Poemas neste tema
Beleza
Castro Alves
Hebréia
Flos campi et lilium convallium.
(Cântico dos Cânticos)
Pomba desprança sobre um mar descolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa! ...
Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!
Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?
Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!
Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho ...
Depois nas águas de cheiroso banho
— Como Susana a estremecer de frio —
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto ...
Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, — se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto ...
Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.
Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!...
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante! ...
(Cântico dos Cânticos)
Pomba desprança sobre um mar descolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa! ...
Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!
Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?
Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!
Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho ...
Depois nas águas de cheiroso banho
— Como Susana a estremecer de frio —
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto ...
Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, — se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto ...
Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.
Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!...
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante! ...
1 648
Castro Alves
Aquela Mão
Pálidos versos a um primor divino
ERA UA MÃO de luxo... Era um brinquedo!...
Mas tão bonita que metera medo,
Se não fosse, meu Deus! tão meiga e franca!
Mão pra se encher de gemas e brilhantes,
De suspiros, de anelos palpitantes...
Mas pra estalar as jóias e os amantes...
Aquela mão tão branca!
Era ua mão fidalga... exígua, escassa!
Mão de Duquesa! Era ua mão de raça
De sangue azul, em veios de Carrara!
Alva, tão alva que vencia a idéia
Das neblinas, dos gelos e da garça!...
Amassada no leite de Amaltéia
Aquela mão tão rara!
Tinha um gesto de musa! — Mão que voa,
Que do piano na ideal lagoa,
As asas banha em rapidez não vista!...
Como a andorinha que se arroja à toa,
Cruzando em beijos a extensão das teclas!
Acendendo no seio a luz dos Eclas...
Aquela mão de artista!
Mão de criança! Era ua mão de arminhos,
Tendo essas covas, esses alvos ninhos,
De aves que a terra desconhece ainda!
Lembrando as conchas dos parcéis marinhos,
A polpa branca dos nascentes lírios...
Covas... porque se enterram mil delírios
Naquela mão tão linda!
No teatro, uma noite, casta, esquiva,
Na luva de pelica a mão cativa,
Recordava um eclipse de lua...
Mas um momento após, deixando o guante,
Vi salvar-se da espuma, rutilante,
Como Vênus despida e palpitante,
Aquela mão tão nua!
Era uma régia mão! Que largas vezes
Sonhei torneios, morriões, arneses,
Bravos ginetes de nevada crina,
Justas feridas entre mil reveses,
Da média idade a sanguinosa palma...
Só pra o louro atirar... e a lança e a alma...
Aquela mão tão fina!
Uma noite sonhei que, em minha vida,
Deus acendia a estrela prometida,
Que leva os Reis ao trilho da ventura;
Mus, quando, ao longo da poenta estrada,
O suor me escorria damargura...
Passava em meus cabelos perfumada
Aquela mão tão pura!
Era ua mão que iluminara um cetro...
Mão que ensinava d’harmonia o metro
As esferas de luz que o dia encobres...
Tão santa que uma pérola indiscreta
Talvez toldasse esta nudez tão nobre...
Vazia Era a riqueza do Poeta Aquela mão tão pobre!
Era ua mão que provocava o roubo!
Era ua mio para conter o globo!
Tinha a luz que arrebata, a luz que encanta!
Fôra o gênio de Sócrates o Grego!
Domara em Roma os cônsules e o lobo?
Mão que em trevas buscara Homero cego
Aquela mão tão santa!
ERA UA MÃO de luxo... Era um brinquedo!...
Mas tão bonita que metera medo,
Se não fosse, meu Deus! tão meiga e franca!
Mão pra se encher de gemas e brilhantes,
De suspiros, de anelos palpitantes...
Mas pra estalar as jóias e os amantes...
Aquela mão tão branca!
Era ua mão fidalga... exígua, escassa!
Mão de Duquesa! Era ua mão de raça
De sangue azul, em veios de Carrara!
Alva, tão alva que vencia a idéia
Das neblinas, dos gelos e da garça!...
Amassada no leite de Amaltéia
Aquela mão tão rara!
Tinha um gesto de musa! — Mão que voa,
Que do piano na ideal lagoa,
As asas banha em rapidez não vista!...
Como a andorinha que se arroja à toa,
Cruzando em beijos a extensão das teclas!
Acendendo no seio a luz dos Eclas...
Aquela mão de artista!
Mão de criança! Era ua mão de arminhos,
Tendo essas covas, esses alvos ninhos,
De aves que a terra desconhece ainda!
Lembrando as conchas dos parcéis marinhos,
A polpa branca dos nascentes lírios...
Covas... porque se enterram mil delírios
Naquela mão tão linda!
No teatro, uma noite, casta, esquiva,
Na luva de pelica a mão cativa,
Recordava um eclipse de lua...
Mas um momento após, deixando o guante,
Vi salvar-se da espuma, rutilante,
Como Vênus despida e palpitante,
Aquela mão tão nua!
Era uma régia mão! Que largas vezes
Sonhei torneios, morriões, arneses,
Bravos ginetes de nevada crina,
Justas feridas entre mil reveses,
Da média idade a sanguinosa palma...
Só pra o louro atirar... e a lança e a alma...
Aquela mão tão fina!
Uma noite sonhei que, em minha vida,
Deus acendia a estrela prometida,
Que leva os Reis ao trilho da ventura;
Mus, quando, ao longo da poenta estrada,
O suor me escorria damargura...
