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Fé, Espiritualidade e Religião

Juan L. Ortiz

Juan L. Ortiz

Sim, as escamas do crepúsculo...

Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado
Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...
Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...
Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...
Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....
(tradução de Idelber Avelar)
:
Sí, las escamas del crepúsculo...
Juan L. Ortiz
Sí, las escamas del crepúsculo
en el filo, último?, de Noviembre sobre el río:
o el éxtasis de los velos de Noviembre
fluyendo hasta la noche, y más allá?...
increíble de ecos
y de fugas y pasajes
de no se sabe ya
qué despedida o qué llamado...
Sí, el fluido profundo, sobre oro,
que nimba la barranca
e inscribe místicamente un árbol alto,
y radia, hasta cuándo?,
unos vagos pétalos de iris...
Sí, sí,
el verde y el celeste, revelados,
que tiemblan hacia las diez porque se van
y en la media tarde se deshacen o se pierden
en su misma agua fragilísima...
Sí, sí, sí...
Pero vino la luz, estaba sólo la luz
detrás de las persianas de la mañana íntima:
vino la criatura eterna, el sentimiento de las estrellas,
la eucaristía de los mundos, el alma primera
antes, antes del prisma,
con esa flauta blanca, inefablemente blanca, siempre impuesta
sobre el caos…
Vino la luz, vino la niña esencial,
imposiblemente pura de las hojas y de sus propias alas,
hasta un olvido lleno de ella
como de la mirada, única, de un estío nunca visto…
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Hilda Hilst

Hilda Hilst

Trecho de Qadós (1973)

Difícil de explicar, ia dizendo aos borbotões que essas coisas senhora são para fazer uma limpeza na minha alma devo começar por aí não sei se a senhora entende mas o branco é demais importante para começar as orações e acendendo as velas fica visível para a Excelência que sou eu mesmo que me acendo, matéria de amor etc. etc. A maioria revirava os olhos, torcia a boca, umas coçavam os cotovelos, a cintura, diziam: homem, se queres comida eu entendo mas não tenho, o resto é confusão, despacha-te. Às vezes davam-me panos pretos, ou alaranjados ou com listas ou vermelho com florzinhas, nunca o branco, Excelência, e como último recurso para conseguir os círios eu entrava numa loja aos solavancos, o olho girassol e gritava: duas velas por favor, a mãe agoniza, em nome do vosso nosso Deus duas velas para as duas mãos de mamãe. E saía como o raio, como o cão danado, como Tu mesmo que te evolas quando Te procuro, ai Sacrossanto por que me enganaste repetindo: hic est filius meus dilectos, in quo mihi bene complacui? Nudez e pobreza, humildade e mortificação, muito bem, Grande Obscuro, e alegria, é o que dizem os textos, humilde e mortificado tenho sido, mas alegre, mas alegre como posso? Se continuas a dar voltas à minha frente, estou quase chegando e já não estás e de repente Te ouço, bramindo: mata o rei, Qadós, o inteiro de carne e de pergunta, pára de andar atrás de mim como um filho imbecil. Como queres que eu não pergunte se tudo se faz pergunta? Como queres o meu ser humilde e mortificado se antes, muito antes do meu reconhecimento em humildade e mortificação, Tu mesmo e os outros me obrigam a ser humilde e mortificado? Como queres que eu me proponha ser alguma coisa se a Tua voracidade Tua garganta de fogo já engoliu o melhor de mim e cuspiu as escórias, um amontoado de vazios, um nada vidrilhado, um broche de rameira diante de Ti, dentro de mim? E as gentes, Máscara do Nojo, como pensas que é possível viver entre as gentes e Te esquecer? O som sempre rugido da garganta, as mãos sempre fechadas, se pedes com brandura no meio da noite que te indiquem o caminho roubam-te tudo, te assaltam, e se não pedes te perseguem, se ficas parado te empurram mais para frente, pensas que vais a caminho da água, que todos vão, que mais adiante refrescarás pelo menos os pés e ali não há nada, apenas se comprimem um instante, bocejam, grunhem, olham ao redor, depois saem em disparada. Andei no meio desses loucos, fiz um manto dos retalhos que me deram, alguns livros embaixo do braço, e se via alguém mais louco do que os outros, mais aflito, abria um dos livros ao acaso, depois deixava o vento virar as folhas e aguardava. O vento parou, eis o recado para o outro: sê fiel a ti mesmo e um dia serás livre. Prendem-me. Uma série de perguntas: qual é teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós. Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão. Não tenho não senhor, só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não importune os cidadãos. Sou quase sempre esse, matéria de vileza e confusão para os outros, para os Teus olhos um nada que te persegue, um nada que se agarra às tuas babas, e como é difícil te perseguir, nem o rasto, nem a estria brilhante (aquela que os caracóis deixam depois da chuva) eu vejo, pois é pois é, seria fácil para o teu inteiro gosma e fereza, o teu inteiro amoldável, me dar umas pequeninas alegrias e te mostrares um dia Grande Caracol baboso aguado brilhante, te mostrares um dia intimidade, vê Cão de Pedra, agora não sei, fui íntimo para um uma ou dois, nem me lembro, e a princípio como me trataram bem, cuidado na fala, langor no olhar, a minha palavra era véu dourado que pouco a pouco pousava, translúcido, luminosidade delicada, eu Qadós falava e o espaço era pérola, leite fresco, pistilo, um ou três relinchos para aquecer ainda mais tanta mornura, sorriam, lábio frouxo encantado, gula de me possuir inteiro, se era mulher ela me dizia isso mesmo gula de te possuir inteiro, Qadós, se era homem também, aí eu me escondia, dias e dias sobre Plotino, outros dias apenas flutuava sobre o verde dos parques, de longe me seguiam, eu de névoa transfixado, melindre dissolvência, Qadós O Inteiro Desejado.
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Afonso X

