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Fé, Espiritualidade e Religião

Tchicaya U Tam'si

Tchicaya U Tam'si

O signo do sangue ruim

Eu sou o Bronze a liga do sangue forte que esguicha quando sopra o vento das marés salientes

O destino das divindades antigas através do meu será razão de dançar sempre ao avesso a canção?

Eu era amante a cabriolar com as libélulas; era meu passado – minha mãe colocou uma flor de verbena sobre a menina dos meus olhos brunos.

Eu senti a liga do meu sangue ensurdecer cadências roucas onde bocejavam sapos pios como amigos.

Puríssimo o destino de um sapo!

Um país todo laterita, pesadelos que fendem o crânio com o machado das febres.

Acuso a luz de me haver traído.

Acuso a noite de me ter perdido.

Em vão, levo para passear uma morte no meu destino e o riso das mães e meu coração que se afunda e esse rio tão liso onde não brotará a convúlvula fina eu trago aos mundos duas mãos e seus dedos para uma aritmética elementar onde se cifram nascer amar morrer e o corolário que é coral colorido.

De memória de homem o orgulho foi vício eu faço disso um Deus para viver à altura dos homens de honestas fortunas.

Sou homem sou negro por que isso tem o sentido de uma decepção?

Dez dedos para uma aritmética elementar.

De nada adiantou ser o Bronze ele me faz lembrar: todo judeu é um regicida nato o cristo é um inocente e é preciso que morram os inocentes, mas eu não ouso meu suicídio.

Então o Gólgota o que é? Eu não escolhi ser bastardo. Veio a crueldade salvá-la nos lábios.

A lógica quer: é preciso construir o mundo...

Mas foi preciso gravar sobre as pedras outros símbolos e ver a todo custo no mundo olhares que se afundam em lágrimas.

Eu teria pagado meu tributo.
Esplendor!...

Rio não mar não lago não, árvore sim árvore malva a caminho do sol redondo, árvore a noite mil e mil pirilampos fazem um diamante bruto como o nascimento e eu abro meus braços para procurar uma mãe-Miséria! Piedade! Esplendor! Clop-clop claudicante de infernal cadência! rio mar lago não não virá o ourives Eu fecharei meus braços para reencontrar o coração de pedra. Racha então.

Antes escuta é o canto do galo a terra é luz nós vamos morrer o círculo da vida vai se desfechar sobre nós seu enigma os bichos são fantasmas nós somos sua consciência, psshht! A lua... eu morri por vilania morte morte sangrante – Esplêndida! Por um luar do algodão branco em minhas narinas negras.

Os chacais se calaram para me ouvir cantar Ó terra habitada Três vezes eu te exorcizo. Sou eu – eu chamo loucura o que é desfecho do homem.

As lesmas alisam seu caminho não falam de audácia onde encontrar um símbolo forte: os piolhos atacam meu corpo.

Dança ele dança no meu coração como um terror. Eu bocejo como um Cristão Viva eu – nem quente nem frio nem castrado vivendo em meio à luxúria.

Eles marcham a passos lentos órfãos nus de vergonha como se com o sentido que temos do mundo fosse permitido a órfãos privilegiados ser sem pai Que comédia!...

Eles têm unhas as fazem cada manhã quando a alva estoura e eles veem no deserto dos espelhos o pouco de profundeza que têm suas almas eles despelam o coração.

Não retornemos à Matéria O fogo arde a água molha a luz não deixa rastros.

O vinho bebido me levava a esta outra certeza é preciso sofrer para ser um homem de verdade e ter fora dos delírios dos castelos na Espanha – (a Espanha é um falso país) – Um homem de verdade quer dizer um homem demente um homem no sentido baixo da palavra homem – um “agá” mudo um “eu te amo” um nó um M anasalado abstrai o corolário uma aritmética elementar...

Os corvos como as codornas veneram os espantalhos. São dizem eles ídolos humanos; nós somos pela igualdade, o respeito das culturas das ante-sessões! E eles abrem grandes suas asas e cantam Te Deum em baixo latim codornas-corvos.

Não adiantou eu ser o Bronze se não me falha a memória é permitido ser um regicida é ruim ser portador de uma coroa de espinhos mesmo para inocentar um povo inocente.

