no amor e cúmplices no pranto
Mozart, o homem do Norte, e Verdi, o Italiano
Despertar ao relento o idílio de Bellini!
Fazer dançar Sevilha, ao toque de Rossini...
E o bolero estalar... nas teclas do piano!
Ai! toca! No meu ser acorda ainda um estro
À voz de Gottschalck — o esplêndido maestro —
Aos lampejos de luz — do Moço Paulistano —
Ai! toca!... Enche de sons o derradeiro dia
Daquele que só tem por sonho — uma harmonia!
Por única riqueza... a ti... e ao teu piano!
2 488
1
Castro Alves
A Minha Irmã Adelaide
Q UANDO SOZINHO e triste... em horas de amargura,
Tu sentes de meu seio a tempestade escura
As asas encurvar, no fúnebre oceano!...
Quando a esponja de fel embebe-me a lembrança!...
... Levantas-te de leve, é límpida criança!...
E deixas tuas mãos correrem no piano...
— Tualma — terna e meiga inclina-se inquieta
No abismo funeral das mágoas do poeta,
E sonda aquele pego... e rasga aquele arcano!
Após Nesse arquejar da vida, que me pesa,
Ouço... longe, uma voz que no infinito reza! ...
Na terra um soluçar choroso... É teu piano!
Quando no desviver das horas de atonia,
Das noites tropicais na morna calmaria,
Da mocidade o canto arrojo ao vento — insano...
E, perto de morrer, o amor anseio ainda!...
Que mulher me soletra essa harmonia infinda?
... É tua mão quempresta umalma ao teu piano...
E enquanto a flor rebenta à face da lagoa
E a lua vagabunda o céu percorre à toa,
Mirando na corrente o seio leviano;
Inda a terra minspira um sonho de ternura!...
... O gênio da desgraça, o gênio da loucura,
Tu sabes, qual Davi, curar no teu piano.
Criança! Que não vês como é sublime e santo
Fazer irmãos no amor e cúmplices no pranto
Mozart, o homem do Norte, e Verdi, o Italiano
Despertar ao relento o idílio de Bellini!
Fazer dançar Sevilha, ao toque de Rossini...
E o bolero estalar... nas teclas do piano!
Ai! toca! No meu ser acorda ainda um estro
À voz de Gottschalck — o esplêndido maestro —
Aos lampejos de luz — do Moço Paulistano —
Ai! toca!... Enche de sons o derradeiro dia
Daquele que só tem por sonho — uma harmonia!
Por única riqueza... a ti... e ao teu piano!
Tu sentes de meu seio a tempestade escura
As asas encurvar, no fúnebre oceano!...
Quando a esponja de fel embebe-me a lembrança!...
... Levantas-te de leve, é límpida criança!...
E deixas tuas mãos correrem no piano...
— Tualma — terna e meiga inclina-se inquieta
No abismo funeral das mágoas do poeta,
E sonda aquele pego... e rasga aquele arcano!
Após Nesse arquejar da vida, que me pesa,
Ouço... longe, uma voz que no infinito reza! ...
Na terra um soluçar choroso... É teu piano!
Quando no desviver das horas de atonia,
Das noites tropicais na morna calmaria,
Da mocidade o canto arrojo ao vento — insano...
E, perto de morrer, o amor anseio ainda!...
Que mulher me soletra essa harmonia infinda?
... É tua mão quempresta umalma ao teu piano...
E enquanto a flor rebenta à face da lagoa
E a lua vagabunda o céu percorre à toa,
Mirando na corrente o seio leviano;
Inda a terra minspira um sonho de ternura!...
... O gênio da desgraça, o gênio da loucura,
Tu sabes, qual Davi, curar no teu piano.
Criança! Que não vês como é sublime e santo
Fazer irmãos no amor e cúmplices no pranto
Mozart, o homem do Norte, e Verdi, o Italiano
Despertar ao relento o idílio de Bellini!
Fazer dançar Sevilha, ao toque de Rossini...
E o bolero estalar... nas teclas do piano!
