Poemas neste tema
Filhos
Mário Donizete Massari
Lavra Dor
O lavrador
lavra a terra,
como quem gera
um filho.
A semente é o sêmen
fértil nascente,
que logo frutifica
e gera novos filhos.
O lavra dor
lavra a terra,
gera os filhos
e frutifica
E vive a paixão eterna
do pai pelo filho . . .
lavra a terra,
como quem gera
um filho.
A semente é o sêmen
fértil nascente,
que logo frutifica
e gera novos filhos.
O lavra dor
lavra a terra,
gera os filhos
e frutifica
E vive a paixão eterna
do pai pelo filho . . .
1 097
Maurício Uzêda
Sonho
Sentado na cama
Eu te vejo dormir
No teu sono largado
Sono de criança
Meu sonho
Encolhida sob o lençol
Eu não te vejo.
Escondida, eu penso.
Sonho feito carne
É meu sonho de criança
Feito vida enquanto durmo
Pedaço de mim
Materializou-se
Minha doce expiração
Minha doce concepção
Teu corpo
Teus dois braços
Onde moro
Onde vivo
Onde sonho
Onde sou feliz
Eu te vejo dormir
No teu sono largado
Sono de criança
Meu sonho
Encolhida sob o lençol
Eu não te vejo.
Escondida, eu penso.
Sonho feito carne
É meu sonho de criança
Feito vida enquanto durmo
Pedaço de mim
Materializou-se
Minha doce expiração
Minha doce concepção
Teu corpo
Teus dois braços
Onde moro
Onde vivo
Onde sonho
Onde sou feliz
820
Luciano Matheus Tamiozzo
Anjinho
Uma fraca luminosidade
Adentra à porta
Então sorrateiramente
Da cama se aproxima.
Mamãe ao ver pergunta
Em um tom terno e afetivo:
Ainda não dormiu, meu anjinho?
Adentra à porta
Então sorrateiramente
Da cama se aproxima.
Mamãe ao ver pergunta
Em um tom terno e afetivo:
Ainda não dormiu, meu anjinho?
978
João Marcio Furtado Costa
Acróstico II
Acróstico II
(01/93)
Gracioso e doce, teu sorriso é a paz que nos encanta,
Acalenta, revigora e também nos faz sonhar,
Beija-flor que se preza, quer de ti aroma e beijos,
Ritual de ternura, simplesmente tens no olhar.
Iluminaste e completaste, ao raiares, nosso mundo,
Extravasando exuberância nas diversas dimensões,
Labaredas coloridas, de um amor mais que profundo,
Ateaste em nossas vidas e em nossos corações.
Carregas dentro em ti tanta luz, tanta alegria,
Retórica sublime sabes significar.
Inebriante, cada vez mais tu te tornas dia a dia,
Sensação de que a nós, sempre estarás a iluminar.
Tivesse eu o direito, de almejar a qualquer graça,
Intransigentemente saberia, sempre o que pedir.
Não seria ouro, ou pedras preciosas minha escolha,
A vida inteira somente, queria te ver sorrir.
(01/93)
Gracioso e doce, teu sorriso é a paz que nos encanta,
Acalenta, revigora e também nos faz sonhar,
Beija-flor que se preza, quer de ti aroma e beijos,
Ritual de ternura, simplesmente tens no olhar.
Iluminaste e completaste, ao raiares, nosso mundo,
Extravasando exuberância nas diversas dimensões,
Labaredas coloridas, de um amor mais que profundo,
Ateaste em nossas vidas e em nossos corações.
Carregas dentro em ti tanta luz, tanta alegria,
Retórica sublime sabes significar.
Inebriante, cada vez mais tu te tornas dia a dia,
Sensação de que a nós, sempre estarás a iluminar.
Tivesse eu o direito, de almejar a qualquer graça,
Intransigentemente saberia, sempre o que pedir.
Não seria ouro, ou pedras preciosas minha escolha,
A vida inteira somente, queria te ver sorrir.
