Poemas neste tema
Alma
Mirella Márcia
Segundo Soneto
Meu amor é um antigo montanhês
Que se escondeu na mais estranha gruta.
Há quem diga que em tempos de escassez
Meu amor se transforma em força bruta.
Nestas noites, meu velho se transporta
Na garupa da águia mais sombria,
Sobrevoando a casa cuja porta
Com medo você fecha em correria.
Não vê que tão esquivo aldeão,
Não sabe que tão incrível eremita
Pesquisa em meio à treva um só clarão
Que ilumine a caverna onde habita?
E no entanto na própria gruta escura
Mora o sol, toda a luz que ele procura.
Que se escondeu na mais estranha gruta.
Há quem diga que em tempos de escassez
Meu amor se transforma em força bruta.
Nestas noites, meu velho se transporta
Na garupa da águia mais sombria,
Sobrevoando a casa cuja porta
Com medo você fecha em correria.
Não vê que tão esquivo aldeão,
Não sabe que tão incrível eremita
Pesquisa em meio à treva um só clarão
Que ilumine a caverna onde habita?
E no entanto na própria gruta escura
Mora o sol, toda a luz que ele procura.
906
Mônica Banderas
Desaflito
A solidão é um transplante
de um peito de carne
para um peito de aço.
É a sétima arte equivocada
com a película da face (endurecida)
A solidão é portadora de equívocos.
É um corte ao norte do meu sonho
e à leste de meus planos e perspectivas.
de um peito de carne
para um peito de aço.
É a sétima arte equivocada
com a película da face (endurecida)
A solidão é portadora de equívocos.
É um corte ao norte do meu sonho
e à leste de meus planos e perspectivas.
1 064
Manuel J. Reis
sem título
Havia
um menino
que procurava
a estrela
mais clara da noite.
E encontrou
na noite
a forma mais clara
da dor.
um menino
que procurava
a estrela
mais clara da noite.
E encontrou
na noite
a forma mais clara
da dor.
744
Maria de Lourdes Hortas
Recado
Mas quanto mais me alongo mais me achego
Camões/Sonetos
Nenhuma carta
porém ressoam versos:
sabor de mel lavando o sal do pranto
vale de léguas, fronteira inconsistente
pois tantas milhas de mim jamais se apartam.
Que longe ou perto refaço a mesma rota
ao cais seguro, definitivo porto
onde me espero
e sempre me encontro.
Camões/Sonetos
Nenhuma carta
porém ressoam versos:
sabor de mel lavando o sal do pranto
vale de léguas, fronteira inconsistente
pois tantas milhas de mim jamais se apartam.
Que longe ou perto refaço a mesma rota
ao cais seguro, definitivo porto
onde me espero
e sempre me encontro.
930
Marly de Oliveira
Perdi a capacidade de assombro
Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
1 422
Manuel J. Reis
Poema de um náufrago à beira do entendimento
O mar repousa em meus braços, querida!
O mar das coisas que fizemos,
das coisas claras que tantas vezes fomos
e por tão pouco,
das coisas intocáveis,
das coisas líquidas e fatigadas,
e que, no entanto, vivem
no mar que eu e tu fizemos
dos escombros da minha e da tua
memória naufragada.
O mar das coisas que fizemos,
das coisas claras que tantas vezes fomos
e por tão pouco,
das coisas intocáveis,
das coisas líquidas e fatigadas,
e que, no entanto, vivem
no mar que eu e tu fizemos
dos escombros da minha e da tua
memória naufragada.
821
Manuel João Mansos
Rosas de Sangue
Os passarinhos não cantam,
perderam sua alegria.
Já não canta a cotovia,
voando sobre o arado.
Alentejo abandonado
oh terra afogada em dor,
diz-me lá terra queimada,
onde está o teu valor?
«Hoje estou escravizada,
estão meus campos solitários,
aldeias em agonia:
vieram os mercenários,
Já não canta a cotovia
a sua doce canção.
