Poemas neste tema
Alma
Mário Donizete Massari
Lavra Dor
O lavrador
lavra a terra,
como quem gera
um filho.
A semente é o sêmen
fértil nascente,
que logo frutifica
e gera novos filhos.
O lavra dor
lavra a terra,
gera os filhos
e frutifica
E vive a paixão eterna
do pai pelo filho . . .
lavra a terra,
como quem gera
um filho.
A semente é o sêmen
fértil nascente,
que logo frutifica
e gera novos filhos.
O lavra dor
lavra a terra,
gera os filhos
e frutifica
E vive a paixão eterna
do pai pelo filho . . .
1 102
João José Menescal de O. Saldanha
Qualquer Coisa
Quando a claridade abortar
E deixar o quarto escuro,
Quero estar lá
Para ver de quem são as estrelas.
Quando o sono dominar
As mentes fatigadas,
Quero estar vivo
Para ver quais serão os sonhos.
Porque qualquer lembrança
Das tuas palavras,
São as notas pesadas
De um piano em prelúdio
A comover minha emoção.
Que qualquer coisa tua,
Meu Deus!
É a lembrança da grama fresca,
Da relva boa, gostosa de deitar.
E tuas mãos...
Conchas quentes...
Confortáveis,
Macias,
Seguras,
Transmitem calmaria
Aos meus devaneios.
Quando as toco,
Pouso.
Quando não,
Caio.
Queda alta...
Lenta e agonizante,
Parece verter dos lustrais
Irradiações intensas.
Porém não.
Não são nada disso!
São as lágrimas de minha consciência
A turvar minha visão
Diante da realidade
Da distância que corrói...
...Quando qualquer coisa sua
maltratar minha saudade,
quero estar forte
e poder respirar fundo.
Fortaleza, 29 de agosto de 1996
E deixar o quarto escuro,
Quero estar lá
Para ver de quem são as estrelas.
Quando o sono dominar
As mentes fatigadas,
Quero estar vivo
Para ver quais serão os sonhos.
Porque qualquer lembrança
Das tuas palavras,
São as notas pesadas
De um piano em prelúdio
A comover minha emoção.
Que qualquer coisa tua,
Meu Deus!
É a lembrança da grama fresca,
Da relva boa, gostosa de deitar.
E tuas mãos...
Conchas quentes...
Confortáveis,
Macias,
Seguras,
Transmitem calmaria
Aos meus devaneios.
Quando as toco,
Pouso.
Quando não,
Caio.
Queda alta...
Lenta e agonizante,
Parece verter dos lustrais
Irradiações intensas.
Porém não.
Não são nada disso!
São as lágrimas de minha consciência
A turvar minha visão
Diante da realidade
Da distância que corrói...
...Quando qualquer coisa sua
maltratar minha saudade,
quero estar forte
e poder respirar fundo.
Fortaleza, 29 de agosto de 1996
795
Carlos Anísio Melhor
Retorno
Amadurecendo estão os frutos no silêncio
Enquanto a vida é segredo no fundo do corpo.
Naquele poço dormem as aves e no fundo
Do silêncio a vida é um segredo.
Pelos portais da varanda estão as flores em botão
E o silêncio é já flor no coração do corpo
Enquanto no alto, as aves partem em vôo inesperado
Para uma estação sem tempo ou penitências.
Senhora:as flores estão florindo no silêncio do poço,
Enquanto a vida dorme no fundo do corpo.
O barco que vai por sobre o mar
Traz no bojo a esperança de voltar.
Enquanto a vida é segredo no fundo do corpo.
Naquele poço dormem as aves e no fundo
Do silêncio a vida é um segredo.
Pelos portais da varanda estão as flores em botão
E o silêncio é já flor no coração do corpo
Enquanto no alto, as aves partem em vôo inesperado
Para uma estação sem tempo ou penitências.
Senhora:as flores estão florindo no silêncio do poço,
Enquanto a vida dorme no fundo do corpo.
