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Alma

Gonzalo Rojas

Gonzalo Rojas

Contra a morte

Arranco-me as visões e os olhos a cada dia que passa.
Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.

Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.

O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?

Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.

Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.

Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.

Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.


(tradução de Fabiano Calixto)


:


CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.

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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Tédio

Vala comum de corpos que apodrecem,
E esverdeada gangrene
Cobrindo vastidões que fosforescem
Sobre a esfera terrena.

Bocejo torvo de desejos turvos,
Languescente bocejo
De velhos diabos de chavelhos curvos
Rugindo de desejo.

Sangue coalhado, congelado, frio,
Espasmado nas veias
Pesadelo sinistro de algum rio
De sinistras sereias.

Alma sem rumo, a modorrar de sono,
Mole, túrbida, lassa.
Monotonias lúbricas de um mono
Dançando numa praça.

Mudas epilepsias, mudas, mudas,
Mudas epilepsias,
Masturbações mentais, fundas, agudas,
Negras nevrostenias.

Flores sangrentas do soturno vício
Que as almas queima e morde..
Música estranha de fetal suplício,
Vago, mórbido acorde.

Noite cerrada para o Pensamento
Nebuloso degredo
Onde em cavo clangor surdo do vento
Rouco pragueja o medo.

Plaga vencida por tremendas pragas,
Devorada por pestes,
Esboroada pelas rubras chagas
Dos incêndios celestes.

Sabor de sangue, Lágrimas e terra
Revolvida de fresco,
Guerra sombria dos sentidos, guerra,
Tantalismo dantesco.

Silêncio carregado e fundo e denso
Como um poço secreto,
Dobre pesado, carrilhão imenso
Do segredo inquieto.

Florescência do Mal, hediondo parto
Tenebroso do crime,
Pandemonium feral de ventre farto
Do Nirvana sublime.

Delírio contorcido, convulsivo
De felinas serpentes,
No silamento e no mover lascivo
Das caudas e dos dentes.

Porco lúgubre, lúbrico, trevoso
Do tábido pecado,
Fuçando colossal, formidoloso
Nos lodos do passado.

Ritmos de forças e de graças mortas,
Melancólico exílio,
Difusão de um mistério que abre portas
Para um secreto idílio.

Ócio das almas ou requinte delas,
Quint'essências, velhices
De luas de nevroses amarelas,
Venenosas meiguices.

Insônia morna e doente dos Espaços,
Letargia funérea,
Vermes, abutres a correr pedaços
Da carne deletéria.

Um misto de saudade e de tortura,
De lama, de ódio e de asco,
Carnaval infernal da Sepultura,
Risada do carrasco.

Ó tédio amargo, ó tédio dos suspiros,
Ó tédio d'ansiedades!
Quanta vez eu não subo nos teus giros
Fundas eternidades!

Quanta vez envolvido do teu luto
Nos sudários profundos
Eu, calado, a tremer, ao longe, escuto
Desmoronarem mundos!

Os teus soluços, todo o grande pranto,
Taciturnos gemidos,
Fazem gerar flores de amargo encanto
Nos corações doridos.

Tédio! que pões nas almas olvidadas
Ondulações de abismo
E sombras vesgas, lívidas, paradas,
No mais feroz mutismo!

Tédio do Réquiem do Universo inteiro,
Morbus negro, nefando,
Sentimento fatal e derradeiro
Das estrelas gelando.

O Tédio! Rei da Morte! Rei boêmio!
Ó Fantasma enfadonho!
És o sol negro, o criador, o gêmeo,
Velho irmão do meu sonho!

1 781
Xavier Villaurrutia

Xavier Villaurrutia

Noturno em que nada se ouve

Em meio a um silêncio deserto como a rua antes do crime
sem sequer respirar para que nada turve minha morte
nesta solidão sem paredes
no momento em que fugiram os ângulos
na tumba do leito deixo minha estátua sem sangue
para sair em um instante tão lento
em uma descida interminável
sem braços para estender
sem dedos para alcançar a escala que cai de um piano invisível
sem nada mais que um olhar e uma voz
que não se lembram de ter saído de olhos e lábios
o que são lábios? que são olhares que são lábios?
E minha voz já não é minha
dentro da água que não molha
dentro do ar de vidro
dentro do fogo pálido que corta como o grito
E no jogo angustiante de um espelho perante outro
cai minha voz
e minha voz que madura
e minha voz queimadura
e minha foz que matura
e minha voz queima dura
como o gelo de vidro
como o grito de gelo
aqui no caracol da orelha
no latido de um mar no qual não sei nada
no qual não se nada
porque deixei pés e braços na areia
sinto cair fora de mim a rede dos meus nervos
mas tudo foge como o peixe que se dá conta
até cem no pulso das minhas têmporas
telegrafia muda à qual ninguém responde
porque o sonho e a morte já nada têm a se dizerem

(tradução de Ricardo Domeneck)


:

Nocturno en que nada se oye
Xavier Villaurrutia

En medio de un silencio desierto como la calle antes del crimen
sin respirar siquiera para que nada turbe mi muerte
en esta soledad sin paredes
al tiempo que huyeron los ángulos
en la tumba del lecho dejo mi estatua sin sangre
para salir en un momento tan lento
en un interminable descenso
sin brazos que tender
sin dedos para alcanzar la escala que cae de un piano invisible
sin más que una mirada y una voz
que no recuerdan haber salido de ojos y labios
¿qué son labios? ¿qué son miradas que son labios?
Y mi voz ya no es mía
dentro del agua que no moja
dentro del aire de vidrio
dentro del fuego lívido que corta como el grito
Y en el juego angustioso de un espejo frente a otro
cae mi voz
y mi voz que madura
y mi voz quemadura
y mi bosque madura
y mi voz quema dura
como el hielo de vidrio
como el grito de hielo
aquí en el caracol de la oreja
el latido de un mar en el que no sé nada
en el que no se nada
porque he dejado pies y brazos en la orilla
siento caer fuera de mí la red de mis nervios
mas huye todo como el pez que se da cuenta
hasta ciento en el pulso de mis sienes
muda telegrafía a la que nadie responde
porque el sueño y la muerte nada tienen ya que decirse.


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