Ai! toca! No meu ser acorda ainda um estro
À voz de Gottschalck — o esplêndido maestro —
Aos lampejos de luz — do Moço Paulistano —
Ai! toca!... Enche de sons o derradeiro dia
Daquele que só tem por sonho — uma harmonia!
Por única riqueza... a ti... e ao teu piano!
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Beto Caloni
Haicai
Vento no madrigal:
copio o som que sopra
no verde canavial.
A vaga da lua
me despenteia;
nem por isso me sinto feia.
copio o som que sopra
no verde canavial.
A vaga da lua
me despenteia;
nem por isso me sinto feia.
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Arnaldo Jabor
Escrevo hoje um artigo sobre quase nada
O poeta Manoel de Barros lançou um novo livro: "Livro sobre Nada" é o nome. Esse surrealista-minimalista- pantaneiro, poeta das insignificâncias, dos detritos, descobre dramas na vida dos caramujos e nos ovos de formiga e faz os sapos do lodo denunciar nossa fragilidade. Leia este seu poema antigo, onde a morte de uma lacraia furada de espinho tem a pungência da morte de Isolda: "Chega de escombros, centopeia antúria!
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.
leia obra Poética de Manoel de Barros
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.
leia obra Poética de Manoel de Barros
1 350
1
Arnaldo Jabor
Escrevo hoje um artigo sobre quase nada
O poeta Manoel de Barros lançou um novo livro: "Livro sobre Nada" é o nome. Esse surrealista-minimalista- pantaneiro, poeta das insignificâncias, dos detritos, descobre dramas na vida dos caramujos e nos ovos de formiga e faz os sapos do lodo denunciar nossa fragilidade. Leia este seu poema antigo, onde a morte de uma lacraia furada de espinho tem a pungência da morte de Isolda: "Chega de escombros, centopeia antúria!
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.
leia obra Poética de Manoel de Barros
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.
leia obra Poética de Manoel de Barros
1 350
1
António Arnaut
Portucale
As montanhas abrem alas. Vai passar
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.
1 414
1
Bernardo Almeida
Soneto do Reencontro
A ausência que há em mim se transfigura
em mãos e em olhos súbitos no poço,
onde venho saciar, mais com ternura,
a sede do cismar outrora moço.
No fundo espelho a virgem prematura
desnuda-se e reveste-se em colosso;
e ao eco milenar que me tortura,
responde cada voz que já não ouço.
Oculta face pousa em minha face.
Não sei de onde ela vem, de que distância:
— se das raízes líquidas da pedra
ou se de mim, se do silêncio medra,
como a canção com que ressuscitasse
os sepultados ídolos da infância.
em mãos e em olhos súbitos no poço,
onde venho saciar, mais com ternura,
a sede do cismar outrora moço.
No fundo espelho a virgem prematura
desnuda-se e reveste-se em colosso;
e ao eco milenar que me tortura,
responde cada voz que já não ouço.
Oculta face pousa em minha face.
Não sei de onde ela vem, de que distância:
— se das raízes líquidas da pedra
ou se de mim, se do silêncio medra,
como a canção com que ressuscitasse
os sepultados ídolos da infância.
582
1
Bernardo Almeida
Soneto do Reencontro
A ausência que há em mim se transfigura
em mãos e em olhos súbitos no poço,
onde venho saciar, mais com ternura,
a sede do cismar outrora moço.
No fundo espelho a virgem prematura
desnuda-se e reveste-se em colosso;
e ao eco milenar que me tortura,
responde cada voz que já não ouço.
Oculta face pousa em minha face.
Não sei de onde ela vem, de que distância:
— se das raízes líquidas da pedra
ou se de mim, se do silêncio medra,
como a canção com que ressuscitasse
os sepultados ídolos da infância.
em mãos e em olhos súbitos no poço,
onde venho saciar, mais com ternura,
a sede do cismar outrora moço.
No fundo espelho a virgem prematura
desnuda-se e reveste-se em colosso;
e ao eco milenar que me tortura,
responde cada voz que já não ouço.
Oculta face pousa em minha face.