Agora só canta em mim
a Aldeia de Baleizão:
na sua voz derradeira
erguem-se clamores sem fim
àquela linda ceifeira;
Catarina,
que as tuas rosas de sangue
sejam um grito de alerta
por esta terra deserta
dos meus campos em ruína,
que os mercenários se vão!
Catarina,
das tuas rosas de sangue
as searas brotarão;
nascerá azeite e vinha
e voltará às avezinhas
a sua antiga alegria.
Então, soará de novo,
Alentejo, bem-amado,
a alta voz do teu povo:
— Esta é a Pátria minha,
onde canta a cotovia
voando sobre o arado!…»
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
perderam sua alegria.
Já não canta a cotovia,
voando sobre o arado.
Alentejo abandonado
oh terra afogada em dor,
diz-me lá terra queimada,
onde está o teu valor?
«Hoje estou escravizada,
estão meus campos solitários,
aldeias em agonia:
vieram os mercenários,
Já não canta a cotovia
a sua doce canção.
Agora só canta em mim
a Aldeia de Baleizão:
na sua voz derradeira
erguem-se clamores sem fim
àquela linda ceifeira;
Catarina,
que as tuas rosas de sangue
sejam um grito de alerta
por esta terra deserta
dos meus campos em ruína,
que os mercenários se vão!
Catarina,
das tuas rosas de sangue
as searas brotarão;
nascerá azeite e vinha
e voltará às avezinhas
a sua antiga alegria.
Então, soará de novo,
Alentejo, bem-amado,
a alta voz do teu povo:
— Esta é a Pátria minha,
onde canta a cotovia
voando sobre o arado!…»
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 050
Maria de Lourdes Hortas
Página de Diário
Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amada
enquanto as pombas lá fora iam ruflando
as asas que abriam a madrugada.
1 026
M. de Monte Maggiore
Insônia
Lágrimas de estrelas em canteiros azuis,
flores de prata no amanhã!
Todos dormem...
Canta, coração, sofre mais... Esta voz é saudade,
é soluço de amor!
Tua face roubou-me o sono...
A luz da tua lâmpada aclarou-me a casa...
Tuas asas, à pássaro, cintilam em volta do meu coração!
Céu vermelho para os lados do Oriente...
Tempestade soprando forte para os lados do Sul...
Tua maldade em flor é um rio de fogo!
Ia, tão só, tão triste, pela estrada deserta da vida,
sem ver ninguém...
De repente encontrei minha doce amada...
Meu coração desabrochou como uma rosa!
Sulamita, minhas romãzeiras estão floridas...
Lábios perfumados, vermelhos,
recebendo a carícia branda do Vento do Oriente...
Na fonte, a água está cantando baixinho. As tamareiras têm
frutos dourados...
A porta do meu horto está fechada...
Vem, alma de minha alma,
inebriar minha vida,
com a carícia do teu corpo.
As virgens de Sião me atraem com olhos lânguidos...
As virgens de Sião se despem junto às fontes cristalinas,
fingindo que não me vêem...
Mas eu só desejo a ti, filha do deserto, palmeira solitária..
Eu quero a noite fulgurante de teus olhos,
em teu seio construirei um ninho perfumado...
Colherei, em tua boca, a doçura do mel e a ebriez do vinho...
Vem! Meu leito está deserto, doce amada!
Vem! mata-me de amor, esconde-me no teu peito de luar
que há muito não sei o que é dormir!.
flores de prata no amanhã!
Todos dormem...
Canta, coração, sofre mais... Esta voz é saudade,
é soluço de amor!
Tua face roubou-me o sono...
A luz da tua lâmpada aclarou-me a casa...
Tuas asas, à pássaro, cintilam em volta do meu coração!
Céu vermelho para os lados do Oriente...
Tempestade soprando forte para os lados do Sul...
Tua maldade em flor é um rio de fogo!
Ia, tão só, tão triste, pela estrada deserta da vida,
sem ver ninguém...
De repente encontrei minha doce amada...
