Poemas neste tema
Arte
Jonas da Silva
O Mestre
Bato um dia, cansado, à porta da oficina,
No Pont-Vieux, em Florença, uma tarde de Maio:
Cinzelando, escandindo uma obra ou um ensaio
Vi B. Lopes, Celini e Bilac e Bartrina.
Havia em torno a unção da Capela Sixtina.
Cruz e Souza, orgulhoso, olhou-me de soslaio;
Vi Cervantes, cantor do berço de Pelayo,
Victor Hugo — o albatroz, o condor, a águia alpina.
Vi Dante, que desceu do inferno e a funda gorja
E os revéis encontrou nas fogueiras terríveis...
Castro Alves temperava uma espada na forja.
Antero de Quental dialogava com a Glória...
Só B. Lopes me ouviu, dos deuses impassíveis,
— O Mestre dos Brasões, de eviterna memória!
No Pont-Vieux, em Florença, uma tarde de Maio:
Cinzelando, escandindo uma obra ou um ensaio
Vi B. Lopes, Celini e Bilac e Bartrina.
Havia em torno a unção da Capela Sixtina.
Cruz e Souza, orgulhoso, olhou-me de soslaio;
Vi Cervantes, cantor do berço de Pelayo,
Victor Hugo — o albatroz, o condor, a águia alpina.
Vi Dante, que desceu do inferno e a funda gorja
E os revéis encontrou nas fogueiras terríveis...
Castro Alves temperava uma espada na forja.
Antero de Quental dialogava com a Glória...
Só B. Lopes me ouviu, dos deuses impassíveis,
— O Mestre dos Brasões, de eviterna memória!
948
Francisco Tribuzi
O Museu e a Ponte
Lá dentro guardam-se histórias...
Aqui fora a ponte guarda em segredo
os vultos que adentraram as glórias
e as memórias dos gestos sem medo.
De cada ângulo vista
como que a jorrar passado
a ponte em si despista
o conteúdo sonhado.
E o que ela inspira:
estética e formusura
traduz o belo que delira
em gesto e arquitetura.
Aqui fora a ponte guarda em segredo
os vultos que adentraram as glórias
e as memórias dos gestos sem medo.
De cada ângulo vista
como que a jorrar passado
a ponte em si despista
o conteúdo sonhado.
E o que ela inspira:
estética e formusura
traduz o belo que delira
em gesto e arquitetura.
852
Francisco Tribuzi
Poetando
Eu faço versos como quem
conserta sapatos
não como quem comanda uma empresa.
São tão simples os meus atos
como simples é a natureza.
Eu faço versos com pureza
não vou além da surpresa
que me inspiram os relatos
mas vou além do que sinto
eu faço versos não minto
e fazer versos é amar.
conserta sapatos
não como quem comanda uma empresa.
São tão simples os meus atos
como simples é a natureza.
Eu faço versos com pureza
não vou além da surpresa
que me inspiram os relatos
mas vou além do que sinto
eu faço versos não minto
e fazer versos é amar.
961
Castro Menezes
Baudelaire
Na água-forte onde vejo o rigor sem exemplo
Do severo perfil de teu busto de poeta,
Charles, o teu olhar, não sei por que, me inquieta,
Evocando o pavor de uma orgia num templo.
Penetra-me essa luz de encantos esquisitos,
Que deviam possuir, em rápidos instantes,
Os teus olhos fatais como dois sóis malditos,
Fixos num céu de sonhos de ópio alucinantes...
Há um ríctus singular na tua boca estranha...
E esse ríctus cruel, de tédio ou de loucura,
Imprime a esta água-forte uma vida tamanha,
Que desvairo ao fitá-la e, num trágico espanto,
Vejo Satã possuir, na paz da cela escura,
O corpo virginal de uma noviça em pranto...
Do severo perfil de teu busto de poeta,
Charles, o teu olhar, não sei por que, me inquieta,
Evocando o pavor de uma orgia num templo.
Penetra-me essa luz de encantos esquisitos,
Que deviam possuir, em rápidos instantes,
Os teus olhos fatais como dois sóis malditos,
Fixos num céu de sonhos de ópio alucinantes...
Há um ríctus singular na tua boca estranha...