O barco que vai por sobre o mar
Traz no bojo a esperança de voltar.
1 174
Mário Faustino
Soneto
Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
2 199
Mário Donizete Massari
Olhos
Pra que tentar com
palavras
dizer o que os olhos
vêem?
A menina passa
e joga graça na praça.
É virgem
(a manhã)
e a menina cresceu
fruta madura
no quintal do prazer.
Os olhos avançam
acompanham a silhueta
da virgem manhã,
a desnudar a menina.
É virgem ainda
a manhã.
palavras
dizer o que os olhos
vêem?
A menina passa
e joga graça na praça.
É virgem
(a manhã)
e a menina cresceu
fruta madura
no quintal do prazer.
Os olhos avançam
acompanham a silhueta
da virgem manhã,
a desnudar a menina.
É virgem ainda
a manhã.
967
Mário Donizete Massari
Sinos
Os sinos batem
e bate em meu peito
uma dor profunda
Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo
Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda
a dor de perder,
parte do meu mundo.
e bate em meu peito
uma dor profunda
Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo
Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda
a dor de perder,
parte do meu mundo.
946
Mário Donizete Massari
Fácil
É tão fácil ser poeta,
falar da noite,
falar do dia.
É tão fácil ser poeta,
imaginar amores,
viver ilusões.
Difícil é ser poema
e versos brancos
de rima triste.
falar da noite,
falar do dia.
É tão fácil ser poeta,
imaginar amores,
viver ilusões.
Difícil é ser poema
e versos brancos
de rima triste.
918
Mário Donizete Massari
Gravidade
A gravidez da menina
que um dia sonhava . . .
Na gravidade da terra
que gira, gira . . .
O homem grávido de idéias
e a menina sonhava . . .
Homem menina
na gravidade das horas
que giram.
Gravidade na palidez
do pai de família,
a censurar a gravidez
da menina.
que um dia sonhava . . .
Na gravidade da terra
que gira, gira . . .
O homem grávido de idéias
e a menina sonhava . . .
Homem menina
na gravidade das horas
que giram.
Gravidade na palidez
do pai de família,
a censurar a gravidez
da menina.
949
Mário Donizete Massari
As meninas
ANA MARIA É BELA
ANASTÁCIA É SERENA;
são frutos da mesma terra
ANA MARIA NÃO PENSA
ANASTÁCIA SONHA SEMPRE.
Serena calma de poeta
Anastácia possui
uma alma bela,
Ana Maria
só é bela.
Ambos são belas
e fruto da mesma terra
ANASTÁCIA É SERENA;
são frutos da mesma terra
ANA MARIA NÃO PENSA
ANASTÁCIA SONHA SEMPRE.
Serena calma de poeta
Anastácia possui
uma alma bela,
Ana Maria
só é bela.
Ambos são belas
e fruto da mesma terra
1 042
Carlos Anísio Melhor
Soneto
Fica-te aí parada na memória.
Reveste com o outono a luz da Face
ou sempre adormecida que a vitória
do amor é conservar consigo a Face.
E assim vencer o tempo na memória
e atingir o eterno do traspasse
fatal, trazendo adiante na memória
a visão emblemática da Face.
Na ilha de agosto faze tua morada,
e em setembro haverás ressuscitada,
Se trouxeres adiante na memória
que nunca apareceste na jornada,
houveras sido, existirás amada
se ficares presente na memória.
Reveste com o outono a luz da Face
ou sempre adormecida que a vitória
do amor é conservar consigo a Face.
E assim vencer o tempo na memória
e atingir o eterno do traspasse
fatal, trazendo adiante na memória
a visão emblemática da Face.
Na ilha de agosto faze tua morada,
e em setembro haverás ressuscitada,
Se trouxeres adiante na memória
que nunca apareceste na jornada,
houveras sido, existirás amada
se ficares presente na memória.
1 046
Morais Filho
A mulata
Eu sou mulata vaidosa,
Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são!
