Poemas neste tema
Outros
Pedro Homem de Mello
Revelação
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Na minha fronte, indômitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.
Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.
Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!
Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!
Na minha fronte, indômitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.
Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.
Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!
Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!
1 956
Paulo F. Cunha
Homem Terra
Nordestino é feito de terra ,
terra é feita de homem ,
todos da mesma matéria .
Se a terra seca o homem estiola ,
se a terra se molha o homem se afoga ,
se a terra se irriga o homem produz ,
( e se reproduz ).
Nordestino é feito de terra ,
terra é feita de homem ,
todos do mesmo pó ,
todos da mesma seca ,
todos do mesmo irrigar ,
a ponto de não se saber
se a terra colhe do homem ,
ou o homem colhe da terra .
Nordestino é feito de terra ,
terra é feita de homem .
Secam juntos, afogam juntos ,
germinam juntos .
E se colhem um ao outro
até que morrem , dois defuntos ,
a terra e a mortalha de couro.
terra é feita de homem ,
todos da mesma matéria .
Se a terra seca o homem estiola ,
se a terra se molha o homem se afoga ,
se a terra se irriga o homem produz ,
( e se reproduz ).
Nordestino é feito de terra ,
terra é feita de homem ,
todos do mesmo pó ,
todos da mesma seca ,
todos do mesmo irrigar ,
a ponto de não se saber
se a terra colhe do homem ,
ou o homem colhe da terra .
Nordestino é feito de terra ,
terra é feita de homem .
Secam juntos, afogam juntos ,
germinam juntos .
E se colhem um ao outro
até que morrem , dois defuntos ,
a terra e a mortalha de couro.
915
Paulo Silva Ribeiro
A Morte Como Vida
A Morte Como Vida
Estranho sentido a vida tem,
Estranho os caminhos da felicidade,
Estranho a busca incessante pelo poder,
Estranho a morte como vida,
Estranho viver sem sofrer...
Desconheço todos os sentidos
Que a vida pode ter
Pelo simples motivo de já tê-los
Abolidos...
Vejo sereno agora
O verdadeiro sentido
Já a muito esquecido,
Saudade não se pode mais sentir...
A morte dona de toda sorte
Que de Súbito nos leva tudo
Amores, dores, angústias
E que sem nos avisar
Vem nos buscar...
Estranho sentido a vida tem,
Estranho os caminhos da felicidade,
Estranho a busca incessante pelo poder,
Estranho a morte como vida,
Estranho viver sem sofrer...
Desconheço todos os sentidos
Que a vida pode ter
Pelo simples motivo de já tê-los
Abolidos...
Vejo sereno agora
O verdadeiro sentido
Já a muito esquecido,
Saudade não se pode mais sentir...
A morte dona de toda sorte
Que de Súbito nos leva tudo
Amores, dores, angústias
E que sem nos avisar
Vem nos buscar...
887
Delores Pires
Inverno
Tremendo de frio
o cãozinho enovelado
espia a paisagem.
Avançada em anos
a cabeça do velhinho
contando geadas.
o cãozinho enovelado
espia a paisagem.
Avançada em anos
a cabeça do velhinho
contando geadas.
1 059
Paulo F. Cunha
Ah!
Ah! A lembrança da moça
que me tirou o peso
da alma.
Ah , a lembrança da moça
que me soltou o coração
pôr um instante .
Ah , a lembrança da moça
que olhei e que me fez
homem
de novo
Ah , o instante ( horas , talvez)
que passou, ou me engano eu
quando penso
( e quero ? )
que pensam em mim .
que marcou
que ficou .
Ah , a impossibilidade do concreto
contra a extrema possibilidade
do momento
que virou passada fantasia
e que assim será lembrado
com minhas duas metades
e elas se encontram com as tuas
nas circunvoluções da nossa vida .
que me tirou o peso
da alma.
Ah , a lembrança da moça
que me soltou o coração
pôr um instante .
Ah , a lembrança da moça
que olhei e que me fez
homem
de novo
Ah , o instante ( horas , talvez)
que passou, ou me engano eu
quando penso
( e quero ? )
que pensam em mim .
que marcou
que ficou .
Ah , a impossibilidade do concreto
contra a extrema possibilidade
do momento
que virou passada fantasia
e que assim será lembrado
com minhas duas metades
e elas se encontram com as tuas
nas circunvoluções da nossa vida .
1 028
Pedro Paulo de Sena Madureira
Assim esqueço
Assim esqueço
e me renego.
Assim me abro
me aperto
e renasço ou desespero.
Assim me ergo
no cume deste lume
que não enxergo.
Assim me entrego
me prendo
reaprendo o que sonego.
Assim me transpasso
e integro o aço que me caça
com a brasa de sua acha.
Assim a hora e sua mora
assim do tempo os juros
que pago e não reclamo.