Passava em meus cabelos perfumada
Aquela mão tão pura!
Era ua mão que iluminara um cetro...
Mão que ensinava d’harmonia o metro
As esferas de luz que o dia encobres...
Tão santa que uma pérola indiscreta
Talvez toldasse esta nudez tão nobre...
Vazia Era a riqueza do Poeta Aquela mão tão pobre!
Era ua mão que provocava o roubo!
Era ua mio para conter o globo!
Tinha a luz que arrebata, a luz que encanta!
Fôra o gênio de Sócrates o Grego!
Domara em Roma os cônsules e o lobo?
Mão que em trevas buscara Homero cego
Aquela mão tão santa!
2 138
Casimiro de Brito
45
Sobre nuvens mais tranqüilas do que a minha
Sombra penso na suprema imperfeição
Das coisas — as presentes e as ausentes —
Que flutuam: Água que fere ao de leve
O coração da terra; destroços
De cabanas; breves pegadas de deuxes
Balbuciantes. Tomo no pulso a frágil
Perfeição do mar, suas barcas. Aproximam-se
Do seu pó
Tal como eu agora sobrevôo
Ilhas atlânticas. A luz e o vento
Circulam felizes por entre as ruínas
De outras nuvens, poeira, corações humanos.
Sombra penso na suprema imperfeição
Das coisas — as presentes e as ausentes —
Que flutuam: Água que fere ao de leve
O coração da terra; destroços
De cabanas; breves pegadas de deuxes
Balbuciantes. Tomo no pulso a frágil
Perfeição do mar, suas barcas. Aproximam-se
Do seu pó
Tal como eu agora sobrevôo
Ilhas atlânticas. A luz e o vento
Circulam felizes por entre as ruínas
De outras nuvens, poeira, corações humanos.
1 866
Castro Alves
NO ÁLBUM DO ARTISTA
Luís C. Amoedo
Nos tempos idos... O alabastro, o mármore
Reveste as formas desnuadas, mádidas
De Vênus ou Friné.
Nem um véu pra ocultar o seio trêmulo,
Nem um tirso a velar a coxa pálida...
O olhar não sonha... vê!
Um dia o artista, num momento lúcido,
Entre gazas de pedra a loura Aspásia
Amoroso envolveu.
Depois, surpreso! ... viu-a inda mais lânguida...
Sonhou mais doido aquelas formas lúbricas...
Mais nuas sob um véu.
É o mistério do espírito... A modéstia
É dos talentos reis a santa púrpura...
Artista, és belo assim...
Este santo pudor é só dos gênios!—
Também o espaço esconde-se entre névoas...
E no entanto é... sem fim!
Nos tempos idos... O alabastro, o mármore
Reveste as formas desnuadas, mádidas
De Vênus ou Friné.
Nem um véu pra ocultar o seio trêmulo,
Nem um tirso a velar a coxa pálida...
O olhar não sonha... vê!
Um dia o artista, num momento lúcido,
Entre gazas de pedra a loura Aspásia
Amoroso envolveu.
Depois, surpreso! ... viu-a inda mais lânguida...
Sonhou mais doido aquelas formas lúbricas...
Mais nuas sob um véu.
É o mistério do espírito... A modéstia
É dos talentos reis a santa púrpura...
Artista, és belo assim...
Este santo pudor é só dos gênios!—
Também o espaço esconde-se entre névoas...
E no entanto é... sem fim!
1 364
Castro Alves
A Bainha do Punhal
Fragmento
Salve, noites do Oriente,
Noites de beijos e amor!
Onde os astros são abelhas
Do éter na larga flor...
Onde pende a meiga lua,
Como cimitarra nua
Por sobre um dólmã azul!
E a vaga dos Dardanelos
Beija, em lascivos anelos
As saudades de Stambul.
Salve, serralhos severos
Como a barba dum Paxá!
Zimbórios, que fingem crânios
Dos crentes fiéis de Alá! ...
Ciprestes que o vento agita,
Como flechas de Mesquita
Esguios, longos também;
Minaretes, entre bosques!
Palmeiras, entre os quiosques!
Mulheres nuas do Harém!.
Mas embalde a lua inclina
As loiras tranças pra o chão
Desprezada concubina,
Já não te adora o sultão!
Debalde, aos vidros pintados,
Aos balcões arabescados,
Vais bater em doudo afã...
Soam tímbalos na sala...
E a dança ardente resvala
Sobre os tapetes do Irã!...
Salve, noites do Oriente,
Noites de beijos e amor!
Onde os astros são abelhas
Do éter na larga flor...
Onde pende a meiga lua,
Como cimitarra nua
Por sobre um dólmã azul!
E a vaga dos Dardanelos
Beija, em lascivos anelos
As saudades de Stambul.
Salve, serralhos severos
Como a barba dum Paxá!
Zimbórios, que fingem crânios
Dos crentes fiéis de Alá! ...
Ciprestes que o vento agita,
Como flechas de Mesquita
Esguios, longos também;
Minaretes, entre bosques!
Palmeiras, entre os quiosques!
Mulheres nuas do Harém!.
Mas embalde a lua inclina
As loiras tranças pra o chão
Desprezada concubina,
Já não te adora o sultão!
Debalde, aos vidros pintados,
Aos balcões arabescados,
Vais bater em doudo afã...
Soam tímbalos na sala...
E a dança ardente resvala
Sobre os tapetes do Irã!...
