Poemas neste tema
Alma
Bessie Head
Autorretrato
Idealista
E, no fundo,
Apática e indiferente
Minhoca,
Lançando-se, tremente,
Gaguejando, em hesitação,
Firme, irresponsável, impaciente,
Estática, plácida,
Sem direção certa,
Com direção certa,
Isolada, como destroço
Na rebentação do oceano em ressaca,
Lançada à crista de uma onda
Altissonante e desorientadora,
Engolfada nas profundezas anônimas,
Ah! contradição
ISTO eu sou.
667
Patrícia Galvão
Canal
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
956
Paulo Colina
Espreita noturna
Tem sempre algo
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
1 046
Jean-Baptiste Tati Loutard
Notícias de minha mãe
Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
.
.
940
Jaroslav Seifert
Vi apenas uma vez
Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronômico
e hoje sei o porquê.
O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
por muito tempo esperado
e lábios
que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.
(tradução de Aleksandar Jovanovic)
1 004
Sosigenes Costa
A Cabeleira da Musa
No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
998
Jaroslav Seifert
Retrato molhado
Aqueles dias lindos
quando a cidade parece um dado, um hino, um ventilador
ou uma concha de vieira à beira-mar
– tchau, tchau, belas garotas,
nos conhecemos hoje
e não nos veremos nunca mais.
Os domingos lindos
quando a cidade parece um futebol, um cartão e uma ocarina
ou um sino indo e vindo
– na rua ensolarada
as sombras dos passantes se beijavam
e eles seguiam, completos desconhecidos.
Aquelas noites lindas
quando a cidade parece uma rosa, um tabuleiro de xadrez, um violino
ou uma garota chorando
– no bar jogávamos dominó, dominó de bolas pretas, com as garotas magrelas,
olhando para seus joelhos
que eram esquálidos
feito dois crânios com as coroas de seda das cinta-ligas
no reino desesperado do amor.
(tradução de Marília Garcia).
1 181
Sandro Penna
O mar é todo azul
O mar é todo azul.
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
1 097
Tchicaya U Tam'si
Através de tempo e rio
Um dia será preciso se pôr
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
:
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
920
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
936
Christopher Okigbo
Amor à distância
A lua
Ergueu-se entre nós,
Entre dois pinhos
Que se inclinam um ao outro;
O amor ergueu-se com a lua,
Alimentou-se de nossos caules solitários;
E agora nós somos sombras
Que se prendem uma à outra,
Mas beijam apenas ar.
(tradução de Ricardo Domeneck)
Ergueu-se entre nós,
Entre dois pinhos
Que se inclinam um ao outro;
O amor ergueu-se com a lua,
Alimentou-se de nossos caules solitários;
E agora nós somos sombras
Que se prendem uma à outra,
Mas beijam apenas ar.
(tradução de Ricardo Domeneck)
1 108
Maura Lopes Cançado
permitam-me destruir o livro do Sagan
1
pausa:
permitam-me destruir o livro do Sagan.
É a seda pura que deve nos envolver; ter
música, no momento do beijo.
Inclinada, a rosa lembrará a brisa,
as grades rendadas, o jardim.
Além do mar, outros casais existem.
A noite nos destrói pelas esquinas (repetindo-se
e envelhecendo como almas.
2
Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh'alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?
3
Fizeram muros altos cinzentos,
esconderam a terra; mas o quadrado azul está presente -
sempre.
Senhora rainha do Egito, dai-me pálpebras pesadas
de mistérios piramidais.
Quantas são? Onde a bola ou sou bola?
Santos coroados cantam, que vestidos rasgados não são
nódoas.
Senhora rainha do Egito, meus versos falam de areia quente,
e faraós, onde Cleópatra dançava,
Por que falar de calor
se vitrais já cintilavam no pátio?
Vidro
é saudade de louco
casado com grades.
4.
Cimento armado e é bezerro de ouro
pedindo pausas.
Esta cidade tem meus olhos,
sabem por que perdi-me?
Quando a cidade cresceu
morei no terceiro andar.
O dia brigou com a luz, eu,
incoerente, juntei-me às palavras,
subindo de elevador
1 079
Sosigenes Costa
O pavão vermelho
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.
Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.
