Poemas neste tema
Corpo
Ruy Belo
Vita Mutatur
Nunca até hoje eu morrera tanto em alguém
Caíste mais na minha orla
do que a nespereira do quintal
Não secou para mim assim o paul de malmequeres
onde os ralos iam repetir as noites
e os abibes vinham de estações no bico
O mesmo céu que tu me desdobraste sobre a infância
acaba de depor na tua fronte
o excessivo peso de uma estrela
Com a tua partida a minha história começa
a escrever-se para além da curva
onde à tarde rompia a camioneta das cinco:
nenhum outro veículo vinha
tão cheio de longe e de tempo
A natureza entrava pela noite dentro precedida
no pátio pelos véus da sombra
Agora as tuas pálpebras desceram
Não mais o teu olhar te defende
Tu és um ser exposto a todos os olhares
esgotado resumido e sem mistério
Deixaste abertas todas as gavetas
desordenada a secretária
Já a tua presença não reúne
as linhas divididas desse rosto
que essas humildes coisas tinham
para ti nem a tua sombra cobre
domésticos e ínfimos segredos
Tens finalmente aquele metro e oitenta
a que te circunscreviam civilmente
é essa até a tua última
dimensão conhecida
Levarei mais longe a tua vida e cobrirei
da tua morte um pouco mais de terra
Haja sempre novos olhos
abertos no muro do tempo
e braços que transmitam o sol
à volta da terra para lá do mar
Já as primeiras chuvas perseguem
os passos que cumpriste na praia
Tudo nessa posição te dispõe
para o dia da grande aceitação
Estende-se sobre ti na sua superfície de mar
o grande olhar de deus
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 42 e 43 | Editorial Presença Lda., 1984
Caíste mais na minha orla
do que a nespereira do quintal
Não secou para mim assim o paul de malmequeres
onde os ralos iam repetir as noites
e os abibes vinham de estações no bico
O mesmo céu que tu me desdobraste sobre a infância
acaba de depor na tua fronte
o excessivo peso de uma estrela
Com a tua partida a minha história começa
a escrever-se para além da curva
onde à tarde rompia a camioneta das cinco:
nenhum outro veículo vinha
tão cheio de longe e de tempo
A natureza entrava pela noite dentro precedida
no pátio pelos véus da sombra
Agora as tuas pálpebras desceram
Não mais o teu olhar te defende
Tu és um ser exposto a todos os olhares
esgotado resumido e sem mistério
Deixaste abertas todas as gavetas
desordenada a secretária
Já a tua presença não reúne
as linhas divididas desse rosto
que essas humildes coisas tinham
para ti nem a tua sombra cobre
domésticos e ínfimos segredos
Tens finalmente aquele metro e oitenta
a que te circunscreviam civilmente
é essa até a tua última
dimensão conhecida
Levarei mais longe a tua vida e cobrirei
da tua morte um pouco mais de terra
Haja sempre novos olhos
abertos no muro do tempo
e braços que transmitam o sol
à volta da terra para lá do mar
Já as primeiras chuvas perseguem
os passos que cumpriste na praia
Tudo nessa posição te dispõe
para o dia da grande aceitação
Estende-se sobre ti na sua superfície de mar
o grande olhar de deus
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 42 e 43 | Editorial Presença Lda., 1984
1 197
Ruy Belo
A beringela
É ela
um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins
Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins
Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
1 495
Ruy Belo
Composição de lugar
Não caibo nesta tarde que me desfolhas
sobre o coração. Renovam-se-me sob os passos
todos os caminhos e o dia é uma página que lida
e soletrada descubro inatingível como o vento a rua e a vida
As mesmas mãos que antes desfraldavam
domésticas insígnias abaixo dos beirais e
emprestam novos pássaros às árvores.
Pétala a pétala chego à corola desta minha hora
Roubo o meu ser a qualquer outro tempo
não há em mim memória de alguma morte
em nenhum outro lugar me edifiquei
Arredondas à minha volta os lábios para me dizer
recuo de repente àquele principio que em tua boca tive
Eu sei que só tu sabes o meu nome
tentar sabê-lo foi afinal o único
esforço importante da minha vida.