E esse ríctus cruel, de tédio ou de loucura,
Imprime a esta água-forte uma vida tamanha,
Que desvairo ao fitá-la e, num trágico espanto,
Vejo Satã possuir, na paz da cela escura,
O corpo virginal de uma noviça em pranto...
973
Batista de Lima
O Doce de Vitalina
Vitalina faz cocada
com mais alma do que coco
Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa
O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação
com mais alma do que coco
Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa
O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação
1 022
Carlos Fernandes
Urbs Mea
Ergue-te, que já vem repontando a alvorada.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descansa.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.
Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro à legião dos bárbaros avança.
É um assédios Vês: — Mouros por toda parte;
O Reino de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte;
Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Símbolo de Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocadas.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descansa.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.
Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro à legião dos bárbaros avança.
É um assédios Vês: — Mouros por toda parte;
O Reino de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte;
Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Símbolo de Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocadas.
979
Alfredo Castro
A Estátua de Sileno
Longo tempo no parque, entre a alegre verdura,
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.
Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.
Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.
Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.
Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.
Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.
Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!
1 190
Artur de Sales
Grega
Recordo as glórias imortais e as lendas
Da tua Pátria, ó bela peregrina...
Recordo Queronéia e Salamina,
Lanças, escudos e as guerreiras tendas.
Lembro Cassandra e as predições tremendas.
Passam, num sonho fúlgido, à retina,
Homero e as Musas, a legião divina,
Do Tempo, eternos, palmilhando as sendas.
Mas o sonho maior e mais radiante,
É essa visão remota e perturbante,
Esse plaino da Argólida deserta
De onde penso que vens, de mirto e louro
Coroado a fronte, e toda, toda do ouro
Do sepulcro dos Átridas coberta.
Da tua Pátria, ó bela peregrina...
Recordo Queronéia e Salamina,
Lanças, escudos e as guerreiras tendas.
Lembro Cassandra e as predições tremendas.
Passam, num sonho fúlgido, à retina,
Homero e as Musas, a legião divina,
Do Tempo, eternos, palmilhando as sendas.
Mas o sonho maior e mais radiante,
É essa visão remota e perturbante,
Esse plaino da Argólida deserta
De onde penso que vens, de mirto e louro
Coroado a fronte, e toda, toda do ouro
Do sepulcro dos Átridas coberta.
708
Yolandino Maia
Haicai
Simplicidade
Sim... fechei o livro
e li durante a viagem
anúncios no bonde.
No teatro
Na platéia escura
nossa vida adormeceu.
No palco, ela sonha
Sim... fechei o livro
e li durante a viagem
anúncios no bonde.
No teatro
Na platéia escura
nossa vida adormeceu.
No palco, ela sonha
807
Vitor Casimiro
Quem Mais Poderia Ser?
Lembro-me bem
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
Das primeiras palavras
Que sussurraste junto a mim:
"Acorda, abre bem os olhos,
E grita, o mais alto...
Não resta dúvidas: É você!"
Lembro-me, foste tu,
Poesia.
1 015
Carlos Vogt
Obsesssäo
Outra vez o poema sonâmbulo
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
1 148
Valeria Braga
Moderna
Moderna
Na sala, o piano toca um som de silêncio.
Pra quê serve um piano sem som?
Pra nada ou pra alguma coisa
que ainda não conseguimos descobrir -
além de adorno cultural.
Mas isso não importa ao piano,
nada lhe acontece por sua inutilidade.
Ele continua lá, toquem-no ou não.
Ele continua guardando sua propriedade
de ser tocado e ouvido.
As crianças crescem ao silêncio do piano
e à fala do arbítrio.
Nada interfere na vida e no crescimento
das crianças.
O piano não interfere na existência das crianças.
A não existência do piano também não interfere
na vida de ninguém.
Ambos - piano e pessoas - existem independentes.
Cada qual, isoladamente.
O piano só é.
Na sala, o piano toca um som de silêncio.
Pra quê serve um piano sem som?
Pra nada ou pra alguma coisa
que ainda não conseguimos descobrir -
além de adorno cultural.
Mas isso não importa ao piano,
nada lhe acontece por sua inutilidade.
Ele continua lá, toquem-no ou não.
Ele continua guardando sua propriedade
de ser tocado e ouvido.
