Poemas neste tema
Outros
Jaumir Valença da Silveira
Da Natureza Dos Anjos
Na casa, o coração era a lareira
e perto, eu descansava os pés gelados.
Não pude achar lembrança mais acesa:
lareira e pés. Sorri - fechava os olhos.
A vista curta de visão extensa - fogo;
a visão curta da vida extensa - negro.
As pálpebras contidas soluçavam.
Lá fora o vento frio uivava assombro.
Os olhos refletiam as labaredas,
as lágrimas ardiam manchas negras.
O fogo era maior fora de mim...
me lembro muito bem que há tanto fora.
Um dia foste parte do brinquedo.
É mesmo séria a história sobre os anjos?
Não posso dormir mesmo sem camisa?
O fogo me guardava - era preciso.
E tinha duas sombras o tapete.
Que voz ouvi atento, e fiquei quieto.
Que as asas não comportam ser tão leve,
os anjos não têm corpo e nem têm forma:
Que quando neste mundo quem precisa
encontra amparo e afeto nos teus ombros
e só por isto torna-te alegria
e a alma é como um fogo que não queima,
um anjo tomou conta do teu corpo
e fez pousada. E dele são teus atos.
Mas anjos não têm asas, é verdade,
portanto não se pode haver quem tolha.
E vai-se embora em busca de outro vivo.
(Mas dizem que, não raro, ele demora
o tempo que demora a vida inteira;
a etérea substância se confina).
e perto, eu descansava os pés gelados.
Não pude achar lembrança mais acesa:
lareira e pés. Sorri - fechava os olhos.
A vista curta de visão extensa - fogo;
a visão curta da vida extensa - negro.
As pálpebras contidas soluçavam.
Lá fora o vento frio uivava assombro.
Os olhos refletiam as labaredas,
as lágrimas ardiam manchas negras.
O fogo era maior fora de mim...
me lembro muito bem que há tanto fora.
Um dia foste parte do brinquedo.
É mesmo séria a história sobre os anjos?
Não posso dormir mesmo sem camisa?
O fogo me guardava - era preciso.
E tinha duas sombras o tapete.
Que voz ouvi atento, e fiquei quieto.
Que as asas não comportam ser tão leve,
os anjos não têm corpo e nem têm forma:
Que quando neste mundo quem precisa
encontra amparo e afeto nos teus ombros
e só por isto torna-te alegria
e a alma é como um fogo que não queima,
um anjo tomou conta do teu corpo
e fez pousada. E dele são teus atos.
Mas anjos não têm asas, é verdade,
portanto não se pode haver quem tolha.
E vai-se embora em busca de outro vivo.
(Mas dizem que, não raro, ele demora
o tempo que demora a vida inteira;
a etérea substância se confina).
995
Raimundo Bento Sotero
Tapera
Tornei à casa onde morei um dia
E, no espanto mortal de quem se corta,
Eu observava aquela casa torta,
Sem um traço que fosse da alegria.
Ua ventura, meu Deus, não existia.
Só os fantasmas no vão de cada porta,
Em cada canto uma lembrança morta.
Naquela casa nada mais havia!
Cada buraco aberto na parede
Pelo tempo feroz, cruel, adrede,
Semelhava-se a um meu antepassado.
Todos eles me olhavam gravemente,
Pois sabiam que o tempo, indiferente,
Esculpia também o meu passado.
E, no espanto mortal de quem se corta,
Eu observava aquela casa torta,
Sem um traço que fosse da alegria.
Ua ventura, meu Deus, não existia.
Só os fantasmas no vão de cada porta,
Em cada canto uma lembrança morta.
Naquela casa nada mais havia!
Cada buraco aberto na parede
Pelo tempo feroz, cruel, adrede,
Semelhava-se a um meu antepassado.
Todos eles me olhavam gravemente,
Pois sabiam que o tempo, indiferente,
Esculpia também o meu passado.
1 043
Albano Dias Martins
Alegoria
Segunda
De poetas
e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
Dizias ontem
que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
E tudo permanece.
E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
in:Paralelo
Ao Vento(1979)
De poetas
e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
Dizias ontem
que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
E tudo permanece.
E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
in:Paralelo
Ao Vento(1979)
1 156
Albano Dias Martins
Alegoria
Segunda
De poetas
e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
Dizias ontem
que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
E tudo permanece.
E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
in:Paralelo
Ao Vento(1979)
De poetas
e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
Dizias ontem
que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
E tudo permanece.
