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Poemas neste tema

Alma

Castro Alves

Castro Alves

AS DUAS ILHAS

Sobre uma página de poesia de V. Hugo
com o mesmo título

Quando à noite — às horas mortas —
O silêncio e a solidão
— Sob o dossel do infinito —
Dormem do mar namplidão,
Vê-se, por cima dos mares,
Rasgando o teto dos ares
Dois gigantescos perfis...
Olhando por sobre as vagas,
Atentos, longínquas plagas
Ao clarear dos fuzis.

Quem os vê, olha espantado
E a sós murmura: "0 que é?
Ai! que atalaias gigantes,
São essas além de pé?!..."
Adamastor de granito
Coa testa roça o infinito
E a barba molha no mar;
É de pedra a cabeleira
Sacudinda onda ligeira
Faz de medo recuar...

São — dous marcos miliários,
Que Deus nas ondas plantou.
Dous rochedos, onde o mundo
Dous Prometeus amarrou!...
— Acolá... (Não tenhas medo!)
É Santa Helena — o rochedo
Desse Titã, que foi rei!...
— Ali... (Não feches os olhos!...)
Ali... aqueles abrolhos
São a ilha de Jersey!...

São eles — os dous gigantes
No século de pigmeus.
São eles — que a majestade
Arrancam da mão de Deus.
— Este concentra na fronte
Mais astros — que o horizonte,
Mais luz — do que o sol lançou!...
— Aquele — na destra alçada
Traz segura sua espada
— Cometa, que ao céu roubou!...

E olham os velhos rochedos
O Sena, que dorme além...
E a França, que entre a caligem
Dorme em sudário também...
E o mar pergunta espantado.
"Foi deveras desterrado
Buonaparte — meu irmão?..."
Diz o céu astros chorando:
"E Hugo?..." E o mundo pasmando
Diz:"Hugo... Napoleão!..."

Como vasta reticência
Se estende o silêncio após...
És muito pequena, ó França,
Pra conter estes heróis...
Sim! que estes vultos augustos
Para o leito de Procustos
Muito grandes Deus traçou...
Basta os reis tremam de medo
Se a sombra de algum rochedo
Sobre eles se projetou!...

Dizem que, quando, alta noite,
Dorme a terra — e vela Deus,
As duas ilhas conversam
Sem temor perante os céus.
— Jersey curva sobre os mares
À Santa Helena os pensares
Segreda do velho Hugo...
— E Santa Helena no entanto
No Salgueiro enxuga o pranto
E conta o que Ele falou...

E olhando o presente infame
Clamam: "Da turba vulgar
Nós — infinitos de pedra —
Nós havemo-los vingar!. . . "
E do mar sobre as escumas,
E do céu por sobre as brumas,
Um ao outro dando a mão...
Encaram a imensidade
Bradando: "A Posteridade!..."
Deus ri-se e diz: "Inda não!. . . "

1 947
Castro Alves

Castro Alves

Maciel Pinheiro

Dieu soit en aide au pieux pèlerin.
BOUCHARD

Partes, amigo, do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quiseste a luz das boreais auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais...
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-tesse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Símblo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais...
Atlas com a forma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

Vai nas planícies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus gerais,
Onde os gaúchos sobre as éguas voam...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

E nesse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço — como o bardo errante —
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

E eu, cujo peito como ua harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu verás...
Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.