2 178
Castro Alves
No Camarote
(Sobre motivos de espanhol)
NO CAMAROTE gélida e quieta
Por que imóvel assim cravas a vista?
És o sonho de neve de um poeta?
És a estátua de pedra de um artista?
Debalde cresce de harmonia o canto...
A Moça não o escuta, além perdida!
Que amuleto prendeu-a no quebranto?
Em que céu vai boiando aquela vida?
Onde se engolfa o cisne dessa mente?
Em que vagas azuis desce cantando?
Que bafagem, meu Deus! frouxa, dormente,
Lhe acalenta o cismar no alento brando?
— Arcanjo, deusa ou pálida madona —
Quem é, surpresa, a multidão pergunta...
E ao vê-la mais gentil que Desdemona
Como para rezar as mãos ajunta.
Odalisca talvez de haréns brilhantes,
Ela no lábio as multidões algema.
Talvez destalma nas visões errantes
Voa a pura miragem de um poema.
Nem um riso, entretanto, a flux luzindo
Aos delírios que esfolha a cavatina,
A boca rubra de improviso abrindo,
Esta fronte fatídica ilumina.
Pois naquela alma só se encontra neve?
Nada palpita nessa forma branca?
Pois não freme este mármore de leve?
Pois nem o canto esta friez lhe arranca?
Ai! Ninguém fie dessa calma estranha
— Êxtase santo de harmonias cheio
— Guarda a lava a petrina da montanha,
Guarda Vesúvios o palor de um seio.
Oh! ser a idéia dessa fronte pura,
Ser o desejo desse lábio quente,
Fora o meu sonho de ideal ventura,
Fora o delírio de minhalma ardente.
Feliz quem possa na ansiedade louca
Esta bela mulher prender nos braços...
Beber o mel na rosa desta boca,
Beijar-lhe os pés... quando beijar-lhe os passos!
NO CAMAROTE gélida e quieta
Por que imóvel assim cravas a vista?
És o sonho de neve de um poeta?
És a estátua de pedra de um artista?
Debalde cresce de harmonia o canto...
A Moça não o escuta, além perdida!
Que amuleto prendeu-a no quebranto?
Em que céu vai boiando aquela vida?
Onde se engolfa o cisne dessa mente?
Em que vagas azuis desce cantando?
Que bafagem, meu Deus! frouxa, dormente,
Lhe acalenta o cismar no alento brando?
— Arcanjo, deusa ou pálida madona —
Quem é, surpresa, a multidão pergunta...
E ao vê-la mais gentil que Desdemona
Como para rezar as mãos ajunta.
Odalisca talvez de haréns brilhantes,
Ela no lábio as multidões algema.
Talvez destalma nas visões errantes
Voa a pura miragem de um poema.
Nem um riso, entretanto, a flux luzindo
Aos delírios que esfolha a cavatina,
A boca rubra de improviso abrindo,
Esta fronte fatídica ilumina.
Pois naquela alma só se encontra neve?
Nada palpita nessa forma branca?
Pois não freme este mármore de leve?
Pois nem o canto esta friez lhe arranca?
Ai! Ninguém fie dessa calma estranha
— Êxtase santo de harmonias cheio
— Guarda a lava a petrina da montanha,
Guarda Vesúvios o palor de um seio.
Oh! ser a idéia dessa fronte pura,
Ser o desejo desse lábio quente,
Fora o meu sonho de ideal ventura,
Fora o delírio de minhalma ardente.
Feliz quem possa na ansiedade louca
Esta bela mulher prender nos braços...
Beber o mel na rosa desta boca,
Beijar-lhe os pés... quando beijar-lhe os passos!
1 671
Castro Alves
EM Que Pensas?
Oh! Pepita, charmante rifle
Mon amour, à quoi penses-tu?
ALF. DE MuswT.
TU PENSAS na flor que nasce
Menos bela do que tu!
Na borboleta vivace
Beijando teu colo nu!
No raio da lua algente
Que bebe no teu olhar ...
Como um cisne alvinitente
No cálix do nenufar.
Nas orvalhadas cantigas
Destas selvagens manhãs...
Nas flores — tuas amigas!
Nas pombas — tuas írmãs!
Tu pensas, é Fiorentina,
No gênio de teu país...
Que uma harpa soberba afina
Em cada seio de atriz.
Na esteira de luz que arrasta
A glória no louco afã!
Nos diademas da Pasta...
Nas palmas de Malibran!
Pensas nos climas distantes
Que um sol vermelho queimou...
Nesses mares ofegantes
Que o teu navio cortou!
Na bruma que lá sescoa...
Na estrela que morre além...
Na Santa que te abençoa,...
Na Santa que te quer bem!...
Tu pensas n’Arte sagrada,
Nesta severa mulher...
Mais que Débora inspirada...
Mais rutilante que Ester.
Tu pensas em mil quimeras,
Nos orientes do amor.
No vacilar das esferas
Pelas noites de languor.
Nalgum sonho peregrino
Que o teu ideal criou.
Na vassalagem, no hino...
Que a multidão te atirou!
Neste condão que teus dedos
Têm de domar os leões...
No pipilar de uns segredos,
No musgo dos corações...
No livro — que tens no colo!
Nos versos — que tens aos pés!
Nos belos gelos do pólo...
Como teus seios cruéis.
Pensas em tudo que é belo,
Puro, brilhante, ideal...
No teu soberbo cabelo!
No teu dorso escultural!
