Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Ruy Belo
Poema de Carnaval
Eu estava só naquela tarde e tu vieste
de dentro povoar-me de cidade o coração
prometido para o lugar
onde costumamos deixar as palavras
Tinham posto de novo fitas nas árvores
reuniram-se os corpos e as vozes
para todos juntos sentirem
pontualmente a alegria
E tu pousaste então ó meu pássaro naquele coração
cingido no meio da cidade
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
de dentro povoar-me de cidade o coração
prometido para o lugar
onde costumamos deixar as palavras
Tinham posto de novo fitas nas árvores
reuniram-se os corpos e as vozes
para todos juntos sentirem
pontualmente a alegria
E tu pousaste então ó meu pássaro naquele coração
cingido no meio da cidade
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
1 668
Ruy Belo
Poema vindo dos dias
A tua cruz senhor é pouco funcional
Não fica bem em nenhum jardim da cidade
dizem os vereadores e é verdade
E além disso os nossos olhos cívicos
ficam-se nos corpos de que nos cercaste
Saudamo-nos por fora como bons cidadãos
Submetemos os ombros ao teu peso
mas há tantos outros pesos pelo dia
E quando tu por um acaso passas
retocado pelas nossas tristes mãos
através dos pobres hábitos diários
só desfraldamos colchas e pegamos
em pétalas para te saudar
Queríamos ver-te romper na tarde
e morrem-nos as pálpebras de sono
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 55 | Editorial Presença Lda., 1984
Não fica bem em nenhum jardim da cidade
dizem os vereadores e é verdade
E além disso os nossos olhos cívicos
ficam-se nos corpos de que nos cercaste
Saudamo-nos por fora como bons cidadãos
Submetemos os ombros ao teu peso
mas há tantos outros pesos pelo dia
E quando tu por um acaso passas
retocado pelas nossas tristes mãos
através dos pobres hábitos diários
só desfraldamos colchas e pegamos
em pétalas para te saudar
Queríamos ver-te romper na tarde
e morrem-nos as pálpebras de sono
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 55 | Editorial Presença Lda., 1984
1 136
Ruy Belo
Enterro sob o sol
Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 13 | Editorial Presença Lda., 1981
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 13 | Editorial Presença Lda., 1981
1 430
Ruy Belo
Mors semper prae oculis
Narro-me letra por letra para ti
e sou a breve palavra que tu deixas
como uma esteira branca
no céu azul do tempo
Subo tijolo a tijolo até ás tuas mãos
e sou dos edifícios da cidade
um dos que hão-de ruir amanhã
Tombaram-nos primeiro os avós
e chega já a vez dos nossos pais
Quando faltar um choupo
no caminho da infância que vai dar ao rio
receberemos no rosto a morte
com a surpresa do primeiro homem
Eu fui um dia um nome escrito numa pedra
onde as mulheres da minha aldeia
batiam a roupa que nos cobre no tempo
E depois já não soube mais nada
mas a primavera passou rente a mim:
a morte fora continuava
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 39 | Editorial Presença Lda., 1984
e sou a breve palavra que tu deixas
como uma esteira branca
no céu azul do tempo
Subo tijolo a tijolo até ás tuas mãos
e sou dos edifícios da cidade
um dos que hão-de ruir amanhã
Tombaram-nos primeiro os avós
e chega já a vez dos nossos pais
Quando faltar um choupo
no caminho da infância que vai dar ao rio
receberemos no rosto a morte
com a surpresa do primeiro homem
Eu fui um dia um nome escrito numa pedra
onde as mulheres da minha aldeia
batiam a roupa que nos cobre no tempo
E depois já não soube mais nada
mas a primavera passou rente a mim:
a morte fora continuava
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 39 | Editorial Presença Lda., 1984
1 236
Ruy Belo
Metamorfose
Ó homem que passas tranquilo na rua
atrás de qualquer próximo perfume
e chegas a casa sem incidentes
ó homem que tens à espera de ti
virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto
não tenhas pena de quem morre
de árvore para árvore
e é diferente no principio e no fim da rua
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
atrás de qualquer próximo perfume
e chegas a casa sem incidentes
ó homem que tens à espera de ti
virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto
não tenhas pena de quem morre
de árvore para árvore
e é diferente no principio e no fim da rua
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
1 488
Ruy Belo
Friso de raparigas de Jerusalém
Raparigas no lusco-fusco recortadas
prestes a entoar o cântico da noite
e envoltas no inconsútil tule da sua juventude
dispostas a rasgar os véus vigilantes dos sonhos
são compridos ciprestes soerguidos sobre
as colinas que dezassete vezes viram
destruir a cidade de Jerusalém
Os amados virão quando vier o sábado