Meu coração desabrochou como uma rosa!
Sulamita, minhas romãzeiras estão floridas...
Lábios perfumados, vermelhos,
recebendo a carícia branda do Vento do Oriente...
Na fonte, a água está cantando baixinho. As tamareiras têm
frutos dourados...
A porta do meu horto está fechada...
Vem, alma de minha alma,
inebriar minha vida,
com a carícia do teu corpo.
As virgens de Sião me atraem com olhos lânguidos...
As virgens de Sião se despem junto às fontes cristalinas,
fingindo que não me vêem...
Mas eu só desejo a ti, filha do deserto, palmeira solitária..
Eu quero a noite fulgurante de teus olhos,
em teu seio construirei um ninho perfumado...
Colherei, em tua boca, a doçura do mel e a ebriez do vinho...
Vem! Meu leito está deserto, doce amada!
Vem! mata-me de amor, esconde-me no teu peito de luar
que há muito não sei o que é dormir!.
1 105
João José Menescal de O. Saldanha
Vento de Guaramiranga
Um vento leve,
A bramir as moléculas
Sobe a serra
E encerra.
Vento que a vida trará,
Do alto e do distante,
Pelo espaço,
Rompendo o aço,
Derrubando artes...
Pelo teu corpo sedento
O vento passa.
Alisa teus cabelos,
Acaricia as dobras
De tua orelha.
Onde está o vento ?!
Eis o vento,
Vento...
Vento...
Vento...
Invade em turbilhões
As mangas de tua camisa
Arrefecendo o calor
De teu busto,
Beijando teu rosto,
Desempoeirando tua
Alma...
...E de vento em vento,
Em vento,
Invento o vento
Que te recupera
Do esforço da subida.
Sois de vento,
Iremos todos no vento,
Pois somos o próprio invento
Dos ventos que fazem
O frio...
...Quem dera fosse
Eu o vento.
Na descida embalar
Teu corpo refeito,
Dar-te velocidade,
Carreira,
Rompendo limites,
Para que tu possas,
Como um vento,
Correr com os
Ventos de Guaramiranga.
A bramir as moléculas
Sobe a serra
E encerra.
Vento que a vida trará,
Do alto e do distante,
Pelo espaço,
Rompendo o aço,
Derrubando artes...
Pelo teu corpo sedento
O vento passa.
Alisa teus cabelos,
Acaricia as dobras
De tua orelha.
Onde está o vento ?!
Eis o vento,
Vento...
Vento...
Vento...
Invade em turbilhões
As mangas de tua camisa
Arrefecendo o calor
De teu busto,
Beijando teu rosto,
Desempoeirando tua
Alma...
...E de vento em vento,
Em vento,
Invento o vento
Que te recupera
Do esforço da subida.
Sois de vento,
Iremos todos no vento,
Pois somos o próprio invento
Dos ventos que fazem
O frio...
...Quem dera fosse
Eu o vento.
Na descida embalar
Teu corpo refeito,
Dar-te velocidade,
Carreira,
Rompendo limites,
Para que tu possas,
Como um vento,
Correr com os
Ventos de Guaramiranga.
1 391
Mário Donizete Massari
A voz do louco I
Ao amigo e artista plástico Laudo
A minha loucura
é sã
brota das feridas
de uma vida consumida.
A minha loucura
é mágoa,
de ver uma terra fértil
sem ser partida.
A minha loucura
é viva,
germina a cada momento,
na lucidez do dia a dia.
A minha loucura
é sã
brota das feridas
de uma vida consumida.
A minha loucura
é mágoa,
de ver uma terra fértil
sem ser partida.
A minha loucura
é viva,
germina a cada momento,
na lucidez do dia a dia.
940
Mário Donizete Massari
Cais
O cais é o fim
e o início
chegada e ponto de partida.
Abraça as ondas,
recolhe navios
e retém vez ou outra
pedaços de vida
(uma saudade que fica)
Hoje o mar está calmo
E o cais medita
(penso na vida)
refaço os erros
do dia a dia.