Meus pés sobre minha savana inscreverão caminhos a calma Alva estoura na minha garganta eu pinto a noite para que o dia seja eternidade. Eu crio a Fraternidade uma vez que Cristo esse Judeu vendido pagou por todas as almas danadas. Havia cascalhos negros e pontudos no caminho que levava ao Gólgota. Portanto eu proclamo a força e a cifra humanas. Eu não grito o ódio eu irei por toda parte procurar aonde se dispersaram todos os meus fetiches de pregos para lhes retirar os três pregos da cruz. O cristo se serviu de uma cruz de madeira para usurpar contra o tempo o destino de um povo mais concreto que todos os punhais tirados do crime.

Aí está esses são os tratores que esgoelam na minha savana.

Não é meu sangue em minhas veias!

Ó sangue ruim!

(tradução de Leo Gonçalves)

:

Le signe du mauvais sang
Tchicaya U Tam´si

Je suis le Bronze l’alliage du sang fort qui gicle quand souffle le vent des marées saillantes

Le destin des divinités anciennes en travers du mien est-ce raison de danser toujours à rebours la chanson ?

J’étais amant à folâtrer avec les libellules ; c’était mon passé – ma mère me mit une fleur de verveine sur ma prunelle brune.

Je sentis mon sang allié sourdre des cadences rauques où bâillaient des crapauds pieux comme des amis.

Très pur le destin d’un crapaud !

Un pays tout latérite, des cauchemars qui fendent le crâne avec la hache des fièvres.

J’accuse la lumière de m’avoir trahi.

J’accuse la nuit de m’avoir perdu.

En vain, je promène une morte dans mon destin et le rire des mères et mon cœur enlisant et ce fleuve si lisse où ne poussera le liseron fin je porte aux mondes deux mains et leurs dix doigts pour une arithmétique élémentaire où se chiffrent naître aimer mourir et le corollaire qui est du corail colorié.

De mémoire d’homme l’orgueil fut vice j’en fais un Dieu pour vivre à la hauteur des hommes d’honnêtes fortunes.

Je suis homme je suis nègre pourquoi cela prend-il le sens d’une déception ?

Dix doigts pour une arithmétique élémentaire.

J’ai beau être le Bronze il m’en souvient : tout Juif est un régicide-né le Christ est un innocent et il faut que meurent les innocents, mais moi je n’ose mon suicide.

Alors le Golgotha c’est quoi ? Je n’ai pas choisi d’être bâtard. Vint la cruauté la saveur aux lèvres.

La logique veut : il faut construire le monde…

Mais il eût fallu graver sur les pierres d’autres symboles et voir à tout prix dans le monde des regards qui fondent en larmes.

J’aurais payé mon tribut.
Splendeur !...

Fleuve non mer non lac non, arbre oui arbre mauve à l’endroit du soleil rond, arbre la nuit mille et mille lucioles en font un diamant brut comme la naissance et j’ouvre mes bras pour me chercher une mère misère ! Pitié ! Splendeur ! Clopin-clopant infernale cadence ! fleuve mer lac non non viendra l’orfèvre Je fermerai mes bras pour retrouver un cœur de pierre. Crève donc !

Avant écoute c’est le chant du coq la terre est lumière nous allons mourir le cercle de la vie va nouer sur nous son énigme les bêtes sont des fantômes nous sommes leur conscience chut ! la lune… je suis mort par vilenie mort mort sanglant – Splendide ! par un clair de lune du coton blanc dans mes narines noires.

Les chacals se sont tus pour m’entendre chanter Ô terre hantée Trois fois je t’exorcise. C’est moi – j’appelle folie ce qui dénoue l’homme.

Les limaces lissant leur chemin ne parlent pas d’audace où trouver un symbole fort : les poux tenaient à mon corps.

Danse il danse dans mon cœur comme une terreur. Je bâille à la Chrétienté Vive moi – ni chaud ni froid ni châtré parmi la luxure.

Ils marchent à pas lents des orphelins nuns de honte comme si avec le sens que nos avons du monde il est permis à des orphelins privilégiés d’être sans père Quelle comédie !...

Ils ont des ongles qu’ils se font chaque matin quand l’aube éclate et ils voient dans le désert des miroirs le peu de profondeur qu’ont leurs âmes ils s’écorchent le cœur.

Non nous retournons à la Matière Le feu brûle l’eau mouille la lumière n’a pas de trace.

