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Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Nu como um Yanomami

A Soares Feitosa, e à sua criação: PSI, a Penúltima!

Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.

Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.

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Amador Ribeiro Neto

Amador Ribeiro Neto

Na Poesia de Frederico Barbosa

Ou: Nada Dessa Cica de Palavra Feito Flor

Frederico Barbosa publicou, até o momento, dois livros de poesia: Rarefato, em 1990, e Nada Feito Nada, em 1993. Uma média de um livro a cada 3 anos. Estatística essa que nos autoriza a supor que alguma coisa pode acontecer, ainda este ano, na esquina da dura poesia.
Rarefato foi publicado pela Iluminuras e Nada Feito Nada, pela Perspectiva, este integrando a prestigiosa Coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos.
Logo após o lançamento de Rarefato, publiquei no JORNAL DA TARDE uma resenha em que chamava a atenção dos leitores para a poesia do estreante Frederico Barbosa. Como uma das funções do crítico literário é apresentar ao leitor o talento de novos autores, a resenha terminava assim: "FB em Rarefato, não se satisfazendo com a busca empenhada pelos grandes poetas, inventa um modo particularíssimo de dizer o não-dito, o quase impossível. Com isso, corre o risco de transformar-se num dos mais importantes poetas de nossa década. Do ano, já o é, de longe". E finalizava: "É hora de o leitor verificar por si mesmo".
De fato, as matérias relativas aos melhores lançamentos do ano, feitas pelos jornais, no final do ano de 1990, destacaram o livro de Frederico Barbosa. Em 94 ele recebe o Prêmio Jabuti por Nada Feito Nada. Em 95 e 96 sua poesia aparece em livros didáticos do 2o. grau.
No entanto, não nos iludamos: sua poesia é "grão imastigável, de quebrar dente". Vale para ela estas palavras de Paul Valéry: "A literatura não tem para mim outro interesse que o exemplo ou a tentativa de dizer o que é difícil dizer". Ou estas: "Prefiro ser lido muitas vezes por um só do que uma só vez por muitos". Ou estas: "Minha ambição literária foi a escrita de precisão". Ou, finalizando: "O verdadeiro pecado é escrever para o público".
Como se deduz, a poesia de FB está anos-luz distante daquela missão catequética, de uma certa música popular, que propala que "o artista tem ir onde o povo está". Isto é: deve correr atrás do público, oferecendo-lhe seu produto a preços módicos (de linguagem). Nada disso. Tanto em Rarefato, com em Nada Feito Nada, o rigor para com a poesia começa na capa dos livros e se estende à diagramação e até à cor de suas páginas. Texto poético e projeto gráfico complementam-se admiravelmente.
O trabalho gráfico (capa, projeto e execução), dos dois livros, é de Carlos Fernando. Este exímio intérprete da música popular transfere, para a diagramação dos dois livros, toda a precisão e a beleza que impõe ao seu trabalho musical.
A capa de Rarefato exibe a reprodução em desenho da lápide do filho de Demétrios (séc IV a.C.), sob fundo compacto, margeado pelo reticulado de pontos. Na laje tumular uma personagem, misto de alguém que chora com o prenúncio do pensador de Rodin. Na dureza do mármore, a expressão de dor/pensamento da personagem da lápide, choca-se com a leveza do fundo reticulado. Os dois elementos plásticos (lápide sob fundo compacto e margem reticulada) sintetizam as linhas básicas deste livro: pensamento e sentimento, densidade e rarefação, fato e forma. Linhas estas que constituem, dialeticamente, a unidade da poesia de FB. Unidade que, por sua vez, reflete e refrata, a crise. Crise individual. Crise social. Crise da linguagem. Crise de representação. Em outras palavras, a própria modernidade. Afinal, FB é um autor antenado (a la Ezra Pound) com o nosso tempo. Faz do desafio da modernidade o ofício dos seus versos.
Daí o parentesco inevitável com poetas e pensadores do pouco, do magro, do miúdo, do minimal, do seco, do denso, do duro, do pó. Do nada. Do raro. Do fato. Do fato feito nada.
O mesmo nada que ressurgirá no título do segundo livro, ao lado do feito. Nada Feito Nada. A poesia que se faz do nada, da negação do feito fácil.
