Poemas neste tema
Alma
Afonso X
Deus Te Salve, Gloriosa
Deus te salve, Gloriosa,
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te, que concebiste
mui contra natura,
e pois teu padre pariste
e ficaste pura
virgem, e por en sobiste
sobre'la altura
dos ceos, porque quesiste
o que El queria.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te, que enchoíste
Deus gram sem mesura
em ti, e dele feziste
hom'e creatura:
esto foi porque houviste
gram sem e cordura
em creer quando oíste
sa messageria.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te Deus, ca nos diste,
em nossa figura,
o seu Filho, que trouxiste,
de gram fremosura,
e com El nos remiiste
da mui gram loucura
que fez Eva, e venciste
o que nos vencia.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te Deus, ca tolhiste
de nós gram tristura
u por teu filho frangiste
a cárcer escura
u íamos, e metiste
nos em gram folgura;
com quanto bem nos viíste,
quen'o contaria?
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te, que concebiste
mui contra natura,
e pois teu padre pariste
e ficaste pura
virgem, e por en sobiste
sobre'la altura
dos ceos, porque quesiste
o que El queria.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te, que enchoíste
Deus gram sem mesura
em ti, e dele feziste
hom'e creatura:
esto foi porque houviste
gram sem e cordura
em creer quando oíste
sa messageria.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te Deus, ca nos diste,
em nossa figura,
o seu Filho, que trouxiste,
de gram fremosura,
e com El nos remiiste
da mui gram loucura
que fez Eva, e venciste
o que nos vencia.
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via.
Salve-te Deus, ca tolhiste
de nós gram tristura
u por teu filho frangiste
a cárcer escura
u íamos, e metiste
nos em gram folgura;
com quanto bem nos viíste,
quen'o contaria?
Deus te salve, groriosa
reinha Maria,
lume dos santos fremosa
e dos ceos via
889
João Soares Coelho
A158 Em grave dia
Em grave dia, senhor, que vos vi,
por mi e por quantos me querem bem!
E por Deus, senhor, que vos nom pês en!
E direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund'e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mim.
E, mia senhor, mal dia eu naci
por tod'este mal que me por vós vem!
Ca per vós perdi tod'est'e o sem
e quisera morrer e nom morri;
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh'eu mereci.
Ena mia coita, pero vos pesar
seja, senhor, já quê vos falarei,
ca nom sei se me vos ar veerei:
tanto me vej'em mui gram coit'andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor, nom vos éste mal,
ca polo meu nom vos venh'eu rogar.
E ar quero-vos ora conselhar,
per bõa fé, o melhor que eu sei
- metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for,
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim por vós, se vos matar.
E de tal preço guarde-vos vós Deus,
senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós en nom quiserdes guardar!
por mi e por quantos me querem bem!
E por Deus, senhor, que vos nom pês en!
E direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund'e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mim.
E, mia senhor, mal dia eu naci
por tod'este mal que me por vós vem!
Ca per vós perdi tod'est'e o sem
e quisera morrer e nom morri;
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh'eu mereci.
Ena mia coita, pero vos pesar
seja, senhor, já quê vos falarei,
ca nom sei se me vos ar veerei:
tanto me vej'em mui gram coit'andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor, nom vos éste mal,
ca polo meu nom vos venh'eu rogar.
E ar quero-vos ora conselhar,
per bõa fé, o melhor que eu sei
- metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for,
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim por vós, se vos matar.
E de tal preço guarde-vos vós Deus,
senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós en nom quiserdes guardar!
752
Afonso Mendes de Besteiros
Per Boa Fé, Nom Sabem Nulha Rem
Per boa fé, nom sabem nulha rem
das mias coitas os que me vam poer
culpa de m'eu mui cativo fazer
em meus cantares, tanto sei eu bem;
nem sabem qual coita mi faz sofrer
esta senhor que me tem em poder.
[...]
das mias coitas os que me vam poer
culpa de m'eu mui cativo fazer
em meus cantares, tanto sei eu bem;
nem sabem qual coita mi faz sofrer
esta senhor que me tem em poder.
[...]
