Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever semear um pouco de cegueira
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
1 162
António Ramos Rosa
A Personagem
Lisa e ainda ausente, ignorante
no exílio de não ser mais que um projecto
nulo, completa já e suscitada,
avança no átrio em movimentos verdes.
É já a forma de um fluxo, sangue e vento.
Insegura e ágil e todavia fácil
ninguém a espera porque sempre principia
rasga uma avenida, maravilhosamente frágil.
Vê-la é ondular na pupila de um barco.
Ela própria se anula em branca concavidade.
Quem a contempla dança um sono solar.
Sobre a primeira página do sol escrevo o seu nome.
no exílio de não ser mais que um projecto
nulo, completa já e suscitada,
avança no átrio em movimentos verdes.
É já a forma de um fluxo, sangue e vento.
Insegura e ágil e todavia fácil
ninguém a espera porque sempre principia
rasga uma avenida, maravilhosamente frágil.
Vê-la é ondular na pupila de um barco.
Ela própria se anula em branca concavidade.
Quem a contempla dança um sono solar.
Sobre a primeira página do sol escrevo o seu nome.
575
Carlos Drummond de Andrade
A Um Morto Na Índia
Meu caro Santa Rosa, que cenário
diferente de quantos compuseste,
a teu fim reservou a sorte vária,
unindo Paraíba e Índias de leste!
Tudo é teatro, suspeito que me dizes,
ou sonhas? ou sorris? e teu cigarro
vai compondo um desenho, entre indivisos
traços de morte e vida e amor e barro.
Amavas tanto o amor que as musas todas
ao celebrar-te (são mulheres) choram,
e não pressentem que um de teus engodos
é não morrer, se as parcas te devoram.
Retifico: são simples tecedeiras,
são mulheres do povo. E teu destino,
uma tapeçaria onde as surpresas
de linha e cor renovam seu ensino.
Que retrato de ti legas ao mundo?
Se são tantos retratos, repartidos
na verlainiana máscara, profunda
mina de intelecções e de sentidos?
Meus livros são teus livros, nessa rubra
capa com que os vestiste, e que entrelaça
um desespero aberto ao sol de outubro
à aérea flor das letras, ritmo e graça.
Os negros, nos murais, cumprem o rito
litúrgico do samba: estão contando
a alegria das formas, trismegisto
princípio de arte, a um teu aceno brando.
Essa alegria de criar, que é tua
explanação maior e mais tocante,
fica girando no ar, enquanto avulta,
em sensação de perda, teu semblante.
Cortês amigo, a fala baixa, o manso
modo de conviver, e a dura crítica,
e o mais de ti que em fantasia dança,
pois a face do artista é sempre mítica,
em movimento rápido se fecha
na rosa de teu nome, claro véu,
ó Tomás Santa Rosa... E em Nova Delhi,
o convite de Deus: pintar o céu.
diferente de quantos compuseste,
a teu fim reservou a sorte vária,
unindo Paraíba e Índias de leste!
Tudo é teatro, suspeito que me dizes,
ou sonhas? ou sorris? e teu cigarro
vai compondo um desenho, entre indivisos
traços de morte e vida e amor e barro.
Amavas tanto o amor que as musas todas
ao celebrar-te (são mulheres) choram,
e não pressentem que um de teus engodos
é não morrer, se as parcas te devoram.
Retifico: são simples tecedeiras,
são mulheres do povo. E teu destino,
uma tapeçaria onde as surpresas
de linha e cor renovam seu ensino.
Que retrato de ti legas ao mundo?
Se são tantos retratos, repartidos
na verlainiana máscara, profunda
mina de intelecções e de sentidos?
Meus livros são teus livros, nessa rubra
capa com que os vestiste, e que entrelaça
um desespero aberto ao sol de outubro
à aérea flor das letras, ritmo e graça.
Os negros, nos murais, cumprem o rito
litúrgico do samba: estão contando
a alegria das formas, trismegisto
princípio de arte, a um teu aceno brando.