Assim — que não se apaga
— este fogo, cresce e lastra
o laivo túrgido
de um astro que me castra
e no chão fúlgido de minha queda
(urtiga que medra e me exaspera)
de era em era
de pedra em pedra
caído em meu mistério
assim de raiva
e sonho recomeço.
e me renego.
Assim me abro
me aperto
e renasço ou desespero.
Assim me ergo
no cume deste lume
que não enxergo.
Assim me entrego
me prendo
reaprendo o que sonego.
Assim me transpasso
e integro o aço que me caça
com a brasa de sua acha.
Assim a hora e sua mora
assim do tempo os juros
que pago e não reclamo.
Assim — que não se apaga
— este fogo, cresce e lastra
o laivo túrgido
de um astro que me castra
e no chão fúlgido de minha queda
(urtiga que medra e me exaspera)
de era em era
de pedra em pedra
caído em meu mistério
assim de raiva
e sonho recomeço.
919
Paulo F. Cunha
Te Quero
Te quero , te preciso .
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
869
Pereira da Silva
Impressão
Era tal meu desgosto nesse dia
Que o próprio coração desfalecia...
E então vi vindo a Morte a passo lento,
Vago, sutil, quase sem movimento.
Era uma virgem de cabelo louro
E manto azul, cheio de estrelas de ouro
E claridade fria e compungente
Como a luz do crepúsculo do Poente.
Vi-a chegar de olhar alheio a tudo,
Mas imóvel no meu, lívido e mudo.
E ou porque se enganasse no lugar
Ou me quisesse apenas avisar
Que a Vida é como um gozo de entremez,
Sorriu-se do meu susto e se desfez...
Que o próprio coração desfalecia...
E então vi vindo a Morte a passo lento,
Vago, sutil, quase sem movimento.
Era uma virgem de cabelo louro
E manto azul, cheio de estrelas de ouro
E claridade fria e compungente
Como a luz do crepúsculo do Poente.
Vi-a chegar de olhar alheio a tudo,
Mas imóvel no meu, lívido e mudo.
E ou porque se enganasse no lugar
Ou me quisesse apenas avisar
Que a Vida é como um gozo de entremez,
Sorriu-se do meu susto e se desfez...
819
Pereira da Silva
Impressão
Era tal meu desgosto nesse dia
Que o próprio coração desfalecia...
E então vi vindo a Morte a passo lento,
Vago, sutil, quase sem movimento.
Era uma virgem de cabelo louro
E manto azul, cheio de estrelas de ouro
E claridade fria e compungente
Como a luz do crepúsculo do Poente.
Vi-a chegar de olhar alheio a tudo,
Mas imóvel no meu, lívido e mudo.
E ou porque se enganasse no lugar
Ou me quisesse apenas avisar
Que a Vida é como um gozo de entremez,
Sorriu-se do meu susto e se desfez...
Que o próprio coração desfalecia...
E então vi vindo a Morte a passo lento,
Vago, sutil, quase sem movimento.
Era uma virgem de cabelo louro
E manto azul, cheio de estrelas de ouro
E claridade fria e compungente
Como a luz do crepúsculo do Poente.
Vi-a chegar de olhar alheio a tudo,
Mas imóvel no meu, lívido e mudo.
E ou porque se enganasse no lugar
Ou me quisesse apenas avisar
Que a Vida é como um gozo de entremez,
Sorriu-se do meu susto e se desfez...
819
Silvino Pirauá de Lima
História de Crispim e Raimundo
O caso que vou contar
No sertão aconteceu;
É a história de um conflito
Que entre dois homens se deu;
Um foi preso e processado,
O outro na luta morreu.
O primeiro se chamava
Crispim da Cunha Dourado,
Tinha muitos bons costumes
Era homem ponderado;
Como bom pai de família
Era então considerado.
O segundo se chamava
Raimundo Dias Valente,
Era homem viciado,
Cachaceiro e imprudente;
Não respeitava ninguém,
Tinha fama de insolente.
Vindo Crispim do roçado
Encontrou casualmente
O Raimundo que andava
A procura de aguardente;
Já um pouco pre-amar
Intimando de valente.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa,
Mandou Crispim segurar
No copo e beber primeiro
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Tal ataque não me faça;
Para eu virar este copo
Devo encarar a desgraça:
O homem alcoolizado
A qualquer perigo abraça.
Raimundo disse: - Crispim,
Pegou no copo virou!
Bebe por bem ou por mal
Visto que nele pegou,
Se não já lhe mostrarei
No punhal o quanto sou!
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não bebo aguardente;
Para virar este copo
Caio logo de repente;
Mas para satisfazê-lo
Bebo um golpinho somente.
Raimundo foi a Crispim
Pegou-o pela cintura;
Disse: ou você vira o copo
Ou eu dou-lhe a sepultura;
Ferida de meu punhal
Não tem remédio nem cura.