Afonso X

Cantiga CCXXXII

Como un cavaleiro que andava a caça perdeu o açor, e guando viu que o non podia achar, levou u açor de cera a Vila-Sirga, e achó-o.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder
a Madre de Jheso-Cristo d' a quena chama valer.
Ca enas enfermidades á ela poder atal,
que as tolle e guarece a quen quer de todo mal,
e outrossi enas perdas ao que a chama val;
e daquest' un gran miragre vos quer' eu ora dizer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
En Trevyn[n]' un cavaleiro foi que era caçador,
e perdeu, andand' a caça ha vez, un seu açor
que era fremos' e bõo, demais era sabedor
de fillar ben toda ave que açor dev' a prender.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Des y era mui fremoso e ar sabia voar
tan apost' e tan aga, que non ll' achavan seu par
eno reyno de Castela; e un dia, pois jantar,
foi con el fillar perdizes e ouve-o de perder.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Tod' aquel dia buscó-o, mais per ren nono achou;
e foi-sse pera ssa terra e seus omees enviou
busca-lo a muitas partes, e por el tanto chorou,
pois viu que o non achavan, que cuidou enssandecer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Assi passou quatro meses, segund[o] eu aprendi,
que o buscou, mais ach[a-lo] non pode, per com' oý;
e con coita mandou cera fillar e disso assy:
«Faça[n]-m' un açor daquesta, ca o quer' yr offerer
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Aa Virgen groriosa de Vila-Sirga, ca sey
que sse eu aquesto faço, que meu açor acharei.»
E esto foi logo feito, e foi-ss' e, com' apres' ei,
foi aquel açor de cera sobelo altar põer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
E rogou Santa Maria, chorando dos ollos seus,
chamando-lle: «Piadosa Virgen [e] Madre de Deus,
Sennor santa e beita, mostra dos miragres teus
por que meu açor non perça, ca ben o podes fazer.»
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Pois que sa oraçon feita ouve, ar tornou-ss' enton
a ssa casa u morava, chorando de coraçon;
e pois entrou pela porta, catou contra un rancon
e vius seu açor na vara u xe soya põer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
Quand' esto viu, os gollos pos en terra, e a faz,
loando Santa Maria que taes miragres faz;
e aa vara foi logo fillar seu açor en paz
ena mão, e a Virgen começou a beizer.
En toda-las grandes coitas á força grand' e poder...
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Hilda Hilst