As crianças crescem ao silêncio do piano
e à fala do arbítrio.
Nada interfere na vida e no crescimento
das crianças.
O piano não interfere na existência das crianças.
A não existência do piano também não interfere
na vida de ninguém.
Ambos - piano e pessoas - existem independentes.
Cada qual, isoladamente.
O piano só é.
903
Carlos Vogt
Pragmatismo Estético
A disciplina é quase tudo
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
menos o dia-a-dia
o poema é quase nada
mais a inspiraçäo
na falta solidária do mesmo quase
faz-se o poema
vive a poesia
(1991)
957
Rodrigo Carvalho
Livro
à Soares Feitosa,
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"
Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...
Salvador, 12 de novembro de 1996
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"
Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...
Salvador, 12 de novembro de 1996
932
Samuel Nogueira Filho
O Soneto Imortal
Beleza está patente é na simplicidade...
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
O alexandrino, bem se pode consagrar...
A poesia aparece... Aflora, e na verdade
um verso musical nem precisa rimar...
Se rima, tem a forma, é melhor. Recitar
um soneto rimado é prazer. E quem há de
um soneto de cor não querer declamar
em vez de lê-lo escrito, e ter dificuldade?
Palavras, expressões, todas da mesma gama
em português castiço alguém jamais reclama
nem vai ao Dicionário. Eis do escritor o ideal.
Quem não gosta de ver seu soneto falado
em recital qualquer? Vê-lo ser aclamado,
aquele que fará seu autor imortal?
1 011
Silvestre de Oliveira Serpa
A El-Rei Nosso Senhor e Protetor
Essa de Jove parto mais que humano,
Palas douta, Tritônia belicosa
Ao arnês militar, a toga honrada
Antepõe por obséquio o Lusitano.
As armas que lhe foram timbre ufano,
Pelas Letras demite vangloriosa;
De que nome maior nas letras goza,
Pelo Rei Luso, Jove Soberano.
Estes dos Renascidos luzimentos,
Por quanto gira o Sol e o pólo abarca,
De glória para o Rei são instrumentos:
Que a Fênix superando as leis da Parca
Tanto são para as letras, os aumentos
Quanto são os pregões para o Monarca.
Palas douta, Tritônia belicosa
Ao arnês militar, a toga honrada
Antepõe por obséquio o Lusitano.
As armas que lhe foram timbre ufano,
Pelas Letras demite vangloriosa;
De que nome maior nas letras goza,
Pelo Rei Luso, Jove Soberano.
Estes dos Renascidos luzimentos,
Por quanto gira o Sol e o pólo abarca,
De glória para o Rei são instrumentos:
Que a Fênix superando as leis da Parca
Tanto são para as letras, os aumentos
Quanto são os pregões para o Monarca.
732
Sérgio Milliet
Paris
Crepúsculos longos impressionistas
A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens
O Sena foge
levando o gosto da posse.
A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens
O Sena foge
levando o gosto da posse.
1 522
Cezário de Sousa
Continente Brasília
gente de toda parte
arte parte arte parte arte
status estata!
povoação enigmação, _
vazio normal buracultural
diz para mim
enfim, qual teu mal?
Gente de toda arte
quem há derrado afinal?
Onde esteve teu futuro
esse todo tempo
teu fu turo teu futuro teu
tu és boi e computador
qualquer coisa assim
olha aesse cerrado será nosso
será cerrado será cerrado será
que fizeram das lembranças
das mortes da tua infância?
no des-contar da tua glória
ó cidade bela
fizeram jorrar sangue
teu solo foi manchado
continente brazilha
gente de toda mente
a seta da arte incerta te alvejará
pra espalhar flores em forma de trigo
teus hômi é teus próprio inimigo
e a seta da arte incerta não parte
teu lago afundará
vai ser até bão de pescar
mas tuelitelitista num vai tão cedo acabar
vumbora vumbora povo!