842
João Marcio Furtado Costa
Acróstico I
Acróstico I
(10/92)
Luz, raiaste, brilhaste intensamente,
Uníssono de louvor ao criador.
Instigante, deslumbrante, enaltecida,
Sangue, coração. Tu és só vida,
Acariciaste com tua presença nosso amor.
Cravo ou rosa? De que cor?
Anunciaste cedo que serias flor.
Retratada em prosa, verso ou aquarela,
Ostentas de maneira sempre bela,
Lindos, negros, olhos e cabelo a emoldurar.
Indescritível intensidade de amor, impossível de sonhar.
Nasceste para ser nossa rainha, nunca estarás sozinha,
Acima de tudo, viveremos pra te amar.
(10/92)
Luz, raiaste, brilhaste intensamente,
Uníssono de louvor ao criador.
Instigante, deslumbrante, enaltecida,
Sangue, coração. Tu és só vida,
Acariciaste com tua presença nosso amor.
Cravo ou rosa? De que cor?
Anunciaste cedo que serias flor.
Retratada em prosa, verso ou aquarela,
Ostentas de maneira sempre bela,
Lindos, negros, olhos e cabelo a emoldurar.
Indescritível intensidade de amor, impossível de sonhar.
Nasceste para ser nossa rainha, nunca estarás sozinha,
Acima de tudo, viveremos pra te amar.
1 151
José da Cunha Cardoso
Soneto
Essa nobre matrona, que impelida
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,
Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.
Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.
Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,
Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.
Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.
Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.
939
Helena Ortiz
Arrumando o Quarto
hoje mexi em tuas coisas
em tuas mínimas coisas
em teus pequenos vestidos
tuas sandalinhas
em pedaços de coisas
que ganhavam vida em tuas mãos
ouvi teus passos curtos
te reencontrei em gavetas fechadas
armários intocados
brinquedos mudos
chorei entre tuas roupas
e precisei me dizer
para não naufragar
não mexe aí, mamãe
em tuas mínimas coisas
em teus pequenos vestidos
tuas sandalinhas
em pedaços de coisas
que ganhavam vida em tuas mãos
ouvi teus passos curtos
te reencontrei em gavetas fechadas
armários intocados
brinquedos mudos
chorei entre tuas roupas
e precisei me dizer
para não naufragar
não mexe aí, mamãe
1 050
Elisa Lucinda
Dá Licença, Bastiana?
Vim te pedir, mulher
seu filho um pouquinha
seu filho um cadinho
pra brincar comigo.
Ah, Bastiana é só por carinho
que vim te implorar
Juro! Não vou machucar
Ai, Tiana tá danado
Você pode compreender
eu vim pedir emprestado
esse fruto abusado
de sua enorme paixão
Eu não quero ter ele não
Se tiver posso perder
como já perdi a razão.
Eu vim pedir
teu curumim pra mim
por uns tempos longos por dentro
Quero ele só um pouquinho...
O quê?
Ele diz que pra mim não existe pouquinho?
Mas tá mentindo, Tiana,
você sabe, vou devolver...
Quero fazer com ele um filme pra televisão
Quero ir com ele cantar no Canecão
e a gente vira cinema
na cara de toda Nação
Ai, Bastiana, não diga que não!
Se ele chupou seus peitinhos
eu também quero
Lá em casa tem uma rede que é pra ninar ele
Se ele dormiu no seu colo
eu também quero
Ai, Tiana como te venero!
Parece apelação
mas é mais desespero de nega enfeitiçada
que sente no couro
o que é pedir para si
o filho dos outros.
Já sei:
A gente grava junto um disco
só pra tocar na sua vitrola.
No domingo ele ia pra aí
só pra comer do seu pudim
e molhar a boca na sua galinha ensopada
Eu deixava
Cheia de felicidade
Espalhada na cidade, num grande out-door
Pedindo pros deuses pra que falte dor
Ai, Tiana, open the door, por favor!
Eu até prometia:
a netinha, viria linda um dia
se você tivesse a gentilieza
de me emprestar essa represa
que é onde foi dar o meu coração.