E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
in:Paralelo
Ao Vento(1979)
1 156
António Gancho
Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 574
António Gancho
Tu és mortal
Tu és mortal meu filho
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
1 464
António Franco Alexandre
caminha pelo sangue,na pele
rugosa do amanhecer,
a tão pequena tosse do outro
lado das palavras:como se
se dividissem os sentidos,
a visão,o tacto animal,
o veneno riscado,arrancado
às paredes da luz,
e sobre o flanco abrisse
uma doença uma razão
meticulosa de existir,
um secreta ausência perdoada.
de A Pequena Face
a tão pequena tosse do outro
lado das palavras:como se
se dividissem os sentidos,
a visão,o tacto animal,
o veneno riscado,arrancado
às paredes da luz,
e sobre o flanco abrisse
uma doença uma razão
meticulosa de existir,
um secreta ausência perdoada.
de A Pequena Face
1 385
Amélia Rodrigues
Lembranças
Queria morrer
Em seus braços
Com o seu suor escorrendo
Pelo meu corpo...
Queria morrer
Ao seu lado
Com a sua vida animando
Os meus últimos suspiros...
Queria morrer
Amando
Pois assim não viveria
À espera da sua volta,
Sonhando com com o seu amor!
Queria morrer
Com a lembrança
Para não buscá-lo jamais!
Queria morrer
Enrodilhada
Em suas pernas,
Em seus braços,
E então não sofreria mais
Essa falta
Que você me faz.
Queria morrer
Feliz
E abandonar essa vida vazia...
Queria morrer
Assim
Já que não posso viver
Com você!
Em seus braços
Com o seu suor escorrendo
Pelo meu corpo...
Queria morrer
Ao seu lado
Com a sua vida animando
Os meus últimos suspiros...
Queria morrer
Amando
Pois assim não viveria
À espera da sua volta,
Sonhando com com o seu amor!
Queria morrer
Com a lembrança
Para não buscá-lo jamais!
Queria morrer
Enrodilhada
Em suas pernas,
Em seus braços,
E então não sofreria mais
Essa falta
Que você me faz.
Queria morrer
Feliz
E abandonar essa vida vazia...
Queria morrer
Assim
Já que não posso viver
Com você!
1 851
Daniel Faria
Deve ser o último tempo
Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 020
Daniel Faria
Deve ser o último tempo
Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 020
Daniel Faria
Como doem as árvores
Como doem as árvores
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 841
Carlos de Oliveira
Estalactite
IV
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
2 787
Carlos de Oliveira
Estalactite
IV
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
2 787
Carlos de Oliveira
Estalactite
IV
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
VI
Algures
o poema sonha
o arquétipo
do voo
inutilmente
porque repete
apenas
o signo, o desenho
do Outono
aéreo
onde se perde a asa
quando vier
o instante
de voar
VIII
Caem
do céu calcário,
acordam flores
milénios depois,
rolam de verso
em verso
fechadas
como gotas,
e ouve-se
ao fim da página
um murmúrio
orvalhado.
de Micropaisagem
2 787
Albano Dias Martins
Folheamos
agora dicionários
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.
in:Uma colina
para os lábios(1993)
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.
in:Uma colina
para os lábios(1993)
1 164
Carlos de Oliveira
Edgar Allan Poe
O inverno em Boston foi breve.Ele bebia.Sílabas
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
1 647
Carlos de Oliveira
Edgar Allan Poe
O inverno em Boston foi breve.Ele bebia.Sílabas
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
1 647
Albano Dias Martins
Concitas para
os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
1 147
Albano Dias Martins
Espaço
disponível
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
1 225
Albano Dias Martins
Espaço
disponível
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
1 225
Cirstina Areias
A Mulher e a Lua
A lua está cheia esta noite
Absoluta ela
Me enche, clareia, consome
Meus poros suam o luar cheio
Molho lençóis
Ouço músicas mágicas
E tenho em minha cama mais que a mim
Gozo amores arqueados
Memórias em transe
Incêndio
Olhos vadios
E a lua algema a mim e a ele
E ilumina, nele, meu desvario
Ele não sabe
Ele não sabe que dentro desta mesma noite
De luz cheia, o meu desejo
Galopa.