(palavra de novo mal dita)
na garganta da gravata
teúnico jota cá paz de ser gente
foi-se in-esperado
teus solitários lares decentes
teu dom bosco poliético visionário
teus vários bonitos espaços vazios
onde nos levaremos?
brazileira
filha
tu és brazileira
menina menina menina
cabeça de menina ·
corpo de cheiro de ânsia
continentalmentilha
corcheirosa de cabelos amanteigados
mão te queira
mantequilla
mãe e filha
mar à vila do sossego
desapego
tu és o concreto da arquijuntura
tu futuras
pelos passos dos teus filhos ilhos
para que quem porque foste criada
hoje agora em tédio nadas
pré destinada a ser fada
místico interpretada
lança jogada no centro
vento passaporte muldireções
oeste pé na estrada
abra
berre
erre
ria
tenha
uma
rota
agora
?
Ilha maravilhosamente certa
reta cabeça da nação
decisão precisão ver se dão lassidaão
perfidocraticamente sem coração
teus satélites querem tua luz planoalto
não brilharias tu alguma vez
não terias asas na inspiração?
Onde estaria escondida a vontade do nosso peito
nas asas na cabeça ou no coração do avião?
Gente de toda ilha
sente de toda falta
mente de toda farda
pente de todo flerte
rente de todo porte
tente de toda sorte
gente de todo mistério-vida
cidade jovem de toda parte
encontro de tempos de antes antigos
ainda destinos incertos em Volta do sonho
eorrem atrás do copo da noite
ou escutam o tédio ou vêem a ilusão
ou lêem a falta de imaginação
foi dada a largada
os cavalos estão na frente
e os funcionários montados no medo se borram
detrás da felicidade da mesa
a dor do muro na pichação:
"Ilha e Solidão"
gente de todo porte
porta que vem e que volta
as quadras nasceram enquadradas na LSN
aqui não se comete um grande crime
e todos somos funcionários do SN I
ó felizes meninos que aqui surgirão
pra repetir a cadeira gravata dos pais pais
repetir a dor repetir a dor repetir?
ai` meninas daqui
a prosseguir o passado se submeter
ao másculo caduco poder?
meninas que hão de dançar
hão de dançar dançarão
(o corpo das tuas meninas são só bailarinas?)
quem fará o que quem fará aqui lo quem faremos como
o garoto agora engraçado
filho satélite da quadra do lago
fadado a ser forte conforme o destino
ou dono de si o teimoso menino?
a arte solta salta da rua rua não existe
artista sente por não ser a praça contente
a tua reviração se faremos
quem dera que a gente quisesse
teu profetismo nos encantaremos
pra viver real idade nossa dia~a-dia
toda morte se daria em holocausto
o fausto dos teus ricos se extinguiria
o farto prato então se dividiria
e tanto pranto alegre que a vida choraria
se um dia fosse verdade
sa ída de nossas mãos
é bom gonhar e ver voar teu avião
tem olhos de fora olhando pra gente tem
a tal bastilha atual é forte meu bem
guardada por 49 chaves do além
roma honra amor remo loba rômulo êmulo
hermano hermanito m ío
dónde está nuestra amistad
dónde nuestro proyecto por la libertad
a mil milhas de altura está brazilha
continente filho da filha da quimera
esperam inferno e Verão primavera
a fé no futuro é besteira
sem o eterno-presente na mochila
as lutas a paz hão de vingar
reconhecer os que fazem fizeram a história com H
as mães de brasará
proliferação da vrida
terão mãos hão de ter mãos terá
serão mais onde ir-mãos será
virão filhos que hão de virar
essa terra criança velha
em semente do sempre novo fogo povo a penetrar
arte parte arte parte arte
status estata!
povoação enigmação, _
vazio normal buracultural
diz para mim
enfim, qual teu mal?
Gente de toda arte
quem há derrado afinal?
Onde esteve teu futuro
esse todo tempo
teu fu turo teu futuro teu
tu és boi e computador
qualquer coisa assim
olha aesse cerrado será nosso
será cerrado será cerrado será
que fizeram das lembranças
das mortes da tua infância?
no des-contar da tua glória
ó cidade bela
fizeram jorrar sangue
teu solo foi manchado
continente brazilha
gente de toda mente
a seta da arte incerta te alvejará
pra espalhar flores em forma de trigo
teus hômi é teus próprio inimigo
e a seta da arte incerta não parte
teu lago afundará
vai ser até bão de pescar
mas tuelitelitista num vai tão cedo acabar
vumbora vumbora povo!