Não sei de onde ela vem, de que distância:
— se das raízes líquidas da pedra
ou se de mim, se do silêncio medra,
como a canção com que ressuscitasse
os sepultados ídolos da infância.
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1
Antonio Damásio Rêgo Filho
Ulisses a Teus Pés
Os gritos do mar chicoteando o dorso das pedras
desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio
que te dita a crônica de amanhã
e a de depois-de-amanhã,
palimpsesto de tua vida.
Mastigaremos a crônica de hoje
no café de amanhã
não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa
previamente torturado no calor da água viva,
indispostos a comê-lo, indigesto,
atrasados que estamos
para voltar a Terra Prometida
ao encalço do patriarca ensandecido,
que com o toque do báculo extrairá
água fresca da pedra
chicoteada pelo sol do deserto
em obediência aos ditames de Javé,
o inominado Deus de teus ancestrais,
Clarice Lispector.
Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC,
a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy",
muito assemelhada à rapsódia de tua autoria,
a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida
na Vida de Ângela Pralini",
tracejada entre baforadas de cigarro
e infinitos goles de café
naquela noite em que,
tombada de tristeza,
resvalaste para um súbito estado de graça
e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia!
Ulisses virá postar-se a teus pés
atento ao ritmo da velha Remington,
alheio a Debussy.
Ou será agora a Olivetti?
Ou será, daqui a pouco,
a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"?
As pilhas gastas do rádio
serão substituídas
por outras bem guardadas
na gaveta do criado-mudo
onde se escondem os maços de cigarro
e os talões de cheque e os lenços de papel
manchados de batom e de provisória escrita.
Que alívio não precisar chamar um táxi,
sair na chuva
para comprar pilhas novas em Bangu.
O cigarro na boca desamparado
prenuncia o espocar das fagulhas no colchão.
Quando o incêndio avermelhar tua visão
não tirarás a mão da labareda solitária,
tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral,
facho a iluminar a via-crucis
das histórias sensuais
que escreverias com mais volúpia,
não tivessem sido encomendadas
por telefone,
preço e prazo definidos.
Só interromperias o trabalho
às cinco da madrugada
para telefonar a alguém:
"Você se permite falar comigo
a essa hora da madrugada,
você aceita minha amizade?"
Ninguém a essa hora ousaria atender-te
ninguém a essa hora ousaria distrair-te
quando se sabe que, a essa hora,
estás cometendo o tremendo ato de viver,
encharcada da lucidez perigosa.
Não, é muito cedo ainda.
A velhinha, qual galho
abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis
pode esperar.
Não, não vá de táxi acudi-la,
deixa-a comendo biscoitos na bruma,
quanto a ti, retira a velha Remington do colo,
levanta e faça um bom café,
empenha-te em escrever de forma mais humilde,
desiste de deixar de ser hermética,
aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética,
não recuses o sofrimento de viver com falta de ar
e tampouco recuses o convite
para o congresso das bruxas em Bogotá.
Não, não ria esse riso raro,
poderás viajar de avião,
sem precisar chegar montada numa vassoura
ao aeroporto de Bogotá
escondendo nas lentes negras dos óculos
o temor das pessoas que poderá encontrar
feias, esqueléticas, paramentadas
em negras túnicas e chapéus coni-cômicos;
elas não serão mais feias e asquerosas
que a barata daquela noite agônica.
Às cinco da madrugada de hoje,
recostada no sofá da sala,
Clarice Lispector é monumento nacional
tombado em estado de graça.
A crônica está pronta,
o pão dos filhos garantido,
os rins ataviados,
na boca o amargor das ervas rituais,
antepasto do êxodo,
a mala pronta para o hospital.
Amanhã cedo, antes de tudo,
pegarás um táxi e atravessarás o túnel,
entrarás na igreja de Santa Teresinha,
aspirarás o cheiro funerário dos círios,
velarás por uns instantes a velhinha
em seu caixão, semelhando uma menina dormindo.
Amanhã, Clarice Lispector se despedirá
do medo de morrer e de viver.