Náufrago das horas
sou como o cais,
da eterna reconstrução
da vida.
Um bem estar me habita.
Sou no cais um
porto seguro
e me sinto forte e íntegro.
e o início
chegada e ponto de partida.
Abraça as ondas,
recolhe navios
e retém vez ou outra
pedaços de vida
(uma saudade que fica)
Hoje o mar está calmo
E o cais medita
(penso na vida)
refaço os erros
do dia a dia.
Náufrago das horas
sou como o cais,
da eterna reconstrução
da vida.
Um bem estar me habita.
Sou no cais um
porto seguro
e me sinto forte e íntegro.
968
Mário Donizete Massari
O sonho do poeta
Sonhou o poeta
ser uma estrela
e brilhou em seus versos
Sonhou o poeta
ser o dono do mundo
e este era tão pequeno
que coube em suas mãos
e ele o tornou lindo
És poeta a estrela do mundo
ser uma estrela
e brilhou em seus versos
Sonhou o poeta
ser o dono do mundo
e este era tão pequeno
que coube em suas mãos
e ele o tornou lindo
És poeta a estrela do mundo
924
Mário Donizete Massari
Memórias II
(à minha mãe)
O tempo passou
e eu nem percebi
Minha mãe rega o velho
jardim,
as flores se renovaram
e eu cresci.
É abril como tantos
outros abris de portas escancaradas
para o futuro
Futuro que neste instante
é o meu presente
Meu peito se agigantou
e guarda tudo o que vivi.
Minha mãe rega o jardim,
acompanho seus movimentos pela [vidraça,
e talvez nem perceba
que já brota do meu peito
uma saudade sem fim.
O tempo passou
e eu nem percebi
Minha mãe rega o velho
jardim,
as flores se renovaram
e eu cresci.
É abril como tantos
outros abris de portas escancaradas
para o futuro
Futuro que neste instante
é o meu presente
Meu peito se agigantou
e guarda tudo o que vivi.
Minha mãe rega o jardim,
acompanho seus movimentos pela [vidraça,
e talvez nem perceba
que já brota do meu peito
uma saudade sem fim.
805
Gerardo Mello Mourão
Restauração em Cristo
Não é verdade que a Igreja Católica tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes
GERARDO MELLO MOURÃO
O poeta Murilo Mendes, católico de confissão e católico militante, empreendeu ao lado de Jorge de Lima, lá nos anos 30, o movimento que foi um dos momentos mais altos da revolução de nossas letras, sob uma consigna singular: a ``restauração da poesia em Cristo. Projetada ao longo da obra dos dois poetas, a ``restauração apregoada desaguou, afinal, na cantata estupenda da ``Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, que o juízo praticamente unânime da melhor crítica, nacional e estrangeira, considera a obra poética mais importante da literatura brasileira em todos os tempos.
O nome de Murilo Mendes entra aqui não como uma instância poética, mas como uma referência para debater a suposta crise que algumas pobres perdições ideológicas atribuem, no Brasil, ao cristianismo em geral e à Igreja Católica em particular. No século passado, e ainda no primeiro quartel deste século, estava na moda ser anticlerical e atacar a igreja, como lembrava Jorge Luís Borges, referindo-se a seu próprio pai.
Todo mundo contava anedotas de padres corruptos, cheios de mulheres e de filhos, como se isso fosse razão para execrar a igreja. Uma tarde, um sujeito aproximou-se de Murilo Mendes, numa esquina do Rio, para apontar-lhe um padre que saía de um banco, com sua rica batina de seda. Naquele tempo, a Cúria ainda não cometera o equívoco de abolir as vestes talares. O indivíduo agarrou o braço do poeta e gritou-lhe: ``Como é que você tem coragem de ser católico, quando todo mundo sabe que padres como este têm uma amante e guardam uma fortuna nos bancos?
``Pois eu sei mais do que isto, respondeu o poeta. ``Sei até de bispos, cardeais e papas que não tinham apenas uma amante.