Entenda Tiana:
Não quero tua solidão
e tampouco quero a minha
Essa é a situação.
Mas a culpa é sua!
Quem mandou fazer bem feito?
Os olhinhos puxadinhos
a boca, o umbiguinho.
a mão suave de armarinho
a voz e até o carinho.
Podia até ser caprichosa, mulher
sem precisar exagerar
Mas você passou da dose
fez acabamento
e até na pele ton-sur-ton.
Vim pedir teu filho um cadinho
pra brincar comigo até o sol nascer.
Eu vim pedir o seu.
Um dia vão levar o meu
sem nem pedir, sem nada.
Porque a gente é só mesmo mala
dessa tal criação
dessa tal criatura
e não vês a verdura desse meu olhar?
Ai, Tiana, me desculpe, eu vou entrando...
Me desculpe, eu vou levar.
seu filho um pouquinha
seu filho um cadinho
pra brincar comigo.
Ah, Bastiana é só por carinho
que vim te implorar
Juro! Não vou machucar
Ai, Tiana tá danado
Você pode compreender
eu vim pedir emprestado
esse fruto abusado
de sua enorme paixão
Eu não quero ter ele não
Se tiver posso perder
como já perdi a razão.
Eu vim pedir
teu curumim pra mim
por uns tempos longos por dentro
Quero ele só um pouquinho...
O quê?
Ele diz que pra mim não existe pouquinho?
Mas tá mentindo, Tiana,
você sabe, vou devolver...
Quero fazer com ele um filme pra televisão
Quero ir com ele cantar no Canecão
e a gente vira cinema
na cara de toda Nação
Ai, Bastiana, não diga que não!
Se ele chupou seus peitinhos
eu também quero
Lá em casa tem uma rede que é pra ninar ele
Se ele dormiu no seu colo
eu também quero
Ai, Tiana como te venero!
Parece apelação
mas é mais desespero de nega enfeitiçada
que sente no couro
o que é pedir para si
o filho dos outros.
Já sei:
A gente grava junto um disco
só pra tocar na sua vitrola.
No domingo ele ia pra aí
só pra comer do seu pudim
e molhar a boca na sua galinha ensopada
Eu deixava
Cheia de felicidade
Espalhada na cidade, num grande out-door
Pedindo pros deuses pra que falte dor
Ai, Tiana, open the door, por favor!
Eu até prometia:
a netinha, viria linda um dia
se você tivesse a gentilieza
de me emprestar essa represa
que é onde foi dar o meu coração.
Entenda Tiana:
Não quero tua solidão
e tampouco quero a minha
Essa é a situação.
Mas a culpa é sua!
Quem mandou fazer bem feito?
Os olhinhos puxadinhos
a boca, o umbiguinho.
a mão suave de armarinho
a voz e até o carinho.
Podia até ser caprichosa, mulher
sem precisar exagerar
Mas você passou da dose
fez acabamento
e até na pele ton-sur-ton.
Vim pedir teu filho um cadinho
pra brincar comigo até o sol nascer.
Eu vim pedir o seu.
Um dia vão levar o meu
sem nem pedir, sem nada.
Porque a gente é só mesmo mala
dessa tal criação
dessa tal criatura
e não vês a verdura desse meu olhar?
Ai, Tiana, me desculpe, eu vou entrando...
Me desculpe, eu vou levar.
1 395
Diamond
Gorda! Eu?
Hoje, lá na praia
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim
966
Carvalho Nogueira
Oração da Noite
— Meu Deus, eu agradeço mais um dia
de vida neste mundo de emoções,
também peço perdão pelos pecados
que cometi, por mais que os evitasse.
E por esses pecados, de joelhos,
perdão suplico, cheio de remorso,
pedindo forças, luzes e talento
para evitá-los quando me tentarem.
Como dissestes que a gente batesse,
que as portas se abririam de repente,
rogo pela felicidade dos meus filhos.
Pelas almas dos maus também eu rogo,
pelos que sofrem, pelos que não sabem
rezar uma palavra de perdão.
de vida neste mundo de emoções,
também peço perdão pelos pecados
que cometi, por mais que os evitasse.