Ditado o arremate do profano saltério,
pronunciará a antífona derradeira
- aleluia! -
gemido de chicote inconformado
com o dever de espancar
os nossos sonhos órfãos.
desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio
que te dita a crônica de amanhã
e a de depois-de-amanhã,
palimpsesto de tua vida.
Mastigaremos a crônica de hoje
no café de amanhã
não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa
previamente torturado no calor da água viva,
indispostos a comê-lo, indigesto,
atrasados que estamos
para voltar a Terra Prometida
ao encalço do patriarca ensandecido,
que com o toque do báculo extrairá
água fresca da pedra
chicoteada pelo sol do deserto
em obediência aos ditames de Javé,
o inominado Deus de teus ancestrais,
Clarice Lispector.
Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC,
a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy",
muito assemelhada à rapsódia de tua autoria,
a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida
na Vida de Ângela Pralini",
tracejada entre baforadas de cigarro
e infinitos goles de café
naquela noite em que,
tombada de tristeza,
resvalaste para um súbito estado de graça
e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia!
Ulisses virá postar-se a teus pés
atento ao ritmo da velha Remington,
alheio a Debussy.
Ou será agora a Olivetti?
Ou será, daqui a pouco,
a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"?
As pilhas gastas do rádio
serão substituídas
por outras bem guardadas
na gaveta do criado-mudo
onde se escondem os maços de cigarro
e os talões de cheque e os lenços de papel
manchados de batom e de provisória escrita.
Que alívio não precisar chamar um táxi,
sair na chuva
para comprar pilhas novas em Bangu.
O cigarro na boca desamparado
prenuncia o espocar das fagulhas no colchão.
Quando o incêndio avermelhar tua visão
não tirarás a mão da labareda solitária,
tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral,
facho a iluminar a via-crucis
das histórias sensuais
que escreverias com mais volúpia,
não tivessem sido encomendadas
por telefone,
preço e prazo definidos.
Só interromperias o trabalho
às cinco da madrugada
para telefonar a alguém:
"Você se permite falar comigo
a essa hora da madrugada,
você aceita minha amizade?"
Ninguém a essa hora ousaria atender-te
ninguém a essa hora ousaria distrair-te
quando se sabe que, a essa hora,
estás cometendo o tremendo ato de viver,
encharcada da lucidez perigosa.
Não, é muito cedo ainda.
A velhinha, qual galho
abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis
pode esperar.
Não, não vá de táxi acudi-la,
deixa-a comendo biscoitos na bruma,
quanto a ti, retira a velha Remington do colo,
levanta e faça um bom café,
empenha-te em escrever de forma mais humilde,
desiste de deixar de ser hermética,
aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética,
não recuses o sofrimento de viver com falta de ar
e tampouco recuses o convite
para o congresso das bruxas em Bogotá.
Não, não ria esse riso raro,
poderás viajar de avião,
sem precisar chegar montada numa vassoura
ao aeroporto de Bogotá
escondendo nas lentes negras dos óculos
o temor das pessoas que poderá encontrar
feias, esqueléticas, paramentadas
em negras túnicas e chapéus coni-cômicos;
elas não serão mais feias e asquerosas
que a barata daquela noite agônica.
Às cinco da madrugada de hoje,
recostada no sofá da sala,
Clarice Lispector é monumento nacional
tombado em estado de graça.
A crônica está pronta,
o pão dos filhos garantido,
os rins ataviados,
na boca o amargor das ervas rituais,
antepasto do êxodo,
a mala pronta para o hospital.
Amanhã cedo, antes de tudo,
pegarás um táxi e atravessarás o túnel,
entrarás na igreja de Santa Teresinha,
aspirarás o cheiro funerário dos círios,
velarás por uns instantes a velhinha
em seu caixão, semelhando uma menina dormindo.
Amanhã, Clarice Lispector se despedirá
do medo de morrer e de viver.
Ditado o arremate do profano saltério,
pronunciará a antífona derradeira
- aleluia! -
gemido de chicote inconformado
com o dever de espancar
os nossos sonhos órfãos.
