Poemas neste tema
Outros
Vernaide Wanderley
Forragens e Desertos, nos
Versos da Escrivaninha
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
752
Antônio de Godói
Místico
Lua, noiva do azul, Verônica sombria,
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
829
Carlos Vogt
Sabedoria Infantil
Para falar a verdade,
esta cheia de meandros, meios, caminhos,
pântanos, voltas e volteios,
a verdade, enfim, que conhecemos clara
como se vista através de um biombo disfarçando intimidades.
Para falar a verdade
nua, crua, transparente e limpa
nada mais próprio que um sonho de menina.
(1991)
esta cheia de meandros, meios, caminhos,
pântanos, voltas e volteios,
a verdade, enfim, que conhecemos clara
como se vista através de um biombo disfarçando intimidades.
Para falar a verdade
nua, crua, transparente e limpa
nada mais próprio que um sonho de menina.
(1991)
1 208
Zacarias Martins
Cala-te Boca
Se minha boca calasse,
falariam por mim, os olhos.
Se meus olhos não dissessem nada,
os meus atos colocariam a boca no trombone.
Ainda restarias as mãos,
que tentariam um diálogo mudo.
O coração, que bateria mais forte.
O pensamento, que iria mais longe.
A imaginação, que voaria mais alto.
A esperança, que é a última que morre.
E minha poesia, para falar de amor.
falariam por mim, os olhos.
Se meus olhos não dissessem nada,
os meus atos colocariam a boca no trombone.
Ainda restarias as mãos,
que tentariam um diálogo mudo.
O coração, que bateria mais forte.
O pensamento, que iria mais longe.
A imaginação, que voaria mais alto.
A esperança, que é a última que morre.
E minha poesia, para falar de amor.
1 738
Yolandino Maia
Haicai
Simplicidade
Sim... fechei o livro
e li durante a viagem
anúncios no bonde.
No teatro
Na platéia escura
nossa vida adormeceu.
No palco, ela sonha
Sim... fechei o livro
e li durante a viagem
anúncios no bonde.
No teatro
Na platéia escura
nossa vida adormeceu.
No palco, ela sonha
816
Walter Queiroz
Formação
Nem pétala nem pano
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha
880
Weydson Barros Leal
E Deusas não Aravam Rosas
conto fantopoético ou
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
970
Alcides Freitas
Hamlet
Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
866
Antônio Chaves
Mocidade
Ó mocidade! — borboleta louca
Que o casulo deixaste pressurosa,
Olha que o vento as asas te destouca,
Adeja menos, borboleta ansiosa.
Temo que as tuas límpidas antenas,
Que o teu corpo fragílimo, subindo,
um dia venham se cobrir das penas...
E se temo é porque — pálido monge
Sob a cúpula azul do céu aberto
Olho, e te vejo já de mim tão longe,
Tu, que eu julgava inda de mim tão perto.
Volta! vem descansar sobre as alfombras
Desta alma, que sorrir já não se atreve...
Olha que o prado vai se encher de sombras
E a terra toda se cobrir de neve.
Que o casulo deixaste pressurosa,
Olha que o vento as asas te destouca,
Adeja menos, borboleta ansiosa.
Temo que as tuas límpidas antenas,
Que o teu corpo fragílimo, subindo,
um dia venham se cobrir das penas...
E se temo é porque — pálido monge
Sob a cúpula azul do céu aberto
Olho, e te vejo já de mim tão longe,
Tu, que eu julgava inda de mim tão perto.
Volta! vem descansar sobre as alfombras
Desta alma, que sorrir já não se atreve...
Olha que o prado vai se encher de sombras
E a terra toda se cobrir de neve.
1 018
Américo Facó
Ed
Cinja-lhe a fronte e cinja-lhe os cabelos
A coroa de pâmpanos virente,
E abra-lhe, a meio, a boca em riso ardente,
Porém um riso que provoque zelos...
E vistam-na depois, com mil desvelos,
Do grego manto leve e transparente,
Deixando livre o colo e a pele quente
Dos braços nus — que assim é melhor vê-los.