Hilda Hilst

Mula de Deus

I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).
1 990
Afonso X

Afonso X

Cantiga LXIV: Quen mui ben quiser o que ama guardar

Como a moller que o marido leixara en comenda a Santa Maria non podo a çapata que lle dera seu entendedor meter no pee nen descalça-la.
Quen mui ben quiser o que ama guardar,
a Santa Maria o dev' a encomendar.
E dest' un miragre, de que fiz cobras e son,
vos direi mui grande, que mostrou en Aragon
Santa Maria, que a moller dun infançon
guardou de tal guisa, por que non podess' errar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Esta dona, per quant' eu dela oý dizer,
aposta e ninna foi, e de bon parecer;
e por aquesto a foi o infançon prender
por moller, e foi-a pera sa casa levar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Aquel infançon un mui gran tenp' assi morou
con aquela dona; mais pois s' ir dali cuidou
por ha carta de seu sennor que lle chegou,
que avia guerra e que o foss' ajudar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Ante que movesse, diss-ll' assi sa moller:
«Sennor, pois vos ides, fazede, se vos prouguer,
que m' encomendedes a alguen, ca m' é mester
que me guarde e que me sábia ben consellar.»
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
E o infançon lle respondeu enton assi:
«Muito me praz ora daquesto que vos oý;
mais ena ygreja mannãa seremos y,
e enton vos direi a quen vos cuid' a leixar.»
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Outro dia foron ambos a missa oyr,
e pois foi dita, u se lle quis el espedir,
chorand' enton ela lle começou a pedir
que lle désse guarda por que ouvess' a catar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
E ar ele, chorando muito dos ollos seus,
mostrou-ll' a omagen da Virgen, Madre de Deus,
e disse-ll': «Amiga, nunca os pecados meus
sejan perdõados, se vos a outri vou dar
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Senon a esta, que é Sennor Espirital,
que vos pode ben guardar de posfaz e de mal;
e porende a ela rog' eu, que pod' e val,
que mi vos guarde e leix' a min cedo tornar.»
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Foi-ss' o cavaleiro logo dali. Mas, que fez
o diabr' arteiro por lle toller seu bon prez
a aquela dona? Tant' andou daquela vez
que un cavaleiro fezo dela namorar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
E con seus amores a poucas tornou sandeu;
e porend' ha sa covilleira cometeu
que lle fosse bõa, e tanto lle prometeu
que por força fez que fosse con ela falar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
E disse-ll' assi: «Ide falar con mia sennor
e dizede-lle como moiro por seu amor;
e macar vejades que lle desto grave for,
nona leixedes vos poren muito d' aficar.»
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
A moller respos: «Aquesto de grado farei,
e que a ajades quant' eu poder punnarei;
mas de vossas dõas me dad', e eu llas darei,
e quiçay per esto a poderei enganar.»
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Diss' o cavaleir': «Esto farei de bon talan.»
Log' as çapatas lle deu de bon cordovan;
mais a dona a trouxe peor que a un can
e disse que per ren non llas queria fillar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Mais aquela vella, com' era moller mui vil
e d' alcayotaria sabedor e sotil,
por que a dona as çapatas fillasse, mil
razões lle disse, trões que llas fez tomar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
Mais a mesquinna, que cuidava que era ben,
fillou logo as çapatas, e fez y mal sen;
ca u quis calça-la ha delas, ja per ren
fazer nono pode, nena do pee sacar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
E assi esteve un ano e ben un mes,
que a çapata ao pee assi se ll' apres
que, macar de toller-lla provaron dous nen tres,
nunca lla poderon daquel pee descalçar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
E depos aquest' a poucos dias recodiu
seu marid' a ela, e tan fremosa a viu
que a logo quis; mas ela non llo consentiu
ata que todo seu feito ll' ouve a contar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
O cavaleiro disse: «Dona, desto me praz,
e sobr' esto nunca averemos senon paz,
ca sei que Santa Mari', en que todo ben jaz,
vos guardou.» E a çapata lle foi en tirar.
Quen mui ben quiser o que ama guardar...
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