Nos tesouros de ventura
Que a umalma podias dar;
No alento da boca pura...
Na graça do puro olhar...
Pensas em tudo que é nobre,
Que entorna luz e fulgor!
Nas minas, que o mar encobre!
Nas avarezas do amor!
Pensas em tudo que invade
O seio de um Querubim!...
Deus! Amor! Felicidade!
... Só tu não pensas em mim!...
Mon amour, à quoi penses-tu?
ALF. DE MuswT.
TU PENSAS na flor que nasce
Menos bela do que tu!
Na borboleta vivace
Beijando teu colo nu!
No raio da lua algente
Que bebe no teu olhar ...
Como um cisne alvinitente
No cálix do nenufar.
Nas orvalhadas cantigas
Destas selvagens manhãs...
Nas flores — tuas amigas!
Nas pombas — tuas írmãs!
Tu pensas, é Fiorentina,
No gênio de teu país...
Que uma harpa soberba afina
Em cada seio de atriz.
Na esteira de luz que arrasta
A glória no louco afã!
Nos diademas da Pasta...
Nas palmas de Malibran!
Pensas nos climas distantes
Que um sol vermelho queimou...
Nesses mares ofegantes
Que o teu navio cortou!
Na bruma que lá sescoa...
Na estrela que morre além...
Na Santa que te abençoa,...
Na Santa que te quer bem!...
Tu pensas n’Arte sagrada,
Nesta severa mulher...
Mais que Débora inspirada...
Mais rutilante que Ester.
Tu pensas em mil quimeras,
Nos orientes do amor.
No vacilar das esferas
Pelas noites de languor.
Nalgum sonho peregrino
Que o teu ideal criou.
Na vassalagem, no hino...
Que a multidão te atirou!
Neste condão que teus dedos
Têm de domar os leões...
No pipilar de uns segredos,
No musgo dos corações...
No livro — que tens no colo!
Nos versos — que tens aos pés!
Nos belos gelos do pólo...
Como teus seios cruéis.
Pensas em tudo que é belo,
Puro, brilhante, ideal...
No teu soberbo cabelo!
No teu dorso escultural!
Nos tesouros de ventura
Que a umalma podias dar;
No alento da boca pura...
Na graça do puro olhar...
Pensas em tudo que é nobre,
Que entorna luz e fulgor!
Nas minas, que o mar encobre!
Nas avarezas do amor!
Pensas em tudo que invade
O seio de um Querubim!...
Deus! Amor! Felicidade!
... Só tu não pensas em mim!...
2 011
Castro Alves
Conções de Gounod
I
QUANDO cantas pendida
Por sobre o peito meu,
Ouves tu minha vida
Falando-te do céu?
A indolente cantiga
Desmaia de languor.
Cantai, formosa amiga!
Cantai, cantai, amor!
II
Quando ris, nesta boca
Rebenta amor a flux,
E minhaalma vai louca
Arder-se em tua luz.
Teu sorriso é quem briga
Em perfume coa flor.
Cantai, formosa amiga!
Cantai, cantai amor!
III
Quando dormes tão pura,
Dos astros ao clarão,
Teu alento murmura
Dos beijos a canção.
Manto ou véu não te abriga
O marmóreo palor...
Cantai, formosa amiga!
Cantai! cantai amor!
QUANDO cantas pendida
Por sobre o peito meu,
Ouves tu minha vida
Falando-te do céu?
A indolente cantiga
Desmaia de languor.
Cantai, formosa amiga!
Cantai, cantai, amor!
II
Quando ris, nesta boca
Rebenta amor a flux,
E minhaalma vai louca
Arder-se em tua luz.
Teu sorriso é quem briga
Em perfume coa flor.
Cantai, formosa amiga!
Cantai, cantai amor!
III
Quando dormes tão pura,
Dos astros ao clarão,
Teu alento murmura
Dos beijos a canção.
Manto ou véu não te abriga
O marmóreo palor...
Cantai, formosa amiga!
Cantai! cantai amor!
1 721
Castro Alves
Menina e Moça
(Versos para o &bum de D. MAxiA
JOAQUINA DA SILVA Freire.)
MENINA e Moça! Há no volver das horas
Esta idade ideal e feiticeira;
É quando a estrela expira e rompe a aurora
Um prelúdio nos leques da palmeira.
Menina e Moça! Há no viver das flores
Este instante feliz... É quando a rosa,
Ao relento das noites perfumadas,
Abre o cálix, risonha e curiosa.
Menina e Moça! HÁ no passar dos anos
Esta estação de amor... quando nas veigas
Fazem-se em flor as folhas sussurrantes,
Beijam-se as pombas, arrulando meigas.
Menina e Moça! Há no sonhar da música
Som que esta idade festival exprime...
Quando a voz do piano espalha aos ermos
Os suspiros saudosas de Bellini.
Menina e Moça! Se a poesia esquece
Agora o tipo da criança bela,
Quem não te adora a límpida inocência,
O filha de Sorrento! Ó Graziela!
Menina e Moça I Castidade e pejo!
Crença, frescura, divinal anseio!
Por quem tu cismas? — Se pergunta à fronte.
Por quem palpitas? — Se pergunta ao seio.
Menina e Moça! É tão festivo o riso!
Chama dourada sobre os olhos brilha!
Como estalam os beijos das amigas
A donzela tem asas... de escumilha!
Menina e Moça! Como é doudo o baile!
Como são várias da existência as cenas!