Vendo Crispim que morria
No punhal do tal Raimundo,
Com a foice que trazia
Lhe deu um golpe profundo
Que ele em poucos minutos
Já estava no outro mundo.
Vinha chegando um inspetor
Achou Raimundo no chão,
Prendeu logo ao Crispim
Sem lhe prestar atenção,
Dizendo: eu não admito
Crimes no meu quarteirão.
Seguiu o tal inspetor
Em busca do delegado,
Chegando na casa deste
Com Crispim preso e amarrado,
De chapéu na mão falou-lhe
Todo entusiasmado:
Ilustríssimo senhor,
Honradíssimo delegado,
Aqui está um criminoso
Que por mim foi capturado;
Matou um pai de família
Homem bem considerado.
Logo na cadeia pública
Foi Crispim encarcerado;
Depuseram as testemunhas,
Teve de ser processado,
Sem ser em nada atendido,
Foi logo pronunciado.
A pronúncia sustentando
O libelo oferecido,
Ficou fechado o processo
Sem Crispim ser atendido,
Só no Tribunal do Júri,
Podia ser decidido.
Havendo sessão do Júri,
Para Crispim ser julgado,
Pela forma do direito
Foi o Conselho formado;
O Juiz então perguntou-lhe
Se já tinha advogado.
Respondeu Crispim que tinha,
Visto lhe ser perguntado;
O Juiz disse p’ra ele:
- Diga lá o seu estado.
E se sabe por qual motivo
Vai agora ser julgado.
Tudo Crispim respondeu,
Com toda serenidade;
Falando com energia
Sem se arredar da Verdade;
Assim mostrando que tinha
Alguma dignidade.
Perguntou-lhe o Juiz se houve
Um motivo imperioso
Para ele matar Raimundo
Ficando assim criminoso,
Por ter cometido um crime
Tão medonho e horroroso?
- Que o matei, falo a verdade,
Não posso contradizer:
Fui agredido por ele
Sem poder me defender;
Em minha defesa própria,
Matei para não morrer!...
Nas declarações do réu,
O Juiz não achou excesso;
Ficou o Júri sabendo
Que ele era réu confesso;
O escrivão deu começo
A leitura do processo.
Depois da leitura finda
O tal processo seguiu
Para as mãos do Promotor;
Que sobre a mesa o abriu;
Tendo pedido a palavra,
A acusação proferiu:
- Senhores, tenho nas mãos
Um processo volumoso;
Vede o que diz o libelo
Contra este criminoso;
É um assassino confesso
Autor de um crime horroroso.
Senhores, o réu presente
Dominado de paixão,
Matou um pai de família,
Sem lhe assistir a razão:
No processo está provado
A sua mal intenção.
O réu matou a Raimundo
Por sua livre vontade,
Deixando a família dele
Na maior necessidade;
A mulher na viuvez
E os filhinhos na orfandade.
O réu assim procedendo
Mostrou ser muito malvado;
Do processo se colige
Que foi de caso pensado,
Que ele quis cometer
Um crime tão reprovado.
O Réu cometeu um crime
Em tudo repugnante,
Qualificado na Lei
Como delito agravante;
Em seu favor não existe
Nem um só atenuante.
A viúva com os filhos
Envoltos em negro véu
Estão sem ter um consolo
Com os olhos fitos no céu,
Pedindo justiça a Deus
E a condenação do Réu
Chorando todos lamentam
O ser amado perdido,
Os filhinhos por seu pai
A mulher por seu marido;
Estão pedindo justiça
Para o crime cometido.
Senhores, o Réu presente
É um monstro da natureza;
Matou o seu semelhante
Somente por malvadeza;
Quem mata sem ter razão,
Nem devia ter defesa.
Senhores, um crime tal,
Só o pratica um incréu,
Que não respeita a justiça
E nem deseja ir ao Céu;
Em nome da Lei eu peço
A condenação do Réu.
Como pede no libelo
No artigo destinado;
Cento e noventa e dois
Gráu máximo confirmado
Faça o conselho justiça
A este Réu acusado.
Terminada a acusação
Por parte do Promotor,
O processo foi entregue
Ao nobre defensor
Para fazer a defesa
Do Réu, com todo valor.
Então o advogado
Se levantou da cadeira,
Principiou a defesa
Por uma boa maneira;
Descrevendo claramente
A história verdadeira.
Meus senhores, eu lamento
Não ser bom advogado,
Para defender o Réu
E ter um bom resultado;
Fazendo ver as razões
Que tem o meu Querelado.
Com toda a minha franqueza,
Atenção a todos peço,
Para mostrar a verdade,
É em que mais interesso
Contra a ilegalidade
Que vejo neste processo.