Sinto-me olhado e não tenho mais ser
que ser visto por ti. Há no meu ombro lugar
para o teu cansaço e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 29 | Editorial Presença Lda., 1984
sobre o coração. Renovam-se-me sob os passos
todos os caminhos e o dia é uma página que lida
e soletrada descubro inatingível como o vento a rua e a vida
As mesmas mãos que antes desfraldavam
domésticas insígnias abaixo dos beirais e
emprestam novos pássaros às árvores.
Pétala a pétala chego à corola desta minha hora
Roubo o meu ser a qualquer outro tempo
não há em mim memória de alguma morte
em nenhum outro lugar me edifiquei
Arredondas à minha volta os lábios para me dizer
recuo de repente àquele principio que em tua boca tive
Eu sei que só tu sabes o meu nome
tentar sabê-lo foi afinal o único
esforço importante da minha vida.
Sinto-me olhado e não tenho mais ser
que ser visto por ti. Há no meu ombro lugar
para o teu cansaço e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 29 | Editorial Presença Lda., 1984
1 665
Ruy Belo
Terrível horizonte
Olhai agora ao cair quotidiano da tarde
a linha humana dessa fronte
Aí qualquer coisa começa
Não há na natureza à volta tão terrível horizonte
nem nada que se pareça.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 21 | Editorial Presença Lda., 1984
a linha humana dessa fronte
Aí qualquer coisa começa
Não há na natureza à volta tão terrível horizonte
nem nada que se pareça.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 21 | Editorial Presença Lda., 1984
1 217
Fiama Hasse Pais Brandão
Nada tão silencioso como o tempo
Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
2 243
Ruy Belo
Tarde interior
Vem ao meu pátio ver crescer a sombra
ó cheia de dois olhos minha amiga
Olha-me olha-me como quem chove
conicamente sobre
um coração deposto
do corpo que o cercava
No ulmeiro do caminho
vegetal comentador do nosso amor
a folha tímida não partiu ainda
e ameaça encher a tarde toda
Cubra-te ela a fronte
quando morrer aquém dos pássaros
Repousa minha amiga as mãos
sobre o lugar onde estiveram as palavras
e que os gestos
arredondem um templo para a luz
que dos olhos despedes
Já nos pesa nos pés a sombra
e pomos-lhe por cima o pensamento
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 30 | Editorial Presença Lda., 1984
ó cheia de dois olhos minha amiga
Olha-me olha-me como quem chove
conicamente sobre
um coração deposto
do corpo que o cercava
No ulmeiro do caminho
vegetal comentador do nosso amor
a folha tímida não partiu ainda
e ameaça encher a tarde toda
Cubra-te ela a fronte
quando morrer aquém dos pássaros
Repousa minha amiga as mãos
sobre o lugar onde estiveram as palavras
e que os gestos
arredondem um templo para a luz
que dos olhos despedes
Já nos pesa nos pés a sombra
e pomos-lhe por cima o pensamento
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 30 | Editorial Presença Lda., 1984
1 593
Sophia de Mello Breyner Andresen
Estátua de Buda
Os belos traços o inchado beiço a narina fina
O torneado corpo e sua
Beleza tão carnal de magnólia e fruto
Em tão longínqua latitude representam
O príncipe da perfeição e da renúncia
Antes do museu
Em sua frente
Oscilavam sombras e luzes enquanto deslizava
O rio das preces
1987
O torneado corpo e sua
Beleza tão carnal de magnólia e fruto
Em tão longínqua latitude representam
O príncipe da perfeição e da renúncia
Antes do museu
Em sua frente
Oscilavam sombras e luzes enquanto deslizava
O rio das preces
1987
1 887
Sophia de Mello Breyner Andresen
L’Âge D’Airain
(Rodin)
Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai — perdida dos seus dedos.
Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai — perdida dos seus dedos.