Le vin bu me ramenait à cette autre certitude-ci il faut souffrir pour être un homme comme il faut et avoir hors des songeries des châteaux en Espagne – (l’Espagne est un faux pays) – Un homme comme il faut c’est-à-dire un homme dément un homme au bas sens du mot homme - un « hache » aspirée deux « je t’aime » un nœud E muet abstrait le corollaire une arithmétique élémentaire…

Les corbeaux comme les pies vénèrent les épouvantails. Ce sont disent-ils des idoles humaines ; nous nous sommes pour la légalité, le respect des cultures, des préséances ! Et ils ouvrent grandes leurs ailes et chantent des Te Deum en bas latin pies-corbeaux.

J’ai beau être le Bronze il m’en souvient il est permis d’être un régicide il est mal de porter une couronne d’épines même pour innocenter un peuple innocent.

Mes pieds sur ma savane inscriront des chemins l’Aube douce éclate dans ma gorge je peins la nuit pour que le jour soit éternité. Je crée la Fraternité puisque le Christ ce Juif vendu a payé pour toutes les âmes damnées. Il y avait des cailloux noirs et blessants sur les sentiers qui menait au Golgotha. Je ne crie pas la haine j’irai partout chercher où sont dispersés tous mes fétiches à clous pour leur retrancher les trois clous de la croix. Le Christ se servit d’une croix de bois pour usurper contre le temps le destin d’un peuple plus concret que tous les couteaux tirés du crime.

Ça y est ce sont bien les tracteurs qui s’engueulent sur ma savane.

Non c’est mon sang dans me veines !
Quel mauvais sang !

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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

A flor do diabo

Branca e floral como um jasmim-do-Cabo
Maravilhosa ressurgiu um dia
A fatal Criação do fuIvo Diabo,
Eleita do pecado e da Harmonia.

Mais do que tudo tinha um ar funesto,
Embora tão radiante e fabulosa.
Havia sutilezas no seu gesto
De recordar uma serpente airosa.

Branca, surgindo das vermelhas chamas
Do Inferno inquisidor, corrupto e langue,
Ela lembrava, Flor de excelsas famas,
A Via-Láctea sobre um mar de sangue.

Foi num momento de saudade e tédio,
De grande tédio e singular Saudade,
Que o Diabo, já das culpas sem remédio,
Para formar a egrégia majestade,

Gerou, da poeira quente das areias
Das praias infinitas do Desejo,
Essa langue sereia das sereias,
Desencantada com o calor de um beijo.

Sobre galpões de sonho os seus palácios
Tinham bizarros e galhardos luxos.
Mais grave de eloqüência que os Horácios,
Vivia a vida dos perfeitos bruxos.

Sono e preguiça, mais preguiça e sono,
Luxúrias de nababo e mais luxúrias,
Moles coxins de lânguido abandono
Por entre estranhas florações purpúreas.

Às vezes, sob o luar, nos rios mortos,
Na vaga ondulação dos lagos frios,
Boiavam diabos de chavelhos tortos,
E de vultos macabros, fugidios.

A lua dava sensações inquietas
As paisagens avérnicas em torno
E alguns demônios com perfis de ascetas
Dormiam no luar um sono morno...

Foi por horas de Cisma, horas etéreas
De magia secreta e triste, quando
Nas lagoas letíficas, sidéreas,
O cadáver da lua vai boiando...

Foi numa dessas noites taciturnas
Que o velho Diabo, sábio dentre os sábios,
Desencantado o seu poder das furnas,
Com o riso augusto a flamejar nos lábios,

Formou a flor de encantos esquisitos
E de essências esdrúxulas e finas,
Pondo nela oscilantes infinitos
De vaidades e graças femininas.

E deu-lhe a quint'essência dos aromas,
Sonoras harpas de alma, extravagancias,
Pureza hostial e púbere de pomas,
Toda a melancolia das distancias...

Para haver mais requinte e haver mais viva,
Doce beleza e original carícia,
Deu-lhe uns toques ligeiros de ave esquiva
E uma auréola secreta de malícia.

Mas hoje o Diabo já senil, já fóssil,
Da sua Criação desiludido,
Perdida a antiga ingenuidade dócil,
Chora um pranto noturno de Vencido.

Como do fundo de vitrais, de frescos
De góticas capelas isoladas,
Chora e sonha com mundos pitorescos,
Na nostalgia das Regiões Sonhadas.