O primeiro ponto é,
Sobre a causa do delito;
Não foi de caso pensado
Que se deu o tal conflito;
Foi um fato casual
No qual eu muito medito.
Contra meu constituinte
A justiça se tornou
Muito severa de mais;
Pela culpa que formou,
O que era mais necessário
Esquecido então ficou.
Vindo Crispim do roçado,
Sucedeu casualmente
Encontrar-se com Raimundo
Que vinha ligeiramente,
Nessa mesma ocasião
A procurar aguardente.
Como eram conhecidos,
Seguiram juntos então,
Crispim um mau pensamento
Não tinha no coração;
Raimundo, provavelmente,
Já vinha com má tenção.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa
E logo sem demorar
Deu a Crispim p’ra beber
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não costumo beber;
Para virar este copo
Saiba que não pode ser;
Apenas bebo um pouquinho
Para lhe satisfazer.
Raimundo lhe respondeu
De um modo desleal;
- Camarada o nosso encontro
Hoje tem que acabar mal:
Ou você bebe ou morre
Na ponta de meu punhal.
E tendo o punhal em punho
Pegou Crispim<
No sertão aconteceu;
É a história de um conflito
Que entre dois homens se deu;
Um foi preso e processado,
O outro na luta morreu.
O primeiro se chamava
Crispim da Cunha Dourado,
Tinha muitos bons costumes
Era homem ponderado;
Como bom pai de família
Era então considerado.
O segundo se chamava
Raimundo Dias Valente,
Era homem viciado,
Cachaceiro e imprudente;
Não respeitava ninguém,
Tinha fama de insolente.
Vindo Crispim do roçado
Encontrou casualmente
O Raimundo que andava
A procura de aguardente;
Já um pouco pre-amar
Intimando de valente.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa,
Mandou Crispim segurar
No copo e beber primeiro
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Tal ataque não me faça;
Para eu virar este copo
Devo encarar a desgraça:
O homem alcoolizado
A qualquer perigo abraça.
Raimundo disse: - Crispim,
Pegou no copo virou!
Bebe por bem ou por mal
Visto que nele pegou,
Se não já lhe mostrarei
No punhal o quanto sou!
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não bebo aguardente;
Para virar este copo
Caio logo de repente;
Mas para satisfazê-lo
Bebo um golpinho somente.
Raimundo foi a Crispim
Pegou-o pela cintura;
Disse: ou você vira o copo
Ou eu dou-lhe a sepultura;
Ferida de meu punhal
Não tem remédio nem cura.
Vendo Crispim que morria
No punhal do tal Raimundo,
Com a foice que trazia
Lhe deu um golpe profundo
Que ele em poucos minutos
Já estava no outro mundo.
Vinha chegando um inspetor
Achou Raimundo no chão,
Prendeu logo ao Crispim
Sem lhe prestar atenção,
Dizendo: eu não admito
Crimes no meu quarteirão.
Seguiu o tal inspetor
Em busca do delegado,
Chegando na casa deste
Com Crispim preso e amarrado,
De chapéu na mão falou-lhe
Todo entusiasmado:
Ilustríssimo senhor,
Honradíssimo delegado,
Aqui está um criminoso
Que por mim foi capturado;
Matou um pai de família
Homem bem considerado.
Logo na cadeia pública
Foi Crispim encarcerado;
Depuseram as testemunhas,
Teve de ser processado,
Sem ser em nada atendido,
Foi logo pronunciado.
A pronúncia sustentando
O libelo oferecido,
Ficou fechado o processo
Sem Crispim ser atendido,
Só no Tribunal do Júri,
Podia ser decidido.
Havendo sessão do Júri,
Para Crispim ser julgado,
Pela forma do direito
Foi o Conselho formado;
O Juiz então perguntou-lhe
Se já tinha advogado.
Respondeu Crispim que tinha,
Visto lhe ser perguntado;
O Juiz disse p’ra ele:
- Diga lá o seu estado.
E se sabe por qual motivo
Vai agora ser julgado.
Tudo Crispim respondeu,
Com toda serenidade;
Falando com energia
Sem se arredar da Verdade;
Assim mostrando que tinha
Alguma dignidade.
Perguntou-lhe o Juiz se houve
Um motivo imperioso
Para ele matar Raimundo
Ficando assim criminoso,
Por ter cometido um crime
Tão medonho e horroroso?
- Que o matei, falo a verdade,
Não posso contradizer:
Fui agredido por ele
Sem poder me defender;
Em minha defesa própria,
Matei para não morrer!...
Nas declarações do réu,
O Juiz não achou excesso;
Ficou o Júri sabendo
Que ele era réu confesso;
O escrivão deu começo
A leitura do processo.