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Antonio Damásio Rêgo Filho
Ulisses a Teus Pés
Os gritos do mar chicoteando o dorso das pedras
desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio
que te dita a crônica de amanhã
e a de depois-de-amanhã,
palimpsesto de tua vida.
Mastigaremos a crônica de hoje
no café de amanhã
não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa
previamente torturado no calor da água viva,
indispostos a comê-lo, indigesto,
atrasados que estamos
para voltar a Terra Prometida
ao encalço do patriarca ensandecido,
que com o toque do báculo extrairá
água fresca da pedra
chicoteada pelo sol do deserto
em obediência aos ditames de Javé,
o inominado Deus de teus ancestrais,
Clarice Lispector.
Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC,
a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy",
muito assemelhada à rapsódia de tua autoria,
a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida
na Vida de Ângela Pralini",
tracejada entre baforadas de cigarro
e infinitos goles de café
naquela noite em que,
tombada de tristeza,
resvalaste para um súbito estado de graça
e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia!
Ulisses virá postar-se a teus pés
atento ao ritmo da velha Remington,
alheio a Debussy.
Ou será agora a Olivetti?
Ou será, daqui a pouco,
a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"?
As pilhas gastas do rádio
serão substituídas
por outras bem guardadas
na gaveta do criado-mudo
onde se escondem os maços de cigarro
e os talões de cheque e os lenços de papel
manchados de batom e de provisória escrita.
Que alívio não precisar chamar um táxi,
sair na chuva
para comprar pilhas novas em Bangu.
O cigarro na boca desamparado
prenuncia o espocar das fagulhas no colchão.
Quando o incêndio avermelhar tua visão
não tirarás a mão da labareda solitária,
tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral,
facho a iluminar a via-crucis
das histórias sensuais
que escreverias com mais volúpia,
não tivessem sido encomendadas
por telefone,
preço e prazo definidos.
Só interromperias o trabalho
às cinco da madrugada
para telefonar a alguém:
"Você se permite falar comigo
a essa hora da madrugada,
você aceita minha amizade?"
Ninguém a essa hora ousaria atender-te
ninguém a essa hora ousaria distrair-te
quando se sabe que, a essa hora,
estás cometendo o tremendo ato de viver,
encharcada da lucidez perigosa.
Não, é muito cedo ainda.
A velhinha, qual galho
abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis
pode esperar.
Não, não vá de táxi acudi-la,
deixa-a comendo biscoitos na bruma,
quanto a ti, retira a velha Remington do colo,
levanta e faça um bom café,
empenha-te em escrever de forma mais humilde,
desiste de deixar de ser hermética,
aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética,
não recuses o sofrimento de viver com falta de ar
e tampouco recuses o convite
para o congresso das bruxas em Bogotá.
Não, não ria esse riso raro,
poderás viajar de avião,
sem precisar chegar montada numa vassoura
ao aeroporto de Bogotá
escondendo nas lentes negras dos óculos
o temor das pessoas que poderá encontrar
feias, esqueléticas, paramentadas
em negras túnicas e chapéus coni-cômicos;
elas não serão mais feias e asquerosas
que a barata daquela noite agônica.
Às cinco da madrugada de hoje,
recostada no sofá da sala,
Clarice Lispector é monumento nacional
tombado em estado de graça.
A crônica está pronta,
o pão dos filhos garantido,
os rins ataviados,
na boca o amargor das ervas rituais,
antepasto do êxodo,
a mala pronta para o hospital.
Amanhã cedo, antes de tudo,
pegarás um táxi e atravessarás o túnel,
entrarás na igreja de Santa Teresinha,
aspirarás o cheiro funerário dos círios,
velarás por uns instantes a velhinha
em seu caixão, semelhando uma menina dormindo.
Amanhã, Clarice Lispector se despedirá
do medo de morrer e de viver.
Ditado o arremate do profano saltério,
pronunciará a antífona derradeira
- aleluia! -
gemido de chicote inconformado
com o dever de espancar
os nossos sonhos órfãos.
desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio
que te dita a crônica de amanhã
e a de depois-de-amanhã,
palimpsesto de tua vida.