pais e mães jazerão sob a pedra da idade
e então elas sozinhas e suaves pensarão
em quem antes do verão virá em nuvens quentes de vapor
E por uma manhã de luz ainda rasa
toucadas de alegria e de neblina
elas hão-de passar a pertencer-lhes e
eles serão seus donos como de uma casa
A sombra adensa-se e condensa-se nos vales
e as mesmas estrelas que séculos antes
olharam cintilantes já as águas do dilúvio
hão-de furar o manto envolvente da noite
Será então a hora de as eternas raparigas
levantando nas mãos as ansiosas ânforas
derramarem o liquido das vozes sobre essa cidade
se dezassete vezes destruída já dezoito construída
E através do tempo os braços dessas raparigas
ligados uns aos outros pela seiva da imorredoura juventude
insistirão na transmissão da vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1981
prestes a entoar o cântico da noite
e envoltas no inconsútil tule da sua juventude
dispostas a rasgar os véus vigilantes dos sonhos
são compridos ciprestes soerguidos sobre
as colinas que dezassete vezes viram
destruir a cidade de Jerusalém
Os amados virão quando vier o sábado
pais e mães jazerão sob a pedra da idade
e então elas sozinhas e suaves pensarão
em quem antes do verão virá em nuvens quentes de vapor
E por uma manhã de luz ainda rasa
toucadas de alegria e de neblina
elas hão-de passar a pertencer-lhes e
eles serão seus donos como de uma casa
A sombra adensa-se e condensa-se nos vales
e as mesmas estrelas que séculos antes
olharam cintilantes já as águas do dilúvio
hão-de furar o manto envolvente da noite
Será então a hora de as eternas raparigas
levantando nas mãos as ansiosas ânforas
derramarem o liquido das vozes sobre essa cidade
se dezassete vezes destruída já dezoito construída
E através do tempo os braços dessas raparigas
ligados uns aos outros pela seiva da imorredoura juventude
insistirão na transmissão da vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1981
1 022
Ruy Belo
Epígrafe para a nossa solidão
Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemperâneos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemperâneos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
1 402
Ruy Belo
Primeiro poema do Outono
Mais uma vez é preciso
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração
E sabe deus a minha humana mão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 52 | Editorial Presença Lda., 1984
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração
E sabe deus a minha humana mão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 52 | Editorial Presença Lda., 1984
1 724
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Meu País
As pequenas cidades intensas
Onde o tempo não é dissolvido mas dura
E cada instante ressoa nas paredes da esquina
E o rosto loiro de Laura aflora na janela desencontrada
E o apaixonado de testa obstinada como a de um toiro
Em vão a procura onde ela nunca está
— É aqui que ao passarmos a nossa garganta se aperta
Enquanto um homem alto e magro
Baixando a direito o chapéu largo e escuro
De cima a baixo se descobre
Ao transpor o limiar sagrado da casa
Onde o tempo não é dissolvido mas dura
E cada instante ressoa nas paredes da esquina
E o rosto loiro de Laura aflora na janela desencontrada
E o apaixonado de testa obstinada como a de um toiro
Em vão a procura onde ela nunca está
— É aqui que ao passarmos a nossa garganta se aperta
Enquanto um homem alto e magro
Baixando a direito o chapéu largo e escuro
De cima a baixo se descobre
Ao transpor o limiar sagrado da casa
1 515
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lisboa
Digo:
«Lisboa»
Quando atravesso — vinda do sul — o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas —
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
— Digo para ver
1977
«Lisboa»
Quando atravesso — vinda do sul — o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas —
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
— Digo para ver
1977
6 105
Sophia de Mello Breyner Andresen
Babilónia
Com pátios interiores e com palmeiras
Com muros de tijolo com pequenos tanques
Com fontes com estátuas com colunas
Com deuses desenhados nas paredes de barro
Com corredores e silêncios e penumbras
Com vestidos de linho tocando a pedra pura
Com cinamomo e nardo
Com jarras donde corria azeite e vinho
Com multidões com gritos com mercados
Com esteiras claras sob os pés pintados
Com escribas com magos e adivinhos
Com prisioneiros com servos com escravos
Com lucidez feroz com amargura
Com ciência e arte
Com desprezo
Babilónia nasceu de lodo e limo
Com muros de tijolo com pequenos tanques
Com fontes com estátuas com colunas
Com deuses desenhados nas paredes de barro
Com corredores e silêncios e penumbras