Depois da leitura finda
O tal processo seguiu
Para as mãos do Promotor;
Que sobre a mesa o abriu;
Tendo pedido a palavra,
A acusação proferiu:
- Senhores, tenho nas mãos
Um processo volumoso;
Vede o que diz o libelo
Contra este criminoso;
É um assassino confesso
Autor de um crime horroroso.
Senhores, o réu presente
Dominado de paixão,
Matou um pai de família,
Sem lhe assistir a razão:
No processo está provado
A sua mal intenção.
O réu matou a Raimundo
Por sua livre vontade,
Deixando a família dele
Na maior necessidade;
A mulher na viuvez
E os filhinhos na orfandade.
O réu assim procedendo
Mostrou ser muito malvado;
Do processo se colige
Que foi de caso pensado,
Que ele quis cometer
Um crime tão reprovado.
O Réu cometeu um crime
Em tudo repugnante,
Qualificado na Lei
Como delito agravante;
Em seu favor não existe
Nem um só atenuante.
A viúva com os filhos
Envoltos em negro véu
Estão sem ter um consolo
Com os olhos fitos no céu,
Pedindo justiça a Deus
E a condenação do Réu
Chorando todos lamentam
O ser amado perdido,
Os filhinhos por seu pai
A mulher por seu marido;
Estão pedindo justiça
Para o crime cometido.
Senhores, o Réu presente
É um monstro da natureza;
Matou o seu semelhante
Somente por malvadeza;
Quem mata sem ter razão,
Nem devia ter defesa.
Senhores, um crime tal,
Só o pratica um incréu,
Que não respeita a justiça
E nem deseja ir ao Céu;
Em nome da Lei eu peço
A condenação do Réu.
Como pede no libelo
No artigo destinado;
Cento e noventa e dois
Gráu máximo confirmado
Faça o conselho justiça
A este Réu acusado.
Terminada a acusação
Por parte do Promotor,
O processo foi entregue
Ao nobre defensor
Para fazer a defesa
Do Réu, com todo valor.
Então o advogado
Se levantou da cadeira,
Principiou a defesa
Por uma boa maneira;
Descrevendo claramente
A história verdadeira.
Meus senhores, eu lamento
Não ser bom advogado,
Para defender o Réu
E ter um bom resultado;
Fazendo ver as razões
Que tem o meu Querelado.
Com toda a minha franqueza,
Atenção a todos peço,
Para mostrar a verdade,
É em que mais interesso
Contra a ilegalidade
Que vejo neste processo.
O primeiro ponto é,
Sobre a causa do delito;
Não foi de caso pensado
Que se deu o tal conflito;
Foi um fato casual
No qual eu muito medito.
Contra meu constituinte
A justiça se tornou
Muito severa de mais;
Pela culpa que formou,
O que era mais necessário
Esquecido então ficou.
Vindo Crispim do roçado,
Sucedeu casualmente
Encontrar-se com Raimundo
Que vinha ligeiramente,
Nessa mesma ocasião
A procurar aguardente.
Como eram conhecidos,
Seguiram juntos então,
Crispim um mau pensamento
Não tinha no coração;
Raimundo, provavelmente,
Já vinha com má tenção.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa
E logo sem demorar
Deu a Crispim p’ra beber
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não costumo beber;
Para virar este copo
Saiba que não pode ser;
Apenas bebo um pouquinho
Para lhe satisfazer.
Raimundo lhe respondeu
De um modo desleal;
- Camarada o nosso encontro
Hoje tem que acabar mal:
Ou você bebe ou morre
Na ponta de meu punhal.
E tendo o punhal em punho
Pegou Crispim<
1 450
Paula Nei
Tu és Minha
Tu és minha, afinal. Enfim te vejo
Sobre meus braços lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face descorada
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.
Vibra em minha alma o lúbrico desejo
De assim gozar-te, a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo.
Quando, entretanto, sinto que teu seio
Palpita, delirante, em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,
Eu digo dentro de mim: — "Se eu te manchara,
Se eu te manchara, flor, eu não te amara,
Ó branca espuma da beleza humana!"
Sobre meus braços lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face descorada
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.
Vibra em minha alma o lúbrico desejo
De assim gozar-te, a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo.
Quando, entretanto, sinto que teu seio
Palpita, delirante, em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,
Eu digo dentro de mim: — "Se eu te manchara,
Se eu te manchara, flor, eu não te amara,
Ó branca espuma da beleza humana!"
970
Paula Nei
Tu és Minha
Tu és minha, afinal. Enfim te vejo
Sobre meus braços lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face descorada
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.
Vibra em minha alma o lúbrico desejo
De assim gozar-te, a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo.
Quando, entretanto, sinto que teu seio
Palpita, delirante, em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,
Eu digo dentro de mim: — "Se eu te manchara,
Se eu te manchara, flor, eu não te amara,
Ó branca espuma da beleza humana!"
Sobre meus braços lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face descorada
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.
