Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Horácio Costa
A rã
Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
798
Alexandre Guarnieri
rotinas (repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
753
Cida Pedrosa
UM CERTO SOL SOBRE SÃO PAULO
para maria josé oiticica
o sol se põe em são paulo
a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala
o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair
o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
grito
teu nome de ateu
são paulo anda à margem
à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós
são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
o sol se põe em são paulo
a brisa rasteira
rasteja meus pés
que se põem entre o azul
e o mostarda do sofá da tua sala
o sol se põe
sob os aviões da planície
e eu
pássaro aceso
espero
nesta casa de marias
que voam nas asas da panair
o sol se põe sob são paulo
e eu
pássaro sem saída
grito
teu nome de ateu
são paulo anda à margem
à margem de mim
à margem de ti
à margem de nós
são paulo anda à margem do mar
e o pôr do sol voa mais alto
que as luzes de neon
815
Cida Pedrosa
O ORIENTE DA CIDADE
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe
entre putas e pombos construí poemas
a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe
entre putas e pombos construí poemas
788
Cida Pedrosa
diáspora
abro os olhos
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
845
Alexandre Guarnieri
música de trabalho
enquanto dura a jornada diurna, um barulhário,
mas fora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.
nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou quaisquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.
mas fora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.
nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou quaisquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.
581
Mailson Furtado Viana
por causa do alvará de funcionamento
as casas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam
tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso
hoje
são estéreis
sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer
são hipócritas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam
tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso
hoje
são estéreis
sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer
são hipócritas
766
Simone Brantes
Die Aufgabe
Chegar em casa um pouco mais
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
701
Mailson Furtado Viana
a estante deslocou a sala
a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
664
Alexandre Guarnieri
Motim 2.0
“às ordens, hei-me!”, “às ordens, hei-me!”,
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
639
António Carlos Cortez
Este é o canto mais perfeito da noite
este é o canto mais perfeito da noite.
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
706
Paulo Teixeira
Berghain
A cidade desliza lá fora com o luar.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.
O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,
a telegrafia sem fios:
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.
O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.
O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.
A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.
O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,
a telegrafia sem fios:
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.
O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.
O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.
A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
589
António Carlos Cortez
S. PEDRO DE ALCÂNTARA, MIRADOURO / MEMÓRIA DO VERÃO
Como cinzento-rosa a cidade
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança
O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo
... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)
Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança
O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo
... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)
Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
691
Paulo Teixeira
Uma Residência
Um ano depois de eu nascer,
Berlim era um convés de voo
com naves laterais e galeria
de ventilação, forças aerotransportáveis
e sereia de alarme aéreo.
Imagino Gombrowicz chegando,
espécie de nómada insolente,
com o cinismo prático
e as mil facetas da sua alma dialéctica,
proscrito uma vez mais,
por decisão unilateral,
para um ano longe da pampa.
A Alemanha era uma arte de decompor em partes
um direito adquirido com o nascimento,
e a cidade uma protuberância da guerra fria,
purga de ar de que ele podia seguir
as descargas luminosas no alto penhasco
onde o alojaram em Hohenzollerndamm.
Tivesse o dom de vaticinar
e saberia que era citado
a depor com o corpo a infância polaca
nos aromas que se libertam
de aceres e bétulas nas áleas do Tiergarten.
Uma dissidência terminava assim,
neste retiro verde e sossegado —
como um castigo corporal
ou qualquer coisa de congénito,
a Europa vinha ao seu encontro
e a morte com um odor característico
irrompia, longe da confusão e do caos,
por entre os néons e a névoa da pax americana.
Berlim era um convés de voo
com naves laterais e galeria
de ventilação, forças aerotransportáveis
e sereia de alarme aéreo.
Imagino Gombrowicz chegando,
espécie de nómada insolente,
com o cinismo prático
e as mil facetas da sua alma dialéctica,
proscrito uma vez mais,
por decisão unilateral,
para um ano longe da pampa.
A Alemanha era uma arte de decompor em partes
um direito adquirido com o nascimento,
e a cidade uma protuberância da guerra fria,
purga de ar de que ele podia seguir
as descargas luminosas no alto penhasco
onde o alojaram em Hohenzollerndamm.
Tivesse o dom de vaticinar
e saberia que era citado
a depor com o corpo a infância polaca
nos aromas que se libertam
de aceres e bétulas nas áleas do Tiergarten.
Uma dissidência terminava assim,
neste retiro verde e sossegado —
como um castigo corporal
ou qualquer coisa de congénito,
a Europa vinha ao seu encontro
e a morte com um odor característico
irrompia, longe da confusão e do caos,
por entre os néons e a névoa da pax americana.
724
Paulo Teixeira
Potsdamer Platz
Na clareira aberta pelas bombas
Renzo Piano ergueu em memória
da Haus Vaterland um carrocel gigante
com tenda de circo e bazar de luzes:
numa redoma de vidro, a Kaisersaal
lembra uma gruta de anacoreta:
dos restaurantes, como corbelhas
acesas, olha-se o que há vinte anos
era uma forja: ia-se sobre sucata,
retorcida, oxidada, até plataformas
ver o outro lado: os lustres e lampadários
do café Josty numa galeria decorada
como um retábulo: atravessado pelo muro
e a ronda das sentinelas: viam-se na mira
das armas automáticas, vigiavam as hordas
de um e do outro lado da muralha
da China e o mundo suspendia-se do mover
dos seus dedos: numa cápsula de tempo,
sob o gibão listrado, este sonho de cenógrafo:
no globo da sibila as datas hão-se servir
muito tempo de enigma aos historiadores.