Tinham haréns. E não possuíam apenas uma pobre conta de banco. Eram donos de castelos, palácios e empresas. E, para mim, esta é uma das provas mais claras da divindade da igreja, que sobrevive, com seus santos e mártires, há 2.000 anos, apesar de formada e até dirigida às vezes por alguns patifes. No Brasil, grupos anacrônicos estão empenhados, em nossos dias, numa campanha de demolição da Igreja Católica e da fé cristã em geral, embora a grande maioria silenciosa, em todo o Ocidente, continue fiel ao cristianismo. São cerca de 90 os cristãos na Europa e nas Américas.
Pois, apesar disso, recentemente destaca-se, na grande imprensa, como um acontecimento estrondoso, um ``happening do sr.
Leonardo Boff, no Centro Cultural Banco do Brasil, em que aquele frade goliardo e desertor de seu juramento anuncia o fim da Igreja Católica. Pelo menos da igreja como a entendem o papa, a hierarquia e os fiéis.
Os jornais apresentam como um triunfo do frei gaudério, cornaca maior da Teologia da Libertação, a presença de 400 pessoas no auditório do Banco do Brasil, em evento pago com dinheiro meu e do leitor, por meio dos R$ 8 bilhões com que o Banco do Brasil socorreu, recentemente, aquela combalida casa bancária da República. Quatrocentas pessoas é um bom público para o Boff.
Mas o ``bispo Macedo reúne muito mais...
A promessa da fé ao ser humano não é a libertação do salário mínimo e dos juros altos, mas do pecado, do mal que tolda a limpidez da alma. A igreja é uma agência espiritual da fé, não um birô do salário mínimo nem da reforma agrária e outros instrumentos do convívio social, próprios do governo político.
Depositária do testamento de seu fundador, Jesus Cristo, ela não é e nunca foi indiferente às práticas da injustiça e das tiranias. Mas não cabe aos fiéis ou aos sacerdotes o exercício do governo político e econômico. Os que pretendem atribuir à Igreja Católica o monopólio da justiça temporal são partidários de uma teocracia semelhante à dos xiitas, dos ``mullahs e dos aiatolás de Khomeini.
Também não é verdade, como sustenta o Boff do Centro Cultural Banco do Brasil, onde já se montaram comédias mais originais, que a igreja tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes. A igreja não nasceu em Medellín, como pensa o Boff.
Nasceu com um menino num curral em Belém de Judá, cresceu numa oficina de carpinteiro e com um grupo de homens e mulheres do povo. A história de sua luta contra os poderosos começa nos tribunais de Anás e Caifás, atravessa os impérios, tem momentos fulgurantes na Idade Média, na Renascença e no Iluminismo. Conhece o martírio e a perseguição na Revolução Francesa e nas repúblicas marxistas. Aqui mesmo, durante a monarquia, dois bispos vão para a cadeia, condenados a trabalhos forçados, por defenderem a liberdade de expressão. É um vilipêndio à memória desses bispos e uma injúria aos mais de 200 padres fuzilados nas revoluções nordestinas a acusação de que a igreja a que pertenciam estava a serviço do estabelecimento político ou econômico. Foram, isso sim, mártires da liberdade e da justiça, na luta pela restauração da sociedade em Cristo, tarefa da igreja, ontem e hoje. Coisa muito diferente da insensatez de instaurar um clero de aiatolás e frades sindicais, que querem tomar o lugar do Vicentinho, do Medeiros e do Canindé.
Gerardo Mello Mourão, 75, poeta e escritor, é membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Foi professor de história e cultura da América na Universidade Católica do Chile (1964-67) e correspondente da Folha em Pequim (China) de 1980 a 82.