Essa alegria de criar, que é tua
explanação maior e mais tocante,
fica girando no ar, enquanto avulta,
em sensação de perda, teu semblante.
Cortês amigo, a fala baixa, o manso
modo de conviver, e a dura crítica,
e o mais de ti que em fantasia dança,
pois a face do artista é sempre mítica,
em movimento rápido se fecha
na rosa de teu nome, claro véu,
ó Tomás Santa Rosa... E em Nova Delhi,
o convite de Deus: pintar o céu.
1 163
António Ramos Rosa
As Palavras
Compreendo lentamente a voracidade branca
das palavras. Que ardam e ondulem como carícias nuas,
que o pulso as articule às árvores, que se arredondem
até à inteligência de uma visão sem febre,
que tragam a distância para a mesa e adormeçam
em sossegadas virilhas. Que procurem
as plácidas clareiras onde a ignorância de ser
é a aliança. Palavras que não interrompem
e seguem a fluência de que nascem.
Matéria fiel ao fundo com estrelas rápidas,
cintilações de seixos minúsculos, clarões suaves
e a folhagem entre as pedras, a música no ombro.
Entreabertas entre os espelhos e os reflexos de astros,
as palavras buscam a consistência da terra
e toda a revolta feliz do vento que recomeça.
das palavras. Que ardam e ondulem como carícias nuas,
que o pulso as articule às árvores, que se arredondem
até à inteligência de uma visão sem febre,
que tragam a distância para a mesa e adormeçam
em sossegadas virilhas. Que procurem
as plácidas clareiras onde a ignorância de ser
é a aliança. Palavras que não interrompem
e seguem a fluência de que nascem.
Matéria fiel ao fundo com estrelas rápidas,
cintilações de seixos minúsculos, clarões suaves
e a folhagem entre as pedras, a música no ombro.
Entreabertas entre os espelhos e os reflexos de astros,
as palavras buscam a consistência da terra
e toda a revolta feliz do vento que recomeça.
1 189
António Ramos Rosa
Num Poço de Folhas
Espero escrever neste poço de folhas com as mãos entre as árvores,
tudo vem devagar em labirintos negros
ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.
Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.
Eis que o texto principia com lábios, dentes, língua
e o rumor das vespas no seu sono esguio.
O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.
As minhas frases têm o aroma da água
e o calor de uma chama silenciosa.
Dentro da face incerta apreendo as pétalas solares
e entre sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,
sou a língua da árvore.
tudo vem devagar em labirintos negros
ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.
Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.
Eis que o texto principia com lábios, dentes, língua
e o rumor das vespas no seu sono esguio.
O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.
As minhas frases têm o aroma da água
e o calor de uma chama silenciosa.
Dentro da face incerta apreendo as pétalas solares
e entre sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,
sou a língua da árvore.
1 076
António Ramos Rosa
O Excesso do Simples
Quando estarei desperto, preparado para? Na verdade, nada pressinto, a minha espera é vazia e prolonga-se no vazio sem qualquer rumo ou perspectiva. Onde a consistência interna de um corpo, onde a água, onde o subtil temor do perigo? Escrevo no entanto para a aceitação do mundo, para a perda e a festa reunidas na palavra inicial. Mas como, se não oiço ninguém, se não busco nada, se não procuro ninguém? Aqui não é aqui, mas o vão, o inominável obstáculo que é talvez o vazio. Voracidade e luz. Sol sem sombra, superfícies e superfícies brancas, ofuscantes. Vivo entre abandonos: abandonando, abandonado. Mas alguém respira na intensidade extrema do silêncio. A sua palavra é água e principia e completa. Mas essa voz agora está calada. E estas palavras separam-se, sem volubilidade, sem os seus gestos novos. Escrevo no entanto por uma vida selvagem e delicada e neutra. Algo busca em mim outra boca, algo inventa o júbilo da nudez do fogo. Atinjo o excesso e o excesso é o simples, o fortuito, o imediato. Eis que a pedra canta silenciosamente uma canção.