(palavra de novo mal dita)
na garganta da gravata
teúnico jota cá paz de ser gente
foi-se in-esperado
teus solitários lares decentes
teu dom bosco poliético visionário
teus vários bonitos espaços vazios
onde nos levaremos?
brazileira
filha
tu és brazileira
menina menina menina
cabeça de menina ·
corpo de cheiro de ânsia
continentalmentilha
corcheirosa de cabelos amanteigados
mão te queira
mantequilla
mãe e filha
mar à vila do sossego
desapego
tu és o concreto da arquijuntura
tu futuras
pelos passos dos teus filhos ilhos
para que quem porque foste criada
hoje agora em tédio nadas
pré destinada a ser fada
místico interpretada
lança jogada no centro
vento passaporte muldireções
oeste pé na estrada
abra
berre
erre
ria
tenha
uma
rota
agora
?
Ilha maravilhosamente certa
reta cabeça da nação
decisão precisão ver se dão lassidaão
perfidocraticamente sem coração
teus satélites querem tua luz planoalto
não brilharias tu alguma vez
não terias asas na inspiração?
Onde estaria escondida a vontade do nosso peito
nas asas na cabeça ou no coração do avião?
Gente de toda ilha
sente de toda falta
mente de toda farda
pente de todo flerte
rente de todo porte
tente de toda sorte
gente de todo mistério-vida
cidade jovem de toda parte
encontro de tempos de antes antigos
ainda destinos incertos em Volta do sonho
eorrem atrás do copo da noite
ou escutam o tédio ou vêem a ilusão
ou lêem a falta de imaginação
foi dada a largada
os cavalos estão na frente
e os funcionários montados no medo se borram
detrás da felicidade da mesa
a dor do muro na pichação:
"Ilha e Solidão"
gente de todo porte
porta que vem e que volta
as quadras nasceram enquadradas na LSN
aqui não se comete um grande crime
e todos somos funcionários do SN I
ó felizes meninos que aqui surgirão
pra repetir a cadeira gravata dos pais pais
repetir a dor repetir a dor repetir?
ai` meninas daqui
a prosseguir o passado se submeter
ao másculo caduco poder?
meninas que hão de dançar
hão de dançar dançarão
(o corpo das tuas meninas são só bailarinas?)
quem fará o que quem fará aqui lo quem faremos como
o garoto agora engraçado
filho satélite da quadra do lago
fadado a ser forte conforme o destino
ou dono de si o teimoso menino?
a arte solta salta da rua rua não existe
artista sente por não ser a praça contente
a tua reviração se faremos
quem dera que a gente quisesse
teu profetismo nos encantaremos
pra viver real idade nossa dia~a-dia
toda morte se daria em holocausto
o fausto dos teus ricos se extinguiria
o farto prato então se dividiria
e tanto pranto alegre que a vida choraria
se um dia fosse verdade
sa ída de nossas mãos
é bom gonhar e ver voar teu avião
tem olhos de fora olhando pra gente tem
a tal bastilha atual é forte meu bem
guardada por 49 chaves do além
roma honra amor remo loba rômulo êmulo
hermano hermanito m ío
dónde está nuestra amistad
dónde nuestro proyecto por la libertad
a mil milhas de altura está brazilha
continente filho da filha da quimera
esperam inferno e Verão primavera
a fé no futuro é besteira
sem o eterno-presente na mochila
as lutas a paz hão de vingar
reconhecer os que fazem fizeram a história com H
as mães de brasará
proliferação da vrida
terão mãos hão de ter mãos terá
serão mais onde ir-mãos será
virão filhos que hão de virar
essa terra criança velha
em semente do sempre novo fogo povo a penetrar
847
Roberto Pontes
Quântica 1
artefacto futuro
flores flos tet flaus
corolas e cálices
discos i halos
címbalos et cordas
o aço em hélices
turbinas a jato
capaciômetros
and elétrodos
transistores
filamentos
ruídos e chilreares
pssssTTssssPssss
orbinauta
astro magnus mare
tranqüilidade imponderável
pssssTTssssPssss
EEUU versus CCCP
e a pássara em seu compasso
é uma cápsula
que pisca seu percurso
bat bit bat
y soy solo azul
flores flos tet flaus
corolas e cálices
discos i halos
címbalos et cordas
o aço em hélices
turbinas a jato
capaciômetros
and elétrodos
transistores
filamentos
ruídos e chilreares
pssssTTssssPssss
orbinauta
astro magnus mare
tranqüilidade imponderável
pssssTTssssPssss
EEUU versus CCCP
e a pássara em seu compasso
é uma cápsula
que pisca seu percurso
bat bit bat
y soy solo azul
688
Romulo Gouvêa
Uma cena
Uma cena.