Tenho requebros mais belos;
Se a noite são meus cabelos,
O dia é meu coração.
Sob a camisa bordada,
Fina, tão alva, arrendada,
Treme-me o seio moreno:
É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso
Coberto pelo sereno.
Nos bicos da chinelinha,
Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?...
Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula,
Jamais ninguém me venceu!
Ao afinar da viola,
Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio;
Peneiro dum mole anseio,
Vou mansa num bamboleio
Qual vai a garça no rio.
Aos moços todos esquiva,
Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus;
Mas, se murmuram: "maldita!
Bravo, mulata bonita!"
Adeus, meu ioiô, adeus ...
Minhas iaiás da janela
Me atiram cada olhadela,
Ai dá-se! mortas assim...
E eu sigo mais orgulhosa
Como se a cara raivosa
Não fosse feita pra mim.
Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa,
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, qual mulata baiana.
Outra não há no Brasil.
Nos meus pulsos delicados
Trago corais engraçados
Contas de ouro e coralinas;
Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura
Das saias de rendas finas.
Se arde um desejo agora,
De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor;
Minha alma é qual borboleta,
Que voa e voa inquieta
Pousando de flor em flor.
Meus brincos de pedraria
Tombam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente;
Na correntinha de prata,
Tem sempre e sempre a mulata
Figuinhas de boa gente.
Eu gosto bem desta vida,
Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste e vão;
Um dito repinicado,
Um mimo, um riso, um agrado
Cativam meu coração.
Nos presepes da Lapinha,
Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo;
De minha face ao encanto,
Vai-se o fervor pelo santo,
Pra o santo não olha o povo!...
Minha existência é de flores,
De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim!
Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono,
Que é meu Senhor do Bonfim!
Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, por mulata baiana,
Outra não há no Brasil.
Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são!
Tenho requebros mais belos;
Se a noite são meus cabelos,
O dia é meu coração.
Sob a camisa bordada,
Fina, tão alva, arrendada,
Treme-me o seio moreno:
É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso
Coberto pelo sereno.
Nos bicos da chinelinha,
Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?...
Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula,
Jamais ninguém me venceu!
Ao afinar da viola,
Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio;
Peneiro dum mole anseio,
Vou mansa num bamboleio
Qual vai a garça no rio.
Aos moços todos esquiva,
Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus;
Mas, se murmuram: "maldita!
Bravo, mulata bonita!"
Adeus, meu ioiô, adeus ...
Minhas iaiás da janela
Me atiram cada olhadela,
Ai dá-se! mortas assim...
E eu sigo mais orgulhosa
Como se a cara raivosa
Não fosse feita pra mim.
Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa,
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, qual mulata baiana.
Outra não há no Brasil.
Nos meus pulsos delicados
Trago corais engraçados
Contas de ouro e coralinas;
Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura
Das saias de rendas finas.
Se arde um desejo agora,
De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor;
Minha alma é qual borboleta,
Que voa e voa inquieta
Pousando de flor em flor.
Meus brincos de pedraria
Tombam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente;
Na correntinha de prata,
Tem sempre e sempre a mulata
Figuinhas de boa gente.
Eu gosto bem desta vida,
Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste e vão;
Um dito repinicado,
Um mimo, um riso, um agrado
Cativam meu coração.
Nos presepes da Lapinha,
Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo;
De minha face ao encanto,
Vai-se o fervor pelo santo,
Pra o santo não olha o povo!...
Minha existência é de flores,
De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim!
Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono,
Que é meu Senhor do Bonfim!
Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, por mulata baiana,
Outra não há no Brasil.
1 551
Mário Donizete Massari
brasil
Seu nome era Raimundo
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
609
Carlos Anísio Melhor
Elegia para Hart Crane
Escuro é o espaço em que vivemos,
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
929
Moniz Bandeira
O Poeta de Hoje
O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.
À dor dos séculos os mortos despertaram.
Incendeiam-se mares, florestas e montanhas,
e marcha pela madrugada o exército dos sem rostos.