2 088
Casimiro de Brito

Casimiro de Brito

Com Pessoa no Martinho da Arcada

Também eu me sentei, anos a fio,
à mesa de Pessoa no Martinho
da Arcada e olhei para dentro do novelo
emaranhado da sua vida. Não há nada
para desenrolar, concluímos. Corriam
os anos setenta oitenta
e os meus dias eram uma concha recheada de
metáforas cotações enigmas letras
de câmbio câmbio de afectos graffitti estatísticas
enquanto nas ruas de Lisboa a revolução rolava
ao sabor das marés e das brisas agitadas
pelo patrão Vasques e por outras
abelhas mestras: "Governa quem é alegre(...)
para ser triste é preciso sentir".
Também eu tomei café
de costas viradas para o Tejo e encontrei
o meu sossego no desassossego de Soares
como se fôssemos o mesmo guarda-livros
cansado que descia a Rua Augusta e depois se dividia
em dois, ele a caminho da Rua da Madalena,
eu da Rua do Ouro,
onde escrevíamos apressadas sílabas no verso
dos papéis comerciais que nos pagavam
o pão. Do meu gabinete eu via o "lago azul" do Tejo,
ele não. O que mais me fascina
nesta fotografia
é a página que o poeta lê como se fosse
a mãe louca que embala um filho
morto. Uma tábua
"todos os papéis estão brancos"
"todas as mensagens se adivinham"
onde eu posso entrar e entrava nesses dias
quando me cansava de caminhar nas ruas baixas
que vão dar ao Cais das Colunas e então sentava-me
na sua cadeira e misturava
como se fossem obscuras folhas de café
as palavras dele e as minhas:

Sofro de não sofrer e sobre a morte
escrevo em seu trabalho de não saber
sofrer lavrando-a enquanto
a vida visito. Vivo ou finjo que vivo?
O discurso do corpo
canta, uma vaga aragem que sai fresca
do calor do dia e me faz
esquecer tudo e com as aves
resvalo e com os rios...

Incontáveis as vezes em que o meu cansaço
da bolsa e da vida,
dos ruídos da baixa e dos barcos que partiam
no azul nevoeiro
se aconchegava na página desconhecida
como se fosse um velho buraco de
família uma espécie de sono
metafórico uma imersão
em águas antigas que exerciam em mim
um vago domínio. E então eu lia
o que ele talvez ali estivesse
lendo: "Nem uma saudade já me resta
dos búzios à beira dos mares" e também eu me sentia
nesses momentos
o sócio minoritário de um pequeno comércio de poetas
sentados na bruma: havia um que buscava
o mar nos búzios, outro que partia para as praias onde
havia
búzios e ouvia o mar "só e calmo",
como quem habita um aroma paciente.
Também eu escrevi versos como se fossem lançamentos
de escrita, "como cuidado
e indiferença": havia que fundir-me,
entrar para dentro da areia
indizível; havia que pesar o ouro das palavras
sabendo que pesava
cinza. "O universo
não é meu", lia Pessoa na página em que não sei
o que lia, o universo "sou eu" — fonte
sonolenta
que se bebe a si própria
e mais nada. Também a mim
me doeu "a cabeça e o universo" nesses dias
em que fui abandonado à tona de água
como se a água tivesse um dentro e um fora
e os cabelos que me foram caindo não dissessem
que tudo são cabelos correndo como rios
um pouco loucos
de um lado para o outro — "uma vaga doença",
"um prenúncio de morte"
que não tem outro mistério além do mistério
de partirem barcos. Também eu
me sentei à mesa de Pessoa no Martinho
da Arcada enquanto lá fora chovia
"como se houvesse chovido(... )
desde a primeira página do mundo"
e o que faço agora é vê-lo estar lendo um nada
que é tudo basta olhar
para o olhar do amigo que sobre o poeta se debruça,
mudo. O enigma que vê outro enigma
no palco ainda verde
e já em ruína.

1 614
Castro Alves

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O Canto de Bug Jargal

(Traduzido de V. Hugo)
Por que foges de mim? Por que, Maria?
E gelas-te de medo, se me escutas?
Ah! sou bem formidável na verdade,
Sei ter amor, ter dores e ter cantos!
Quando, através das palmas dos coqueiros
Tua forma desliza aérea e pura,
Ó Maria, meus olhos se deslumbram,
Julgo ver um espírito que passa.
E se escuto os acentos encantados,
Que em melodia escapam de teus lábios,
Meu coração palpita em meu ouvido
Misturando um queixoso murmurio
De tua voz à lânguida harmonia.
Ai! tua voz é mais doce do que o canto
Das aves que no céu vibram as asas,
E que vem no horizonte lá da pátria.
Da pátria onde era rei, onde era livre!
Rei e livre, Maria! e esqueceria
Tudo por ti... esqueceria tudo
— A família, o dever, reino e vingança
Sim, até a vingança! ... ainda que cedo
Tenha enfim de colher este acre fruto,
Acre e doce que tarde amadurece.