E por esses pecados, de joelhos,
perdão suplico, cheio de remorso,
pedindo forças, luzes e talento
para evitá-los quando me tentarem.
Como dissestes que a gente batesse,
que as portas se abririam de repente,
rogo pela felicidade dos meus filhos.
Pelas almas dos maus também eu rogo,
pelos que sofrem, pelos que não sabem
rezar uma palavra de perdão.
1 020
Chico Buarque
O meu guri
Chico Buarque 1981
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
3 235
Antonio Roberval Miketen
A Simone
Essas mãos que tens,
pequeninas mãos,
algas no silêncio,
lavadas de luz:
para que encontro,
diz-me, filha minha,
para que destino,
a fonte as conduz?
pequeninas mãos,
algas no silêncio,
lavadas de luz:
para que encontro,
diz-me, filha minha,
para que destino,
a fonte as conduz?
815
Antonio Roberval Miketen
For Simone
These hands of yours,
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
976
Amasilde Rehwagen
O Banco da Praça
Com peraltice e graça,
ouvi meu filho cantando
aquela música da Praça!
Era um gorjeio de ave
na sua vozinha suave
o banco da solidão...
Cantava alegre o menino,
como se fosse um hino
aquela linda versão!
Mas, na sua ingenuidade,
só conhece alacridade
seu pequeno coração!
Que no decorrer dos anos
não lhe venham desenganos
roubar-lhe a bela canção!
ouvi meu filho cantando
aquela música da Praça!
Era um gorjeio de ave
na sua vozinha suave
o banco da solidão...
Cantava alegre o menino,
como se fosse um hino
aquela linda versão!
Mas, na sua ingenuidade,
só conhece alacridade
seu pequeno coração!
Que no decorrer dos anos
não lhe venham desenganos
roubar-lhe a bela canção!
921
Albano Dias Martins
Crepúsculo de Agosto
Para a minha filha
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
1 458
António Osório
Cântico do Filho Maior
Ao Antônio Cândido
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
1 238
Luiza Neto Jorge
As Revoluções da Matéria
A divisibilidade: A visibilidade a dois
A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também.Se o átomo é
divisível só poeta o diz.
a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados
dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.
A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos.Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.
de O Seu Tempo a Seu Tempo
A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também.Se o átomo é
divisível só poeta o diz.
a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados
dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.
A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos.Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.
de O Seu Tempo a Seu Tempo
1 865
Gilson Nascimento
A n i v e r s á r i o
Um ano a mais tens hoje, caro filho
Um instante na vida – longa estrada
Dos teus olhos relembro o vivo brilho
No alvorecer de tua caminhada
Àquele tempo quando articulavas
Os vocábulos que aos poucos aprendias
E com teu riso infância os libertavas
O amor interpretava o que dizias
Homem, guardas, contudo, da criança
Algo que às vezes ao adulto cansa
Ser sincero, leal e bom amigo
Que ao longo do caminho a percorrer
A flor do bem não deixes perecer
Ao sol da vida; rega-a, dá-lhe abrigo
Um instante na vida – longa estrada
Dos teus olhos relembro o vivo brilho
No alvorecer de tua caminhada
Àquele tempo quando articulavas
Os vocábulos que aos poucos aprendias
E com teu riso infância os libertavas
O amor interpretava o que dizias
Homem, guardas, contudo, da criança
Algo que às vezes ao adulto cansa
Ser sincero, leal e bom amigo
Que ao longo do caminho a percorrer
A flor do bem não deixes perecer
Ao sol da vida; rega-a, dá-lhe abrigo
729
Aldir Blanc
Hefesto
Um dia inteiro
para
em queda livre
beijar o solo.
No tempo mitológico
o dia é a vida.
Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.
para
em queda livre
beijar o solo.
No tempo mitológico
o dia é a vida.
Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.
1 651
Juscelino Vieira Mendes
Puros Olhos
Para Emil Sinclair
"Os filhos são herança do Senhor,
e o fruto do ventre o seu galardão."