Ama-se o canto — Se elas são as aves...
Ama-se a valsa. — Se elas são falenas ...
Menina e Moça! Adormecida garça
Que o ma,- na riba do ideal balouça...
O bardo canta na tormenta ao longe...
Sonha o teu sonho de - menina e moça!...
JOAQUINA DA SILVA Freire.)
MENINA e Moça! Há no volver das horas
Esta idade ideal e feiticeira;
É quando a estrela expira e rompe a aurora
Um prelúdio nos leques da palmeira.
Menina e Moça! Há no viver das flores
Este instante feliz... É quando a rosa,
Ao relento das noites perfumadas,
Abre o cálix, risonha e curiosa.
Menina e Moça! HÁ no passar dos anos
Esta estação de amor... quando nas veigas
Fazem-se em flor as folhas sussurrantes,
Beijam-se as pombas, arrulando meigas.
Menina e Moça! Há no sonhar da música
Som que esta idade festival exprime...
Quando a voz do piano espalha aos ermos
Os suspiros saudosas de Bellini.
Menina e Moça! Se a poesia esquece
Agora o tipo da criança bela,
Quem não te adora a límpida inocência,
O filha de Sorrento! Ó Graziela!
Menina e Moça I Castidade e pejo!
Crença, frescura, divinal anseio!
Por quem tu cismas? — Se pergunta à fronte.
Por quem palpitas? — Se pergunta ao seio.
Menina e Moça! É tão festivo o riso!
Chama dourada sobre os olhos brilha!
Como estalam os beijos das amigas
A donzela tem asas... de escumilha!
Menina e Moça! Como é doudo o baile!
Como são várias da existência as cenas!
Ama-se o canto — Se elas são as aves...
Ama-se a valsa. — Se elas são falenas ...
Menina e Moça! Adormecida garça
Que o ma,- na riba do ideal balouça...
O bardo canta na tormenta ao longe...
Sonha o teu sonho de - menina e moça!...
3 914
Castro Alves
MURMÚRIOS DA TARDE
Êcoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée,
Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux;
Ce soir, tout va fleurir: limmortelle nature
Se remplit de parfums, damour et de murmure,
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
A. de Musset.
Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela!
Garret.
Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirclo douro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura — não fujas", diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!
"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges", diz o ninho antigo,
"Leva-me ainda para um novo galho...
Leva-me! leva-me em teu seio amigo."
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
Inda um calor, antes que chegue o frio. . . "
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!"
E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.
Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto! ...
E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:
"Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente..."
E eu escutava o conversar das flores.
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"
Também então eu murmurei cismando...
"Minhalma é rosa, que a geada esfria...
Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentfi Maria!..."
Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux;
Ce soir, tout va fleurir: limmortelle nature
Se remplit de parfums, damour et de murmure,
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
A. de Musset.
Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela!
Garret.
Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirclo douro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura — não fujas", diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!
"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges", diz o ninho antigo,
"Leva-me ainda para um novo galho...
Leva-me! leva-me em teu seio amigo."
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
Inda um calor, antes que chegue o frio. . . "
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!"
E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.
Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto! ...
E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:
"Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente..."
E eu escutava o conversar das flores.
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"
Também então eu murmurei cismando...
"Minhalma é rosa, que a geada esfria...
Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentfi Maria!..."
2 290
Castro Alves
POESIA E MENDICIDADE
(No álbum da Ex.ma Sra. D. MARIA JUSTINA PROENÇA PEREIRA PEIXOTO)
I
Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,
Pálida, aventureira, errante a viajar,
Batendo em duas portas — ao grito das procelas —
Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar!
Visão — de áureos lauréis — porém de manto esquálido,
Mulher — de lábio pálido — e olhar — cheio de luz.
Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...
E os astros lhe resvalam — à flor dos ombros nus ...
II
Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa
Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.
Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,
De um marco poeirento um velho então se ergueu.
Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...
Porém o que tateia aquela augusta mão?
Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...
Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!
III
Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos
Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai!
Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro...
o lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrail
Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura
Servem de compostura à sala vasta e chá.
A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia
A mão suave, esguia — à loura castelã.
Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta
Pega da lira... canta... uma canção de amor...
Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa
Alonga pela ogiva um raio de languor!
Dos ramos do carvalho a brisa se debruça...
Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?)
Súbito a nota extrema anseia, treme, rola...
Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!...
Assim nos tempos idos a musa canta e pede...
Gênio e mendigo... vede... o abismo de irrisões!
Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante...
Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.
IV
Bem sei, Senhora, que ao talento agora
Surgiu a aurora de uma luz amena.
Hoje há salário pra qualquer trabalho,
Cinzel, ou malho, ferramenta ou pena!
Melhor que o Rei sabe pagar o pobre
Melhor que o nobre — protetor verdugo —!
Foi surdo um trono... à maior glória vossa...
Abre-se a choça aos Miseráveis de Hugo.
Porém não sei se é por costume antigo,
Que inda é mendigo do cantor o gênio.
Mudem-se os panos do cenário a esmo
O vulto é o mesmo... num melhor proscênio ...
V
Hoje o Poeta — caminheiro errante,
Que tem saudade de um país melhor
Pede uma pérola — à maré montante,
Do seio às vagas — pede — um outro amor.
Alma sedenta de ideal na terra
Busca apagar aquela sede atroz!
Pede a harmonia divinal, que encerra
Do ninho o chilro... da tormenta a voz!
