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Alma

Gonzalo Rojas

Gonzalo Rojas

A lepra

Ainda lembro a minha aula de Retórica.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.

“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.

Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.

Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.

Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.

Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.


(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)


:


LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.


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John Berryman

John Berryman

29

Sentou-se, certa vez, no coração de Henry algo
tão pesado, que se tivesse cem anos
&mais, & aos prantos, insone, por todo esse tempo
Henry não poderia tornar o Bem.
Recomeça e sempre em seus ouvidos,
a pequena tosse em algum lugar, um odor, um badalo.
E há outra coisa que ele tem em mente
como um grave rosto de Siena, milenar
não conseguiria borrar sua censura quieta e perfilada. Horrendo,
olhos abertos, ele atenta, cego.
Todos os sinos dizem: tarde demais. Isto não se pranteia:
pensar.
Mas nunca Henry, conforme pensara,
dá cabo de alguém e esquarteja seu corpo
e esconde os bocados onde possam encontrá-la.
Ele sabe: verificou a todos,& ninguém está desaparecido.
Com freqüência, ao amanhecer, ele faz as contas.
Ninguém nunca está desaparecido.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 29
John Berryman
There sat down, once, a thing on Henry's heart
só heavy, if he had a hundred years
&more, & weeping, sleepless, in all them time
Henry could not make good.
Starts again always in Henry's ears
the little cough somewhere, an odour, a chime.
And there is another thing he has in mind
like a grave Sienese face a thousand years
would fail to blur the still profiled reproach of. Ghastly,
with open eyes, he attends, blind.
All the bells say: too late. This is not for tears;
thinking.
But never did Henry, as he thought he did,
end anyone and hacks her body up
and hide the pieces, where they may be found.
He knows: he went over everyone,& nobody's missing.
Often he reckons, in the dawn, them up.
Nobody is ever missing.
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