Com vestidos de linho tocando a pedra pura
Com cinamomo e nardo
Com jarras donde corria azeite e vinho
Com multidões com gritos com mercados
Com esteiras claras sob os pés pintados
Com escribas com magos e adivinhos
Com prisioneiros com servos com escravos
Com lucidez feroz com amargura
Com ciência e arte
Com desprezo
Babilónia nasceu de lodo e limo
2 309
Sophia de Mello Breyner Andresen
Brasília
a Gelsa e Álvaro Ribeiro da Costa
Brasília
Desenhada por Lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecuménica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas
Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem
Nítida como Babilónia
Esguia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquitectura escreveu a sua própria paisagem
O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número
No centro do reino de Ártemis
— Deusa da natureza inviolada —
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento
E há no arranha-céus uma finura delicada de coqueiro
Brasília
Desenhada por Lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecuménica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas
Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem
Nítida como Babilónia
Esguia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquitectura escreveu a sua própria paisagem
O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número
No centro do reino de Ártemis
— Deusa da natureza inviolada —
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento
E há no arranha-céus uma finura delicada de coqueiro
3 836
Sophia de Mello Breyner Andresen
De Pedra E Cal
De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras
De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas
De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas
Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras
Caminha devagar
Porque o chão é caiado
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras
De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas
De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas
Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras
Caminha devagar
Porque o chão é caiado
3 172
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nocturno da Graça
Há um rumor de bosque no pequeno jardim
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilha.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
Brilha a cidade dos anúncios luminosos
Com espiritismo bares cinemas
Com torvas janelas e seus torvos gozos
Brilha a cidade alheia.
Com seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
De igreja em igreja batem a hora os sinos
E uma paz de convento ali perdura
Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas
Com sua noite trémula de velas
Cheia de aventurança e de sossego.
Mas a cidade alheia brilha
Numa noite insone
De luzes fluorescentes
Numa noite cega surda presa
Onde soluça uma queixa cortada.
Sozinha estou contra a cidade alheia.
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilha.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
Brilha a cidade dos anúncios luminosos
Com espiritismo bares cinemas
Com torvas janelas e seus torvos gozos
Brilha a cidade alheia.
Com seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
De igreja em igreja batem a hora os sinos
E uma paz de convento ali perdura
Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas
Com sua noite trémula de velas
Cheia de aventurança e de sossego.
Mas a cidade alheia brilha
Numa noite insone
De luzes fluorescentes
Numa noite cega surda presa
Onde soluça uma queixa cortada.
Sozinha estou contra a cidade alheia.
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.
2 226
Sophia de Mello Breyner Andresen
Na Cidade da Realidade Encontrada E Amada
Na cidade da realidade encontrada e amada
Caminhei com a brisa pelas ruas
Havia muros brancos e janelas pintadas
As madressilvas floriam e brilhavam
Os limoeiros de folhas polidas
Caiu uma folha de nespereira sobre o tanque
E o tempo veio ao meu encontro confundindo
Os meus gestos e os teus nos seus
Eram mil e mil noites uma após outra surgindo
E o meu rosto flutuava entre a manhã e a tarde
E as esquinas ergueram as suas sombras azuis
Ao longo de um silêncio de árabe
E do Abril dos campos veio um perfume inteiro de searas
E quando abri a porta as estrelas surgiram
*
Na cidade da realidade encontrada e amada
O sol dá lentamente a volta às praças e aos quartos
Para varrer o chão e preparar a noite
Que é redonda azul e atenta
E a porta da cidade é feita de dois barcos
Oh quem dirá o verde o azul e o fresco
O hálito da água e o perfume do vento
Vê-se a manhã criar uma por uma cada coisa
Vê-se quebrar a onda da noite transparente.
