Poemas neste tema
Flores e Jardins
Fernando Pessoa
37 - SONG
Lilies cast and roses throw
In the way that she must go
Whom the singing planets hymn,
Sister of the seraphim!
Shifting motes of early sun
In the morning freshness spun
To light dresses for the breeze -
Clothe her coming such as these!
Shadows purple, fountain breaths,
Low mists such as dawning wreathes
Round the tree‑tops - these be made
Hers, for whom spring's feast is laid!
She to us from heaven descended
That dreams might with earth seem blended,
And unquietness more blest
Mingle with our life's unrest.
These the chosen offerings
From what earthly deep joy sings -
These to her we daily bear
Lest she pine for heaven here.
In the way that she must go
Whom the singing planets hymn,
Sister of the seraphim!
Shifting motes of early sun
In the morning freshness spun
To light dresses for the breeze -
Clothe her coming such as these!
Shadows purple, fountain breaths,
Low mists such as dawning wreathes
Round the tree‑tops - these be made
Hers, for whom spring's feast is laid!
She to us from heaven descended
That dreams might with earth seem blended,
And unquietness more blest
Mingle with our life's unrest.
These the chosen offerings
From what earthly deep joy sings -
These to her we daily bear
Lest she pine for heaven here.
1 537
Fernando Pessoa
Floriu a roseira toda
Floriu a roseira toda
Com as rosas de trepar...
Tua cabeça anda à roda
Mas sabes-te equilibrar.
Com as rosas de trepar...
Tua cabeça anda à roda
Mas sabes-te equilibrar.
1 497
Fernando Pessoa
Numa grande marche aux flambeaux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marche aux flambeaux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marcha guerreira a indústria e comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinchos!
Hé-lá
Ave, salve, viva!...
Arregimento!
Comigo, coisas!
Sigam-me, gentes!
Máquinas. artes, letras, [...] — comigo!
Vós, que ele tanto amou, coisas que são a terra:
Árvores sem sentido salvo verde,
Flores com a cor na alma,
(...)
Escura brancura das águas,
Rio fora dos rios,
Paz dos campos porque não são as cidades
Seiva lenta ao emergir da avareza das crostas
Numa grande marcha guerreira a indústria e comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinchos!
Hé-lá
Ave, salve, viva!...
Arregimento!
Comigo, coisas!
Sigam-me, gentes!
Máquinas. artes, letras, [...] — comigo!
Vós, que ele tanto amou, coisas que são a terra:
Árvores sem sentido salvo verde,
Flores com a cor na alma,
(...)
Escura brancura das águas,
Rio fora dos rios,
Paz dos campos porque não são as cidades
Seiva lenta ao emergir da avareza das crostas
1 253
Fernando Pessoa
Dos montes, dos vales,
Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
1 474
Fernando Pessoa
Não consentem os deuses mais que a vida. [2]
Não consentem os deuses mais que a vida.
Por isso, Lídia, duradouramente
Façamos-lhe a vontade
Ao sol e entre as flores.
Camaleões pousados na Natureza
Tomemos sua calma e alegria
Por cor da nossa vida,
Por um jeito do corpo.
Como vidros às luzes transparentes
E deixando cair a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.
Por isso, Lídia, duradouramente
Façamos-lhe a vontade
Ao sol e entre as flores.
Camaleões pousados na Natureza
Tomemos sua calma e alegria
Por cor da nossa vida,
Por um jeito do corpo.
Como vidros às luzes transparentes
E deixando cair a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.
1 144
Fernando Pessoa
Não pra mim mas pra ti teço as grinaldas
Não pra mim mas pra ti teço as grinaldas
Que de hera e rosas eu na fronte ponho.
Para mim tece as tuas
Que as minhas eu não vejo.
Um para o outro, mancebo, realizemos
A beleza improfícua mas bastante
De agradar um ao outro
Plo prazer dado aos olhos.
O resto é o fado que nos vai contando
Pelo bater do sangue em nossas frontes
A vida até que chegue
A hora do barqueiro.
Que de hera e rosas eu na fronte ponho.