O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.
Traz no peito a angústia das máquinas.
Travam-lhe a garganta baionetas sem lua.
Rompe nas suas mãos um sol feito de sangue
e os cavalos da fome puxam o carro da aurora.
O poeta hoje não cantará nem símbolos.
À dor dos séculos os mortos despertaram.
Incendeiam-se mares, florestas e montanhas,
e marcha pela madrugada o exército dos sem rostos.
O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.
Traz no peito a angústia das máquinas.
Travam-lhe a garganta baionetas sem lua.
Rompe nas suas mãos um sol feito de sangue
e os cavalos da fome puxam o carro da aurora.
O poeta hoje não cantará nem símbolos.
1 137
Mário Donizete Massari
O Poeta
Olhou para o céu
Brincou com a lua
Apalpou as estrelas
Subiu nos montes
Alcançou o horizonte
Emergiu na loucura
Saciou a sede
na mais linda e pura
fonte da vida
Esperou amanhecer
e para o orvalho gelado
Disse bom dia
"Nasceu a poesia"
Brincou com a lua
Apalpou as estrelas
Subiu nos montes
Alcançou o horizonte
Emergiu na loucura
Saciou a sede
na mais linda e pura
fonte da vida
Esperou amanhecer
e para o orvalho gelado
Disse bom dia
"Nasceu a poesia"
936
Mário Donizete Massari
Ruínas
Nos escombros
que se alargam à visão
o pássaro refaz
o vôo da liberdade
Sua missão é importantíssima
pois dela depende
a sua própria
reconstrução
As ruínas são evidentes
e o pássaro se agarra
às forças que ainda lhe
restam
Chega-lhe ao aparelho
auditivo
o badalar de um sino
anunciação do novo pássaro
a surgir
Não de um lugar distante
mas de dentro de si
Não há monumentos
nem templos gigantes
apenas o elo
pássaro-descobrir-se
e num dia qualquer, um cidadão comum
retirou de suas ruínas a importância
de ser livre. Enfim . . .
que se alargam à visão
o pássaro refaz
o vôo da liberdade
Sua missão é importantíssima
pois dela depende
a sua própria
reconstrução
As ruínas são evidentes
e o pássaro se agarra
às forças que ainda lhe
restam
Chega-lhe ao aparelho
auditivo
o badalar de um sino
anunciação do novo pássaro
a surgir
Não de um lugar distante
mas de dentro de si
Não há monumentos
nem templos gigantes
apenas o elo
pássaro-descobrir-se
e num dia qualquer, um cidadão comum
retirou de suas ruínas a importância
de ser livre. Enfim . . .
887
Maria Braga Horta
A Moça da Praça Mauá
I
De onde vem?
Para onde vai
a moça de olhos de gata?
Parou na praça.
Pararam
grumetes em torno dela.
A moça não tem destino:
só tem caminho de ir,
no escuro da vida, ao cais
onde espera os marinheiros
(urgentes, por demorado
percurso na solidão).
São eles que vêm e vão...
Não lhe trazem "souvenirs"
nem contam as aventuras
do mar e de estranhos portos.
Nem passado e nem presente
lhe contam. Nem ela os tem
para contar a ninguém.
Iguais, no seu merecido,
um dia vai, outro vem.
II
Um dia a encontraram morta
no cais da Praça Mauá.
Suicídio, acidente ou crime?
Nem foi preciso indagar...
Morreu simplesmente a moça
que não recebeu da vida
seu tempo de armazenar.
Acodem três cavalheiros
de branco (tarde demais!)
e a levam num carro branco.
Mas não de branco vestida
vai ela ao eterno cais.
Sobre toda a humanidade
pesa o peso desta morte
da moça que não viveu
estória de se contar,
condenada ao seu caminho
de ir ao cais e voltar
sempre, sempre, sempre, sempre...
sempre sem rir, sem chorar.
III
Morreu a moça dos olhos
de gata. Morreu? Mentira!