...................................................................

Ó Maria, pareces a palmeira
Bela, esvelta, embalada pelas auras.
E te miras no olhar de teu amante
Como a palmeira nágua transparente.
Porém ... sabes? Às vezes há no fundo
Do deserto o uragã que tem ciúmes
Da fonte amada... e arroja-se e galopa.
O ar e a areia misturando turvos
Sob o vôo pesado de suas asas.
Num turbilhão de fogo, árvore e fonte
Envolve... e seca a límpida vertente,
Sente a palmeira a um hálito de morte
Crespar-se o verde circlo da folhagem,
Que tinha a majestade de uma croa
E a graça de uma solta cabeleira.

...................................................................

Oh! treme, branca filha de Espanhola,
Treme, breve talvez tenhas em torno
O uragã e o deserto. Então, Maria,
Lamentarás o amor que hoje pudera
Te conduzir a mim, bem como o kata
— Da salvação o pássaro ditoso —
Através das areias africanas
Guia o viajante lânguido à cisterna.
E por que enjeitas meu amor? Escuta:
Eu sou rei, minha fronte se levanta
Sobre as frontes de todos. Ó Maria,
Eu sei que és branca e eu negro, mas precisa
O dia unir-se à noite feia, escura,
Para criar as tardes e as auroras,
Mais belas do que a luz, mais do que as trevas!

1 767
Castro Alves

Castro Alves

Ao Romper DAlva

Página feia, que ao futuro narra
Dos homens de hoje a lassidão, a história
Com o pranto escrita, com suor selada
Dos párias misérrimos do mundo! ...
Página feia, que eu não possa altivo
Romper, pisar-te, recalcar, punir-te...
PEDRO CALASANS
Sigo só caminhando serra acima,
E meu cavalo a galopar se anima
Aos bafos da manhã.
A alvorada se eleva do levante,
E, ao mirar na lagoa seu semblante,
Julga ver sua irmã.

As estrelas fugindo aos nenufares,
Mandam rútilas pérolas dos ares
De um desfeito colar.
No horizonte desvendam-se as colinas,
Sacode o véu de sonhos de neblinas
A terra ao despertar.

Tudo é luz, tudo aroma e murmurio.
A barba branca da cascata o rio
Faz orando tremer.
No descampado o cedro curva a frente,
Folhas e prece aos pés do Onipotente
Manda a lufada erguer.

Terra de Santa Cruz, sublime verso
Da epopéia gigante do universo,
Da imensa criação.
Com tuas matas, ciclopes de verdura,
Onde o jaguar, que passa na espessura,
Roja as folhas no chão;

Como és bela, soberba, livre, ousada!
Em tuas cordilheiras assentada
A liberdade está.
A púrpura da bruma, a ventania
Rasga, espedaça o cetro que serguia
Do rijo piquiá.

Livre o tropeiro toca o lote e canta
A lânguida cantiga com que espanta
A saudade, a aflição.
Solto o ponche, o cigarro fumegando
Lembra a serrana bela, que chorando
Deixou lá no sertão.

Livre, como o tufão, corre o vaqueiro
Pelos morros e várzea e tabuleiro
Do intrincado cipó.
Que importa’os dedos da jurema aduncos?
A anta, ao vê-los, oculta-se nos juncos,
Voa a nuvem de pó.

Dentre a flor amarela das encostas
Mostra a testa luzida, as largas costas
No rio o jacaré.
Catadupas sem freios, vastas, grandes,
Sois a palavra livre desses Andes
Que além surgem de pé.