Mastigaremos a crônica de hoje
no café de amanhã
não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa
previamente torturado no calor da água viva,
indispostos a comê-lo, indigesto,
atrasados que estamos
para voltar a Terra Prometida
ao encalço do patriarca ensandecido,
que com o toque do báculo extrairá
água fresca da pedra
chicoteada pelo sol do deserto
em obediência aos ditames de Javé,
o inominado Deus de teus ancestrais,
Clarice Lispector.
Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC,
a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy",
muito assemelhada à rapsódia de tua autoria,
a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida
na Vida de Ângela Pralini",
tracejada entre baforadas de cigarro
e infinitos goles de café
naquela noite em que,
tombada de tristeza,
resvalaste para um súbito estado de graça
e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia!
Ulisses virá postar-se a teus pés
atento ao ritmo da velha Remington,
alheio a Debussy.
Ou será agora a Olivetti?
Ou será, daqui a pouco,
a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"?
As pilhas gastas do rádio
serão substituídas
por outras bem guardadas
na gaveta do criado-mudo
onde se escondem os maços de cigarro
e os talões de cheque e os lenços de papel
manchados de batom e de provisória escrita.
Que alívio não precisar chamar um táxi,
sair na chuva
para comprar pilhas novas em Bangu.
O cigarro na boca desamparado
prenuncia o espocar das fagulhas no colchão.
Quando o incêndio avermelhar tua visão
não tirarás a mão da labareda solitária,
tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral,
facho a iluminar a via-crucis
das histórias sensuais
que escreverias com mais volúpia,
não tivessem sido encomendadas
por telefone,
preço e prazo definidos.
Só interromperias o trabalho
às cinco da madrugada
para telefonar a alguém:
"Você se permite falar comigo
a essa hora da madrugada,
você aceita minha amizade?"
Ninguém a essa hora ousaria atender-te
ninguém a essa hora ousaria distrair-te
quando se sabe que, a essa hora,
estás cometendo o tremendo ato de viver,
encharcada da lucidez perigosa.
Não, é muito cedo ainda.
A velhinha, qual galho
abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis
pode esperar.
Não, não vá de táxi acudi-la,
deixa-a comendo biscoitos na bruma,
quanto a ti, retira a velha Remington do colo,
levanta e faça um bom café,
empenha-te em escrever de forma mais humilde,
desiste de deixar de ser hermética,
aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética,
não recuses o sofrimento de viver com falta de ar
e tampouco recuses o convite
para o congresso das bruxas em Bogotá.
Não, não ria esse riso raro,
poderás viajar de avião,
sem precisar chegar montada numa vassoura
ao aeroporto de Bogotá
escondendo nas lentes negras dos óculos
o temor das pessoas que poderá encontrar
feias, esqueléticas, paramentadas
em negras túnicas e chapéus coni-cômicos;
elas não serão mais feias e asquerosas
que a barata daquela noite agônica.
Às cinco da madrugada de hoje,
recostada no sofá da sala,
Clarice Lispector é monumento nacional
tombado em estado de graça.
A crônica está pronta,
o pão dos filhos garantido,
os rins ataviados,
na boca o amargor das ervas rituais,
antepasto do êxodo,
a mala pronta para o hospital.
Amanhã cedo, antes de tudo,
pegarás um táxi e atravessarás o túnel,
entrarás na igreja de Santa Teresinha,
aspirarás o cheiro funerário dos círios,
velarás por uns instantes a velhinha
em seu caixão, semelhando uma menina dormindo.
Amanhã, Clarice Lispector se despedirá
do medo de morrer e de viver.
Ditado o arremate do profano saltério,
pronunciará a antífona derradeira
- aleluia! -
gemido de chicote inconformado
com o dever de espancar
os nossos sonhos órfãos.
682
1
Bento Prado Júnior
Coração de pedra
Não tem olhos de ver para a eterna beleza,
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.
1 340
1
Bento Prado Júnior
Coração de pedra
Não tem olhos de ver para a eterna beleza,
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.
