Poemas neste tema
Alma
Sosigenes Costa
O pavão vermelho
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.
Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.
3 123
Paulo Colina
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
954
Jaroslav Seifert
Retrato molhado
Aqueles dias lindos
quando a cidade parece um dado, um hino, um ventilador
ou uma concha de vieira à beira-mar
– tchau, tchau, belas garotas,
nos conhecemos hoje
e não nos veremos nunca mais.
Os domingos lindos
quando a cidade parece um futebol, um cartão e uma ocarina
ou um sino indo e vindo
– na rua ensolarada
as sombras dos passantes se beijavam
e eles seguiam, completos desconhecidos.
Aquelas noites lindas
quando a cidade parece uma rosa, um tabuleiro de xadrez, um violino
ou uma garota chorando
– no bar jogávamos dominó, dominó de bolas pretas, com as garotas magrelas,
olhando para seus joelhos
que eram esquálidos
feito dois crânios com as coroas de seda das cinta-ligas
no reino desesperado do amor.
(tradução de Marília Garcia).
1 196
Sandro Penna
Se passa uma beleza que se apressa
Se passa uma beleza que se apressa
não te ensombra a alma não tê-la estreitado.
Voltas o rosto para o verde ocaso.
Numa bicicleta passou a Beleza.
:
Se passa una bellezza che va in fretta
non hai l'anima nera, per non averla stretta.
Tu guardi al cielo verde nella prima
sera. Passata è la Bellezza in bicicletta.
de Croce e delizia (1958)
não te ensombra a alma não tê-la estreitado.
Voltas o rosto para o verde ocaso.
Numa bicicleta passou a Beleza.
:
Se passa una bellezza che va in fretta
non hai l'anima nera, per non averla stretta.
Tu guardi al cielo verde nella prima
sera. Passata è la Bellezza in bicicletta.
de Croce e delizia (1958)
872
Sandro Penna
Como é forte o ruído da aurora
Como é forte o ruído da aurora!
Feito de coisas mais que de pessoas.
Precede-o às vezes um sibilo breve,
uma voz que alegre desafia o dia.
Mas logo na cidade tudo é imerso
e a minha estrela é aquela estrela pálida
minha lenta morte sem desesperança.
:
Come è forte il rumore dell’alba!
Fatto di cose più che di persone.
Lo precede talvolta in fischio breve,
una voce che lieta sfida il giorno.
Ma poi nella città tutto è sommerso.
e la mia stella è questa stella scialba
mia lenta morte senza disperazione.
de Come è forte il rumore
Feito de coisas mais que de pessoas.
Precede-o às vezes um sibilo breve,
uma voz que alegre desafia o dia.
Mas logo na cidade tudo é imerso
e a minha estrela é aquela estrela pálida
minha lenta morte sem desesperança.
:
Come è forte il rumore dell’alba!
Fatto di cose più che di persone.
Lo precede talvolta in fischio breve,
una voce che lieta sfida il giorno.
Ma poi nella città tutto è sommerso.
e la mia stella è questa stella scialba
mia lenta morte senza disperazione.
de Come è forte il rumore
769
Sosigenes Costa
A Cabeleira da Musa
No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
1 008
Paulo Colina
Esboço
O meu braço
laço e corte
é machado-foice
pau
o meu braço
é cimento
é concreto-britadeira
é parada infernal
sou a fome em sua porta
sou tocaia nas esquinas
olha o cano
olha o punhal
sou o asco
sou só casca
sou o nó que não desata
sou notícia de jornal
não aceito mais açoite
sou orgulho sou bravata
sou açúcar sou o sal
sou o suor pelota e grama
sou cansaço coração
sou a válvula de escape
pro seu ódio emoção
eu sou ginga melodia
berro couro alegria
todo ano carnaval
sou madeira que não verga
sou o dia sou a noite
não faz mal
1 282
Xue Tao
Lavadas em orvalho notas puras
Lavadas em orvalho notas puras
levadas pelo vento folhas juntas
somam chilro mais chilro em uníssono
e cada qual a um galho solitária
579
Maura Lopes Cançado
permitam-me destruir o livro do Sagan
1
pausa:
permitam-me destruir o livro do Sagan.
É a seda pura que deve nos envolver; ter
música, no momento do beijo.
Inclinada, a rosa lembrará a brisa,
as grades rendadas, o jardim.
Além do mar, outros casais existem.
A noite nos destrói pelas esquinas (repetindo-se
e envelhecendo como almas.
2
Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh'alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?
3
Fizeram muros altos cinzentos,
esconderam a terra; mas o quadrado azul está presente -
sempre.
Senhora rainha do Egito, dai-me pálpebras pesadas
de mistérios piramidais.
Quantas são? Onde a bola ou sou bola?
Santos coroados cantam, que vestidos rasgados não são
nódoas.