Mas o que vejo? É um sonho!... A barbaria
Erguer-se neste séclo, à luz do dia.
Sem pejo se ostentar.
E a escravidão — nojento crocodilo
Da onda turva expulso lá do Nilo —
Vir aqui se abrigar! ...

Oh! Deus! não ouves dentre a imensa orquesta
Que a natureza virgem manda em festa
Soberba, senhoril,
Um grito que soluça aflito, vivo,
O retinir dos ferros do cativo,
Um som discorde e vil?

Senhor, não deixes que se manche a tela
Onde traçaste a criação mais bela
De tua inspiração.
O sol de tua glória foi toldado...
Teu poema da América manchado,
Manchou-o a escravidão.

Prantos de sangue — vagas escarlates —
Toldam teus rios — lúbricos Eufrates
Dos servos de Sião.
E as palmeiras se torcem torturadas,
Quando escutam dos morros nas quebradas
O grito de aflição.

Oh! ver não posso este labéu maldito!
Quando dos livres ouvirei o grito?
Sim... talvez amanhã.
Galopa, meu cavalo, serra acima!
Arranca-me a este solo. Eia! te anima
Aos bafos da manhã!

2 885
Castro Alves

Castro Alves

O Sibarita Rornano

Este olhar, estes lábios, estas rugas
exprimem uma sede impaciente e
impossível de saciar. Quer e não pode.
Sente o desejo e a impaciência.
LAVATER
Escravo, dá-me a croa de amaranto
Que mandou-me inda há pouco Afra impudente.
Orna-me a fronte... Enrola-me os cabelos,
Quero o mole perfume do Oriente.

Lança nas chamas dessa etrusca pira
O nardo trescalante de Medina.
Vem... desenrola aos pés do meu triclínio
As felpas de uma colcha bizantina.

Ohl tenho tédio... Embalde, ao pôr da tarde,
Pelas nereidas louras embalado,
Vogo em minha galera ao som das harpas,
Da cortesã nos seios recostado.

Debalde, em meu palácio altivo, imenso,
De mosaicos brilhantes embutido,
Nuas, volvem as filhas do Oriente
No morno banho em termas de porfido.

Só amo o circo... a dor, gritos e flores,
A pantera, o leão de hirsuta coma;
Onde o banho de sangue do universo
Rejuvenesce a púrpura de Roma.

E o povo rei — na vítima do mundo
Palpa as entranhas que inda sangue escorrem,
E ergue-se o grito extremo dos cativos:
— Ave, Cesar! saúdam-te os que morrem!

Escravo, quero um canto... Vibra a lira,
De Orfeu desperta a fibra dolorida,
Canta a volúpia das bacantes nudas,
Fere o hino de amor que inflama a vida.

Doce, como do Himeto o mel dourado,
Puro como o perfume... Escravo insano!
Teu canto é o grito rouco das Eumênides,
Sombrio como um verso de Lucano.

Quero a ode de amor que o vento canta
Do Palatino aos flóreos arvoredos.
Quero os cantos de Nero... Escravo infame,
Quebras as cordas nos convulsos dedos!

Deixa esta lira! como o tempo é longo!
Insano! insano! que tormento sinto!
Traze o louro falerno transparente
Na mais custosa taça de Corinto.

Pesa-me a vida!... está deserto o Forum!
E o tédio!... o tédio!... que infernal idéia!
Dá-me a taça, e do ergástulo das servas
Tua irmã trar-me-ás, — a grega Haidéia!

Quero em seu seio... Escravo desgraçado,
A este nome tremeu-te o braço exangue?
Vê... Manchaste-me a toga com o falerno,
Irás manchar o Coliseu com o sangue!...

1 582
Castro Alves

Castro Alves

Virgem dos Últimos Amores

CENA ÚNICA

É noite. A cena representa uma
floresta americana. Longe dos fogos
sangrentos da tribo. Perto os guerreiros
que rodam ao clarão do luar. O prisioneiro
espera a noiva

POR DETRÁS daquele outeiro
A morte espera a manhã!
É a morte do guerreiro,
Do bravo que não recua!...
Geme ao longe a mãe-da-lua,
Responde perto a cauã...