(in Folha de São Paulo 10/10/96
Leia obra sobre Jorge de Lima
GERARDO MELLO MOURÃO
O poeta Murilo Mendes, católico de confissão e católico militante, empreendeu ao lado de Jorge de Lima, lá nos anos 30, o movimento que foi um dos momentos mais altos da revolução de nossas letras, sob uma consigna singular: a ``restauração da poesia em Cristo. Projetada ao longo da obra dos dois poetas, a ``restauração apregoada desaguou, afinal, na cantata estupenda da ``Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, que o juízo praticamente unânime da melhor crítica, nacional e estrangeira, considera a obra poética mais importante da literatura brasileira em todos os tempos.
O nome de Murilo Mendes entra aqui não como uma instância poética, mas como uma referência para debater a suposta crise que algumas pobres perdições ideológicas atribuem, no Brasil, ao cristianismo em geral e à Igreja Católica em particular. No século passado, e ainda no primeiro quartel deste século, estava na moda ser anticlerical e atacar a igreja, como lembrava Jorge Luís Borges, referindo-se a seu próprio pai.
Todo mundo contava anedotas de padres corruptos, cheios de mulheres e de filhos, como se isso fosse razão para execrar a igreja. Uma tarde, um sujeito aproximou-se de Murilo Mendes, numa esquina do Rio, para apontar-lhe um padre que saía de um banco, com sua rica batina de seda. Naquele tempo, a Cúria ainda não cometera o equívoco de abolir as vestes talares. O indivíduo agarrou o braço do poeta e gritou-lhe: ``Como é que você tem coragem de ser católico, quando todo mundo sabe que padres como este têm uma amante e guardam uma fortuna nos bancos?
``Pois eu sei mais do que isto, respondeu o poeta. ``Sei até de bispos, cardeais e papas que não tinham apenas uma amante.
Tinham haréns. E não possuíam apenas uma pobre conta de banco. Eram donos de castelos, palácios e empresas. E, para mim, esta é uma das provas mais claras da divindade da igreja, que sobrevive, com seus santos e mártires, há 2.000 anos, apesar de formada e até dirigida às vezes por alguns patifes. No Brasil, grupos anacrônicos estão empenhados, em nossos dias, numa campanha de demolição da Igreja Católica e da fé cristã em geral, embora a grande maioria silenciosa, em todo o Ocidente, continue fiel ao cristianismo. São cerca de 90 os cristãos na Europa e nas Américas.
Pois, apesar disso, recentemente destaca-se, na grande imprensa, como um acontecimento estrondoso, um ``happening do sr.
Leonardo Boff, no Centro Cultural Banco do Brasil, em que aquele frade goliardo e desertor de seu juramento anuncia o fim da Igreja Católica. Pelo menos da igreja como a entendem o papa, a hierarquia e os fiéis.
Os jornais apresentam como um triunfo do frei gaudério, cornaca maior da Teologia da Libertação, a presença de 400 pessoas no auditório do Banco do Brasil, em evento pago com dinheiro meu e do leitor, por meio dos R$ 8 bilhões com que o Banco do Brasil socorreu, recentemente, aquela combalida casa bancária da República. Quatrocentas pessoas é um bom público para o Boff.
Mas o ``bispo Macedo reúne muito mais...
A promessa da fé ao ser humano não é a libertação do salário mínimo e dos juros altos, mas do pecado, do mal que tolda a limpidez da alma. A igreja é uma agência espiritual da fé, não um birô do salário mínimo nem da reforma agrária e outros instrumentos do convívio social, próprios do governo político.
Depositária do testamento de seu fundador, Jesus Cristo, ela não é e nunca foi indiferente às práticas da injustiça e das tiranias. Mas não cabe aos fiéis ou aos sacerdotes o exercício do governo político e econômico. Os que pretendem atribuir à Igreja Católica o monopólio da justiça temporal são partidários de uma teocracia semelhante à dos xiitas, dos ``mullahs e dos aiatolás de Khomeini.
Também não é verdade, como sustenta o Boff do Centro Cultural Banco do Brasil, onde já se montaram comédias mais originais, que a igreja tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes. A igreja não nasceu em Medellín, como pensa o Boff.