Senhora rainha do Egito, meus versos falam de areia quente,
e faraós, onde Cleópatra dançava,
Por que falar de calor
se vitrais já cintilavam no pátio?
Vidro
é saudade de louco
casado com grades.
4.
Cimento armado e é bezerro de ouro
pedindo pausas.
Esta cidade tem meus olhos,
sabem por que perdi-me?
Quando a cidade cresceu
morei no terceiro andar.
O dia brigou com a luz, eu,
incoerente, juntei-me às palavras,
subindo de elevador
1 090
Bessie Head
Autorretrato
Idealista
E, no fundo,
Apática e indiferente
Minhoca,
Lançando-se, tremente,
Gaguejando, em hesitação,
Firme, irresponsável, impaciente,
Estática, plácida,
Sem direção certa,
Com direção certa,
Isolada, como destroço
Na rebentação do oceano em ressaca,
Lançada à crista de uma onda
Altissonante e desorientadora,
Engolfada nas profundezas anônimas,
Ah! contradição
ISTO eu sou.
676
Patrícia Galvão
Canal
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
980
Sandro Penna
Alfio que um trem transporta para longe.
Alfio que um trem transporta para longe.
Aonde carregas teus olhos dolorosos
e ao mesmo tempo alegres? Nasce o dia
e já parece a noite tão distante
que há tão pouco transcorreu conosco.
A noite em que não me quiseste dar
a única coisa que eu te merecia e que
por não me dares corpo e mente me incendeia
a tal ponto que aurora, noite e dia
se confundem
na única coisa que vejo que é teu lume.
:
Alfio che un treno porta assai lontano.
Dove porti i tuoi occhi dolorosi
e tanto lieti insieme? Adesso è l'alba
e già tanto lontana pare la sera
che da poco è trascorsa con noi. La sera
in cui non hai voluto darmi
quello che solo meritavo, quello
che non dato m'incendia cuore e mente
a tal punto che l'alba o la sera od il giorno
fanno una confusione
in cui vedo soltanto il tuo lume.
de Stranezze (1976)
Aonde carregas teus olhos dolorosos
e ao mesmo tempo alegres? Nasce o dia
e já parece a noite tão distante
que há tão pouco transcorreu conosco.
A noite em que não me quiseste dar
a única coisa que eu te merecia e que
por não me dares corpo e mente me incendeia
a tal ponto que aurora, noite e dia
se confundem
na única coisa que vejo que é teu lume.
:
Alfio che un treno porta assai lontano.
Dove porti i tuoi occhi dolorosi
e tanto lieti insieme? Adesso è l'alba
e già tanto lontana pare la sera
che da poco è trascorsa con noi. La sera
in cui non hai voluto darmi
quello che solo meritavo, quello
che non dato m'incendia cuore e mente
a tal punto che l'alba o la sera od il giorno
fanno una confusione
in cui vedo soltanto il tuo lume.
de Stranezze (1976)
884
Barbara Guest
Uma razão
É por isso que estou aqui
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
:
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
728
Sei Shônagon
2 Rengas
O cuco-pequeno
Visitou pr’ouvir-lhe o canto
Mas é do sabor
De brotos de samambaia
Que ela se lembra saudosa!
(em pareceria com Anikobu, de 95)
Na neve que cai
Que com flores se confunde
No gélido céu
De leve faz-se sentir
Presença da primavera
(em parceria com o Conselheiro Consultor Kintô, de 102)
/// Sei Shônagon, trad. de Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro. ///
433
Sandro Penna
Existe ainda no mundo a beleza?
Existe ainda no mundo a beleza?
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia
:
Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.
de Il viaggiatore insonne (1977)
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia
:
Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.
de Il viaggiatore insonne (1977)
1 010
Sandro Penna
A Eugenio Montale
É festa no poente e eu sigo
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
967
Sandro Penna
O mar é todo azul
O mar é todo azul.
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
1 115
Sandro Penna
Noite: sonho de esparsas
Noite: sonho de esparsas
janelas iluminadas.
Ouvir a clara voz
do mar. De um livro amado
ver as palavras
sumirem ... – Oh estrelas fugidias
o amor da vida!
:
Notte : sogno di sparse
finestre illuminate.
Sentir la chiara voce
dal mare. Da un amato
libro veder parole
sparire... – Oh stelle in corsa
l'amore della vita !
dePoesie (1939)
735
Xue Tao
Canção contemplando a primavera
(I)
As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem
(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste
(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor
(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento
806
Paulo Colina
Espreita noturna
Tem sempre algo
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
1 056
Jean-Baptiste Tati Loutard
Notícias de minha mãe
Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
.
.
954
Sandro Penna
Como é belo seguir-te
Como é belo seguir-te
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
831
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
944
Jaroslav Seifert
Vi apenas uma vez
Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronômico
e hoje sei o porquê.
O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
por muito tempo esperado
e lábios
que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.
(tradução de Aleksandar Jovanovic)
1 015