3 052
Paulo Colina
Esboço
O meu braço
laço e corte
é machado-foice
pau
o meu braço
é cimento
é concreto-britadeira
é parada infernal
sou a fome em sua porta
sou tocaia nas esquinas
olha o cano
olha o punhal
sou o asco
sou só casca
sou o nó que não desata
sou notícia de jornal
não aceito mais açoite
sou orgulho sou bravata
sou açúcar sou o sal
sou o suor pelota e grama
sou cansaço coração
sou a válvula de escape
pro seu ódio emoção
eu sou ginga melodia
berro couro alegria
todo ano carnaval
sou madeira que não verga
sou o dia sou a noite
não faz mal
1 268
Paulo Colina
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
948
Sandro Penna
Como é belo seguir-te
Como é belo seguir-te
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
819
Gerard Reve
Confissão
Antes que eu siga para a noite que brilha eterna sem luz,
quero falar uma vez mais, e dizer isto:
Que eu nada mais busquei além
de Ti, de Ti, de Ti só.
(Nota: "U" é formal, e pode indicar que Reve esteja referindo-se a Deus, apontou-me alguém muito prestativo, sugerindo a opção "... além / do Senhor, do Senhor, do Senhor só." Minha ideia era de que não estava absolutamente claro sobre quem Reve ali falava. Talvez a maiúscula para "Ti" aproxime-se mais desta possibilidade, mantendo a ambiguidade. Manterei o "Ti", por ora, mas com maiúscula.
:
Bekentenis
Voordat ik in de Nacht ga die voor eeuwig lichtloos gloeit,
wil ik nog eenmaal spreken, en dit zeggen:
Dat ik nooit anders heb gezocht
dan U, dan U, dan U alleen.
quero falar uma vez mais, e dizer isto:
Que eu nada mais busquei além
de Ti, de Ti, de Ti só.
(Nota: "U" é formal, e pode indicar que Reve esteja referindo-se a Deus, apontou-me alguém muito prestativo, sugerindo a opção "... além / do Senhor, do Senhor, do Senhor só." Minha ideia era de que não estava absolutamente claro sobre quem Reve ali falava. Talvez a maiúscula para "Ti" aproxime-se mais desta possibilidade, mantendo a ambiguidade. Manterei o "Ti", por ora, mas com maiúscula.
:
Bekentenis
Voordat ik in de Nacht ga die voor eeuwig lichtloos gloeit,
wil ik nog eenmaal spreken, en dit zeggen:
Dat ik nooit anders heb gezocht
dan U, dan U, dan U alleen.
736
Sei Shônagon
2 Rengas
O cuco-pequeno
Visitou pr’ouvir-lhe o canto
Mas é do sabor
De brotos de samambaia
Que ela se lembra saudosa!
(em pareceria com Anikobu, de 95)
Na neve que cai
Que com flores se confunde
No gélido céu
De leve faz-se sentir
Presença da primavera
(em parceria com o Conselheiro Consultor Kintô, de 102)
/// Sei Shônagon, trad. de Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro. ///
424
Xue Tao
Lavadas em orvalho notas puras
Lavadas em orvalho notas puras
levadas pelo vento folhas juntas
somam chilro mais chilro em uníssono
e cada qual a um galho solitária
571
Xue Tao
Canção contemplando a primavera
(I)
As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem
(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste
(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor
(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento
796
Miron Białoszewski
Autorretrato tal qual sentido
Eles me encaram
então é provável que tenha uma cara.
De todas as caras que conheço,
é a de que menos me lembro, mesmo.
É frequente que minhas mãos
vivam de mim em completa separação.
Deveria então contá-las como minhas?
Onde está o que me limita?
Há um matagal em mim
de movimentos e meia-vida.
Porém sempre formiga-me
adentro a existência
cheia ou meio-cheia.
Carrego por mim mesmo
um lugar que chamo de meu.
Quando eu o perco,
isso quer dizer que eu não sou.
Eu não sou,
então não o descreio.
268
Gerard Reve
Canção da bebida
Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de Trevas.
:
Drinklied
Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.
809
Sandro Penna
Noite: sonho de esparsas
Noite: sonho de esparsas
janelas iluminadas.
Ouvir a clara voz
do mar. De um livro amado
ver as palavras
sumirem ... – Oh estrelas fugidias
o amor da vida!
:
Notte : sogno di sparse
finestre illuminate.
Sentir la chiara voce
dal mare. Da un amato
libro veder parole
sparire... – Oh stelle in corsa
l'amore della vita !
dePoesie (1939)
726
Leónidas Lamborghini
Dados
Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
761