1 340
1
Bocage
Meu Ser Evaporei na Luta Insana
Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos
Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos
Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
1 962
1
Castro Alves
Lúcia
poema
Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.
Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...
Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Coas roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"
Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.
Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então coa natureza.
"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto! ...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."
Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."
Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo. . .
Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...
epílogo
Muitos anos correram depois disto ...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co o cântaro à cabeça — pés descalços,
Coos ombros nus, mas pálidos e magros ...
Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada ...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,
Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...
Cobriu coa mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna ...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!
Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.
Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...
Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Coas roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"
Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.
Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então coa natureza.
"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto! ...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."
Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."
Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo. . .
Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...
epílogo
Muitos anos correram depois disto ...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co o cântaro à cabeça — pés descalços,
Coos ombros nus, mas pálidos e magros ...
Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada ...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,
Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...
Cobriu coa mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna ...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!
2 943
1
António Arnaut
Os Meus Heróis
Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
2 966
1
António Quadros
O Banquete Infinito
Poesia chorada, como o mar sob a chuva?
Poesia aflita, como um farol no denso nevoeiro?
Poesia angustiada, como a futura mãe?
Alegre o olhar, os meus dedos são mensageiros dos deuses
E cantam o que me sobra e eu não sei entender.
Alegre o coração, escapa-se de mim um fumo de dor,
E enquanto rio, sou também lágrimas e soluços.
O acordo é uma promessa do paraíso perdido mas não morto,
pois as suas portas choram por mim em mim.
Poesia triste, triste face, coração ardente, sorriso imanente,
Tudo se comprime num verso obscuro e intocável.
Julgo perder-me num meandro de luzes e sombras,
De estrelas e pântanos, profetas e deuses.
Tarda-me a achar o caminho dos caminhos.
Aquele que, enfim, conduz a alguma parte.
Sei que tudo é — mas como conhecer o que, sendo, indica e ilumina?
Os meus gestos são pesados e lentos, pois temem
Matar o inocente e dar vida ao monstro.
Já não hesitam, porém, e quando eu puder olhar atrás de mim
A estrada percorrida, os destroços abandonados,
Os cadáveres imolados à vontade torturada,
Então sabereis os frutos a escolher e os manjares a saborear
espera-me o banquete infinito.
Iguaria ou conviva, o que importa é chegar com o destino cumprido.
Poesia aflita, como um farol no denso nevoeiro?
Poesia angustiada, como a futura mãe?
Alegre o olhar, os meus dedos são mensageiros dos deuses
E cantam o que me sobra e eu não sei entender.
Alegre o coração, escapa-se de mim um fumo de dor,
E enquanto rio, sou também lágrimas e soluços.
O acordo é uma promessa do paraíso perdido mas não morto,
pois as suas portas choram por mim em mim.
Poesia triste, triste face, coração ardente, sorriso imanente,
Tudo se comprime num verso obscuro e intocável.
Julgo perder-me num meandro de luzes e sombras,
De estrelas e pântanos, profetas e deuses.
Tarda-me a achar o caminho dos caminhos.
Aquele que, enfim, conduz a alguma parte.
Sei que tudo é — mas como conhecer o que, sendo, indica e ilumina?
Os meus gestos são pesados e lentos, pois temem
Matar o inocente e dar vida ao monstro.
Já não hesitam, porém, e quando eu puder olhar atrás de mim
A estrada percorrida, os destroços abandonados,
Os cadáveres imolados à vontade torturada,
Então sabereis os frutos a escolher e os manjares a saborear
espera-me o banquete infinito.
Iguaria ou conviva, o que importa é chegar com o destino cumprido.
1 160
1
António Quadros
O Banquete Infinito
Poesia chorada, como o mar sob a chuva?
Poesia aflita, como um farol no denso nevoeiro?
Poesia angustiada, como a futura mãe?
Alegre o olhar, os meus dedos são mensageiros dos deuses
E cantam o que me sobra e eu não sei entender.
Alegre o coração, escapa-se de mim um fumo de dor,
E enquanto rio, sou também lágrimas e soluços.
O acordo é uma promessa do paraíso perdido mas não morto,
pois as suas portas choram por mim em mim.