Renzo Piano ergueu em memória
da Haus Vaterland um carrocel gigante
com tenda de circo e bazar de luzes:
numa redoma de vidro, a Kaisersaal
lembra uma gruta de anacoreta:
dos restaurantes, como corbelhas
acesas, olha-se o que há vinte anos
era uma forja: ia-se sobre sucata,
retorcida, oxidada, até plataformas
ver o outro lado: os lustres e lampadários
do café Josty numa galeria decorada
como um retábulo: atravessado pelo muro
e a ronda das sentinelas: viam-se na mira
das armas automáticas, vigiavam as hordas
de um e do outro lado da muralha
da China e o mundo suspendia-se do mover
dos seus dedos: numa cápsula de tempo,
sob o gibão listrado, este sonho de cenógrafo:
no globo da sibila as datas hão-se servir
muito tempo de enigma aos historiadores.
686
Paulo Teixeira
Heaven underneath the arches
O medo, o cansaço dos sismos quotidianos
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
623
Carlos Soulié do Amaral
Soneto Vaivém
Para Fernão Lara Mesquita
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
703
Daniel Jonas
GROTTO
Não quero nada claro ou helénico.
Prefiro turbinas de aviões comerciais, a sua fuligem
doméstica
às velas de alabastro do veleiro de Ulisses
lá em mar alto.
Prefiro o eclipse a Calipso.
Não quero nada de verdadeiramente branco.
Dispenso a asa delta de garças,
o seu voo aerodinâmico,
troco-o pela arribação de ratos no esgoto,
a sua pressa chinesa,
o seu stress pós-traumático:
orgulham-me criaturas tão limpas.
Assim também recuso o papel branco:
trato de o desfigurar
com sangue negro, como se desfigura
um branco em Harlem.
Não quero começar a imaginar como se sentiriam
escravos nos campos de algodão.
Prefiro turbinas de aviões comerciais, a sua fuligem
doméstica
às velas de alabastro do veleiro de Ulisses
lá em mar alto.
Prefiro o eclipse a Calipso.
Não quero nada de verdadeiramente branco.
Dispenso a asa delta de garças,
o seu voo aerodinâmico,
troco-o pela arribação de ratos no esgoto,
a sua pressa chinesa,
o seu stress pós-traumático:
orgulham-me criaturas tão limpas.
Assim também recuso o papel branco:
trato de o desfigurar
com sangue negro, como se desfigura
um branco em Harlem.
Não quero começar a imaginar como se sentiriam
escravos nos campos de algodão.
721
Maria Lúcia Dal Farra
Artes
Evito rimas, recuso acrobacias
apenas do frugal me ocupo inteira:
tomo como medida o arame do varal
e entremeio nele (sensual, promíscua)
toalha de mesa com lençol.
A casa deságua no quintal,
alta se amolda aos ramos das mangueiras.
De quando em vez faz rumo, sai pra rua
(sem pelo) presa pela lua cheia
ou terna atrás de longe realejo.
Fica tudo quarando enquanto
cozinho ou vasculho a cumeeira
(esteio onde é mais vivo o espírito do meu pai)
e escapa das molduras uma aura, um certo enleio
com que apanho luz para as candeias,
com que canto funcionando este tear.
apenas do frugal me ocupo inteira:
tomo como medida o arame do varal
e entremeio nele (sensual, promíscua)
toalha de mesa com lençol.
A casa deságua no quintal,
alta se amolda aos ramos das mangueiras.
De quando em vez faz rumo, sai pra rua
(sem pelo) presa pela lua cheia
ou terna atrás de longe realejo.
Fica tudo quarando enquanto
cozinho ou vasculho a cumeeira
(esteio onde é mais vivo o espírito do meu pai)
e escapa das molduras uma aura, um certo enleio
com que apanho luz para as candeias,
com que canto funcionando este tear.
610
António Carlos Cortez
É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho
Hoje sou eu quem como o rio transluz
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
711
Stella Carr
A corrente
Um rio imita
o Tempo.
Quanto passa,
caminho de água
na margem da água,
corrente,
minuto impossível
— elo.
Um rio corta
veia
rua
cadeia-viva
a hora-morta
de
nem hoje ou amanhã.
Um dia-tempo
não, luz.
Um rio flui
infinito,
cordilheiras, planícies,
movimento no fundo
do aquário redondo
— rotação-translação.
Um rio-rua
com holofotes
nos olhos fortes
de luzes
— tráfego —
de milhões de seres
transeuntes.
Passam, postes, pastam
— rebanhos
enrolam a lã
luminosa,
uns atrás dos outros.
O rio imita a rua.
O mar imita a terra.
O peixe imita o homem.
o Tempo.
Quanto passa,
caminho de água
na margem da água,
corrente,
minuto impossível
— elo.
Um rio corta
veia
rua
cadeia-viva
a hora-morta
de
nem hoje ou amanhã.
Um dia-tempo
não, luz.
Um rio flui
infinito,
cordilheiras, planícies,
movimento no fundo
do aquário redondo
— rotação-translação.
Um rio-rua
com holofotes
nos olhos fortes
de luzes
— tráfego —
de milhões de seres
transeuntes.
Passam, postes, pastam
— rebanhos
enrolam a lã
luminosa,
uns atrás dos outros.
O rio imita a rua.
O mar imita a terra.
O peixe imita o homem.
761
Paulo Teixeira
Cidade ao nascer da lua
A toda a largura do pano vê-se a cidade
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
665
António Carlos Cortez
Um barco no rio
Rompem barcos
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
794
Paulo Teixeira
1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA
(Brecht na Califórnia)
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
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