Salmos 127:3
Tudo mudou
agora como nunca
nunca como agora.
Olhos negros — castanhos talvez — desconfiados me olham.
Fitam-me como se um estranho eu fosse,
repletos de ternura — puro amor candura...
Olhos que me deixam desatinado.
Puros olhos que olham:
impuros olhos repletos de tristeza e melancolia;
de ódio e rancor, às vezes repletos de amor...
Na alegria, no afeto e na esperança.
Tudo mudou! Você chegou! Amado antes de vir:
quando respirava por outros meios, que não os de agora, que não os de fora.
Filho desentranhado no calor, olhar-nos-emos sempre com amor?...
Campinas, anoitecer ensolarado de quinta-feira, 6 de janeiro de 1977.
"Os filhos são herança do Senhor,
e o fruto do ventre o seu galardão."
Salmos 127:3
Tudo mudou
agora como nunca
nunca como agora.
Olhos negros — castanhos talvez — desconfiados me olham.
Fitam-me como se um estranho eu fosse,
repletos de ternura — puro amor candura...
Olhos que me deixam desatinado.
Puros olhos que olham:
impuros olhos repletos de tristeza e melancolia;
de ódio e rancor, às vezes repletos de amor...
Na alegria, no afeto e na esperança.
Tudo mudou! Você chegou! Amado antes de vir:
quando respirava por outros meios, que não os de agora, que não os de fora.
Filho desentranhado no calor, olhar-nos-emos sempre com amor?...
Campinas, anoitecer ensolarado de quinta-feira, 6 de janeiro de 1977.
1 148
Juscelino Vieira Mendes
Pais Escolhidos
(para Lucas e Laura)
Madrugamos no desconhecido
Por ímpetos de felicidade
Em mundo hostil
Sem herdade
Inópia de tudo
Às escâncaras chegamos
Em busca de amor, inconscientemente
Sonhamos
Conheceríamos os verbos,
No imperativo
Por ato de amor, conhecemo-los
No futuro do subjuntivo
Amor
Não apenas amizade
Sem "ímpeto"
De sincera felicidade
De pais,
que no dizer de sumidade,
‘Trazem na retina
A alma da hospitalidade’
Pais escolhidos
Escolhidos por Deus
Com eterna candura
Dos filhos teus...
Madrugamos no desconhecido
Por ímpetos de felicidade
Em mundo hostil
Sem herdade
Inópia de tudo
Às escâncaras chegamos
Em busca de amor, inconscientemente
Sonhamos
Conheceríamos os verbos,
No imperativo
Por ato de amor, conhecemo-los
No futuro do subjuntivo
Amor
Não apenas amizade
Sem "ímpeto"
De sincera felicidade
De pais,
que no dizer de sumidade,
‘Trazem na retina
A alma da hospitalidade’
Pais escolhidos
Escolhidos por Deus
Com eterna candura
Dos filhos teus...
1 011
Cirstina Areias
Uma Imagem na TV do Fim do Século
A criança loura da doença letal adquirida
Tem um cansaço no olhar velho que vagueia,
Transpassa...
A criança terminal
Põe a cabeça no ombro infinito da mãe
E deixa escapar, do abnegado aconchego,
Toda a calamidade e infâmia do mundo...
O que há nesse abraço que não é meu,
Que não me pertence,
Mas que me mortifica?!
A criança loura, do olhar castanho cansado,
Da doença terminal adquirida,
(Adquirida nos bancos públicos,
Nos banheiros públicos,
Nos Homens Públicos...)
A criança loura jaz sua cabeça no ombro inútil da mãe
Há um enorme fastio de brinquedos em seu olhar...
A criança loura jaz sua cabeça no ombro da mãe,
A criança loura
Jaz seu olhar em meu olhar...
Tem um cansaço no olhar velho que vagueia,
Transpassa...
A criança terminal
Põe a cabeça no ombro infinito da mãe
E deixa escapar, do abnegado aconchego,
Toda a calamidade e infâmia do mundo...