Nas sombras passa uma sombra!...
Balançaram nos cipós!...
Pé de moça pisa a alfombra...
Da cova enfeitam-lhe as flores...
Flor dos últimos amores!
Traz o beijo dos heróis!

Da lua a teia amarela
Estende as malhas de luz...
Na riba o caboclo vela
Ao rubro fogo da taba...
Aqui a murta desaba
Mulher! nos teus peitos nus!

A lagoa se debruça
Pra cair no ribeirão...
É minha mie quem soluça?
Não sabes filha estrangeira,
Tens a trança da palmeira...
Palmeira do coração!

Foi de jasmins amarelos
Que trançaste o canitar!
Criança, eu morro de anelos,
Dá-me beijo sobre beijo...
Tenho um séclo — por desejo!
E uma noite — por amar!

Amanhã todo este fogo
A morte vai apagar,
Arranca-me est’alma logo...
— Amai! — a noite nos clama —
— Enquanto houver uma flama! —
Um grito! um sopro! um olhar!

Teu sangue ardente galopa
Na fronte morna a bater;
Teu lábio meu lábio ensopa...
Moça! que mel nestes lábios...
São das abelhas ressábios?
São ressábios do morrer?

Pois eu já vi mil gentias
Chorar nestes braços meus,
Aquelas frutas bravias
Não São frutas que embriagam,
Teus dedos quando me afagam
Parecem dedos dos céus...

Existe uma flor na mata
Que aparece à noite só:
Abre as pétalas de prata,
Se espaneja, se colora...
Mas, aos fulgores da aurora
Murcha, expira, faz-se em pó.

Chama-se... o nome qu’mporta?
Lembro agora um sonho meu:
... Uma águia tombava morta
Das nuvens... na correnteza...
Nas garras tinha uma presa
Rolando viva... Era eu!

Por que derrubas as gotas
Do cacho do ouricuri?
São tuas miçangas rotas

Que rolam na minha frente?
Teu colar estava quente...
As contas quentes senti!

Bem sabes! Se o filho expira,
A mãe, que triste o perdeu,
Na selva o berço lhe estira
Entre a flor, a brisa, a palma...
Quando eu morrer, prende estalma
Aqui, no cabelo teus

Minha noiva derradeira,
És bela e triste ao luar!
Eu fui a garça altaneira
Cruzando as tardes vermelhas...
Dos arcos das sobrancelhas
Por que frechaste um olhar?

Caí! Caí nos teus braços,
Dela filha de Tupá!
São serpentes teus abraços,
Mas são serpentes que beijam!...
São lianas que festejam
Os galhos de piquiá.

Já, mais fria a serenada
Resvala pelos bambus...
Os ventos da madrugada
Vêm da picha, vêm do norte...
Não ouves, falando em morte?
... Eu amo os teus ombros nus!...

Teus ombros... Mas ficas branca
Vendo o céu enbranquecer!?
É a alvorada que espanca
Os mochos e dentre as flores,
Aos pombos arruladores
Manda cantar... Vou morrer!

Vem! Os astros emurchecem...
Só resta um deles nos céus.
Seus raios grandes parecem
As pétalas da magnólia...
É a estrela que se esfolha
Quando a noite diz adeus.

Fita os olhos nela... um beijo...
Um beijo... antes do arrebol!...
Inda brilha... inda um desejo...
Eia! Ao raio derradeiro!...

..................................

Adeus! noiva do guerreiro!
Salve, ó morte! Salve, ó sol!!!

2 080
Castro Alves

Castro Alves

A Órfã na Sepultura

Minha mãe, a noite é fria,
Desce a neblina sombria,
Geme o riacho no val
E a bananeira farfalha,
Como o som de uma mortalha
Que rasga o gênio do mal.