Nasceu com um menino num curral em Belém de Judá, cresceu numa oficina de carpinteiro e com um grupo de homens e mulheres do povo. A história de sua luta contra os poderosos começa nos tribunais de Anás e Caifás, atravessa os impérios, tem momentos fulgurantes na Idade Média, na Renascença e no Iluminismo. Conhece o martírio e a perseguição na Revolução Francesa e nas repúblicas marxistas. Aqui mesmo, durante a monarquia, dois bispos vão para a cadeia, condenados a trabalhos forçados, por defenderem a liberdade de expressão. É um vilipêndio à memória desses bispos e uma injúria aos mais de 200 padres fuzilados nas revoluções nordestinas a acusação de que a igreja a que pertenciam estava a serviço do estabelecimento político ou econômico. Foram, isso sim, mártires da liberdade e da justiça, na luta pela restauração da sociedade em Cristo, tarefa da igreja, ontem e hoje. Coisa muito diferente da insensatez de instaurar um clero de aiatolás e frades sindicais, que querem tomar o lugar do Vicentinho, do Medeiros e do Canindé.
Gerardo Mello Mourão, 75, poeta e escritor, é membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Foi professor de história e cultura da América na Universidade Católica do Chile (1964-67) e correspondente da Folha em Pequim (China) de 1980 a 82.
(in Folha de São Paulo 10/10/96
Leia obra sobre Jorge de Lima
1 044
Mário Donizete Massari
Poema do sol de amanhã
Um corpo magro
caminho lentamente
como soubesse ser a vida
um facho de luz.
Como soubesse que as palavras
encerram um sentido
às vezes incompreensíveis
a certos olhos.
O caminho contém pedregulhos
esparsas incertezas
momentâneas alegrias
de descobrir que algo está errado.
Quando a noite chegar
brincará de contar estrelas
e no berço de feno
sonhará com belezas.
Levantará cedo
quando o sol traçar seu primeiro perfil
como uma avenida iluminada
o mundo é uma grande avenida iluminada
que brilha para alguns
Então sua caminhada reiniciará
o longo caminho dos que não têm para [onde ir
caminho lentamente
como soubesse ser a vida
um facho de luz.
Como soubesse que as palavras
encerram um sentido
às vezes incompreensíveis
a certos olhos.
O caminho contém pedregulhos
esparsas incertezas
momentâneas alegrias
de descobrir que algo está errado.
Quando a noite chegar
brincará de contar estrelas
e no berço de feno
sonhará com belezas.
Levantará cedo
quando o sol traçar seu primeiro perfil
como uma avenida iluminada
o mundo é uma grande avenida iluminada
que brilha para alguns
Então sua caminhada reiniciará
o longo caminho dos que não têm para [onde ir
772
Mário Donizete Massari
Canto à poesia
Se isto que eu canto agora
fosse alegria,
eu não cantaria.
Pois esta minha canção
é minha tristeza
em forma de poesia.
Pungiu-me a solidão
na minha vida vazia.
Encheu-se o campo de flores,
orquídeas
e braços que já não abrem
para colhê-las.
Triste vida vazia . . .
fosse alegria,
eu não cantaria.
Pois esta minha canção
é minha tristeza
em forma de poesia.
Pungiu-me a solidão
na minha vida vazia.
Encheu-se o campo de flores,
orquídeas
e braços que já não abrem
para colhê-las.
Triste vida vazia . . .
934
Mário Donizete Massari
A menina do lago azul
Clarice morava
perto de um lago azul
como seus sonhos de menina.
Trazia nos lábios um sorriso
que era a própria vida
formosa cantiga.
Teve uma irmã, Maria
que cedo partira
sempre dizia:
"— quero ir onde está Maria".
Agora mora perto do céu
onde somente os anjos vivem.
perto de um lago azul
como seus sonhos de menina.
Trazia nos lábios um sorriso
que era a própria vida
formosa cantiga.
Teve uma irmã, Maria
que cedo partira
sempre dizia:
"— quero ir onde está Maria".