E, — assim vestida, à moda primitiva
Da Frinéia pagã, — a luz serena
Do seu olhar se torne mais cativa,
Mais lânguida e mais doce! — e Ed, a morena,
Há de surgir mais casta à luz mais viva,
Plena de mais pureza e graça plena...
A coroa de pâmpanos virente,
E abra-lhe, a meio, a boca em riso ardente,
Porém um riso que provoque zelos...
E vistam-na depois, com mil desvelos,
Do grego manto leve e transparente,
Deixando livre o colo e a pele quente
Dos braços nus — que assim é melhor vê-los.
E, — assim vestida, à moda primitiva
Da Frinéia pagã, — a luz serena
Do seu olhar se torne mais cativa,
Mais lânguida e mais doce! — e Ed, a morena,
Há de surgir mais casta à luz mais viva,
Plena de mais pureza e graça plena...
893
Ymah Théres
Fugazes
Sobre a alvura e o vazio da página
voejam idéias e anjos.
Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.
E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.
Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
voejam idéias e anjos.
Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.
E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.
Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
973
Ymah Théres
Fugazes
Sobre a alvura e o vazio da página
voejam idéias e anjos.
Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.
E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.
Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
voejam idéias e anjos.
Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.
E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.
Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
973
Ymah Théres
Fugazes
Sobre a alvura e o vazio da página
voejam idéias e anjos.
Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.
E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.
Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
voejam idéias e anjos.
Há que puxá-los pelas asas rápidas,
que não se rompa o fio da candura.
Cuidado com o cetim da vestimenta
e o arisco vagalume das espáduas.
E há que entretê-los - que não se extraviem
ou se desfaçam a algum ledo engano.
Há que agarrá-los pelas mãos de nuvens,
aprisioná-los nesse escasso armário.
Asas abertas sobre brancas folhas,
voam anjos de túnicas fugazes
trançando em dedos frágeis alguns fios
da vasta cabeleira das palavras.
973
Adriana Abdenur
Ser quase
Sou quase poeta --
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
1 035
Adriana Abdenur
Ser quase
Sou quase poeta --
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
1 035
Adriana Abdenur
Ser quase
Sou quase poeta --
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
falta pouquinho.
Ser-lo-ei
devagarinho.
Cato minhas pequenas vaidades
e as guardo numa bolsinha de feltro azul,
dentro de uma caixa de sapatos
la no fundo do armario laqueado.
E aguardo.
Meus poemas -- quando os escrever --
terao o cheiro da memoria bem-guardada,
da nostalgia, da naftalina.
1 035
Xavier de Carvalho
O Sino de São Pantaleão
Em minha terra, o sino mais sentido,
o mais triste de todo o Maranhão,
é o grande sino, há muito erguido
da velha e secular São Pantaleão...
Todo enterro ali passa... E ele dorido,
vendo-os passar, soluça na amplidão...
E é tão forte e é tão fundo o seu gemido
que a todos espedaça o coração!
Eu avalio a mágoa desse dobre,
quando meu velho Pai, vida tão nobre,
diante da Igreja, em seu caixão passou...
O sino gemeu tanto, nesse dia,
que, eu de tão longe, ouvi, na alma vazia,
os dolorosos ais que ele dobrou!
o mais triste de todo o Maranhão,
é o grande sino, há muito erguido
da velha e secular São Pantaleão...
Todo enterro ali passa... E ele dorido,
vendo-os passar, soluça na amplidão...
E é tão forte e é tão fundo o seu gemido
que a todos espedaça o coração!
Eu avalio a mágoa desse dobre,
quando meu velho Pai, vida tão nobre,
diante da Igreja, em seu caixão passou...
O sino gemeu tanto, nesse dia,
que, eu de tão longe, ouvi, na alma vazia,
os dolorosos ais que ele dobrou!
1 092
Yeda Prates Bernis
Variações em Tom Maior
A noite, trêmula,
com seu fardo de sombras
nos ombros.
Ponteiros invisíveis giram,
esgarçam, pouco a pouco,
um fado de opaca tristeza.
