Poemas neste tema
Alma
Hélio Pellegrino
Pai Trinitário
Pai trinitário que me salvaste
Do descaminho, da treva escura,
Perdoa o filho que ainda perdura
Na sua confusa perversidade.
Perdoa o filho, a sua loucura,
Feito de barro, de luz impura,
Perdoa o Filho, de humanidade
Manchado, aflito, na sua cidade
Feita de asfalto, de aço e guindaste.
Todo pecado, levando-o em rubro
Sangue perene, no qual descubro
Meu nome e origem, minha futura
Rede onde, à noite, submerso em sono,
Hei de encontrar-me de novo, dono
Da eternidade, da eternidade.
Do descaminho, da treva escura,
Perdoa o filho que ainda perdura
Na sua confusa perversidade.
Perdoa o filho, a sua loucura,
Feito de barro, de luz impura,
Perdoa o Filho, de humanidade
Manchado, aflito, na sua cidade
Feita de asfalto, de aço e guindaste.
Todo pecado, levando-o em rubro
Sangue perene, no qual descubro
Meu nome e origem, minha futura
Rede onde, à noite, submerso em sono,
Hei de encontrar-me de novo, dono
Da eternidade, da eternidade.
1 249
1
Gregório de Matos
Ao Sanctissimo Sacramento Estando para Comungar
Tremendo chego, meu Deus,
Ante vossa divindade,
que a fé é muito animosa,
mas a culpa mui cobarde.
À vossa mesa divina
como poderei chegar-me,
se é triaga da virtude,
e veneno da maldade?
Como comerei de um pão,
que me dais, porque me salve?
um pão, que a todos dá vida,
e a mim temo, que me mate.
Como não hei de ter medo
de um pão, que é tão formidável
vendo, que estais todo em tudo,
e estais todo em qualquer parte?
Quanto a que o sangue vos beba,
isso não, e perdoai-me:
como quem tanto vos ama,
há de beber-vos o sangue?
Beber o sangue do amigo
é sinal de inimizade;
pois como quereis, que o beba,
para confirmarmos pazes?
Senhor, eu não vos entendo;
vossos preceitos são graves,
vossos juízos são fundos,
vossa idéia inescrutável.
Eu confuso neste caso
entre tais perplexidades
de salvar-me, ou de perder-me,
só sei, que importa salvar-me.
Oh se me déreis tal graça,
que tenho culpas a mares,
me virá salvar na tábua
de auxílios tão eficazes!
É pois já à mesa cheguei,
onde é força alimentar-me
deste manjar, de que os Anjos
fazem seus próprios manjares:
Os Anjos, meu Deus, vos louvem,
que os vossos arcanos sabem,
e os Santos todos da glória,
que, o que vos devem, vos paguem.
Louve-vos minha rudeza,
por mais que sois inefável,
porque se os brutos vos louvam,
será a rudeza bastante.
Todos os brutos vos louvam,
troncos, penhas, montes, vales,
e pois vos louva o sensível,
louve-vos o vegetável,
Ante vossa divindade,
que a fé é muito animosa,
mas a culpa mui cobarde.
À vossa mesa divina
como poderei chegar-me,
se é triaga da virtude,
e veneno da maldade?
Como comerei de um pão,
que me dais, porque me salve?
um pão, que a todos dá vida,
e a mim temo, que me mate.
Como não hei de ter medo
de um pão, que é tão formidável
vendo, que estais todo em tudo,
e estais todo em qualquer parte?
Quanto a que o sangue vos beba,
isso não, e perdoai-me:
como quem tanto vos ama,
há de beber-vos o sangue?
Beber o sangue do amigo
é sinal de inimizade;
pois como quereis, que o beba,
para confirmarmos pazes?
Senhor, eu não vos entendo;
vossos preceitos são graves,
vossos juízos são fundos,
vossa idéia inescrutável.
Eu confuso neste caso
entre tais perplexidades
de salvar-me, ou de perder-me,
só sei, que importa salvar-me.
Oh se me déreis tal graça,
que tenho culpas a mares,
me virá salvar na tábua
de auxílios tão eficazes!