E o rir da folha, o sussurrar da fala,
Trenos da estrela no amoroso estio.
Voz que dos poros o Universo exala
Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!
Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo,
Ao fraco, ao forte. . . — preces, gritos, uivos ...
Pede das águias o possante arrojo,
Para encontrar os meteoros ruivos.
Pede à mulher que seja boa e linda
— Vestal de um tipo que o ideal revela...
Pois ser formosa é ser melhor ainda...
Se és boa — és luz... mas se és formosa — estrela...
E pede à sombra pra aljofrar de orvalhos
A fronte azul da solidão noturna.
E pede às auras pra afagar os galhos
E pede ao lírio pra enfeitar a furna.
Pede ao olhar a maciez suave
Que tem o arminho e o edredon macio,
O aveludado da penugem dave,
Que afaga as plumas no palmar sombrio.
.................................................................................
E quando encontra sobre a terra ingrata
Um reverbero do clarão celeste,
— Alma formada de uma essência grata,
Que a lua — doura, e que um perfume veste;
Um rir, que nasce como o broto em maio;
Mostrando seivas de bondade infinda,
Fronte que guarda — a claridade e o raio,
— Virtude e graça — o ser bondosa e linda ...
Então, Senhora, sob tanto encanto
Pede o Poeta (que não tem renome)
— Versos — à brisa pra vos dar um canto...
Raios ao sol — pra vos traçar o nome! ...
I
Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,
Pálida, aventureira, errante a viajar,
Batendo em duas portas — ao grito das procelas —
Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar!
Visão — de áureos lauréis — porém de manto esquálido,
Mulher — de lábio pálido — e olhar — cheio de luz.
Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...
E os astros lhe resvalam — à flor dos ombros nus ...
II
Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa
Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.
Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,
De um marco poeirento um velho então se ergueu.
Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...
Porém o que tateia aquela augusta mão?
Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...
Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!
III
Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos
Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai!
Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro...
o lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrail
Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura
Servem de compostura à sala vasta e chá.
A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia
A mão suave, esguia — à loura castelã.
Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta
Pega da lira... canta... uma canção de amor...
Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa
Alonga pela ogiva um raio de languor!
Dos ramos do carvalho a brisa se debruça...
Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?)
Súbito a nota extrema anseia, treme, rola...
Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!...
Assim nos tempos idos a musa canta e pede...
Gênio e mendigo... vede... o abismo de irrisões!
Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante...
Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.
IV
Bem sei, Senhora, que ao talento agora
Surgiu a aurora de uma luz amena.
Hoje há salário pra qualquer trabalho,
Cinzel, ou malho, ferramenta ou pena!
Melhor que o Rei sabe pagar o pobre
Melhor que o nobre — protetor verdugo —!
Foi surdo um trono... à maior glória vossa...
Abre-se a choça aos Miseráveis de Hugo.
Porém não sei se é por costume antigo,
Que inda é mendigo do cantor o gênio.
Mudem-se os panos do cenário a esmo
O vulto é o mesmo... num melhor proscênio ...
V
Hoje o Poeta — caminheiro errante,
Que tem saudade de um país melhor
Pede uma pérola — à maré montante,
Do seio às vagas — pede — um outro amor.
Alma sedenta de ideal na terra
Busca apagar aquela sede atroz!
Pede a harmonia divinal, que encerra
Do ninho o chilro... da tormenta a voz!
E o rir da folha, o sussurrar da fala,
Trenos da estrela no amoroso estio.
Voz que dos poros o Universo exala
Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!
Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo,
Ao fraco, ao forte. . . — preces, gritos, uivos ...
Pede das águias o possante arrojo,
Para encontrar os meteoros ruivos.
Pede à mulher que seja boa e linda
— Vestal de um tipo que o ideal revela...
Pois ser formosa é ser melhor ainda...
Se és boa — és luz... mas se és formosa — estrela...
E pede à sombra pra aljofrar de orvalhos
A fronte azul da solidão noturna.
E pede às auras pra afagar os galhos
E pede ao lírio pra enfeitar a furna.
Pede ao olhar a maciez suave
Que tem o arminho e o edredon macio,
O aveludado da penugem dave,
Que afaga as plumas no palmar sombrio.
.................................................................................
E quando encontra sobre a terra ingrata
Um reverbero do clarão celeste,
— Alma formada de uma essência grata,
Que a lua — doura, e que um perfume veste;
Um rir, que nasce como o broto em maio;
Mostrando seivas de bondade infinda,
Fronte que guarda — a claridade e o raio,
— Virtude e graça — o ser bondosa e linda ...
Então, Senhora, sob tanto encanto
Pede o Poeta (que não tem renome)
— Versos — à brisa pra vos dar um canto...
Raios ao sol — pra vos traçar o nome! ...
2 381
Clodoveu A. de Almeida
Vênus
Tu já enlouqueceste
Santo Antão e Pasteur.
Foi apenas com
teu corpo de mulher.
és o inferno e o céu também
Num conjunto escultural.
és a pureza, é o bem, junto ao vício universal!
Tu tens harmonia
e sonância e cadência
tens tantas coleações
de um piton oriental
Que és o ponto nau da grande intercedência
das estéticas leis diabólicas do mal!
és o incógnito Avatar,
a crispação da fera,
a luz do rosicler.
E gritam gênios ao pálido luar,
mulher! mulher! mulher1
Um dia cairás sob o meu braço ileso
qual Nero, eu tornarei o mundo inteiro aceso,
com um lança-chamas abrasado, em riste,
para mostrar ao universo em pêso,
que a felicidade sôbre a terra existe!