O que há nesse abraço que não é meu,
Que não me pertence,
Mas que me mortifica?!
A criança loura, do olhar castanho cansado,
Da doença terminal adquirida,
(Adquirida nos bancos públicos,
Nos banheiros públicos,
Nos Homens Públicos...)
A criança loura jaz sua cabeça no ombro inútil da mãe
Há um enorme fastio de brinquedos em seu olhar...
A criança loura jaz sua cabeça no ombro da mãe,
A criança loura
Jaz seu olhar em meu olhar...
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António Gancho
Tu és mortal
Tu és mortal meu filho
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
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Manuel Alegre
Debaixo das Oliveiras
Este foi o mês em que cantei
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.
O mês em que a brisa me pôs nas mãos
uma harpa de folhas
e a terra me emprestou
sua flauta e sua lua.
Maré viva. Meu sangue atravessado
por um cometa visível a olho nu
tangido por satélites e aves de arribação
navegado por peixes desconhecidos.
Este foi o mês em que cantei
como quem morre e ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba.
O mês em que subi a uma colina
dentro de minha casa
olhei a terra e o mar
depois cantei
como quem faz com duas pedras
o primeiro lume. Palavras
e pedras. Palavras e lume
de uma vida.
Este foi o mês em que fui a um lugar santo
dentro de minha casa.
O mês em que saí dos campos
e me banhei no rio como quem se baptiza
e cantei debaixo das oliveiras
as mãos cheias de terra. Palavras
e terra
de uma vida.
Este foi o mês em que cantei
como quem espelha ao vento suas cinzas
e cresce de seu próprio adubo
carregado de folhas. Palavras
e folhas
de uma vida.
O mês em que a mulher
tocou meus ombros com sua graça
e me deu a beber
a água pura do seu poço.
Este foi o mês em que o filho
derramou dentro de mim
o orvalho e o sol
de sua manhã.
O mês em que cantei
como quem de si se perde e reencontra
nas coisas novamente nomeadas.
Este foi o mês em que atravessei montanhas
e cheguei a um lugar onde as palavras
escorriam leite e mel.
MILAGRE MILAGRE gritaram dentro de mim
as aves todas da floresta.
Então reparei que era o lugar do poema
o lugar santo onde cantei
entre mulher e o filho
como quem dá graças.
Este foi o mês em que cantei
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.
O mês em que a brisa me pôs nas mãos
uma harpa de folhas
e a terra me emprestou
sua flauta e sua lua.
Maré viva. Meu sangue atravessado
por um cometa visível a olho nu
tangido por satélites e aves de arribação
navegado por peixes desconhecidos.
Este foi o mês em que cantei
como quem morre e ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba.
O mês em que subi a uma colina
dentro de minha casa
olhei a terra e o mar
depois cantei
como quem faz com duas pedras
o primeiro lume. Palavras
e pedras. Palavras e lume
de uma vida.
Este foi o mês em que fui a um lugar santo
dentro de minha casa.
O mês em que saí dos campos
e me banhei no rio como quem se baptiza
e cantei debaixo das oliveiras
as mãos cheias de terra. Palavras
e terra
de uma vida.
Este foi o mês em que cantei
como quem espelha ao vento suas cinzas
e cresce de seu próprio adubo
carregado de folhas. Palavras
e folhas
de uma vida.
O mês em que a mulher
tocou meus ombros com sua graça
e me deu a beber
a água pura do seu poço.
Este foi o mês em que o filho
derramou dentro de mim
o orvalho e o sol
de sua manhã.
O mês em que cantei
como quem de si se perde e reencontra
nas coisas novamente nomeadas.
Este foi o mês em que atravessei montanhas
e cheguei a um lugar onde as palavras
escorriam leite e mel.
MILAGRE MILAGRE gritaram dentro de mim
as aves todas da floresta.
Então reparei que era o lugar do poema
o lugar santo onde cantei
entre mulher e o filho
como quem dá graças.
Este foi o mês em que cantei
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.
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