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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Pandemonium

a Maurício Jubim

Em fundo de tristeza e de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia.

Aflito, aflito, amargamente aflito,
Num gesto estranho que parece um grito.

E ondula e ondula e palpitando vaga,
Como profunda, como velha chaga.

E paira sobre ergástulos e abismos
Que abrem as bocas cheias de exorcismos.

Com os olhos vesgos, a flutuar de esguelha,
Segue-te atrás uma visão vermelha.

Uma visão gerada do teu sangue
Quando no Horror te debateste exangue,

Uma visão que é tua sombra pura
rodando na mais trágica tortura.

A sombra dos supremos sofrimentos
Que te abalaram como negros ventos.

E a sombra as tuas voltas acompanha
Sangrenta, horrível, assombrosa, estranha.

E o teu perfil no vácuo perpassando
Vê rubros caracteres flamejando.

Vê rubros caracteres singulares
De todos os festins de Baltazares.

Por toda a parte escrito em fogo eterno:
Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!

E os emissários espectrais das mortes
Abrindo as grandes asas flamifortes...

E o teu perfil oscila, treme, ondula,
Pelos abismos eternais circula...

Circula e vai gemendo e vai gemendo
E suspirando outro suspiro horrendo.

E a sombra rubra que te vai seguindo
Também parece ir soluçando e rindo.

Ir soluçando, de um soluço cavo
Que dos venenos traz o torvo travo.

Ir soluçando e rindo entre vorazes
Satanismos diabólicos, mordazes.

E eu já nem sei se e realidade ou sonho
Do teu perfil o divagar medonho.

Não sei se e sonho ou realidade todo
Esse acordar de chamas e de lodo.

Tal é a poeira extrema confundida
Da morte a raios de ouro de outra Vida.

Tais são as convulsões do último arranco
Presas a um sonho celestial e branco.

Tais são os vagos círculos inquietos
Dos teus giros de lágrimas secretos.

Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço.

Eis que te reconheço escravizada,
Divina Mãe, na Dor acorrentada.

Que reconheço a tua boca presa
Pela mordaça de uma sede acesa

Presa, fechada pela atroz mordaça
Dos fundos desesperos da Desgraça.

Eis que lembro os teus olhos visionários
Cheios do fel de bárbaros Calvários.

E o teu perfil asas abrir parece
Para outra Luz onde ninguém padece...

Com doçuras feéricas e meigas
De Satãs juvenis, ao luar, nas veigas.

E o teu perfil forma um saudoso vulto
Como de Santa sem altar, sem culto.

Forma um vulto saudoso e peregrino
De força que voltou ao seu destino.

De ser humano que sofrendo tanto
Purificou-se nos Azuis do Encanto.

Subiu, subiu e mergulhou sozinho,
Desamparado, no fetal caminho.

Que lá chegou transfigurado e aéreo,
Com os aromas das flores do Mistério.

Que lá chegou e as mortas portas mudas
Fez abalar de imprecações agudas...

E vai e vai o teu perfil ansioso,
De ondulações fantásticas, brumoso.

E vai perdido e vai perdido, errante,
Trêmulo, triste, vaporoso, ondeante.

Vai suspirando, num suspiro vivo
Que palpita nas sombras incisivo...

Um suspiro profundo, tão profundo
Que arrasta em si toda a paixão do mundo.

Suspiro de martírio, de ansiedade,
De alívio, de mistério, de saudade.

Suspiro imenso, aterrador e que erra
Por tudo e tudo eternamente aterra...

O pandemonium de suspiros soltos
Dos condenados corações revoltos.

Suspiro dos suspiros ansiados
Que rasgam peitos de dilacerados.

E mudo e pasmo e compungido e absorto,
Vendo o teu lento e doloroso giro,

Fico a cismar qual é o rio morto
Onde vai divagar esse suspiro.