Não vês que noite cerrada?
Ouviste essa gargalhada
Na mata escura? ai de mim!
Mãe, ó mãe, tremo de medo.
Oh! quando enfim teu segredo,
Teu segredo terá fim?

Foi ontem que à Ave-Maria
O sino da freguesia,
Me fez tanto soluçar.
Foi ontem que te calaste...
Dormiste . . os olhos fechaste...
Nem me fizeste rezar! ...

Sentei-me junto ao teu leito,
Stava tão frio o teu peito,
Que eu fui o fogo atiçar.
Parece que então me viste
Porque dormindo sorriste
Como uma santa no altar.

Depois o fogo apagou-se,
Tudo no quarto calou-se,
E eu também calei-me então.
Somente acesa uma vela
Triste, de cera amarela,
Tremia na escuridão.

Apenas nascera o dia,
À voz do maridedia
Saltei contente de pé.
Cantavam os passarinhos
Que fabricavam seus ninhos
No telhado de sapé.

Porém tu, por que dormias,
Por que já não me dizias
"Filha do meu coração?"
Stavas aflita comigo?
Mãe, abracei-me contigo,
Pedi-te embalde perdão...

Chorei muito! ai triste vida!
Chorei muito, arrependida
Do que talvez f iz a ti.
Depois rezei ajoelhada
A reza da madrugada
Que tantas vezes te ouvi:

"Senhor Deus, que após a noite
"Mandas a luz do arrebol,
"Que vestes a esfarrapada
"Com o manto rico do sol,

"Tu que dás à flor o orvalho,
"Às aves o céu e o ar,
"Que dás as frutas ao galho,
"Ao desgraçado o chorar;

"Que desfias diamantes
"Em cada raio de luz,
"Que espalhas flores de estrelas
"Do céu nos campos azuis;

"Senhor Deus, tu que perdoas
"A toda alma que chorou,
"Como a clícia das lagoas,
"Que a água da chuva lavou;

"Faze da alma da inocente
"O ninho do teu amor,
"Verte o orvalho da virtude
"Na minha pequena flor.

"Que minha filha algum dia
"Eu veja livre e feliz! ...
"Ó Santa Virgem Maria,
"Sê mãe da pobre infeliz."

Inda lembras-te! dizias,
Sempre que a reza me ouvias
Em prantos de a sufocar:
"Ai! têm orvalhos as flores,
"Tu, filha dos meus amores,
"Tens o orvalho do chorar".

Mas hoje sempre sisuda
Me ouviste... ficaste muda,
Sorrindo não sei pra quem.
Quase então que eu tive medo...
Parecia que um segredo
Dizias baixinho a alguém.

Depois... depois... me arrastaram...
Depois... sim... te carregaram
Pra vir te esconder aqui.
Eu sozinha lá na sala...
Stava tão triste a senzala...
Mãe, para ver-te eu fugi...

E agora, ó Deus!... se te chamo
Não me respondes!... se clamo,
Respondem-me os ventos suis...
No leito onde a rosa medra
Tu tens por lençol a pedra,
Por travesseiro uma cruz.

É muito estreito esse leito?
Que importa? abre-me teu peito
— Ninho infinito de amor.
— Palmeira — quero-te a sombra.
— Terra — dá-me a tua alfombra.
— Santo fogo — o teu calor.

Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta
Minha mãe... meu céu... meu Deus...