Um galo, voz claríssima,
chameja em prata
espaço entre as trevas.
Borboletas brincam de roda:
sobre um sino
acordam o silêncio de bronze.
Uma azaléia
molhada de cristal
ensaia vôo.
Asas de andorinhas
salpicam no céu
claridades e levezas.
com seu fardo de sombras
nos ombros.
Ponteiros invisíveis giram,
esgarçam, pouco a pouco,
um fado de opaca tristeza.
Um galo, voz claríssima,
chameja em prata
espaço entre as trevas.
Borboletas brincam de roda:
sobre um sino
acordam o silêncio de bronze.
Uma azaléia
molhada de cristal
ensaia vôo.
Asas de andorinhas
salpicam no céu
claridades e levezas.
857
Waldomiro Siqueira Jr.
Haicai
O Sentenciado
Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.
Restos
Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.
Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.
Restos
Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.
1 819
Weydson Barros Leal
Noite
Docemente o tempo soava, ela contou como a noite que habitava seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias,
os meninos também criam teorias,
as meninas e os meninos choram)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela falou —
e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos
a cumplicidade — lhe falei.
(há os olhos e os dentes por se tocar — a música dos gestos é sempre incerta
como os corpos — esta sinfonia de cores e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
Nota:
Este poema inspirou "Buscando a Teoria", de Soares Feitosa.
(as meninas choram quando perdem teorias,
os meninos também criam teorias,
as meninas e os meninos choram)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela falou —
e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos
a cumplicidade — lhe falei.
(há os olhos e os dentes por se tocar — a música dos gestos é sempre incerta
como os corpos — esta sinfonia de cores e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
Nota:
Este poema inspirou "Buscando a Teoria", de Soares Feitosa.
890
Weydson Barros Leal
O Teu Sorriso é uma Dança
O teu sorriso é uma dança
tua boca nasce a cada dia
como a faca e a fruta.
há nos teus dentes uma cor
que não há noutra forma de tempo —
a brancura dos teus olhos é irmã e cai
em teu brilho de ursa
e em cada anel.
o teu sorriso é uma forma de vencer as guerras
e as tuas mãos sobre os joelhos
uma arquitetura de gregos.
dei to sobre tudo que desperto
em tua aura de prataria cega
e o meu deleite e a minha dor
copulam numa fogueira pública.
penso que caiu alguma lua no jardim que andaste aqui
e a própria queda dos impérios
é uma predição de ti —
o teu passado é uma praia
onde nasceram as conchas
e o teu presente uma eternidade de luz e de ondas
onde as conchas cantam
teu dom e tua luz.
II
— até quando seremos felizes?
até quando seremos a mira
que o espelho espera?
o duplo multiplicado?
— lembra quando rasgamos o peito e o tempo escoou?
eram moedas e flores
e um hálito de pedras ...
— hoje a flauta doce foi buscada;
o amargo do vinho; a noite;
e uma barca de espelhos
que navega cegamente para guerra...
III
há um poeta rindo no portal da tua casa
que não sou eu mas o eu que te acompanha
e eu estar em ti é lembrar de mim
quando penso que és minha casa.
permaneço em sonho
enquanto tu me navegas,
e existir em ti é realizar os planos
de quando existires
saberes como sofrem os sonhos —
amor é mar
que sempre subexiste
e quando queremos navegar
a vela nos devora
e o vento é sempre triste.
IV - MANHÃ NA LUA
haverás, amada,
de recordar a hora em que éramos felizes:
há poesia no passado
mas não há tempo —
há a dor
a praia e a pedra
onde ancorar o dia
e acordar sobre o teu lado
sem saber
que o sonho é um círculo finito
que sem meios de tecer
tu fias
e colhes a noite
como um manto sobre os braços
uma nau descomunal
ou um verbo que cria.