É pois já à mesa cheguei,
onde é força alimentar-me
deste manjar, de que os Anjos
fazem seus próprios manjares:
Os Anjos, meu Deus, vos louvem,
que os vossos arcanos sabem,
e os Santos todos da glória,
que, o que vos devem, vos paguem.
Louve-vos minha rudeza,
por mais que sois inefável,
porque se os brutos vos louvam,
será a rudeza bastante.
Todos os brutos vos louvam,
troncos, penhas, montes, vales,
e pois vos louva o sensível,
louve-vos o vegetável,
2 101
1
Ildásio Tavares
Água Brusca
Eis que de dentro de mim
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.
958
1
Gregório de Matos
Soneto
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.
7 654
1
Hélio Pellegrino
Viagem às Minas
Cicatrizes. Matrizes. Hemoptises. O sol posto,
no rosto lavrado. Escalavrado. A lavra lágrima
decorre, colorada. O escropo cáustico,
amarrado e amargo em punho cego,
prossegue seu trabalho. Em vão me pego
na vertente da areia que me sabe. Eu sou, tu és,
o amplo oceano do céu é uma amplidão parada,
o eterno
roreja tempo na pedra. Ó tempo eterno
da pedra, fundado e decifrado,
mais que a barca de Pedro, pedra viva
vivendo o seu silêncio — água múrmura.
À luz da tarde
verte seus ecos e mistérios,
nas montanhas tamanhas. Arde a tarde,
e a tarde arde. É tarde, é noite, é foice, é antemanhã.
O arco-íris,
suscitado em sua cova, ressuscita. Lua nova e sol posto
nascem do mesmo estojo. Pojo. Bojo. Sangradouro
de minérios domados. Esses gados.
no rosto lavrado. Escalavrado. A lavra lágrima
decorre, colorada. O escropo cáustico,
amarrado e amargo em punho cego,
prossegue seu trabalho. Em vão me pego
na vertente da areia que me sabe. Eu sou, tu és,
o amplo oceano do céu é uma amplidão parada,
o eterno
roreja tempo na pedra. Ó tempo eterno
da pedra, fundado e decifrado,
mais que a barca de Pedro, pedra viva
vivendo o seu silêncio — água múrmura.
À luz da tarde
verte seus ecos e mistérios,
nas montanhas tamanhas. Arde a tarde,
e a tarde arde. É tarde, é noite, é foice, é antemanhã.
O arco-íris,
suscitado em sua cova, ressuscita. Lua nova e sol posto
nascem do mesmo estojo. Pojo. Bojo. Sangradouro
de minérios domados. Esses gados.
1 375
1
Ilídio Rocha
Poema
Pés descalços
pisam caminhos de areia
Pés descalços
pisam sujos caminhos de areia
Pés cansados negros e descalços
pisam tristes sujos caminhos de areia
Pés negros
pisam tristes caminhos da vida
pisam caminhos de areia
Pés descalços
pisam sujos caminhos de areia
Pés cansados negros e descalços
pisam tristes sujos caminhos de areia
Pés negros
pisam tristes caminhos da vida
2 180
1
José Blanc de Portugal
Oração Final
Poesia! Sem esperar voltei meu canto que é teu
As coisas de meu Pai que são as pobres criaturas
Caminhando a par de mim pelas ruas da amargura
Disfarçando mais do que eu a certeza que as leis tuas
Nada têm que ver com a minha piedade de evitarem
Cada maior dor seguindo à menos dura.
Deus Pai pudesse eu como Vosso Filho
Como irmão de Cristo, imolar-se só sem perder alguém
— Sem ter que fechar ouvidos ao Espírito Vosso
Cada instante inundando-me de luz! —
Sem vós tudo é impossível.
Sem mim tudo seria igual,
Mas fazei que meus iguais
Não sejam como eu tão miseráveis:
Crendo em Vós, sabendo-vos as provas,
mostro-me pior que os que vos esquecem!