3 015
Brasigóis Felício

Brasigóis Felício

As sementes da Poesia

"Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com uma flauta."Para que lhe servirá?", perguntaram-lhe. "Para aprender esta ária antes de morrer". As-sim vivem e morrem, os poetas, os avatares e os profetas. "Fosse possível nascer, nasceria em Pirenópolis. Fosse possível, morreria em Caldas Novas", escreveu o poeta e escritor Luiz de Aquino Alves Neto, que hoje, com orgulho, re-cebemos na casa de Colemar Natal e Silva. São assim, os poetas, os avatares e os profetas. Se a pátria de cada um é sua infância, os lugares de que temos mais saudades são aqueles em que fomos felizes. Assim são os poetas que, como Luiz de Aquino, só aprenderam a falar e a dis-tinguir as coisas e as pessoas pela linguagem do amor. E quem fala de amor merece a sua prote-ção, escreveu o jornalista Paulo Siqueira, sobre as razões da semente e da lírica e amorosa poe-sia desde goiano que, quando está em Caldas Novas, tem saudades de Pirenópolis, e quando está em Pirenópolis, tem saudades de Caldas Novas. São assim os poetas, criaturas que têm saudades do futuro. Mário de Andrade sempre morou na rua Lopes Chaves, e nunca soube quem foi Lopes Chaves. São assim, poetas como Luiz de Aquino. Cristãos que cantam no suplício, dedicam-se a aprender árias, em velu-dosas vozes, e violões enluarados, mesmo sabendo que estão a poucos minutos de enfrentar o olhar de aço do carrasco. O poeta tem apenas duas mãos, e o sentimento do mundo. Por isso, como Drummond, pede, a quem ama: "O pre-sente é tão grande, tão imensa a realidade. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas".

Assim escreveu Luiz de Aquino, sobre as raízes da frondosa e generosa árvore em que busca transformar-se, como ser humano, e como criador: "Meu pai tem mãos de amaciar violão (feito as de Rabelo e Reny, Marcelo e João Bosco). Minha mãe tem mãos-carinho (como as de Mel e Iliana, de Zaira e Mariana). Tenho mãos de escrever poemas de amor e coisas afins. O mundo tem mãos que espancam e afagam, esculpem e coloram. As de Reny fazem sons, as de meu pai criam acordes, despertam amores, acalentam dores, adormecem temores e saudades. As minhas molham-se em molhos sensuais. Tenho mãos que amansam vãos". É assim, emotiva, e saudosa de suas raízes, a poe-sia de Luiz, que hoje recebemos, jubilosos. E como o poeta conhece e decifra, sem medo, a linguagem do amor, sabe, como a poetisa Re-nata Pallotini, que para amar, de verdade, é pre-ciso ter a suprema coragem de atirar nossas coi-sas para o mar, e partir sem bagagem. Quem, como Luiz de Aquino, teve a coragem kamikaze de vender poesias de amor, de bar em bar, aos casais de namorados, sabe que a vida, a literatu-ra e o amor, só valem se fizerem parte de um único projeto. Por absurdo que pareça, disse Guimarães Rosa, três dias antes de morrer (acabara de tomar posse na Academia Brasileira de Letras), a gente nasce, vive e morre. E, como se estivesse a adivinhar o fim próximo, de sua vida e obra, assinalou: "Esta vida horária não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos".

Mas o que tem a ver, tanto devaneio poético, com as sisudas e bem comportadas pala-vras, que devem constar de uma saudação aca-dêmica?, poderão alguns indagar. Se é verdade que as melhores palavras de um poeta são os seus próprios poemas, entendo que a linguagem mais apropriada, para saudar um poeta, é a que vibra, e se manifesta em seus próprios poemas. Se o que nós amamos verdadeiramente perma-nece, sendo entulho, todo o resto, então, para quem decifra a aventura de viver aprendendo a ária de silêncio das palavras, só o que couber na dimensão mágica da poesia tem razão e sentido. Assim sendo, não me escuso por brandir, aqui, mais a minha lira do que meus frágeis saberes acadêmicos; até porque, como bem disse o po-eta Gabriel Nascente, "A poesia não pede licen-ça pra chegar".

Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em Caldas Novas, na praça da Matriz, em uma ca-sinha já demolida, onde se construiu, há mais de 20 anos, uma confortável morada, onde hoje funciona uma butique. Coisa da especulação turística. Era sábado, 15 de setembro de 1945, um pouco mais de um mês após os americanos detonarem, sobre Hiroshima e Nagazaki, as du-as primeiras bombas atômicas, que atiraram a humanidade nos horrores e no dantesco espetá-culo da guerra nuclear. O poeta acha que, aba-lado pela explosão do mundo, nasceu turrão. "Sou alegre e maleável até que alguém pise, distraidamente ou por querer, no nervo que os-tento na cauda". A Caldas Novas seu pai che-gou em 1940, buscando trabalho. Dois de seus tios maternos moravam lá e já desfrutavam de certa influência inexpressiva na corrutela que, 26 anos depois, despontaria como o mais pro-missor pólo turístico do Brasil Central. Ele vi-nha de Pirenópolis e — isto é curioso — pelo lado materno descende de Martinho Coelho de Siqueira, o descobridor das águas termais no findar do século XVIII.

O clima, em sua casa, no período de 45 a 56, fazia jus à raiz musical, vinda de seu avô. O pai de Luiz, Israel de Aquino, trouxe, de Pire-nópolis, a habilidade para executar, ao violão, valsas e modinhas bem ao gosto da época. Ali, aos 17 anos, encontrou um rapaz de sua idade, moço, dotado de rara inteligência e que, apaixo-nado por música e artes, conseguiu a façanha de estudar música por correspondência: José Pinto Neto, que já está do outro lado da vida. Com Zé Pinto, seu pai formou a mais marcante dupla da vida boêmia de Caldas Novas. Aos quatro anos de idade, Luiz de Aquino acompanhou os seresteiros, em sua primeira serenata. As letras das músicas (sempre antigas), eram transcritas em letra bonita, em cadernos de capa dura. Ele se lembra de ver José Pinto afastar o sax para vomitar, tanto tinha bebido. Mas a responsabili-dade do instrumentista não lhe permitia, com toda a cachaça, vomitar no instrumento. As se-renatas, tirando o período de dez aos dezessete anos, foram marcantes, em sua vida, até quando, aos 33 anos, teve a voz afetada por papilomas vocais. Por esta ocasião, o poeta empunhava, todo lampeiro, um cavaquinho que, então, teve de aposentar. "Eram comuns, as rodas musicais em minha casa. Eram viajantes que apreciavam música, eram juízes ou promotores com voca-ções musicais, que vinham buscar a companhia do meu velho, Zé Pinto sempre ao lado. E meu pai era convidado permanente para as festas de família, ou mesmo as quermesses da igreja, ape-sar de maçom. Cresci, pois, aprendendo letras de valsas e modinhas. A leitura, conheci-a nas práticas de minha mãe. Quando aprendi a ler, antes dos cinco anos, apaixonei-me pelos gibis e os lia todos, da coleção do primo Rogério. Não demorou para que eu fosse cortado dos jogos de bola ao lado da igreja, porque jamais podiam contar comigo. Era descuidarem, e eu me es-condia na casa de tia Dorinha para ler gibis".

Foram belos e difíceis, seus anos de giná-sio, no Rio. Em português, adotava-se o mesmo livro para todos os quatro anos do ginásio: an-tologia, organizada pelo professor Clóvis Mon-teiro, diretor do colégio, que viria a falecer justo naquele ano de 1958, seu primeiro ano ginasial. Foi nesse livro que tomou contato definitivo com textos literários, tanto em prosa como em verso: "No Pedro II, ensinava-se gramática pela literatura. Uma professora, particularmente, marcou minha vida: Maria Helena Silveira, de quem nunca mais tive notícias. Ela tinha um defeito físico, aquela corcunda com protuberân-cia no osso externo, o que chamam de peito-de-pombo. Foi, talvez, a personalidade mais linda que conheci na adolescência, exemplo de ho-nestidade intelectual e integridade ética". No quarto ano, para ensinar História do Brasil, che-gou o mais famoso poeta brasileiro da época, J.G. de Araújo Jorge. Com ele Luiz aprendeu, quem sabe, a cantar em poesia as paixões que, é claro, são um capítulo à parte, na vida de todos (ou quase todos) os poetas: "Minha primeira paixão era uma garotinha do primário, colega de classe, com quem jamais troquei uma palavra sequer. E
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