1 145
António Ramos Rosa
A Espera do Vento
Espero. Espero o vento. Coloco-me na área aberta entre a areia e o sal. O meu desejo é pólen, delírio da pedra, labirinto de folhas. É talvez a energia da cinza que me move. Escrevo com três vogais de água pura e quatro palavras de sol branco. Um sinal desenhado na argila, uma minúscula aranha, uma pequena chama no solo, o tremor do ar, tudo indica que as palavras, entre o sono e o sol, se consumarão com a verde energia do desejo liberto.
1 155
António Ramos Rosa
No Ar
Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 286
António Ramos Rosa
O Espelho do Invisível de José Terra
O teu canto orienta-se entre deuses e monstros,
tenso e lúcido, com a força explosiva
da flecha que penetra no incógnito. É um tumulto,
um fogo comprimido e fulge rigoroso
em palavras nuas que cindem o obscuro.
Procuras o claro dia, a noite intacta
e o espaço em que te abras e a alegria
que não é dos deuses, procuras sob o sono
e sob a pele da noite, o obscuro fogo
ou talvez um rumor subterrâneo e lúcido.
Escreves sobre a pedra, incides na espessura
da pedra. Aderes ao objecto com um toque
subtil e grave, e um núcleo arde
para além de tudo o que detectam nossos dedos,
um sopro, uma chama, um rosto, um amoroso sono.
tenso e lúcido, com a força explosiva
da flecha que penetra no incógnito. É um tumulto,
um fogo comprimido e fulge rigoroso
em palavras nuas que cindem o obscuro.
Procuras o claro dia, a noite intacta
e o espaço em que te abras e a alegria
que não é dos deuses, procuras sob o sono
e sob a pele da noite, o obscuro fogo
ou talvez um rumor subterrâneo e lúcido.
Escreves sobre a pedra, incides na espessura
da pedra. Aderes ao objecto com um toque
subtil e grave, e um núcleo arde
para além de tudo o que detectam nossos dedos,
um sopro, uma chama, um rosto, um amoroso sono.
1 119
António Ramos Rosa
Porque Não É o Impensável
Porque não é o impensável
a voz do fogo
que desenha
as suas ondas
e as habita
no instante fulgurante?
a voz do fogo
que desenha
as suas ondas
e as habita
no instante fulgurante?
1 165
António Ramos Rosa
Um Excesso de Transparência E de Leveza
Expectativa na nulidade em que nenhum impulso se gera ainda. Escuto ou não, e não é o silêncio que oiço nem o murmúrio do vazio. Quero começar a partir do momento em que sinta o tremor lúcido de uma palavra que surja de uma evidência misteriosa, inelutável, pura. Por enquanto, escrevo sem escrever, isto é, sem necessidade. Ignoro, porém, se estas palavras prematuras não irão precipitar o momento da eclosão em que o silêncio espontaneamente se manifesta através de uma formulação que seria a própria pulsação do informulado. Estou completamente árido, nulo, apagado. É, todavia, nesta clareira de cal que devo permanecer. Ninguém aparecerá, nenhuma presença viva virá acender a paisagem. Continuo a escrever no meio das pedras, sem sequer o rumor da folhagem. As palavras, que são as palavras que vagarosamente vou juntando sem felicidade, quase sem ardor nem gosto? O momento único não surge, talvez nunca venha a surgir. Mas é na expectativa desse momento único que continuo a escrever desesperadamente e contudo com uma certa confiança, confiança que move estas precárias e quase nulas palavras. Tão devagar escrevo e tudo é ausência ou separação. Porque nem sequer a passageira luz da alegria? Onde há palavras porque não está a nascente, porque não a brisa? Na verdade, o que procuro é um espaço para respirar. Que as minhas palavras desenhem uma paisagem aérea, silenciosa, inicial. Dir-se-ia que algo me impede de forçar, de pesar, como se a eclosão da palavra viva só se desse num excesso de transparência e de leveza! Estou perdido de não chegar a nada, mas agora leve, mais leve, vou abrindo o espaço adolescente em que o movimento se inclina para a frescura de uma primeira idade. Algo passa inteiro, animal ou deus, e a sua ausência é a completa felicidade de um sulco que é tanto silêncio como palavra nua. Passam as figuras sem se revelar, profundas e ausentes, e os seus gestos cintilam nas misteriosas expressões. O firme timbre das frases repercute a passagem vibrante das imagens que se libertam nas águas. Algumas abrem-se em curvas de concavidades. Escrevo agora na companhia efémera de presenças puras. Poderão as palavras dizer as cores, a doçura, o perfume que transforma o exílio no claro paraíso do silêncio? Agora escrevo na coincidência e na amplitude do aberto. As pobres palavras tornam-se ardentes, unificadas, vivas evidências de uma nudez enigmática. Quantos caminhos se abrem na página respirável, quanto azul se propaga nas palavras nuas, quanta sombra pelo calor adentro!