Vibra em minha alma o lúbrico desejo
De assim gozar-te, a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo.
Quando, entretanto, sinto que teu seio
Palpita, delirante, em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,
Eu digo dentro de mim: — "Se eu te manchara,
Se eu te manchara, flor, eu não te amara,
Ó branca espuma da beleza humana!"
970
José Maria de Barros Pinho
Ode ao Amor do Mar
Gosto do mar
pelo absurdo
sensual
de suas sereias
pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis
pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas
gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores
gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas
gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.
pelo absurdo
sensual
de suas sereias
pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis
pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas
gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores
gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas
gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.
953
José Maria de Barros Pinho
Ode ao Amor do Mar
Gosto do mar
pelo absurdo
sensual
de suas sereias
pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis
pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas
gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores
gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas
gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.
pelo absurdo
sensual
de suas sereias
pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis
pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas
gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores
gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas
gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.
953
Paulo Silva Ribeiro
O Rio
O Rio
O rio que nasce
Em minha alma
E cruza minha terra,
Que irriga as lavouras
A sua margem,
Que traz alimento e vida
A sua gente...
O meu rio
Não é grandioso
Simplesmente reflete
Vida em cada ponto dele,
Se inunda pastagens, pantanais,
É porque revigora a vida...
O meu rio
Tem peixe pra todo gosto
Tem pacú, pintado, dourado
Tem até lenda de pescador mal-assombrado,
Que por vezes
Pesca em sua canoa
Em noite de lua cheia...
Já te direi
O nome de meu rio,
O teu nome tem seis letras,
Mas poderia ter mil,
Para poder te dar o seu exato valor,
Nestas tardes de abril
Em que fico a te admirar,
Eu te saúdo
Meu rio Cuiabá...
O rio que nasce
Em minha alma
E cruza minha terra,
Que irriga as lavouras
A sua margem,
Que traz alimento e vida
A sua gente...
O meu rio
Não é grandioso
Simplesmente reflete
Vida em cada ponto dele,
Se inunda pastagens, pantanais,
É porque revigora a vida...
O meu rio
Tem peixe pra todo gosto
Tem pacú, pintado, dourado
Tem até lenda de pescador mal-assombrado,
Que por vezes
Pesca em sua canoa
Em noite de lua cheia...
Já te direi
O nome de meu rio,
O teu nome tem seis letras,
Mas poderia ter mil,
Para poder te dar o seu exato valor,
Nestas tardes de abril
Em que fico a te admirar,
Eu te saúdo
Meu rio Cuiabá...
978
Paulo Silva Ribeiro
O Rio
O Rio
O rio que nasce
Em minha alma
E cruza minha terra,
Que irriga as lavouras
A sua margem,
Que traz alimento e vida
A sua gente...
O meu rio
Não é grandioso
Simplesmente reflete
Vida em cada ponto dele,
Se inunda pastagens, pantanais,
É porque revigora a vida...
O meu rio
Tem peixe pra todo gosto
Tem pacú, pintado, dourado
Tem até lenda de pescador mal-assombrado,
Que por vezes
Pesca em sua canoa
Em noite de lua cheia...
Já te direi
O nome de meu rio,
O teu nome tem seis letras,
Mas poderia ter mil,
Para poder te dar o seu exato valor,
Nestas tardes de abril
Em que fico a te admirar,
Eu te saúdo
Meu rio Cuiabá...
O rio que nasce
Em minha alma
E cruza minha terra,
Que irriga as lavouras
A sua margem,
Que traz alimento e vida
A sua gente...
O meu rio
Não é grandioso
Simplesmente reflete
Vida em cada ponto dele,
Se inunda pastagens, pantanais,
É porque revigora a vida...
O meu rio
Tem peixe pra todo gosto
Tem pacú, pintado, dourado
Tem até lenda de pescador mal-assombrado,
Que por vezes
Pesca em sua canoa
Em noite de lua cheia...
Já te direi
O nome de meu rio,
O teu nome tem seis letras,
Mas poderia ter mil,
Para poder te dar o seu exato valor,
Nestas tardes de abril
Em que fico a te admirar,
Eu te saúdo
Meu rio Cuiabá...
978
Paulo F. Cunha
O Múltiplo Uno
Eu que , como todos , sou feito
de matéria igual às estrelas
e às pedras , não posso
ser o mesmo , nunca !
Sou dual triplo às vezes uno .
Cristalizo-me em matéria ,
,ou vibro em ondas infinitas
adequando-me às condições
e aos infinitos ambientes .
Se com uma vibro e com
a outra me torno sólido ,
não é culpa minha , mas
das infinitas probabilidades
que ser pedra e ser estrela
me conferem .
Vagando na verdade da incerteza
não me oponho- por não poder-
à inexorável submissão à natureza .