A vossa Lei, a vossa marca não se
apagou de cada poro da minha pele
Dai-me a força de ajudar a todos com
um sopro do teu Ser que bastará
Pra todos e pra mim.
Fico na angústia da vossa perdida Graça.
Perdoai-me! Perdoai como eu devo perdoar!!
Fazei que eu perdoe!
Fazei-nos os Santos que Vos devemos!
As coisas de meu Pai que são as pobres criaturas
Caminhando a par de mim pelas ruas da amargura
Disfarçando mais do que eu a certeza que as leis tuas
Nada têm que ver com a minha piedade de evitarem
Cada maior dor seguindo à menos dura.
Deus Pai pudesse eu como Vosso Filho
Como irmão de Cristo, imolar-se só sem perder alguém
— Sem ter que fechar ouvidos ao Espírito Vosso
Cada instante inundando-me de luz! —
Sem vós tudo é impossível.
Sem mim tudo seria igual,
Mas fazei que meus iguais
Não sejam como eu tão miseráveis:
Crendo em Vós, sabendo-vos as provas,
mostro-me pior que os que vos esquecem!
A vossa Lei, a vossa marca não se
apagou de cada poro da minha pele
Dai-me a força de ajudar a todos com
um sopro do teu Ser que bastará
Pra todos e pra mim.
Fico na angústia da vossa perdida Graça.
Perdoai-me! Perdoai como eu devo perdoar!!
Fazei que eu perdoe!
Fazei-nos os Santos que Vos devemos!
1 366
1
Helena Parente Cunha
Percurso
Corolas
malogradas
defluímos na caudal
margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos
e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos
malogradas
defluímos na caudal
margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos
e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos
1 319
1
Helena Parente Cunha
Anel de Vidro
sob os arcos das arcadas
ocultei o meu anel
o anel que não te dei
sob o arco do arco-íris
armei a rede encantada
para o meu sono de vidro
por sobre as cordas em arco
recordei remotos tons
refleti perdidos fios
acordo sem meu anel
ecoei na última cor
me arqueio quebrado vidro
ocultei o meu anel
o anel que não te dei
sob o arco do arco-íris
armei a rede encantada
para o meu sono de vidro
por sobre as cordas em arco
recordei remotos tons
refleti perdidos fios
acordo sem meu anel
ecoei na última cor
me arqueio quebrado vidro
1 286
1
Isabel Vilhena
A Árvore
O pequenino vegetal que agora
Acabas de plantar, a vida encerra.
Sob as carícias maternais da aurora,
Ele há de erguer-se, em flores, sobre a terra.
Plantaste o lume e o mastro das bandeiras,
Plantaste o fruto, a sombra dos caminhos
E o repouso das horas derradeiras!...
Deste um novo aposento aos passarinhos!
Plantaste o berço. E, assim, essa alegria
Que à nossa vida todo o encanto empresta,
E até mesmo, o perfume que, num dia,
Hás de levar no lenço para a festa.
E quanta coisa mais há de te dar,
Pedindo em paga, apenas que a protejas!
Sob as bênçãos do céu, a farfalhar,
Tesouro vegetal, bendito sejas!
Acabas de plantar, a vida encerra.
Sob as carícias maternais da aurora,
Ele há de erguer-se, em flores, sobre a terra.
Plantaste o lume e o mastro das bandeiras,
Plantaste o fruto, a sombra dos caminhos
E o repouso das horas derradeiras!...
Deste um novo aposento aos passarinhos!
Plantaste o berço. E, assim, essa alegria
Que à nossa vida todo o encanto empresta,
E até mesmo, o perfume que, num dia,
Hás de levar no lenço para a festa.
E quanta coisa mais há de te dar,
Pedindo em paga, apenas que a protejas!
Sob as bênçãos do céu, a farfalhar,
Tesouro vegetal, bendito sejas!
1 069
1
H. Masuda Goga
Primavera
Um bem-te-vi na árvore,
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...
Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...
Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...