V - PORTRAIT
sonhávamos tanto que éramos doces
e nosso último disfarce
foi tornarmo-nos amigos
sob a fé de toda balaustrada
de lustres e alaúdes lúgubres
que terminam
quando nua e com flores
cantas
e transbordas os açudes...
acordamos e corremos aos jornais
em busca de poemas
limpamos toda casa onde o sonho é moradia
o sonho que buscamos, o sonho que nos cria
apenas uma trégua
quando a guerra
é a única maneira de se conquistar
e a bandeira só por cada jogo se jogar
porque só é o cadafalso
e falso o laço
do ar.
VI - AUGEN
verde a luzidia forma que encontrares no poema
que verde é seu encanto
enquanto canto sua pena
que a vida nunca estabelece
rara, sem sua medida de tristeza.
talvez a fala
que emudece espaços
a ausência pressentida ou as horas
medirão o tempo da distância...
talvez o olhar
que umedece os passos
o brilho docemente agudo
das pérolas
o jogo
ou as conchas
serão em mim a tua proteção.
as mãos
como os limites de um deus
ou urna pomba absurdamente nua ou despetalada
sobre minha cabeça pousas
nesta sombra que enriquece a luz.
VII - SAL
quando esqueces o meu nome
é poesia a minha dor que se constrói...
— tanta tristeza em sabermos o que seríamos...
e se não fosse a poesia ? — o sonho da noite
é o medo do dia
e o teu sonho é um barco que irá chegar
e o seu vento a minha esperança
que também é sua praia.
vê esta pedra — sim, a que guarda sob o tempo
o pulso das vidas; —
ergue tua mão agora,
sorve o lampejo
que esqueci de esconder sob a pedra:
nesta praia só há um lugar onde o amor sobrevive,
e a fé e a fidelidade
caminham utopicamente
banhando os pés.
VIII
somos fundamente tristes quando amamos em segredo...
— o que buscamos em nossa lida?...
todas as ilhas sofrem de ser só
e sempre amar por último o penúltimo engano...
adulo duelos no ancoradouro que há em mim...
há mulheres debruçadas sobre a lua
e o tempo e o traço, se hão,
são partes da mão
e o poeta um pedaço
do espaço e do chão...
o sonho é apenas a espera a vida inteira...
num canto em mim todos os homens agonizam
e o deus e a voz
é o eu em nós...
ri, para que eu pense que o mundo acabou!...
teremos que cantar enquanto fundas
as avenidas foscas todas toscas fenecem,
jardins se amontoam sobre os muros
e crianças criam mundos...
canto enquanto sabes que podemos amar...
o amor é um costela que sangra...
o amor é um cortejo sobre o mar...
IX - JORNADA
haverá de nos suportar o tempo da lida,
tudo quanto de tristeza e alegria não cabem no poema —
o verso deve ser comedido
para não comprometer a irmandade
dos solitários poetas.
e haverá a força para não amar e
a tarde para recriar os sapatos — os pés
representam asseados a alma do poeta,
quando sujos, sua coragem e abnegação.
haverá todo tempo para construir o verso
limpar a casa e escrever
literatura —
haverá música e pêssegos
quando o espaço entre o chão e a alma
for um preenchimento apenas de coisas velhas
e com nós
for surdamente esquecido
entre as estações.
tua boca nasce a cada dia
como a faca e a fruta.
há nos teus dentes uma cor
que não há noutra forma de tempo —
a brancura dos teus olhos é irmã e cai
em teu brilho de ursa
e em cada anel.
o teu sorriso é uma forma de vencer as guerras
e as tuas mãos sobre os joelhos
uma arquitetura de gregos.
dei to sobre tudo que desperto
em tua aura de prataria cega
e o meu deleite e a minha dor
copulam numa fogueira pública.
penso que caiu alguma lua no jardim que andaste aqui
e a própria queda dos impérios
é uma predição de ti —
o teu passado é uma praia
onde nasceram as conchas
e o teu presente uma eternidade de luz e de ondas
onde as conchas cantam
teu dom e tua luz.
II
— até quando seremos felizes?
até quando seremos a mira
que o espelho espera?
o duplo multiplicado?
— lembra quando rasgamos o peito e o tempo escoou?
eram moedas e flores
e um hálito de pedras ...