1 881
Sophia de Mello Breyner Andresen
Olímpia
Ele emergiu do poente como se fosse um deus
A luz brilhava de mais no obscuro loiro do seu cabelo
Era o hóspede do acaso
Reunia mal as palavras
Foram juntos a Olímpia lugar de atletas
Terra à qual pertenciam
Os seus largos ombros as ancas estreitas
A sua força esguia espessa e baloiçada
E a sua testa baixa de novilho
Jantaram ao ar livre num rumor de verão e de turistas
Uma leve brisa passava entre diversos rostos
Ela viu-o depois ficar sozinho em plena rua
Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido
Porém na manhã seguinte
Entre as espalhadas ruínas da palestra
Ela viu como o corpo dele rimava bem com as colunas
Dóricas
De qualquer forma em Patras poeirenta
No abafado subir da noite
Tomaram barcos diferentes
De muito longe ainda se via
No cais o vulto espesso baloiçado esguio
Que entre luzes com as sombras se fundia
Sob a desprezível indiferença
Não dela mas dos deuses
A luz brilhava de mais no obscuro loiro do seu cabelo
Era o hóspede do acaso
Reunia mal as palavras
Foram juntos a Olímpia lugar de atletas
Terra à qual pertenciam
Os seus largos ombros as ancas estreitas
A sua força esguia espessa e baloiçada
E a sua testa baixa de novilho
Jantaram ao ar livre num rumor de verão e de turistas
Uma leve brisa passava entre diversos rostos
Ela viu-o depois ficar sozinho em plena rua
Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido
Porém na manhã seguinte
Entre as espalhadas ruínas da palestra
Ela viu como o corpo dele rimava bem com as colunas
Dóricas
De qualquer forma em Patras poeirenta
No abafado subir da noite
Tomaram barcos diferentes
De muito longe ainda se via
No cais o vulto espesso baloiçado esguio
Que entre luzes com as sombras se fundia
Sob a desprezível indiferença
Não dela mas dos deuses
2 030
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Estátua
Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia
A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rastro branco dos navios.
Nos seus cabelos o vento se esculpia
A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rastro branco dos navios.
2 602
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poema de Amor de António E de Cleópatra
Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.
3 503
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Dias de Verão
Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo
Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo
O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo
Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo
O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo
3 383
Sophia de Mello Breyner Andresen
Senhora da Saúde
Seu rosto seria a cintilante claridade
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia
2 225
Nuno Júdice
Soneto 4
Conheço mulheres azuis como a morte.
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
801
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Primeiro Homem
Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.
Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.
Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.
3 153
Nuno Júdice
Soneto 2
Uns lábios que servem a erva azeda,
uma voz gritando "que escândalo";
a pele azul como uma lua bêbeda,
os longos cabelos cheirando a sândalo.
Branda a aparição na soleira da porta,
luz ácida na madrugada de hotel.
Um vago "amo-te" na entoação morta,
um poeta anacrónico a ler o "Fel".
Um entreter de dedos na colheita do lírio,
uma cama desfeita na ausência da alma.
Um incêndio de estrelas num charco de empíreo,
um coração solitário ansiando a calma.
Sóis caindo, cantos de ave, uivo de valquíria:
linguagem de amantes - suspiros, calão e gíria.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 51| Na regra do jogo, 1982
uma voz gritando "que escândalo";
a pele azul como uma lua bêbeda,
os longos cabelos cheirando a sândalo.
Branda a aparição na soleira da porta,
luz ácida na madrugada de hotel.
Um vago "amo-te" na entoação morta,
um poeta anacrónico a ler o "Fel".
Um entreter de dedos na colheita do lírio,
uma cama desfeita na ausência da alma.
Um incêndio de estrelas num charco de empíreo,
um coração solitário ansiando a calma.
Sóis caindo, cantos de ave, uivo de valquíria:
linguagem de amantes - suspiros, calão e gíria.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 51| Na regra do jogo, 1982
601
Nuno Júdice
Soneto 5
Eu tenho da vida uma sensação doente,
desarmonias moles, franjas espinais,
um rumor absurdo da visão insistente
de aranhas, répteis, moluscos, viscos animais.
Prendo as minhas impressões a um candeeiro.
A luz agarra-me, flutuo indecisamente com alterações eléctricas, quebras de corrente,
e acendo uma vela, respiro fumo, um cheiro
a cera, a mortos, ao nevoeiro de velhos portos.
Ouço, ao longe, o motor de pesados cargueiros
ancorados no rio, instáveis, os mastros mortos,
e deito-me no sofá, com pulsações; salgueiros,
plátanos, pálidos abetos à neve, orquídeas,
a minha respiração frágil como um busto de Fídias.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 54 | Na regra do jogo, 1982
desarmonias moles, franjas espinais,
um rumor absurdo da visão insistente
de aranhas, répteis, moluscos, viscos animais.
Prendo as minhas impressões a um candeeiro.