571
Virgílio Martinho
Fetal
Fetal dentro do escuro da mãe,
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
1 021
Afonso Mendes de Besteiros
Oimais Quer'eu Punhar de Me Partir
Oimais quer'eu punhar de me partir
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.
E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!
E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.
E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!
E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
494
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 120
Afonso X
Bem Sabia Eu, Mia Senhor
Bem sabia eu, mia senhor,
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
nunca lh'homem pod'achar.
E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
quantos som, nem seeram.
Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
vós que [já] sempr'am[ar]ei.
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
nunca lh'homem pod'achar.
E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
quantos som, nem seeram.
Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
vós que [já] sempr'am[ar]ei.
899
Afonso Mendes de Besteiros
Cativ'! E Sempre Cuidarei?
Cativ'! E sempre cuidarei?
E cuido, se Deus mi perdom!
Ar cuido no meu coraçom
que já per cuidar morrerei;
e cuido muit'em mia senhor,
ar cuid'em haver seu amor.
[...]
E cuido, se Deus mi perdom!
Ar cuido no meu coraçom
que já per cuidar morrerei;
e cuido muit'em mia senhor,
ar cuid'em haver seu amor.
[...]
649
Afonso Mendes de Besteiros
Oimais Nom Há Rem Que Mi Gradecer
Oimais nom há rem que mi gradecer
a mi a mui fremosa mia senhor
de a servir já, mentr'eu vivo for,
ca, de pram, assi me tem em poder
que nom poss'end'o coraçom partir;
e pero mi pês, hei-a já de servir.
[...]
a mi a mui fremosa mia senhor
de a servir já, mentr'eu vivo for,
ca, de pram, assi me tem em poder
que nom poss'end'o coraçom partir;
e pero mi pês, hei-a já de servir.
[...]
641
Afonso X
Ai Eu Coitada, Como Vivo Em Gram Cuidado
Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que hei alongado;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
por meu amigo que hei alongado;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
1 472
Afonso Lopes de Baião
Ir Quer'hoj'eu, Fremosa, de Coraçom
Ir quer'hoj'eu, fremosa, de coraçom,
por fazer romaria e oraçom
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
Des que s[e ele] foi, nunca vi prazer,
e quer'hoj'ir, fremosa, polo veer,
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
Nunca serei [eu] leda, se o nom vir,
e por esto, fremosa, quer'ora ir
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
por fazer romaria e oraçom
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
Des que s[e ele] foi, nunca vi prazer,
e quer'hoj'ir, fremosa, polo veer,
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
Nunca serei [eu] leda, se o nom vir,
e por esto, fremosa, quer'ora ir
a Santa Maria das Leiras,
pois [o] meu amigo i vem.
727
Afonso Mendes de Besteiros
Coitado Vivo, Há Mui Gram Sazom
Coitado vivo, há mui gram sazom,
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
693
Afonso Lopes de Baião
Disserom-Mi Uas Novas de Que M'é Mui Gram Bem
Disserom-mi ũas novas de que m'é mui gram bem:
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
657
Virgílio Martinho
A Bebida Branca
A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 162
Afonso X
Par Deus, Senhor,
Par Deus, senhor,
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
penado, penado.
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
penado, penado.
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
penado, penado.
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
penado, penado.
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.
375
Afonso Lopes de Baião
Madre, Des Que Se Foi Daqui
Madre, des que se foi daqui
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
756
Afonso Mendes de Besteiros
Senhor Fremosa, Vejo-Me Morrer
Senhor fremosa, vejo-me morrer;
e a mi praz, e mui de coraçom,
co'a mia mort', assi Deus mi perdom,
por aquesto que vos quero dizer:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
Per bõa fé, de mia mort'hei sabor,
e bem vos juro que há gram sazom
que rog'a Deus por mort', e por al nom,
por aquesto que vos digo, senhor:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E, per bõa fé, gram sabor per hei
com mia morte, per quant'eu entendi
que vos prazia; e pois est assi,
muito mi praz polo que vos direi:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en.