Não sei se tinha cenário
não me lembro de cenário.
Não sei se tinha música ao fundo
não me lembro de música alguma.
Não era um ato, era uma cena
sem tempo.
Uma cena que se imprimiu
na minha memória para sempre.
Como um retrato, uma pintura
um instante que parou no espaço.
Eu a olhava, ela me olhava.
A nossa imagem dentro do nosso olhar.
E os dois ângulos desta cena,
em retinas diferentes,
eu pude ter de repente
juntos num só lugar,
numa cena que se imprimiu
na minha memória para sempre,
a cena do nosso olhar.
Não sei se tinha cenário
não me lembro de cenário.
Não sei se tinha música ao fundo
não me lembro de música alguma.
Não era um ato, era uma cena
sem tempo.
Uma cena que se imprimiu
na minha memória para sempre.
Como um retrato, uma pintura
um instante que parou no espaço.
Eu a olhava, ela me olhava.
A nossa imagem dentro do nosso olhar.
E os dois ângulos desta cena,
em retinas diferentes,
eu pude ter de repente
juntos num só lugar,
numa cena que se imprimiu
na minha memória para sempre,
a cena do nosso olhar.
909
Roberto Pontes
Contracanto
Estou em meu poema
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.
Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.
O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.
Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.
O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.
1 233
Roberto Pontes
Quântica 5
a nebulosa no olho
arroio de prata e leite
fusão amarelo ocre
na tocha fosforejante
zeus no carrossel coral
a nebulosa no olho
esverdosilosidades
vermelhofuscolizantes
lantejoulinhas no ar
(De Lições de Espaço: teletipos, módulos e quânticas.
Fortaleza: Imprensa Universitária, 1971)
arroio de prata e leite
fusão amarelo ocre
na tocha fosforejante
zeus no carrossel coral
a nebulosa no olho
esverdosilosidades
vermelhofuscolizantes
lantejoulinhas no ar
(De Lições de Espaço: teletipos, módulos e quânticas.
Fortaleza: Imprensa Universitária, 1971)
947
Rosa Bruno
O meu bailador que vi
O meu bailador que vi
Fandangando, fandangando,
Labareda levantando
Esbelta, num frenesi,
Era bem de carne e osso,
Era morrendo um destroço
Do que não era de si...
Fandangava, fandangava,
Com volúpia de guerreiro
E era lume feiticeiro
Dos olhos de quem estava,
E era flecha e pião
A fugir pisando o chão
Que pisava e repisava...
O meu bailador que vi
Fandangando, fandangando,
Labareda levantando
Esbelta, num frenesi,
Era bem de carne e osso,
Era morrendo um destroço,
Do que não era de si...
Fandangando, fandangando,
Labareda levantando
Esbelta, num frenesi,
Era bem de carne e osso,
Era morrendo um destroço
Do que não era de si...
Fandangava, fandangava,
Com volúpia de guerreiro
E era lume feiticeiro
Dos olhos de quem estava,
E era flecha e pião
A fugir pisando o chão
Que pisava e repisava...
O meu bailador que vi
Fandangando, fandangando,
Labareda levantando
Esbelta, num frenesi,
Era bem de carne e osso,
Era morrendo um destroço,
Do que não era de si...
1 121
Antonio Risério
Um Poema é um poema é um poema?
Saudades de Mario Faustino. Não temos hoje uma crítica textual
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.
Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.
De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.
Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.
Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.
Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.
Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.
Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.
Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.
Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?
Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.
E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.
Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.
Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.
E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.
Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).
(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)
Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!
Voltar para o Disseram
Mais Bovincino
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.
Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.
De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.
Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.
Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.
Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.
Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.
Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.
Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.
Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?
Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.
E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.
Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.
Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.
E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.
Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).
(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)
Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!
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