A moça de olhos de gata
nasceu com o cais, viverá
o tempo de duração
do cais da Praça Mauá.
Lá está outra vez na praça.
Grumetes desembarcados
dos mares da solidão
(nascidos também com o cais
só com ele morrerão)
urgentes seguem os passos
do seu primeiro destino
em terras de arribação.
A moça de olhos de gata
é porto de solidão.
Nasce e morre. Morre e nasce.
Traz estampado na face
seu horóscopo malsão.
De onde vem? Para onde vai?
A moça não tem destino;
seu tempo ficou parado
no marco da condição.
De onde vem?
Para onde vai
a moça de olhos de gata?
Parou na praça.
Pararam
grumetes em torno dela.
A moça não tem destino:
só tem caminho de ir,
no escuro da vida, ao cais
onde espera os marinheiros
(urgentes, por demorado
percurso na solidão).
São eles que vêm e vão...
Não lhe trazem "souvenirs"
nem contam as aventuras
do mar e de estranhos portos.
Nem passado e nem presente
lhe contam. Nem ela os tem
para contar a ninguém.
Iguais, no seu merecido,
um dia vai, outro vem.
II
Um dia a encontraram morta
no cais da Praça Mauá.
Suicídio, acidente ou crime?
Nem foi preciso indagar...
Morreu simplesmente a moça
que não recebeu da vida
seu tempo de armazenar.
Acodem três cavalheiros
de branco (tarde demais!)
e a levam num carro branco.
Mas não de branco vestida
vai ela ao eterno cais.
Sobre toda a humanidade
pesa o peso desta morte
da moça que não viveu
estória de se contar,
condenada ao seu caminho
de ir ao cais e voltar
sempre, sempre, sempre, sempre...
sempre sem rir, sem chorar.
III
Morreu a moça dos olhos
de gata. Morreu? Mentira!
A moça de olhos de gata
nasceu com o cais, viverá
o tempo de duração
do cais da Praça Mauá.
Lá está outra vez na praça.
Grumetes desembarcados
dos mares da solidão
(nascidos também com o cais
só com ele morrerão)
urgentes seguem os passos
do seu primeiro destino
em terras de arribação.
A moça de olhos de gata
é porto de solidão.
Nasce e morre. Morre e nasce.
Traz estampado na face
seu horóscopo malsão.
De onde vem? Para onde vai?
A moça não tem destino;
seu tempo ficou parado
no marco da condição.
1 232
Mário Donizete Massari
Rotina
Amanheceu
O orvalho molhou a flor
O passarinho cantou
Clareou
A sirene de uma fábrica
O empregado sai correndo
Tumulto
Houve atropelamento
A rádio anuncia
Nota de falecimento
Mais uma alma que vai
Para onde?
O orvalho molhou a flor
O passarinho cantou
Clareou
A sirene de uma fábrica
O empregado sai correndo
Tumulto
Houve atropelamento
A rádio anuncia
Nota de falecimento
Mais uma alma que vai
Para onde?
892
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo
Lição de Amor
Não te direi de amor
assim como tu queres
pois não se faz o amor, amor existe
e permeia e transcende coração e mente
e dá se dando e dando inteiramente
que despojado é o amor, sem adereços
e a pele é a melhor das vestimentas.
Não te direi
assim como o entendes
mas se eu disser de mim, direi do amor
que há quem não se dando já deu tudo
e visitou a face do teu ser impuro
e adormeceu à sombra dos teus sonhos.
Não
assim como desejas
só que me entrego à noite e ao desespero
e ferida de amor digo teu nome
e ele me cobre como uma vestidura.
assim como tu queres
pois não se faz o amor, amor existe
e permeia e transcende coração e mente
e dá se dando e dando inteiramente
que despojado é o amor, sem adereços
e a pele é a melhor das vestimentas.
Não te direi
assim como o entendes
mas se eu disser de mim, direi do amor
que há quem não se dando já deu tudo
e visitou a face do teu ser impuro
e adormeceu à sombra dos teus sonhos.