Os títulos dos dois livros apontam para o modo de fazer poesia e não para o que se dizer em poesia. A palavra rarefato, que é apenas um sinônimo, para o usual rarefeito, introduz a ambigüidade: Rarefato: fato raro ou fato rarefeito. Como nada. Ao modo de ser nada. É o nada trazendo a linguagem, em crise, feito nada. Nada Feito Nada. O poeta aceita, e faz, do poema, objeto da impossibilidade.
Impossibilidade que se corporifica na capa do segundo livro: um círculo vazando um quadrado, ou um quadrado vazando um círculo. O quadrado divide-se por 4 linhas diagonais que formam 4 ângulos retos. Em cada uma das quatro extremidades do quadrado, as linhas diagonais, associadas às do círculo, terminam formando setas, qual uma rosa-dos-ventos.
Rosa-dos-rumos poética, que aponta para nada. Sempre nada. Afinal, os pontos cardeais formam a palavra NADA.
O papel da capa, em sépia, com o desenho em tons de marrom, remete-nos à célebre representação das medidas do corpo humano, feita por da Vinci. Ali, as pernas do homem se abrem dentro dos limites do círculo e os braços, se abrem dentro dos limites do quadrado. Como estão, braços e pernas, em duas posições diferentes, sempre temos o número quatro como variante dos gestos. Quatro pernas, quatro braços. Quatro setas no desenho da capa de Nada Feito Nada. Nada: N-A-D-A: 4 letras. O mesmo princípio davinciano, com uma diferença radical: aqui a figura do homem é substituída pela língua: o título do livro repetido enésimas vezes. E o centro, um grande ZERO; quer seja, um grande nada.
A linguagem é tomada como a medida do mundo: somente ela fornece as verdadeiras referências do valor estético. O fato (o homem) se torna presente pela via da memória da linguagem. Memória histórica e cultural.
Porém, não exageremos. Não se trata do nada absoluto, pois, então, nem a poesia sobreviveria a tanto niilismo, levando a linguagem à aporia. Ou seja, às afirmações decididamente contrárias e categóricas.
Vejamos o que é este fato rarefeito, este fato raro, este nada feito nada, este cabralino "fazer o que seja é inútil".
A imagem do círculo, tal como a do mitológico uroboru, constrói e formata o primeiro livro. Ali a forma circular não é viciosa. Nem poderia ser. Para esta estirpe de poetas, à qual Frederico Barbosa pertence, não há espaço para redundâncias, adiposidades e rabeiras. A poesia pó, é rarefação, grão e nada. Nada enquanto inutensílio leminskiano.
A linguagem percorre uma via que vai de "nenhuma voz humana", "do amplo nada", "tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa" (do poema que dá título e abre o primeiro livro), até a busca da co-autoria com o leitor, em versos tais como: "Virar a chave, / como quem lê uma página / (.....) / Como quem se envolve na personagem, / lento" ("Como quem lê"). Ou: "sua leitura minha / do seu meu poema /Meus olhos buscando / nos seus / um outro poema" ("Ao leitor")
Poesia interativa? Se o leitor for "aquele de Baudelaire", por que não?
O segundo livro inicia-se com um poema malcriadamente visual - herança concreta do Barroco. O título: "Labyrintho Difficultoso". A grafia imperial do título, com y, th e f duplicado firma, uma vez mais, o sentido da poesia para este poeta: labirinto. Labirinto, diz o Aurélio, é coisa complicada, confusa, obscura. Não se satisfazendo com esta acepção da palavra, o poeta insiste em adjetivá-la, tornando-a ainda mais borgeana: labirinto dificultoso. Último verso deste primeiro poema: "é nada é nada é nada".
O livro fecha-se com um poema intitulado "All or nothing at all". (Tudo ou nada para todos), título de uma das canções clássicas do Jazz. Mesmo na música popular, como se vê, o poeta só consome "o magro dos pratos". Últimos versos deste poema: "Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.// Do sem / sentido intenso / se faz / um tudo atento./ feito a palavra / em / cantada, // nada / feito / nada".
Neste segundo livro, FB incorpora o humor, pela via da tradição sterniana: biscoito fino. Nos caminhos da História ele vasculha os jornais de Recife, publicados no Império. Agindo como um antropóf
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António Carlos Belchior

António Carlos Belchior

Como Nossos Pais

Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina!
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tou por fora ou então que eu tou inventando
Mas é você que ama o passado é que não vê
Mas é você que ama o passado é que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais

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