A luz agarra-me, flutuo indecisamente com alterações eléctricas, quebras de corrente,
e acendo uma vela, respiro fumo, um cheiro
a cera, a mortos, ao nevoeiro de velhos portos.
Ouço, ao longe, o motor de pesados cargueiros
ancorados no rio, instáveis, os mastros mortos,
e deito-me no sofá, com pulsações; salgueiros,
plátanos, pálidos abetos à neve, orquídeas,
a minha respiração frágil como um busto de Fídias.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 54 | Na regra do jogo, 1982
492
Sophia de Mello Breyner Andresen
Partida
I
Como uma flor incerta entre os teus dedos
Há harmonia de um bailar sem fim,
E tens o silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.
II
Nas tuas mãos trazias o meu mundo.
Para mim dos teus gestos escorriam
Estrelas infinitas, mar sem fundo
E nos teus olhos os mitos principiam.
Em ti eu conheci jardins distantes
E disseste-me a vida dos rochedos
E juntos penetrámos nos segredos
Das vozes dos silêncios dos instantes.
III
Os teus olhos são lagos e são fontes,
E em todo o teu ser existe
O sonho grave, nítido e triste
De uma paisagem de pinhais e montes.
Na tua voz as palavras são nocturnas
E todas as coisas graves, grandes, taciturnas
A ti são semelhantes.
Como uma flor incerta entre os teus dedos
Há harmonia de um bailar sem fim,
E tens o silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.
II
Nas tuas mãos trazias o meu mundo.
Para mim dos teus gestos escorriam
Estrelas infinitas, mar sem fundo
E nos teus olhos os mitos principiam.
Em ti eu conheci jardins distantes
E disseste-me a vida dos rochedos
E juntos penetrámos nos segredos
Das vozes dos silêncios dos instantes.
III
Os teus olhos são lagos e são fontes,
E em todo o teu ser existe
O sonho grave, nítido e triste
De uma paisagem de pinhais e montes.
Na tua voz as palavras são nocturnas
E todas as coisas graves, grandes, taciturnas
A ti são semelhantes.
3 861
Nuno Júdice
Alegoria
Na treva a alma se oculta
enquanto dura a trégua.
Ao longe, na luz, inculta,
a borboleta vem. Cego-a.
Por dentro as sinto,
alma e borboleta,
o corpo de sangue tinto,
as mãos de tinta preta.
Escondida uma, venérea,
tonta a outra agoniza:
ó vida, cinza funérea
de poesia, de mim campa lisa.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 55 | Na regra do jogo, 1982
1 044
Susana Thénon
Eu
Eu vivo o tempo,
recomponho velhos verbos destroçados
nos fornos do frio
e me invento uma palavra para cada lágrima.
Eu saio para passear
e me inclino sobre as fontes vazias
para beijar minha boca inexistente.
Eu tenho o olhar cheio de sal
e corpos como estrelas de areia
e flores vorazes
que me consomem lentamente.
Eu vivo e tremo,
ressuscito e me arrasto pelo ar quente
das florações
e pelo olho sempre aberto do dia.
Eu, lua tíbia
me amando e morrendo.
recomponho velhos verbos destroçados
nos fornos do frio
e me invento uma palavra para cada lágrima.
Eu saio para passear
e me inclino sobre as fontes vazias
para beijar minha boca inexistente.
Eu tenho o olhar cheio de sal
e corpos como estrelas de areia
e flores vorazes
que me consomem lentamente.
Eu vivo e tremo,
ressuscito e me arrasto pelo ar quente
das florações
e pelo olho sempre aberto do dia.
Eu, lua tíbia
me amando e morrendo.
767
Susana Thénon
O Dançarino
O dançarino disse, danço,
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
927
Susana Thénon
Aqui
Crava-te, desejo
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
985
Susana Thénon
Amor
Agora conhece o que assovia o sangue
à noite
como a escura serpente extraviada.
à noite
como a escura serpente extraviada.
927
Susana Thénon
O Morto
Seu rosto murmura
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
minhas fases não são doces,
como um esporte a pele mergulha
e a boca explode em redemoinhos do tempo.
A terra canta
Sobre meu nariz golpeado.
Como uma festa saltam os olhos
embora a morte deva ser quietude.
Como verdes loucos fugitivos da noite
minhas mãos são inflamáveis.
813