1 036
1
Francisco Orban
Pó de Tardes
Cansei de ti
pra ti oferto
as coisas descidas
da cruz do tédio:
meu delírio de Carlitos
embriagado
um pó de tardes
com lua
uma utopia de espanto.
e se isso não te bastar
te entrego o silêncio
do mar
A tarde encantada
de um país proscrito
o rítmo dos buzios
e das bailarinas
pra ti oferto
as coisas descidas
da cruz do tédio:
meu delírio de Carlitos
embriagado
um pó de tardes
com lua
uma utopia de espanto.
e se isso não te bastar
te entrego o silêncio
do mar
A tarde encantada
de um país proscrito
o rítmo dos buzios
e das bailarinas
901
1
Jorge Barros Duarte
Menino de Timor
Menino de Timor, estás triste?!...
Porquê?!... - Não tenho com quem brincar!
Nem com quem!... Já nem posso falar!...
A minha terra correste e viste
Como só há silêncio e tristeza!...
Assim é na palhota que habito!...
Já nem oiço na várzea um só grito!...
Só vejo gente que chora e reza!...
Que saudade que eu tenho dos jogos
Da minha aldeia agora deserta!...
O "Lao-rai", que a memória esperta,
Coas pocinhas na terra, ora a fogos
Mil sujeita!... O "caleic" também era
jogo apreciado da pequenada:
"Hana-caleic"!... de tudo já nada
Resta agora!... Só vejo essa fera
De garra adunca e dente aguçado
A rugir tão feroz que ninguém
A doma já, pois tem medo não tem
De um povo à fome, sem horta ou gado!...
Menino, sou, mas sofro já tanto
Como se fora de muita idade
E coa alma cheia só de maldade!...
Jesus, tem pena deste meu pranto!...
Jesus Menino, dá-me alegria!...
Se na minha terra é tudo tão triste!...
Gente tão má neste mundo existe?!...
Coisas assim tão ruins?!... Não sabia!...
Porquê?!... - Não tenho com quem brincar!
Nem com quem!... Já nem posso falar!...
A minha terra correste e viste
Como só há silêncio e tristeza!...
Assim é na palhota que habito!...
Já nem oiço na várzea um só grito!...
Só vejo gente que chora e reza!...
Que saudade que eu tenho dos jogos
Da minha aldeia agora deserta!...
O "Lao-rai", que a memória esperta,
Coas pocinhas na terra, ora a fogos
Mil sujeita!... O "caleic" também era
jogo apreciado da pequenada:
"Hana-caleic"!... de tudo já nada
Resta agora!... Só vejo essa fera
De garra adunca e dente aguçado
A rugir tão feroz que ninguém
A doma já, pois tem medo não tem
De um povo à fome, sem horta ou gado!...
Menino, sou, mas sofro já tanto
Como se fora de muita idade
E coa alma cheia só de maldade!...
Jesus, tem pena deste meu pranto!...
Jesus Menino, dá-me alegria!...
Se na minha terra é tudo tão triste!...
Gente tão má neste mundo existe?!...
Coisas assim tão ruins?!... Não sabia!...
3 309
1
Fábio Afonso de Almeida
Madrugada
Que noite estranha aquela.
Vagando sozinho pelas ruas
Sentia ainda na carne teu calor
E no cérebro a dureza das tuas palavras.
A lua pálida, distante
Parecia patética e indiferente
A saltar de beiral em beiral
No cimo das casas antigas.
Parecia zombar:
Vai, seu cabeça oca, vai novamente
Vai encontrar a solidão que te persegue
Chorar mais uma vez o abandono.
Quem te mandou sonhar?
Vagando sozinho pelas ruas
Sentia ainda na carne teu calor
E no cérebro a dureza das tuas palavras.
A lua pálida, distante
Parecia patética e indiferente
A saltar de beiral em beiral
No cimo das casas antigas.
Parecia zombar:
Vai, seu cabeça oca, vai novamente
Vai encontrar a solidão que te persegue
Chorar mais uma vez o abandono.
Quem te mandou sonhar?
794
1
Esmeralda Santos
Paisagem do Alentejo
Deserta a estrada. O sol, a pino, abrasa.
Luz, um deslumbramento!