E na piramidal orgia desvairada
bradará comigo o cosmos a "una voce"
que tão somente a cinza universal do nada
suporta ser a glória eterna desta posse!
Santo Antão e Pasteur.
Foi apenas com
teu corpo de mulher.
és o inferno e o céu também
Num conjunto escultural.
és a pureza, é o bem, junto ao vício universal!
Tu tens harmonia
e sonância e cadência
tens tantas coleações
de um piton oriental
Que és o ponto nau da grande intercedência
das estéticas leis diabólicas do mal!
és o incógnito Avatar,
a crispação da fera,
a luz do rosicler.
E gritam gênios ao pálido luar,
mulher! mulher! mulher1
Um dia cairás sob o meu braço ileso
qual Nero, eu tornarei o mundo inteiro aceso,
com um lança-chamas abrasado, em riste,
para mostrar ao universo em pêso,
que a felicidade sôbre a terra existe!
E na piramidal orgia desvairada
bradará comigo o cosmos a "una voce"
que tão somente a cinza universal do nada
suporta ser a glória eterna desta posse!
898
Bruno Seabra
Moreninha
— Moreninha, dás-me um beijo.
— E o que me dá, meu senhor?
— Este cravo...
— Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.
— Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
— Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera com a flor;
Tanto pano por um beijo...
Sai-lhe caro, meu senhor.
— Anda cá... ouve um segredo...
— Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre; eu falo muito,
Toda mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo. ..
Pelos modos que lhe vejo
Quer o meu beijo de graça,
Um segredo por um beijo?!
— Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
Acha, pois? e o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?
— Quem dera que tu quisesses...
— Não duvide, que o farei;
Meu senhor, case com ela,
A rainha o fará rei...
— Casar-me?... ainda sou tão moço...
— Como é criança esta ovelha!
Pois eu pra beijar crianças,
Adeusinho, já sou velha.
— E o que me dá, meu senhor?
— Este cravo...
— Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.
— Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
— Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera com a flor;
Tanto pano por um beijo...
Sai-lhe caro, meu senhor.
— Anda cá... ouve um segredo...
— Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre; eu falo muito,
Toda mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo. ..
Pelos modos que lhe vejo
Quer o meu beijo de graça,
Um segredo por um beijo?!
— Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
Acha, pois? e o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?
— Quem dera que tu quisesses...
— Não duvide, que o farei;
Meu senhor, case com ela,
A rainha o fará rei...
— Casar-me?... ainda sou tão moço...
— Como é criança esta ovelha!
Pois eu pra beijar crianças,
Adeusinho, já sou velha.
945
Marcelo Batalha
Naquela Noite
Pareces mais alta do que és
Mais pela alteza que pela altura.
Naquele noite contemplei no teu sorriso
Todo o meu amor arraigado ;
Tentei registrá-lo em vão.
Tu não mereces a foto que tirei...
Me dirigiste poucas palavras, mas
Teus cabelos molhados falaram bastante.
A clara morenice brilhou dentre tantas,
A voz grave fez solo entre os artistas,
O jeito arredio levou a ribalta para o cantinho da sala.
Haja folego ! Juventude madura,
Olhos de diamante, plácida beleza,
Meu mundo está a teus pés !
Mais pela alteza que pela altura.
Naquele noite contemplei no teu sorriso
Todo o meu amor arraigado ;
Tentei registrá-lo em vão.
Tu não mereces a foto que tirei...
Me dirigiste poucas palavras, mas
Teus cabelos molhados falaram bastante.
A clara morenice brilhou dentre tantas,
A voz grave fez solo entre os artistas,
O jeito arredio levou a ribalta para o cantinho da sala.
Haja folego ! Juventude madura,
Olhos de diamante, plácida beleza,
Meu mundo está a teus pés !
807
Antônio Ribeiro dos Santos
Ode Anacreôntica
Amor se queixa
Que está roubado;
Que os farpões, Nize,
Lhe tem furtado.
Em ira aceso,
Qual fero Marte
Te busca, ó Nize,
Por toda a parte.
Ah! tem jurado,
Que se te alcança,
Há de tomar
Crua vingança.
Mas tu não fujas,
De Amor não temas
Nem seta, ou dardo,
Ou vis algemas.
Se ele vier
Com fero ardor,
Põe-te risonha,
Ri-te de Amor.
Desses teus olhos
Com um só mover
O bravo Amor
Podes vencer.
Se contra ti
Os céus armar,
Dos deuses todos
Podes zombar.
Cum só volver
Dos olhos teus
Podes vencer
Amor e os céus.
Que está roubado;
Que os farpões, Nize,
Lhe tem furtado.
Em ira aceso,
Qual fero Marte
Te busca, ó Nize,
Por toda a parte.
Ah! tem jurado,
Que se te alcança,
Há de tomar
Crua vingança.
Mas tu não fujas,
De Amor não temas
Nem seta, ou dardo,
Ou vis algemas.
Se ele vier
Com fero ardor,
Põe-te risonha,
Ri-te de Amor.
Desses teus olhos
Com um só mover
O bravo Amor
Podes vencer.
Se contra ti
Os céus armar,
Dos deuses todos
Podes zombar.
Cum só volver
Dos olhos teus
Podes vencer
Amor e os céus.