Caminhei com a brisa pelas ruas
Havia muros brancos e janelas pintadas
As madressilvas floriam e brilhavam
Os limoeiros de folhas polidas
Caiu uma folha de nespereira sobre o tanque
E o tempo veio ao meu encontro confundindo
Os meus gestos e os teus nos seus
Eram mil e mil noites uma após outra surgindo
E o meu rosto flutuava entre a manhã e a tarde
E as esquinas ergueram as suas sombras azuis
Ao longo de um silêncio de árabe
E do Abril dos campos veio um perfume inteiro de searas
E quando abri a porta as estrelas surgiram
*
Na cidade da realidade encontrada e amada
O sol dá lentamente a volta às praças e aos quartos
Para varrer o chão e preparar a noite
Que é redonda azul e atenta
E a porta da cidade é feita de dois barcos
Oh quem dirá o verde o azul e o fresco
O hálito da água e o perfume do vento
Vê-se a manhã criar uma por uma cada coisa
Vê-se quebrar a onda da noite transparente.
2 145
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Nossos Dedos Abriram Mãos Fechadas
Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.
Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.
E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.
Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.
E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
2 084
Nuno Júdice
A prova do humano
Quem terá notado o gesto subtil do velho quando,
ao enrolar o tabaco, limpou o indicador cheio de cuspo
no tampo da mesa? Ali, há exactamente dois dias,
sentara-me eu a escrever reflexões religiosas e um canto
filosófico; depois, cansado do trabalho mental,
desenhei a lápis duas ou três figuras na madeira gasta.
Agora, os restos de café e a saliva dos velhos transformam
esses desenhos banais em peças
de uma autêntica mitologia.
O fumo do tabaco envolve-os como se fosse uma névoa antiga,
e as palavras trocadas, a meia voz,
pelos ocasionais frequentadores daquele canto
lembram-me esconjuros, maldições, ou apenas
a invocação de algum espírito transitório.
Assim, não posso passar sem ir, uma ou duas vezes por dia,
àquele sítio: observar um vulto que, inconscientemente,
iniciei; e também ouvi o velho Baco
cujas histórias me dão sede e sono.
Mas que fazer nesta cidade de província,
no inverno, à parte ouvir os velhos
ou inventar histórias, enquanto se bebe café
e aguardente?
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 77 | Quetzal Editores, 1991
ao enrolar o tabaco, limpou o indicador cheio de cuspo
no tampo da mesa? Ali, há exactamente dois dias,
sentara-me eu a escrever reflexões religiosas e um canto
filosófico; depois, cansado do trabalho mental,
desenhei a lápis duas ou três figuras na madeira gasta.
Agora, os restos de café e a saliva dos velhos transformam
esses desenhos banais em peças
de uma autêntica mitologia.
O fumo do tabaco envolve-os como se fosse uma névoa antiga,
e as palavras trocadas, a meia voz,
pelos ocasionais frequentadores daquele canto
lembram-me esconjuros, maldições, ou apenas
a invocação de algum espírito transitório.
Assim, não posso passar sem ir, uma ou duas vezes por dia,
àquele sítio: observar um vulto que, inconscientemente,
iniciei; e também ouvi o velho Baco
cujas histórias me dão sede e sono.
Mas que fazer nesta cidade de província,
no inverno, à parte ouvir os velhos
ou inventar histórias, enquanto se bebe café
e aguardente?
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 77 | Quetzal Editores, 1991
523
Nuno Júdice
Chuva
Chove como sempre. E,
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
"Que Inverno!"; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.
Nuno Júdice | "Um Canto na Espessura do Tempo", 1992
sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva - de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
"Que Inverno!"; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.
Nuno Júdice | "Um Canto na Espessura do Tempo", 1992
3 694
Raquel Nobre Guerra
Não foi preciso muito
Não foi preciso muito para que a cidade
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.
Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.
Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.
Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.
Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.
É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.
E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:
I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters
Ficas a dever-me uma.
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.
Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.
Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.
Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.
Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.
É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.
E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:
I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters
Ficas a dever-me uma.