Cortou a solidão um bater de asa
E um velho em seu jumento...
Vamos andando. Na extensão imensa
Perde-se em nosso olhar...
Nenhuma variante. À luz intensa,
Longe... um monte a alvejar...
E sempre, em fatigante simetria,
Oliveiras curvadas,
Rugosas, semelhando à luz do dia
Velhas encarquilhadas.
Só planície monótona e igual
O nosso olhar avista;
E o sol, num monte, a dardejar na cal,
Deslumbra... fere a vista.
Surgem agora, em curva harmoniosa,
Os cerros, as colinas.
Há na paz doce, triste e religiosa,
Unções quase divinas!
Retrocedemos. Sempre a sensação
Do só e da tristeza...
Mas deu a imensidade ao coração
Mais calma e mais grandeza!
À luz poente os cerros oferecem
Mil reverberações:
Tons fortes de violeta, que esmorecem
Em róseas gradações.
Deus! a que veio a minha nostalgia
A esta imensidade?
É grande, eu sei, mas dá-me uma agonia
O horror da eternidade!
(Lisboa, 1934)
Luz, um deslumbramento!
Cortou a solidão um bater de asa
E um velho em seu jumento...
Vamos andando. Na extensão imensa
Perde-se em nosso olhar...
Nenhuma variante. À luz intensa,
Longe... um monte a alvejar...
E sempre, em fatigante simetria,
Oliveiras curvadas,
Rugosas, semelhando à luz do dia
Velhas encarquilhadas.
Só planície monótona e igual
O nosso olhar avista;
E o sol, num monte, a dardejar na cal,
Deslumbra... fere a vista.
Surgem agora, em curva harmoniosa,
Os cerros, as colinas.
Há na paz doce, triste e religiosa,
Unções quase divinas!
Retrocedemos. Sempre a sensação
Do só e da tristeza...
Mas deu a imensidade ao coração
Mais calma e mais grandeza!
À luz poente os cerros oferecem
Mil reverberações:
Tons fortes de violeta, que esmorecem
Em róseas gradações.
Deus! a que veio a minha nostalgia
A esta imensidade?
É grande, eu sei, mas dá-me uma agonia
O horror da eternidade!
(Lisboa, 1934)
1 039
1
Elisa Lucinda
Aviso da Lua que Menstrua
Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
3 392
1
Ernani Sátyro
A Companheira
A Antonietta
Aos ventos entreguei as minhas ânsias;
Os ventos passaram, as ânsias ficaram.
Aos mares entreguei as esperanças,
Que pelo menos nas cores são iguais:
As esperanças os mares as tragaram.
Aos pássaros entreguei meu canto:
Eles cantaram, mas não meu canto
E sim o deles.
Aos filhos confiei os compromissos:
Eles disseram que já tinham os seus.
Falei aos netos:
Eles responderam
Que bastava o que os pais já lhes diziam.
Falei a meus amigos:
Tornaram-se inimigos.
Falei ao mundo:
O mundo se fechou.
Restou só a companheira, que me disse:
- Vamos, nós ainda temos força!
Aos ventos entreguei as minhas ânsias;
Os ventos passaram, as ânsias ficaram.
Aos mares entreguei as esperanças,
Que pelo menos nas cores são iguais:
As esperanças os mares as tragaram.
Aos pássaros entreguei meu canto:
Eles cantaram, mas não meu canto
E sim o deles.
Aos filhos confiei os compromissos:
Eles disseram que já tinham os seus.
Falei aos netos:
Eles responderam
Que bastava o que os pais já lhes diziam.
Falei a meus amigos:
Tornaram-se inimigos.
Falei ao mundo:
O mundo se fechou.
Restou só a companheira, que me disse:
- Vamos, nós ainda temos força!
1 078
1
Fernanda de Castro
Os Anos São Degraus
Os anos são degraus; a vida, a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.
São vários os degraus: alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais;
alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.
Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.
Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da estrada
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
— e nada mais?
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.
São vários os degraus: alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais;
alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.
Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.
Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da estrada
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
— e nada mais?