Absoluta ela
Me enche, clareia, consome
Meus poros suam o luar cheio
Molho lençóis
Ouço músicas mágicas
E tenho em minha cama mais que a mim
Gozo amores arqueados
Memórias em transe
Incêndio
Olhos vadios
E a lua algema a mim e a ele
E ilumina, nele, meu desvario
Ele não sabe
Ele não sabe que dentro desta mesma noite
De luz cheia, o meu desejo
Galopa.
1 153
António Osório
Não é uma coisa só,
Não é uma coisa só,
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
1 274
Cirstina Areias
Dispersão
Je me sens eparpillée travers les siècles...
Eu me sinto espalhada pelos séculos...
Há pedaços de mim na Grécia Antiga,
Há pedaços de mim na imensidão,
Meteoros de mim me ultrapassam,
Estou além e estou aquém
Sem rumo eu sou.
Não é meu o meu sonho, minha tristeza,
O meu verso cativo,
Alguém levou
O poeta de ontem e de sempre
Violou minha alma,
Me roubou.
Não pertence a mim o sentimento
A palavra me escapa,
O sangue esvai
Eu não vivo,
Eu existo nas estrelas
Dos que foram, dos que estão,
Dos que virão.
Demócritos, Pessoas, Sades,
Não nascidos,
Carrascos meus, ladrões
Nesta enlouquecida festa
Eu me entrego
Vadia, sem pudor
Pelas bocas ancestrais dos que hão de vir...
Não sou eu e não há Tempo e não há lei
Eu me empresto,
Eu me dou,
Eu me concedo...
Eu me deixo perdida em suas mãos,
Eu me deito amorosa entre seus versos!
E, por mais que eu me busque, que eu me olhe,
É poeira o que eu vejo, é dispersão...
Eu me sinto espalhada pelos séculos...
Há pedaços de mim na Grécia Antiga,
Há pedaços de mim na imensidão,
Meteoros de mim me ultrapassam,
Estou além e estou aquém
Sem rumo eu sou.
Não é meu o meu sonho, minha tristeza,
O meu verso cativo,
Alguém levou
O poeta de ontem e de sempre
Violou minha alma,
Me roubou.
Não pertence a mim o sentimento
A palavra me escapa,
O sangue esvai
Eu não vivo,
Eu existo nas estrelas
Dos que foram, dos que estão,
Dos que virão.
Demócritos, Pessoas, Sades,
Não nascidos,
Carrascos meus, ladrões
Nesta enlouquecida festa
Eu me entrego
Vadia, sem pudor
Pelas bocas ancestrais dos que hão de vir...
Não sou eu e não há Tempo e não há lei
Eu me empresto,
Eu me dou,
Eu me concedo...
Eu me deixo perdida em suas mãos,
Eu me deito amorosa entre seus versos!
E, por mais que eu me busque, que eu me olhe,
É poeira o que eu vejo, é dispersão...
878
Cirstina Areias
A Palavra
Para Carlos Drummond de Andrade
Os meus olhos devoram a palavra que tua boca pronunciou,
O meu pensamento absorve o teu
Emoção flui do teu corpo ao meu,
Do meu tempo ao teu.
Ler teu poema é realizar um ato de amor mágico, cósmico...
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E escarneces da minha agonia quando exibes, assim, à minha revelia, à exaustão,
A expressão lapidar de minha particular tragédia...
É teu espírito dentro de mim
Usurpando e definindo-me com precisão de ourives,
Travestindo o sentimento comum em fina literatura...
Tu, eu a bruxa e essa dança gêmea, incestuosa e louca.
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E acusas, com genialidade o sentimento que eu entalo na garganta.
Pasmo, vexada, ouvindo que gargalhas do Além,
Quando vês, dentro do meu cristalino choro,
O desespero de que nos teríamos amado...
Os meus olhos devoram a palavra que tua boca pronunciou,
O meu pensamento absorve o teu
Emoção flui do teu corpo ao meu,
Do meu tempo ao teu.
Ler teu poema é realizar um ato de amor mágico, cósmico...
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E escarneces da minha agonia quando exibes, assim, à minha revelia, à exaustão,
A expressão lapidar de minha particular tragédia...
É teu espírito dentro de mim
Usurpando e definindo-me com precisão de ourives,
Travestindo o sentimento comum em fina literatura...
Tu, eu a bruxa e essa dança gêmea, incestuosa e louca.
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E acusas, com genialidade o sentimento que eu entalo na garganta.
Pasmo, vexada, ouvindo que gargalhas do Além,
Quando vês, dentro do meu cristalino choro,
O desespero de que nos teríamos amado...
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