2 265
Octavian Paler

Octavian Paler

Autorretrato ante o espelho quebrado

Quando finalmente seriam os sonhos mais tangíveis, dei-me conta: também as paixões envelhecem. Não sou capaz de assegurar minhas próprias vontades. Não me faltaram, decerto, metas falsas e entusiasmos pueris. Jamais minha imaginação concebeu um mundo sem ti. Ainda que não assumas o comum e paranóico orgulho de imaginar-te ao centro do mundo, algo sempre duro de admitir, faltou-te inteligência ou capacidade para aceitar que ninguém ensina o que quer que seja, exceto retratos amarelados, velhas fotos lançadas à lixeira tão logo partas. Aos outros, somos marionetes bufas, personagens melhores [ou atuantes patéticos]. Todas as certezas que já tive esvaíram-se, sem ressalva alguma. Também as alegrias passadas assumem tom melancólico na lembrança. O passado é vivo, integra o presente e o influencia na proporção do conflito diário. “Daqui a pouco” transforma-se em “mais tarde”. Comecei a perceber que, de atores em cena, tornamo-nos figurantes. E a memória revolve-se em perdão. A lembrança tem um dom estivo, dá-nos o verão como estação de destino. Hoje, sobram-me dúvidas; fito o céu apenas com a esperança de um guarda-chuva, como todos aqui em Bucareste, que, sob nenhum lirismo, admiram e respiram fumaça [quando chove, inevitavelmente pisamos em poças múltiplas]. Associando-me a outros, a atmosfera, de tão dura, não me permite integrar, e acabo sempre só. Porque busco alguma coisa [pouca coisa mas algo] e sou errante num mundo de tudo que te dá nada. A humanidade tomou o lugar do próprio homem. Hoje, preciso apenas de um muro para levantar e, por não o encontrar, eis o desespero. Uma vida medíocre é justificável. A mediocridade das ilusões, todavia, é inescusável. E continuamos sonhando, mais e mais [sem limites]. Por quê? Talvez, possa-me abandonar sobre a imagem quebrada do espelho, sem o temor do pecado. Soube que há uma língua atualmente falada por um homem apenas. Como discutir? O mistério mais sutil é a banalidade. Nesse cotidiano, guardo contigo meu segredo supremo. Seria a criação do universo uma obra banal? As estrelas apontam, todas as noites, nossa morte [ou vida constelada emudecida]. Deus criou o homem e confiou ao diabo a tarefa do desfazimento. O diabo não tem limites. Seria a linguagem o extremo dessa falta?
Atentei-me demais ao detalhe, perdi o foco?
[vou reescrever]
(tradução livre João Monteiro)
(in Autoportret într-o oglinda sparta, Ed. Albatros, Bucareste, 2007)
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Birago Diop

Birago Diop

Viático

Em um dos três canários
dos três canários nos quais certas noites ressurgem
as almas serenas,
o sopro dos ancestrais,
dos ancestrais que foram homens,
dos ancestrais que foram sábios,
Mãe encharcou três dedos,
três dedos de sua mão esquerda:
o polegar, o indicador e o maior.
Eu encharquei três dedos,
três dedos de minha mão direita:
o polegar, o indicador e o maior.

Com seus três dedos vermelhos de sangue,
de sangue de cachorro
de sangue de touro
de sangue de bode,
Mãe me tocou três vezes.
Tocou minha testa com o polegar,
com o indicador o meu peito esquerdo
e meu umbigo com seu dedo maior.
Eu estendi meus dedos rubros de sangue,
de sangue de cachorro,
de sangue de touro
de sangue de bode.
Eu estendi meus três dedos aos ventos,
ao vento do Norte, ao vento do Nascente,
ao vento do Sul, ao vento do Poente;
e ergui meus três dedos na direção da Lua,
da Lua cheia, a Lua cheia e nua
quando ela foi ao fundo do canário maior.

Afundei meus três dedos na areia,
Na areia que se arrefecera.
Então Mãe disse: “Vai pelo Mundo, vai,
Ao longo da Vida Eles estarão em seus passos”.

Desde então eu vou,
eu vou pelas sendas,
pelas sendas e pelas estradas,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e para além do além.
E quando chego perto da gente ruim,
os Homens de coração negro,
quando me aproximo dos invejosos,
os Homens de coração negro,
à minha frente avançam os Sopros dos meus Ancestrais.