2 657
1
Dora Ferreira da Silva
Habitas meu coração:
Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.
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Dora Ferreira da Silva
Alguém
Alguém desfecha a flecha do vôo:
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.
reflexo no vidro onde a chuva
penteia os cabelos.
Cantiva de muitas lágrimas
dos suspiros do vento
nesta casa pousada na montanha
aguardo criança flor anjo ou passaro.
Pensamentos alígeros - andorinhas
nos aguaceiros de verão
traçam oblíquas, desaparecem
no céu que escurece.
Abraçada à minha alma
não sinto o tempo latejar por perto.
O incerto longe é a minha vocação.
O longe do longe onde talvez
estás sempre em despedida
do invólucro que não te retém. E eu
sempre atrás do aceno teu
do aroma que te esquece e se esvai.
Se um lenço de fino linho
se desprendesse de teus dedos (sonho meu)
o caçaria como a um pássaro
que longe vivia
e me pertencia.
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1
Fernando Pessoa
Nada fica de nada. Nada somos. [2]
Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.
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1
Elisa Lucinda
Um Bonde Chamado seu Beijo
Quem encobrirá meu sono?
Beijará quem minhas costas no cotidiano?
Quem, no meio do frio, me cobrirá com lindas orelhas
e me dirá palavras indecentes nos ouvidos?
Quem, atrevido, me acordará com o ponteiro em riste
como um pássaro que não quer tudo
apenas o céu, a gaiola, o alpiste?
Quem que, quando eu dormisse, por mim zelasse
e eu, quando acordasse, lhe fizesse iogurtes brejeiros
massagens nos pés, cumplicidades de enlace?
Quem me agarrará por trás quando eu sair cheirosa do banho
e terá orgulho de eu ser guerreira e perfumada ao mesmo tempo?
Quem em bom senso dirá que muito me assanho
quem orientará a guerrilha diária a que me proponho
quem será inteligente e gostoso a meu lado como está no meu sonho?
Quem, a quem me disponho a cozinhar e fazer versos
quem racional e perverso cochichará nos tímpanos da minha alma
a doce ordem, a venal palavra: Calma?
Quem com sua alma me mostrará um mar vertical?
Quem, meu igual, me apontará andores reais, sem excesso de glacê no bolo
Com determinação de touro e a nobreza de poder ser banal?
Quem, coisa e tal, me beijará a boca e me enfiará as mãos
por debaixo da barra do segredo do vestido
e um dia passeará comigo no segredo contido na Barra do Jucu?
Quem, senão tu que eu elejo, eu planejo, pode habitar o lugar
a suíte que há tanto tenho reservado?
Quem, encomendado, pode me manter na confiança dos edredons
enquanto não chega?
Quem, com certeza, me visitará num outubourbon no gume da lira
de eu ser égua, cadela, mulher e sua?
Quem sobre mim sua, pinga, chove?
Quem que com lucidez resolve o abismo simples de prever o risco de sonhar
pra nele mesmo cair, rir
e se embolar?
Quem me dará a idéia de conceber a saudade no sentido tático
quem, não estático, de longe me fará cometer poemas de meia-noite?
Quem, sem favor, me estende o braço com rosas na mão
com explicação pro meu calor?
Quem, senão meu doido bondinho
meus olhos acesinhos, meu comedor...
Meu triz, meu risco
meu cristo redentor?
Beijará quem minhas costas no cotidiano?
Quem, no meio do frio, me cobrirá com lindas orelhas
e me dirá palavras indecentes nos ouvidos?
Quem, atrevido, me acordará com o ponteiro em riste
como um pássaro que não quer tudo
apenas o céu, a gaiola, o alpiste?
Quem que, quando eu dormisse, por mim zelasse
e eu, quando acordasse, lhe fizesse iogurtes brejeiros
massagens nos pés, cumplicidades de enlace?
Quem me agarrará por trás quando eu sair cheirosa do banho
e terá orgulho de eu ser guerreira e perfumada ao mesmo tempo?