E é dentro dela que
me realizo e penso que sendo
uno dual ou triplo ,
jamais perco a essência mesma
de ser eu.
de matéria igual às estrelas
e às pedras , não posso
ser o mesmo , nunca !
Sou dual triplo às vezes uno .
Cristalizo-me em matéria ,
,ou vibro em ondas infinitas
adequando-me às condições
e aos infinitos ambientes .
Se com uma vibro e com
a outra me torno sólido ,
não é culpa minha , mas
das infinitas probabilidades
que ser pedra e ser estrela
me conferem .
Vagando na verdade da incerteza
não me oponho- por não poder-
à inexorável submissão à natureza .
E é dentro dela que
me realizo e penso que sendo
uno dual ou triplo ,
jamais perco a essência mesma
de ser eu.
928
Paulo Lopes da Silva
Haicai
Metamorfose
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
Apelo à natureza
Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
Apelo à natureza
Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!
1 377
Pedro Paulo de Sena Madureira
Clarice Lispector
1
Sou a barata velha que se arrasta pelo chão
na penumbra de uma casa abandonada.
Sou a aranha gélida aflita
gema negra imóvel na teia trêmula
Devastada pelo inverno.
Sou o morcego seco exangue
pendurado no sótão do esquecimento
— inferno.
Sou o rato correndo pelas paredes
roendo sua própria sombra.
Sou o caranguejo desde sempre igual a si mesmo
tímido e horrível
envergonhado de sua fome e esquiva crueldade.
Sou o escorpião entre pedras frias
único assassino do escorpião.
2
Sou o bicho qualquer bicho
que de repente ergueu o dorso
levantou os braços
espalmou as mãos
descobriu o rosto
desvendou a lágrima
aflorou o riso
mordeu o pão
saciou o desejo
afagou o ódio
devastou o corpo
bicho bicho de si
que nunca adiou
a morte do bicho
— escravo da treva
verdugo do amor.
3
Sou o deus
sou o anjo
sou a sombra do deus
a ferida no vôo do anjo
o homem
4
Sou
a gota de cristal
triturada na boca do tempo
intacta do poema
sou.
Sou a barata velha que se arrasta pelo chão
na penumbra de uma casa abandonada.
Sou a aranha gélida aflita
gema negra imóvel na teia trêmula
Devastada pelo inverno.
Sou o morcego seco exangue
pendurado no sótão do esquecimento
— inferno.
Sou o rato correndo pelas paredes
roendo sua própria sombra.
Sou o caranguejo desde sempre igual a si mesmo
tímido e horrível
envergonhado de sua fome e esquiva crueldade.
Sou o escorpião entre pedras frias
único assassino do escorpião.
2
Sou o bicho qualquer bicho
que de repente ergueu o dorso
levantou os braços
espalmou as mãos
descobriu o rosto
desvendou a lágrima
aflorou o riso
mordeu o pão
saciou o desejo
afagou o ódio
devastou o corpo
bicho bicho de si
que nunca adiou
a morte do bicho
— escravo da treva
verdugo do amor.
3
Sou o deus
sou o anjo
sou a sombra do deus
a ferida no vôo do anjo
o homem
4
Sou
a gota de cristal
triturada na boca do tempo
intacta do poema
sou.
1 030
Paulo F. Cunha
Duplo
Poderia dizer que te amo
porque sofro.
Mas não , não sofro , tenho raiva.
Raiva de ti , a quem amo ?
E amorraiva ou raivamor ?
Chego a conclusão insofismável
que te amo porque tenho raiva
e , no momento em que te amo
tenho vontade de te odiar
e , no momento em que te odeio
morro de vontade de te amar
Sou duplo , amo e odeio a ti
porque sofro.
Mas não , não sofro , tenho raiva.
Raiva de ti , a quem amo ?
E amorraiva ou raivamor ?
Chego a conclusão insofismável
que te amo porque tenho raiva
e , no momento em que te amo
tenho vontade de te odiar
e , no momento em que te odeio
morro de vontade de te amar
Sou duplo , amo e odeio a ti
1 054
Paulo F. Cunha
Solidão
Eu me examino na solidão ,
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
782
Pedro Magussi
Anjo Meu
Anjo Meu
A tua imagem esvanecida
Não está no tempo perdida
Também , não foi esquecida.
Jamais será por mim apagada,
Pois está bem guardada
No fundo do meu coração.
A tua presença , eu sentia
Quando via,
Crescendo dia a dia
O ventre de sua mãe .
Você, foi tão esperada,
Que contava a tua chegada
Nos dedos de minha mão.
Mas, quis o destino, num dia
De azar ou de má sorte
Desfazer os sonhos meus,
Pois Deus , dono da vida e da morte
Fechou os olhos teus.