:


Viatique

Dans un des trois canaris
des trois canaris où reviennent certains soirs
les âmes satisfaites et sereines,
les souffles des ancêtres,
des ancêtres qui furent des hommes
des aïeux qui furent des sages,
Mère a trempé trois doigts,
trois doigts de sa main gauche:
le pouce, l'index et le majeur;
Moi j'ai trempé trois doigts:
trois doigts de la main droite:
le pouce, l'index et le majeur.
Avec ses trois doigts rouge de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc,
Mère m'a touché mon front avec son pouce,
Avec l'index mon sein gauche
Et mon nombril avec son majeur.
Moi j'ai tendu mes doigts rouges de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc.
J'ai tendu mes trois doigts aux vents
aux vents du Nord, aux vents du Levant
aux vents du Sud, aux vents du Couchant;
Et j'ai levé mes trois doigts vers la Lune,
vers la Lune pleine, la Lune pleine et nue
Quand elle fut au fond du plus grand canari.

Après j'ai enfoncé mes trois doigts dans le sable
dans le sable qui s'était refroidi.
Alors Mère a dit: "Va par le Monde, Va!
Dans la vie ils seront sur tes pas."

Depuis je vais
je vais par les sentiers
par les sentiers et sur les routes,
par-delà la mer et plus loin, plus loin encore,
par-delà la mer et par-delà l'au-delà;
Et lorsque j'approche les méchants,
les Hommes au coeur noir,
lorsque j'approche les envieux,
les Hommes au coeur noir
Devant moi s'avancent les Souffles des Aïeux.



1 230
Endre Ady

Endre Ady

Recordação de uma noite de verão

Do alto do céu um anjo enraivecido
tocou o alarme para a terra triste.
Endoidaram cem jovens pelo menos,
caíram pelo menos cem estrelas,
pelo menos cem virgens se perderam:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Nossa velha colméia pegou fogo,
nosso potro melhor quebrou a pata,
os mortos, no meu sonho, estavam vivos
e Burkus, nosso cão fiel, sumiu,
nossa criada Mári, que era muda,
esganiçou de pronto uma canção:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Os ninguéns exultavam de ousadia,
os justos encolhiam-se e o ladrão,
mesmo o mais tímido, roubou então:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Sabíamos da imperfeição dos homens,
de suas grandes dívidas de amor:
mas era singular, ainda assim,
o fim de um mundo que chegava ao fim.
Jamais tão zombeteira esteve a lua
e nunca foi menor o ser humano
do que foi nessa tal noite em questão:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Perversamente em júbilo, a agonia
sobre todas as almas se abatia,
os homens imbuíram-se do fado
recôndito de cada antepassado
e, rumo a bodas de um horror sangrento,
seguia embriagado o pensamento,
o altivo servidor do ser humano,
este, por sua vez, mero aleijão:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Pensava então, pensava eu, todavia,
que um deus negligenciado voltaria
à vida para me levar à morte,
mas eis que vivo e ainda sou o mesmo
no qual me converteu aquela noite
e, à espera desse deus, recordo agora
uma só noite mais que aterradora
que fez um mundo inteiro soçobrar:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
(tradução de Nelson Ascher, publicada originalmente na revista Dicta & Contradicta).
:
Emlékezés egy nyár-éjszakára
Az Égbol dühödt angyal dobolt
Riadót a szomoru Földre,
Legalább száz ifjú bomolt,
Legalább száz csillag lehullott,
Legalább száz párta omolt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt,
Kigyúladt öreg méhesünk,
Legszebb csikónk a lábát törte,
Álmomban élo volt a holt,
Jó kutyánk, Burkus, elveszett
S Mári szolgálónk, a néma,
Hirtelen hars nótákat dalolt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
Csörtettek bátran a senkik
És meglapult az igaz ember
S a kényes rabló is rabolt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
Tudtuk, hogy az ember esendo
S nagyon adós a szeretettel:
Hiába, mégis furcsa volt
Fordulása élt s volt világnak.
Csúfolódóbb sohse volt a Hold:
Sohse volt még kisebb az ember,
Mint azon az éjszaka volt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
Az iszonyúság a lelkekre
Kaján örömmel ráhajolt,
Minden emberbe beköltözött
Minden osének titkos sorsa,
Véres, szörnyu lakodalomba
Részegen indult a Gondolat,
Az Ember büszke legénye,
Ki, íme, senki béna volt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
Azt hittem, akkor azt hittem,
Valamely elhanyagolt Isten
Életre kap s halálba visz
S, íme, mindmostanig itt élek
Akként, amaz éjszaka kivé tett
S Isten-várón emlékezem
Egy világot elsülyeszto
Rettenetes éjszakára:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt.
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