Não
assim como desejas
só que me entrego à noite e ao desespero
e ferida de amor digo teu nome
e ele me cobre como uma vestidura.
1 171
Mário Donizete Massari
Esperança
O menino
chupa laranjas
a dona de casa
sentada à varanda
contempla o fim de
mais um dia.
Um passarinho canta
no pomar
onde o menino
chupa laranja
às escondidas.
Fim de dia,
mas a esperança persiste
nos versos do poeta
no rosto do operário triste.
chupa laranjas
a dona de casa
sentada à varanda
contempla o fim de
mais um dia.
Um passarinho canta
no pomar
onde o menino
chupa laranja
às escondidas.
Fim de dia,
mas a esperança persiste
nos versos do poeta
no rosto do operário triste.
969
Mário Donizete Massari
Menino de favela
Na favela
à favela
uma vela
vela o menino
pálido
frágil
sem vida
à favela
uma vela
vela o menino
pálido
frágil
sem vida
1 171
Mário Donizete Massari
Reconstrução
Reconstruir a fé
Moldada em desejos
vãos
Sentir-se parte do todo
projeto da reconstrução
sem brilho nos olhos
mas brilhos nas mãos
tecer gestos
construir corações
caminhos serão palavras
e as palavras nossas armas
para que juntos possamos
construir a nossa paz
Reconstruir a vida
no sentido mais amplo
e acima de tudo
sentir-se projeto da reconstrução
Moldada em desejos
vãos
Sentir-se parte do todo
projeto da reconstrução
sem brilho nos olhos
mas brilhos nas mãos
tecer gestos
construir corações
caminhos serão palavras
e as palavras nossas armas
para que juntos possamos
construir a nossa paz
Reconstruir a vida
no sentido mais amplo
e acima de tudo
sentir-se projeto da reconstrução
681
Manoel Carlos de Almeida
Soneto
Demoro-me na escassa infância
em buscamentos de poesia
Que um severo milagre se proponha
e se abasteça a noite de seu dia.
Guardar-me não será melhor que unir-me
à memória dos olhos e do ouvido.
Existe a solidão de um tempo atado
ao que ouvi sem ter sentido.
Sem proeza ofertei amor exíguo.
Não perguntei às formas exauridas
onde encontrar estojo para o verso.
Conquisto para mim palavras minhas
em que o medo engendrou um grave espanto:
fonte de hermética paisagem.
em buscamentos de poesia
Que um severo milagre se proponha
e se abasteça a noite de seu dia.
Guardar-me não será melhor que unir-me
à memória dos olhos e do ouvido.
Existe a solidão de um tempo atado
ao que ouvi sem ter sentido.
Sem proeza ofertei amor exíguo.
Não perguntei às formas exauridas
onde encontrar estojo para o verso.
Conquisto para mim palavras minhas
em que o medo engendrou um grave espanto:
fonte de hermética paisagem.
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Mário Donizete Massari
Dos caminhos
Dos caminhos nada sei
a não ser os passos incertos que dei
vez ou outra sem saber os achei
e me perdi ao encontrar você
Dos caminhos nada sei
a não ser o brilho dos olhos
a construir o trajeto e as
mãos vazias a tatear um verso
Os caminhos me são estranhos
assim como o são esses seres
que nada dizem, apenas me vêem
como um entre tantos
Os caminhos me fogem às mãos
e persigo-os de fato
itinerário incerto
pés descalços . . .
a não ser os passos incertos que dei
vez ou outra sem saber os achei
e me perdi ao encontrar você
Dos caminhos nada sei
a não ser o brilho dos olhos
a construir o trajeto e as
mãos vazias a tatear um verso
Os caminhos me são estranhos
assim como o são esses seres
que nada dizem, apenas me vêem
como um entre tantos
Os caminhos me fogem às mãos
e persigo-os de fato
itinerário incerto
pés descalços . . .
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