588
Susana Thénon
Razão de minha Voz
Por que são muitos e sofrem,
por que estamos conscientes de longínquos gritos
ou sabemos que há silêncio
em uma esquina da cidade
ou porque salta de um livro e nos fala
o menino que morreu afogado.
Por que agora sem dúvida um homem pede socorro
e uma mulher se joga de sua janela escura
e quatro crianças respondem perguntas
em um quarto imenso
enquanto a uma boneca falta o braço e alvo.
por que estamos conscientes de longínquos gritos
ou sabemos que há silêncio
em uma esquina da cidade
ou porque salta de um livro e nos fala
o menino que morreu afogado.
Por que agora sem dúvida um homem pede socorro
e uma mulher se joga de sua janela escura
e quatro crianças respondem perguntas
em um quarto imenso
enquanto a uma boneca falta o braço e alvo.
777
Raquel Nobre Guerra
Onde se come
«Onde se come ficam migalhas»
assim cantará no meu epitáfio.
Sais de casa porque a morte te agita
transpiras pelo empregado de mesa
que lê Balzac, tens ambições literárias
razões, enfim, para andar mal vestido
despenteado com um saco na cabeça
para que se diga ali vai a poesia portuguesa.
Queres até salvar o mundo do enxofre
da má sina dos coitados que aspiram
à avara sedução do matadouro.
Serei breve.
Quero entrar para a história da literatura
com um verso roubado a alguém,
por exemplo,
uma adolescente grávida com um grande espaço entre os dentes
a dar na chinesa com a mãe.
Grande imagem sacada à presteza dos dias
mas que importa? Se aqui neste bairro ninguém sabe ler
e eu ardo na cupidez de ganhar para a lírica
porque nestes casos o melhor é ser-se culinário
e fazer segredo, dizer apenas que sou feliz
no meio da porcaria a dez minutos da humanidade.
Senhor Roubado-Café Lenita - Senhor Roubado
Quero escrever o poema mais feliz do meu bairro
levantar ao alto os olhos do dealer
dizer que é possível remediar os dias
fazer magia, dizer sim, moro aqui
com uma reserva de Foucault e uma mesinha
que me dá liberdade a um combro do lixo.
Mas sou uma criatura tão pequena quanto a certeza
de que esta gente toda me perdoaria se eu dissesse
que me envergonha morar aqui
e que lhes levo a vida com a ligeireza de um carteirista.
assim cantará no meu epitáfio.
Sais de casa porque a morte te agita
transpiras pelo empregado de mesa
que lê Balzac, tens ambições literárias
razões, enfim, para andar mal vestido
despenteado com um saco na cabeça
para que se diga ali vai a poesia portuguesa.
Queres até salvar o mundo do enxofre
da má sina dos coitados que aspiram
à avara sedução do matadouro.
Serei breve.
Quero entrar para a história da literatura
com um verso roubado a alguém,
por exemplo,
uma adolescente grávida com um grande espaço entre os dentes
a dar na chinesa com a mãe.
Grande imagem sacada à presteza dos dias
mas que importa? Se aqui neste bairro ninguém sabe ler
e eu ardo na cupidez de ganhar para a lírica
porque nestes casos o melhor é ser-se culinário
e fazer segredo, dizer apenas que sou feliz
no meio da porcaria a dez minutos da humanidade.
Senhor Roubado-Café Lenita - Senhor Roubado
Quero escrever o poema mais feliz do meu bairro
levantar ao alto os olhos do dealer
dizer que é possível remediar os dias
fazer magia, dizer sim, moro aqui
com uma reserva de Foucault e uma mesinha
que me dá liberdade a um combro do lixo.
Mas sou uma criatura tão pequena quanto a certeza
de que esta gente toda me perdoaria se eu dissesse
que me envergonha morar aqui
e que lhes levo a vida com a ligeireza de um carteirista.
819
Raquel Nobre Guerra
Bebo uma bica por dia
Bebo uma bica por dia, às vezes bebo-a fria
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.
Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.
Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.
A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.
Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?
E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.
depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.
Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.
Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.
A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.
Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?
E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.
1 035
Susana Thénon
Mundo
Este é o mundo em que vivemos
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
721
Nuno Júdice
A origem do mundo
De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul
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