Quem em bom senso dirá que muito me assanho
quem orientará a guerrilha diária a que me proponho
quem será inteligente e gostoso a meu lado como está no meu sonho?
Quem, a quem me disponho a cozinhar e fazer versos
quem racional e perverso cochichará nos tímpanos da minha alma
a doce ordem, a venal palavra: Calma?
Quem com sua alma me mostrará um mar vertical?
Quem, meu igual, me apontará andores reais, sem excesso de glacê no bolo
Com determinação de touro e a nobreza de poder ser banal?
Quem, coisa e tal, me beijará a boca e me enfiará as mãos
por debaixo da barra do segredo do vestido
e um dia passeará comigo no segredo contido na Barra do Jucu?
Quem, senão tu que eu elejo, eu planejo, pode habitar o lugar
a suíte que há tanto tenho reservado?
Quem, encomendado, pode me manter na confiança dos edredons
enquanto não chega?
Quem, com certeza, me visitará num outubourbon no gume da lira
de eu ser égua, cadela, mulher e sua?
Quem sobre mim sua, pinga, chove?
Quem que com lucidez resolve o abismo simples de prever o risco de sonhar
pra nele mesmo cair, rir
e se embolar?
Quem me dará a idéia de conceber a saudade no sentido tático
quem, não estático, de longe me fará cometer poemas de meia-noite?
Quem, sem favor, me estende o braço com rosas na mão
com explicação pro meu calor?
Quem, senão meu doido bondinho
meus olhos acesinhos, meu comedor...
Meu triz, meu risco
meu cristo redentor?
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Fernanda Benevides
Mensagem
Não sei se o vento te levou o recado;
o sol te envolveu com o calor do meu abraço
ou a lua falou do amor,
daquele amor que ainda que ainda guardo...
Reclamo-te nos horizontes em que, em vão, te busco.
Caminhos falam de desencontro.
O mar chora o argonauta que se afastou do cais...
Muitas pontes. Rios.
Nenhuma travessia...
Triste paisagem.
Apelos transcendentais não são ouvidos...
Telepatia não responde.
Como mandar-te uma mensagem? Em verso?
E o reverso?
Penso em out door ... Classificados dos jornais...
Como falar-te? Difícil encontrar-te...
... e fico assim, sem saber-te,
a sonhar-te...
o sol te envolveu com o calor do meu abraço
ou a lua falou do amor,
daquele amor que ainda que ainda guardo...
Reclamo-te nos horizontes em que, em vão, te busco.
Caminhos falam de desencontro.
O mar chora o argonauta que se afastou do cais...
Muitas pontes. Rios.
Nenhuma travessia...
Triste paisagem.
Apelos transcendentais não são ouvidos...
Telepatia não responde.
Como mandar-te uma mensagem? Em verso?
E o reverso?
Penso em out door ... Classificados dos jornais...
Como falar-te? Difícil encontrar-te...
... e fico assim, sem saber-te,
a sonhar-te...
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Fernanda de Castro
Perdão
Aqui me tens, meu Deus, em confissão.
Não roubei. Não matei. Não caluniei.
Mas nem sempre segui a tua lei,
nem sempre fui a irmã do meu irmão.
Não recusei aos outros o meu pão.
Amor, algumas vezes, recusei.
Mas por tudo o que dei e o que não dei,
eu te peço, meu Deus, o meu perdão.
Perdão para os meus pecados conscientes
e para os meus pecados inocentes,
para o mal que já fiz e ainda fizer ...
Perdão para esta culpa original,
para este longo e complicado mal:
o crime sem perdão de ser mulher.
Não roubei. Não matei. Não caluniei.
Mas nem sempre segui a tua lei,
nem sempre fui a irmã do meu irmão.
Não recusei aos outros o meu pão.
Amor, algumas vezes, recusei.
Mas por tudo o que dei e o que não dei,
eu te peço, meu Deus, o meu perdão.
Perdão para os meus pecados conscientes
e para os meus pecados inocentes,
para o mal que já fiz e ainda fizer ...
Perdão para esta culpa original,
para este longo e complicado mal:
o crime sem perdão de ser mulher.
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