— hoje a flauta doce foi buscada;
o amargo do vinho; a noite;
e uma barca de espelhos
que navega cegamente para guerra...
III
há um poeta rindo no portal da tua casa
que não sou eu mas o eu que te acompanha
e eu estar em ti é lembrar de mim
quando penso que és minha casa.
permaneço em sonho
enquanto tu me navegas,
e existir em ti é realizar os planos
de quando existires
saberes como sofrem os sonhos —
amor é mar
que sempre subexiste
e quando queremos navegar
a vela nos devora
e o vento é sempre triste.
IV - MANHÃ NA LUA
haverás, amada,
de recordar a hora em que éramos felizes:
há poesia no passado
mas não há tempo —
há a dor
a praia e a pedra
onde ancorar o dia
e acordar sobre o teu lado
sem saber
que o sonho é um círculo finito
que sem meios de tecer
tu fias
e colhes a noite
como um manto sobre os braços
uma nau descomunal
ou um verbo que cria.
V - PORTRAIT
sonhávamos tanto que éramos doces
e nosso último disfarce
foi tornarmo-nos amigos
sob a fé de toda balaustrada
de lustres e alaúdes lúgubres
que terminam
quando nua e com flores
cantas
e transbordas os açudes...
acordamos e corremos aos jornais
em busca de poemas
limpamos toda casa onde o sonho é moradia
o sonho que buscamos, o sonho que nos cria
apenas uma trégua
quando a guerra
é a única maneira de se conquistar
e a bandeira só por cada jogo se jogar
porque só é o cadafalso
e falso o laço
do ar.
VI - AUGEN
verde a luzidia forma que encontrares no poema
que verde é seu encanto
enquanto canto sua pena
que a vida nunca estabelece
rara, sem sua medida de tristeza.
talvez a fala
que emudece espaços
a ausência pressentida ou as horas
medirão o tempo da distância...
talvez o olhar
que umedece os passos
o brilho docemente agudo
das pérolas
o jogo
ou as conchas
serão em mim a tua proteção.
as mãos
como os limites de um deus
ou urna pomba absurdamente nua ou despetalada
sobre minha cabeça pousas
nesta sombra que enriquece a luz.
VII - SAL
quando esqueces o meu nome
é poesia a minha dor que se constrói...
— tanta tristeza em sabermos o que seríamos...
e se não fosse a poesia ? — o sonho da noite
é o medo do dia
e o teu sonho é um barco que irá chegar
e o seu vento a minha esperança
que também é sua praia.
vê esta pedra — sim, a que guarda sob o tempo
o pulso das vidas; —
ergue tua mão agora,
sorve o lampejo
que esqueci de esconder sob a pedra:
nesta praia só há um lugar onde o amor sobrevive,
e a fé e a fidelidade
caminham utopicamente
banhando os pés.
VIII
somos fundamente tristes quando amamos em segredo...
— o que buscamos em nossa lida?...
todas as ilhas sofrem de ser só
e sempre amar por último o penúltimo engano...
adulo duelos no ancoradouro que há em mim...
há mulheres debruçadas sobre a lua
e o tempo e o traço, se hão,
são partes da mão
e o poeta um pedaço
do espaço e do chão...
o sonho é apenas a espera a vida inteira...
num canto em mim todos os homens agonizam
e o deus e a voz
é o eu em nós...
ri, para que eu pense que o mundo acabou!...
teremos que cantar enquanto fundas
as avenidas foscas todas toscas fenecem,
jardins se amontoam sobre os muros
e crianças criam mundos...
canto enquanto sabes que podemos amar...
o amor é um costela que sangra...
o amor é um cortejo sobre o mar...
IX - JORNADA
haverá de nos suportar o tempo da lida,
tudo quanto de tristeza e alegria não cabem no poema —
o verso deve ser comedido
para não comprometer a irmandade
dos solitários poetas.
e haverá a força para não amar e
a tarde para recriar os sapatos — os pés
representam asseados a alma do poeta,
quando sujos, sua coragem e abnegação.
haverá todo tempo para construir o verso
limpar a casa e escrever
literatura —
haverá música e pêssegos
quando o espaço entre o chão e a alma
for um preenchimento apenas de coisas velhas
e com nós
for surdamente esquecido
entre as estações.