Foi então que o dia tão esperado
Se tornou desesperado
De repente , tão amargo
Que não de para esquecer.
Mas hoje , quando eu olho pro céu eu sei
Que deus, diante de sua inocência,
Vendo a tua beleza,
Fez de ti um anjo seu.
Só ai eu me consolo,
Pois se na terra, jaz no solo
És no céu, também
Um anjo meu.
A tua imagem esvanecida
Não está no tempo perdida
Também , não foi esquecida.
Jamais será por mim apagada,
Pois está bem guardada
No fundo do meu coração.
A tua presença , eu sentia
Quando via,
Crescendo dia a dia
O ventre de sua mãe .
Você, foi tão esperada,
Que contava a tua chegada
Nos dedos de minha mão.
Mas, quis o destino, num dia
De azar ou de má sorte
Desfazer os sonhos meus,
Pois Deus , dono da vida e da morte
Fechou os olhos teus.
Foi então que o dia tão esperado
Se tornou desesperado
De repente , tão amargo
Que não de para esquecer.
Mas hoje , quando eu olho pro céu eu sei
Que deus, diante de sua inocência,
Vendo a tua beleza,
Fez de ti um anjo seu.
Só ai eu me consolo,
Pois se na terra, jaz no solo
És no céu, também
Um anjo meu.
940
Perce Polegatto
Todas as Sombras
Não me entendas teu amante suicida
que eu nem mesmo escreverei de nosso amor.
não me abraces esperando que eu te ame,
pois tudo em nós não passa de conflito
e há enigmas além de teu segredo
que chegam de mansinho e me acorrentam.
não, não me tragas mais poesia nos teus olhos!
há ventos estranhos, resíduos vivos,
há um desperdício inútil de sangue nas fronteiras
e hoje eu tenho que morrer,
morrer um pouco.
há sarcófagos ocultos onde ainda repousam princesas,
há terríveis profecias trazendo devastações,
há livros enormes (dentro deles os heróis se sacrificam),
há astrônomos, soldados e palhaços,
há um circo na cidade.
vagam fantasmas de incerto destino,
há névoa no ar.
o pesadelo persegue as pessoas.
mulheres soluçam, sozinhas de sexo.
a fome devora as aldeias.
em outras galáxias, povos inteiros sucumbem
— morrem civilizações e outras nascem
ao tempo em que sonho.
há pontes sombrias
e rios infinitos murmurando um pranto lamacento.
há muralhas, cordilheiras, guerrilheiros,
há missionários perdidos na selva para sempre.
há um velho solitário que conhece os segredos do inverno
e um gênio no fundo de um bar, esquecido.
caem dinastias para sempre,
criam-se potências e tiranos sanguinários,
morrem bravos e covardes por amor,
séculos correm...
há homens cavando uma mina distante,
há fósseis que nos lembram os dilúvios fabulosos
e algas oceânicas em lamas primitivas.
não esperes mais de mim que meu tormento.
há muito me perdi nas águas cristalinas dos teus olhos,
embora nosso beijo no passado
fosse menos violento que as próprias tempestades do universo
em recentes espirais de estrelas jovens.
que eu nem mesmo escreverei de nosso amor.
não me abraces esperando que eu te ame,
pois tudo em nós não passa de conflito
e há enigmas além de teu segredo
que chegam de mansinho e me acorrentam.
não, não me tragas mais poesia nos teus olhos!
há ventos estranhos, resíduos vivos,
há um desperdício inútil de sangue nas fronteiras
e hoje eu tenho que morrer,
morrer um pouco.
há sarcófagos ocultos onde ainda repousam princesas,
há terríveis profecias trazendo devastações,
há livros enormes (dentro deles os heróis se sacrificam),
há astrônomos, soldados e palhaços,
há um circo na cidade.
vagam fantasmas de incerto destino,
há névoa no ar.
o pesadelo persegue as pessoas.
mulheres soluçam, sozinhas de sexo.
a fome devora as aldeias.
em outras galáxias, povos inteiros sucumbem
— morrem civilizações e outras nascem
ao tempo em que sonho.
há pontes sombrias
e rios infinitos murmurando um pranto lamacento.
há muralhas, cordilheiras, guerrilheiros,
há missionários perdidos na selva para sempre.
há um velho solitário que conhece os segredos do inverno
e um gênio no fundo de um bar, esquecido.
caem dinastias para sempre,
criam-se potências e tiranos sanguinários,
morrem bravos e covardes por amor,
séculos correm...
há homens cavando uma mina distante,
há fósseis que nos lembram os dilúvios fabulosos
e algas oceânicas em lamas primitivas.
não esperes mais de mim que meu tormento.
há muito me perdi nas águas cristalinas dos teus olhos,
embora nosso beijo no passado
fosse menos violento que as próprias tempestades do universo
em recentes espirais de estrelas jovens.
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