1 224
António Ramos Rosa
O Corpo E a Leitura
É talvez o sopro do horizonte, talvez o vento
que abre a corola do ventre na leitura
em que a sombra canta. E repentinos
entre árvores e aromas de planetas,
num túmido tumulto os potros saltam.
A mão quase toca as hastes e as nervuras
de um país que aflora num deslumbramento.
Uma atenção de antenas mais subtil e livre
vai seguindo o canto em que se move o fundo
incandescente. De cada sombra líquida desenreda-se
o globo que é fogo e água e ar unificados.
A inumerável trama é todo o corpo aceso
que treme em cada linha. Os instrumentos
se desatam e erram e irradiam
em torno de uma falha ou de uma folha branca.
que abre a corola do ventre na leitura
em que a sombra canta. E repentinos
entre árvores e aromas de planetas,
num túmido tumulto os potros saltam.
A mão quase toca as hastes e as nervuras
de um país que aflora num deslumbramento.
Uma atenção de antenas mais subtil e livre
vai seguindo o canto em que se move o fundo
incandescente. De cada sombra líquida desenreda-se
o globo que é fogo e água e ar unificados.
A inumerável trama é todo o corpo aceso
que treme em cada linha. Os instrumentos
se desatam e erram e irradiam
em torno de uma falha ou de uma folha branca.
1 097
António Ramos Rosa
O Corpo Desenhado
Talvez a linha se acenda e continue
ondeando a página e sendo nós só margem
de um domínio onde fulge a inocência,
talvez se revele a transparência inicial
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma.
Vêm figuras que se espraiam e crescem
até serem apenas ondulada memória.
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo.
As linhas enovelam-se num delírio exacto.
A alegria ilumina penumbras de volumes.
Em tensos membros lúcidos e redondos
move-se o desenhado corpo ligeiro
e lento. Aumenta a densidade até ao centro
de um deus que diz o esplendor silencioso.
Ou só o ar ondeia num planalto de vento.
ondeando a página e sendo nós só margem
de um domínio onde fulge a inocência,
talvez se revele a transparência inicial
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma.
Vêm figuras que se espraiam e crescem
até serem apenas ondulada memória.
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo.
As linhas enovelam-se num delírio exacto.
A alegria ilumina penumbras de volumes.
Em tensos membros lúcidos e redondos
move-se o desenhado corpo ligeiro
e lento. Aumenta a densidade até ao centro
de um deus que diz o esplendor silencioso.
Ou só o ar ondeia num planalto de vento.
967
António Ramos Rosa
Perdi o Nascimento da Árvore
Perdi o nascimento da árvore. O acaso
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.
Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.
O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.
Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.
O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
1 065
António Ramos Rosa
A Construção do Poema
A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.
Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.
Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.
Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.
Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.
1 140
António Ramos Rosa
Reconhecê-La É Feri-La Travejá-La
Reconhecê-la é feri-la Travejá-la
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
994
António Ramos Rosa
Escrevo-Te Com o Fogo E a Água
Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
1 184
António Ramos Rosa
A Palavra
A palavra é a cor que de súbito deslumbra
e cega, brancura da surpresa, surpresa
da brancura. Terra e vento, o espaço sem palavras,
o sopro que se alarga, lâmpada desagregada,
matéria de pálpebras, tremor de ombros.