1 062
Bastos Portela
Do Nosso Livro
I
Quando acaso, divina, se levanta
Para mim, teu olhar meio e profundo,
Eu penso que outro olhar que tenha tanta
Beleza assim, não haja neste mundo!
Outras vezes com as santas te confundo...
E juro que esse olhar que me quebranta,
Foi, por capricho, feito assim segundo
O modelo do olhar de alguma santa!
Ai! nem sei te dizer como é divino
Esse olhar de celeste e doce encanto
Em que vejo luzir o meu destino...
- Esse olhar ideal de ardentes lumes,
Que eu odeio, maldigo, e adoro tanto
Na confusão do amor e dos ciúmes!
II
Vês?... eu não posso te fitar!... Entanto,
Muitas vezes nos teus meus olhos fito;
Pois nunca vi olhar assim maldito
Que me encantasse e me atraísse tanto!
Fujo-te, as vezes, com rancor; e, enquanto
De ti me esquivo e o teu olhar evito,
Blasfemo, e choro, e me lastimo, aflito,
Por te não ver, ó meu divino encanto...
E volto, enfim! Mas, se outra vez consigo
Fugir ao fogo desse olhar malvado,
Torno a chorar por te não ver comigo!
E vivo assim nesse penas eterno,
- Desse modo vencido e dominado
Por esse amor que mais parece um inferno!
Quando acaso, divina, se levanta
Para mim, teu olhar meio e profundo,
Eu penso que outro olhar que tenha tanta
Beleza assim, não haja neste mundo!
Outras vezes com as santas te confundo...
E juro que esse olhar que me quebranta,
Foi, por capricho, feito assim segundo
O modelo do olhar de alguma santa!
Ai! nem sei te dizer como é divino
Esse olhar de celeste e doce encanto
Em que vejo luzir o meu destino...
- Esse olhar ideal de ardentes lumes,
Que eu odeio, maldigo, e adoro tanto
Na confusão do amor e dos ciúmes!
II
Vês?... eu não posso te fitar!... Entanto,
Muitas vezes nos teus meus olhos fito;
Pois nunca vi olhar assim maldito
Que me encantasse e me atraísse tanto!
Fujo-te, as vezes, com rancor; e, enquanto
De ti me esquivo e o teu olhar evito,
Blasfemo, e choro, e me lastimo, aflito,
Por te não ver, ó meu divino encanto...
E volto, enfim! Mas, se outra vez consigo
Fugir ao fogo desse olhar malvado,
Torno a chorar por te não ver comigo!
E vivo assim nesse penas eterno,
- Desse modo vencido e dominado
Por esse amor que mais parece um inferno!
937
Bastos Portela
Maldita
A uma fidalga egoísta
Passas... E, ao ver-te, a multidão murmura,Numa febril agitação: - "É ela!Como é divina! E que ideal canduraO seu olhar dulcíssimo revela!...
E dizem outros: - "Haverá donzelaQue seja assim tão divinal e pura,Ou que tenha - tão simples e singela! -O mesmo encanto e a mesma formosura?!"
Todos te exalçam, meu amor... Entanto,Ninguém dirá que te maldigo tantoE que no peito, infelizmente, encerro
O desespero atroz de um desvairadoQue luta, em vão, aflito e apaixonado,Para vencer teu coração de ferro!
Passas... E, ao ver-te, a multidão murmura,Numa febril agitação: - "É ela!Como é divina! E que ideal canduraO seu olhar dulcíssimo revela!...
E dizem outros: - "Haverá donzelaQue seja assim tão divinal e pura,Ou que tenha - tão simples e singela! -O mesmo encanto e a mesma formosura?!"
Todos te exalçam, meu amor... Entanto,Ninguém dirá que te maldigo tantoE que no peito, infelizmente, encerro
O desespero atroz de um desvairadoQue luta, em vão, aflito e apaixonado,Para vencer teu coração de ferro!
996
Arthur Fortes
Noite de Estio
Há pelo espaço imenso uma alma sonhadora,
De um artista genial, de um noturno pintor,
Que o seu painel debuxa assim como se fora
Em pleno mês de maio uma campina em flor!
A sua imensa tela é quase que sem cor!...
Fantástico jardim que rápido se enflora
Ao traço magistral do oculto sonhador
Que alvas rosas de luz espalha espaço em fora!
Para realce talvez uns traços carregados,
São por pontos de luz, vivamente rasgados
Aqui, ali, além, nalgum canto vazio!
E todo esse esplendor, e toda essa magia,
Se repetem constante assim que morre o dia
E cai por sobre a terra uma noite de estio.
De um artista genial, de um noturno pintor,
Que o seu painel debuxa assim como se fora
Em pleno mês de maio uma campina em flor!
A sua imensa tela é quase que sem cor!...
Fantástico jardim que rápido se enflora
Ao traço magistral do oculto sonhador
Que alvas rosas de luz espalha espaço em fora!
Para realce talvez uns traços carregados,
São por pontos de luz, vivamente rasgados
Aqui, ali, além, nalgum canto vazio!
E todo esse esplendor, e toda essa magia,
Se repetem constante assim que morre o dia
E cai por sobre a terra uma noite de estio.
843
Antônio Ribeiro da Costa
Soneto
Em salva de esmeralda posta a neve,
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
589
Antônio Nunes de Siqueira
Soneto Acróstico
Voe da fama, ao sempre merecido
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
538
Álvares de Azevedo
Passei ontem a noite
Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...
Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!
Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...
Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!
Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!
3 844