Ca de viver mais nom m'era mester;
e praz-mi muit'em morrer des aqui
por vós. E tenho que mi Deus [faz] i
bem, mia senhor, polo que vos disser:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E bem vos juro, senhor, que m'é bem
co'[a] mia morte, pois a vós praz en.
e a mi praz, e mui de coraçom,
co'a mia mort', assi Deus mi perdom,
por aquesto que vos quero dizer:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
Per bõa fé, de mia mort'hei sabor,
e bem vos juro que há gram sazom
que rog'a Deus por mort', e por al nom,
por aquesto que vos digo, senhor:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E, per bõa fé, gram sabor per hei
com mia morte, per quant'eu entendi
que vos prazia; e pois est assi,
muito mi praz polo que vos direi:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en.
Ca de viver mais nom m'era mester;
e praz-mi muit'em morrer des aqui
por vós. E tenho que mi Deus [faz] i
bem, mia senhor, polo que vos disser:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E bem vos juro, senhor, que m'é bem
co'[a] mia morte, pois a vós praz en.
729
Afonso Mendes de Besteiros
Amigos, Nunca Mereceu
Amigos, nunca mereceu
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
826
Mário-Henrique Leiria
facto diverso
Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)
716
Wanda Ramos
E correram os rios
Correram como rios as palavras
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
655
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
720
Manuel da Silva Gaio
Soneto de Amor
Ainda o mundo uma vez lembre, Senhora,
Aquele ermo abandono e sorte escura
Do verme que morreu na vã tortura
De certa Estrela amar - tão alta embora!
Porque desde que sinto, como agora,
Quanto de mim sois longe - Astro da Altura! -
Com sua inconsolável desventura
A minha já comparo, a cada hora.
Maior é, todavia, o meu quinhão
Na mágoa semelhante: se jamais,
De mudo,espalhou ele a próprio dor,
Inutilmente vara a solidão
A queixa que me ouvis, pois duvidais
De que eu também por vós morra de amor.
Aquele ermo abandono e sorte escura
Do verme que morreu na vã tortura
De certa Estrela amar - tão alta embora!
Porque desde que sinto, como agora,
Quanto de mim sois longe - Astro da Altura! -
Com sua inconsolável desventura
A minha já comparo, a cada hora.
Maior é, todavia, o meu quinhão
Na mágoa semelhante: se jamais,
De mudo,espalhou ele a próprio dor,
Inutilmente vara a solidão
A queixa que me ouvis, pois duvidais
De que eu também por vós morra de amor.
886
Mário-Henrique Leiria
Não me chamem senhor
Não me chamem senhor
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
643
Virgílio Martinho
O Desenho do Corpo
Na palma da mão tenho um insecto,
Na arca do peito um coração,
Na curva do ventre uma teia.
Duas estradas são os meus braços,
Dois ramos as minhas pernas,
Vivo no espaço do tempo.
Na minha pele há uma história,
Feita de antigos sinais,
Cada um deles é um rosto.
Meus dedos são alicates,
Máquinas do ofício de viver,
Por eles sei o nome do amor.
Os olhos, esses, sempre o disse,
São espelhos que se mostram,
Quando os uso prolongo o canto.
A minha auréola são os cabelos,
Coroa de quem se oculta,
Manto sedoso, duna do corpo.
Com os lábios beijo, urdo os sentidos,
A saliva é o líquido que escorre
E cativa o desejo de quem quero.
Em mim tenho a página do segredo,
O impulso do mistério inteiro,
Do canto a que me dou, dando-me.
Na arca do peito um coração,
Na curva do ventre uma teia.
Duas estradas são os meus braços,
Dois ramos as minhas pernas,
Vivo no espaço do tempo.
Na minha pele há uma história,
Feita de antigos sinais,
Cada um deles é um rosto.
Meus dedos são alicates,
Máquinas do ofício de viver,
Por eles sei o nome do amor.
Os olhos, esses, sempre o disse,
São espelhos que se mostram,
Quando os uso prolongo o canto.
A minha auréola são os cabelos,
Coroa de quem se oculta,
Manto sedoso, duna do corpo.
Com os lábios beijo, urdo os sentidos,
A saliva é o líquido que escorre
E cativa o desejo de quem quero.
Em mim tenho a página do segredo,
O impulso do mistério inteiro,
Do canto a que me dou, dando-me.
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