Destruída, mas erecta, simples e negra,
rosto que se retempera na verdura das árvores
e busca o esquecimento aberto da presença.
Escrevo onde a palavra ainda não se diz
entre o desejo e a água, com a língua do vento.
A palavra volátil, a palavra densa, a palavra vazia
esvai-se. Só o acaso irradia algum suporte.
Chamo a mão vazia, adiro aos fundamentos
onde o ar começa e o solo ilimitado.
Na folha uma figura aparece com uma ferida aberta.
e cega, brancura da surpresa, surpresa
da brancura. Terra e vento, o espaço sem palavras,
o sopro que se alarga, lâmpada desagregada,
matéria de pálpebras, tremor de ombros.
Destruída, mas erecta, simples e negra,
rosto que se retempera na verdura das árvores
e busca o esquecimento aberto da presença.
Escrevo onde a palavra ainda não se diz
entre o desejo e a água, com a língua do vento.
A palavra volátil, a palavra densa, a palavra vazia
esvai-se. Só o acaso irradia algum suporte.
Chamo a mão vazia, adiro aos fundamentos
onde o ar começa e o solo ilimitado.
Na folha uma figura aparece com uma ferida aberta.
1 254
António Ramos Rosa
Não Sei Escrever
Não sei escrever, oscilo no obscuro, a terra adormeceu.
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
1 143
António Ramos Rosa
Mediadora da Totalidade Secreta
Alguma ressonância, alguma esquiva
sílaba de água. Não desígnios.
Um ar ignorado, um arco
por nascer.
Algum vislumbre mas obscuro.
Algum halo ou hálito pressentido.
Alguma vibração antes da luz.
Algo mais que um silêncio de pedra.
A promessa do pulso imediata.
O arco inesperado do impenetrável.
Sede de palavras subterrâneas.
Secreta totalidade respirada.
sílaba de água. Não desígnios.
Um ar ignorado, um arco
por nascer.
Algum vislumbre mas obscuro.
Algum halo ou hálito pressentido.
Alguma vibração antes da luz.
Algo mais que um silêncio de pedra.
A promessa do pulso imediata.
O arco inesperado do impenetrável.
Sede de palavras subterrâneas.
Secreta totalidade respirada.
1 067
António Ramos Rosa
Mediadora Para Além Das Imagens
O olhar sucumbe ante as imagens.
Fulgor de desordem, dança, ecos,
acorde e graça, silenciosa
tempestade. A vibração
contínua do espaço,
uma imensa praia vertical
azul.
Entrechoques, densidade, alegria,
imagens irmãs atravessadas
atravessando, sufocadas, sufocantes,
é preciso detê-las numa curva de frase,
numa equivalência que será o seu reverso.
Fulgor de desordem, dança, ecos,
acorde e graça, silenciosa
tempestade. A vibração
contínua do espaço,
uma imensa praia vertical
azul.
Entrechoques, densidade, alegria,
imagens irmãs atravessadas
atravessando, sufocadas, sufocantes,
é preciso detê-las numa curva de frase,
numa equivalência que será o seu reverso.
1 058
António Ramos Rosa
Mediadora da Construção
Construir um corpo com as sílabas
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
522
António Ramos Rosa
Mediadora do Jardim
Nenhuma cabeça emerge
das linhas que germinam
nenhum corpo é o corpo
visível voo de um pássaro
incendiando o branco.
Mas os ângulos verdes
vibram. Silêncio cintilante.
É talvez o jardim.
Devagar sobre a pedra
um deslumbrado instrumento
cria o signo volátil
para que se abra a esfera.
das linhas que germinam
nenhum corpo é o corpo
visível voo de um pássaro
incendiando o branco.
Mas os ângulos verdes
vibram. Silêncio cintilante.
É talvez o jardim.
Devagar sobre a pedra
um deslumbrado instrumento
cria o signo volátil
para que se abra a esfera.
546