1 147
Ymah Théres
Acalanto
As cordas deste banjo,
tangê-las, uma a uma, num cantar de ninho
de pétalas tecido, rocejando a linho,
desatando em mornos braços o acalanto,
quisera.
O sopro de um arcanjo
no ar dormido, um ruflar tenuíssimo de asas,
macieza de penas - penas de meus cantos -
voejando em rodopios por ruas e campos,
pudera
ir velar-te onde estejas com teu riso claro
acendendo-me as noites de narciso e enfaro.
tangê-las, uma a uma, num cantar de ninho
de pétalas tecido, rocejando a linho,
desatando em mornos braços o acalanto,
quisera.
O sopro de um arcanjo
no ar dormido, um ruflar tenuíssimo de asas,
macieza de penas - penas de meus cantos -
voejando em rodopios por ruas e campos,
pudera
ir velar-te onde estejas com teu riso claro
acendendo-me as noites de narciso e enfaro.
913
Ymah Théres
Acalanto
As cordas deste banjo,
tangê-las, uma a uma, num cantar de ninho
de pétalas tecido, rocejando a linho,
desatando em mornos braços o acalanto,
quisera.
O sopro de um arcanjo
no ar dormido, um ruflar tenuíssimo de asas,
macieza de penas - penas de meus cantos -
voejando em rodopios por ruas e campos,
pudera
ir velar-te onde estejas com teu riso claro
acendendo-me as noites de narciso e enfaro.
tangê-las, uma a uma, num cantar de ninho
de pétalas tecido, rocejando a linho,
desatando em mornos braços o acalanto,
quisera.
O sopro de um arcanjo
no ar dormido, um ruflar tenuíssimo de asas,
macieza de penas - penas de meus cantos -
voejando em rodopios por ruas e campos,
pudera
ir velar-te onde estejas com teu riso claro
acendendo-me as noites de narciso e enfaro.
913
Ymah Théres
Estudos
I
Vosso o ventre, vossa a mesa,
vossa a escolha e o meu amor.
Vossos todos os perfumes
que vos dei - bandeja em flor.
Vosso o riso e vossa a hora
de meu gosto e meu penhor.
Vossas, neves que já tive,
vossos, beijos, meu senhor.
Que andarilhos sonhos gastos
vos visitam, de onde vou:
minha busca, meu silêncio,
meu olhar de solidão,
minha sede de água pura,
minha mão em vossa mão.
II
Escorre do meu ventre a lassidão do viver. (não foi ontem nem hoje: é de sempre o cansaço de estar ausente do rumo dos faróis). Escorre, como uma lava, e faz sulcos no rosto e nas mãos: migalhas mortas de uma fome velha, de brinquedos esfarinhados no fundo do baú. No entanto, como acender as lanternas, na noite soturna, que alimentem, de secreto abismo, rosas temporãs?
Vosso o ventre, vossa a mesa,
vossa a escolha e o meu amor.
Vossos todos os perfumes
que vos dei - bandeja em flor.
Vosso o riso e vossa a hora
de meu gosto e meu penhor.
Vossas, neves que já tive,
vossos, beijos, meu senhor.
Que andarilhos sonhos gastos
vos visitam, de onde vou:
minha busca, meu silêncio,
meu olhar de solidão,
minha sede de água pura,
minha mão em vossa mão.
II
Escorre do meu ventre a lassidão do viver. (não foi ontem nem hoje: é de sempre o cansaço de estar ausente do rumo dos faróis). Escorre, como uma lava, e faz sulcos no rosto e nas mãos: migalhas mortas de uma fome velha, de brinquedos esfarinhados no fundo do baú. No entanto, como acender as lanternas, na noite soturna, que alimentem, de secreto abismo, rosas temporãs?
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