Agora mora perto do céu
onde somente os anjos vivem.
1 345
Mário Donizete Massari
Canavial
É MADRUGADA
Os canaviais vicejantes
esperam os braços
dos trabalhadores
os podões afiados
que decepam até
esperanças
Saio à rua,
meu itinerário é outro
Distingo vultos,
que se reúnem
às portas dos bares.
Não são os remanescentes
de um dia de carnaval,
não vestem alegorias.
São os braços que
ceifarão a cana
Estão todos quietos,
passo por eles no
meu itinerário e
uma dor profunda
me alcança
Uma dor madura
com sabor de caldo de cana
Os canaviais vicejantes
esperam os braços
dos trabalhadores
os podões afiados
que decepam até
esperanças
Saio à rua,
meu itinerário é outro
Distingo vultos,
que se reúnem
às portas dos bares.
Não são os remanescentes
de um dia de carnaval,
não vestem alegorias.
São os braços que
ceifarão a cana
Estão todos quietos,
passo por eles no
meu itinerário e
uma dor profunda
me alcança
Uma dor madura
com sabor de caldo de cana
919
Mário Donizete Massari
Mãos
As mãos não falam
por si,
mas pelos gestos;
mãos que trabalham,
tecem sonhos,
acariciam,
se perdem na volúpia
de construir caminhos.
As mãos não falam
por si
e Porfírio assim o sabe;
suas mãos falam da seca
que enrustece a vida,
aridez de sentimentos
a povoar o mundo
Suas mãos desenham gestos,
perdidas na aridez do mundo.
por si,
mas pelos gestos;
mãos que trabalham,
tecem sonhos,
acariciam,
se perdem na volúpia
de construir caminhos.
As mãos não falam
por si
e Porfírio assim o sabe;
suas mãos falam da seca
que enrustece a vida,
aridez de sentimentos
a povoar o mundo
Suas mãos desenham gestos,
perdidas na aridez do mundo.
1 040
Mário Donizete Massari
Trilogia
nascimento
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
818
Mário Donizete Massari
A voz do louco II
Não sou louco não,
mas assumo
o gosto amargo da vida.
Não sou louco não,
mas do dia a dia
construo versos,
venço a fadiga,
e faço do cais
sempre um porto
seguro,
um ponto de partida
para galgar muros.
Não sou louco não,
ou melhor,
sou louco pela vida.
mas assumo
o gosto amargo da vida.
Não sou louco não,
mas do dia a dia
construo versos,
venço a fadiga,
e faço do cais
sempre um porto
seguro,
um ponto de partida
para galgar muros.
Não sou louco não,
ou melhor,
sou louco pela vida.
905
Mário Donizete Massari
Viver e morrer
Viver por viver,
não é viver.
Viver é viver
viver a vida
sem ver,
o que se pode ver.
Viver e morrer
que um dia há de ser,
— mas nunca morrer sem viver
não é viver.
Viver é viver
viver a vida
sem ver,
o que se pode ver.
Viver e morrer
que um dia há de ser,
— mas nunca morrer sem viver
555
Mário Donizete Massari
Nascente
O sol nascia
por detrás
da nascente das águas
dos olhos da menina.
Da nascente dos olhos da menina
jorra uma esperança antiga,
semente fértil,
olhar fecundo
a se derramar
sobre o mundo.
E a nascente fertiliza
As águas se juntam,
a menina se entrega
e assume o fruto.
O sol se põe
e à menina resta
o fruto;
E nos olhos da menina
ainda reside a esperança antiga.
por detrás
da nascente das águas
dos olhos da menina.
Da nascente dos olhos da menina
jorra uma esperança antiga,
semente fértil,
olhar fecundo
a se derramar
sobre o mundo.
E a nascente fertiliza
As águas se juntam,
a menina se entrega
e assume o fruto.
O sol se põe
e à menina resta
o fruto;
E nos olhos da menina
ainda reside a esperança antiga.
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