Poesia triste, triste face, coração ardente, sorriso imanente,
Tudo se comprime num verso obscuro e intocável.
Julgo perder-me num meandro de luzes e sombras,
De estrelas e pântanos, profetas e deuses.
Tarda-me a achar o caminho dos caminhos.
Aquele que, enfim, conduz a alguma parte.
Sei que tudo é — mas como conhecer o que, sendo, indica e ilumina?
Os meus gestos são pesados e lentos, pois temem
Matar o inocente e dar vida ao monstro.
Já não hesitam, porém, e quando eu puder olhar atrás de mim
A estrada percorrida, os destroços abandonados,
Os cadáveres imolados à vontade torturada,
Então sabereis os frutos a escolher e os manjares a saborear
espera-me o banquete infinito.
Iguaria ou conviva, o que importa é chegar com o destino cumprido.
Poesia aflita, como um farol no denso nevoeiro?
Poesia angustiada, como a futura mãe?
Alegre o olhar, os meus dedos são mensageiros dos deuses
E cantam o que me sobra e eu não sei entender.
Alegre o coração, escapa-se de mim um fumo de dor,
E enquanto rio, sou também lágrimas e soluços.
O acordo é uma promessa do paraíso perdido mas não morto,
pois as suas portas choram por mim em mim.
Poesia triste, triste face, coração ardente, sorriso imanente,
Tudo se comprime num verso obscuro e intocável.
Julgo perder-me num meandro de luzes e sombras,
De estrelas e pântanos, profetas e deuses.
Tarda-me a achar o caminho dos caminhos.
Aquele que, enfim, conduz a alguma parte.
Sei que tudo é — mas como conhecer o que, sendo, indica e ilumina?
Os meus gestos são pesados e lentos, pois temem
Matar o inocente e dar vida ao monstro.
Já não hesitam, porém, e quando eu puder olhar atrás de mim
A estrada percorrida, os destroços abandonados,
Os cadáveres imolados à vontade torturada,
Então sabereis os frutos a escolher e os manjares a saborear
espera-me o banquete infinito.
Iguaria ou conviva, o que importa é chegar com o destino cumprido.
1 160
1
Alcides Werk
Estudo I
Este o lugar em que me entrego. Eu, que
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.
Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua
que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.
Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua
que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.
1 082
1
Alcides Werk
Estudo I
Este o lugar em que me entrego. Eu, que
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.
Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua
que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.
Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua
que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.
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Alcides Werk
Estudo I
Este o lugar em que me entrego. Eu, que
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.
Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua
que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.
sempre fui cuidadoso com meu sangue,
aqui vejo-o embeber-se em solo estéril
- sacrifício vazio a um deus extinto.
Gosto de freqüentar esta taberna,
onde me sirvo do meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
Na meia-luz da tasca entra uma lua
que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
vai caindo um poema sobre a mesa.
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1
Bruno KKC
Uns e Outros
Uns dizem que sim
Outros dizem que vim
Uns dizem que nao
Outros dizem paixao
Uns dizem que espero
Outros dizem que quero
Uns dizem morte
Outros dizem sorte
Uns dizem lento
Outros dizem momento
Uns dizem dor
Outros dizem flor
Desejando o teu sim
Desde do instante em que vim
Para nao dizer nao
A esta paixao
Sera que tudo que espero
E com forca quero
Ira me livrar da morte
De um encontro de sorte ?
Neste lento momento de dor
Quando nasce mais uma flor...
Outros dizem que vim
Uns dizem que nao
Outros dizem paixao
Uns dizem que espero
Outros dizem que quero
Uns dizem morte
Outros dizem sorte
Uns dizem lento
Outros dizem momento
Uns dizem dor
Outros dizem flor
Desejando o teu sim
Desde do instante em que vim
Para nao dizer nao
A esta paixao
Sera que tudo que espero
E com forca quero
Ira me livrar da morte
De um encontro de sorte ?
Neste lento momento de dor
Quando nasce mais uma flor...
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Castro Alves
Rmorsos
Em que pensa Carlota após a valsa,
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
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