Para mim tece as tuas
Que as minhas eu não vejo.
Um para o outro, mancebo, realizemos
A beleza improfícua mas bastante
De agradar um ao outro
Plo prazer dado aos olhos.
O resto é o fado que nos vai contando
Pelo bater do sangue em nossas frontes
A vida até que chegue
A hora do barqueiro.
1 251
Ibn Ammar
A amada
Ela é uma frágil gazela:
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.
E os seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.
E os seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.
1 287
Florbela Espanca
Noivado Estranho
O Luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz...
O Luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada...
O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co’a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d’amor o pobre monge...
O Luar empalidece de cansado...
E a Noite é uma flor de laranjeira,
A perfumar o místico noivado!...
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz...
O Luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada...
O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co’a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d’amor o pobre monge...
O Luar empalidece de cansado...
E a Noite é uma flor de laranjeira,
A perfumar o místico noivado!...
1 969
Florbela Espanca
Morreu a pequenina
Morreu a pequenina... Foi sol-pór
Aquele sol nascente. Quem diria!...
Mas Não! Não pode ser! Não morreria!
Não pode ser tortura o que é amor!
Anda a brincar e a rir seja onde for...
Anda por ali em doida correria...
Abram bem as estrelas do meio-dia,
Vejam se está no seio dalguma flor!...
«Lá vem a Primavera!» oiço dizer;
«A sempre alegre e moça, a sempre bela,
A que das fragas rosas faz nascer!»
Gorjeios... risos... Sim, oiço-os também...
Será a Primavera?... ou será Ela?!
Será a pequenina que além vem?!...
Aquele sol nascente. Quem diria!...
Mas Não! Não pode ser! Não morreria!
Não pode ser tortura o que é amor!
Anda a brincar e a rir seja onde for...
Anda por ali em doida correria...
Abram bem as estrelas do meio-dia,
Vejam se está no seio dalguma flor!...
«Lá vem a Primavera!» oiço dizer;
«A sempre alegre e moça, a sempre bela,
A que das fragas rosas faz nascer!»
Gorjeios... risos... Sim, oiço-os também...
Será a Primavera?... ou será Ela?!
Será a pequenina que além vem?!...
1 936
Florbela Espanca
A Voz de Deus
Ó rosas que baixais as castas frontes
Quando, à tarde, vos beija o sol poente,
Dizei-me que murmúrios vos segreda
O sol que vos beija docemente?...
Ó Luar cristalino e abençoado
Porque entristeces tu em noites belas
Quando chora baixinho o rouxinol
Um choro só ouvido pelas estrelas?...
Mistério das coisas! Em tudo existe
Um coração que sente e que palpita
Desde o sol rubro até à urze triste!
Ó mistério das coisas! Voz de Deus
Em tudo eternamente sê bendita
Na terra imensa assim como nos céus!
Quando, à tarde, vos beija o sol poente,
Dizei-me que murmúrios vos segreda
O sol que vos beija docemente?...
Ó Luar cristalino e abençoado
Porque entristeces tu em noites belas
Quando chora baixinho o rouxinol
Um choro só ouvido pelas estrelas?...
Mistério das coisas! Em tudo existe
Um coração que sente e que palpita
Desde o sol rubro até à urze triste!
Ó mistério das coisas! Voz de Deus
Em tudo eternamente sê bendita
Na terra imensa assim como nos céus!
2 556
Florbela Espanca
Noites da Minha Terra
Anda o luar espalhando fios de prata
Pelos campos fora... Lírios a flux
Lança o azul do céu... e a terra grata
Transforma em mil perfumes toda a luz!
As estrelas cadentes vão ’spalhando
Lírios brancos também... agora a terra
Parece noiva linda, que sonhando
Caminha pro altar, além na serra...
É meia-noite agora. Tudo quieto
Na noite branda, dorme... Entreaberto
Vai esfolhando o lírio do luar
As alvas folhas, que cobrindo o céu,
E todo o mar e toda a terra, um véu
Branco, de noiva, lembra a palpitar!...
Pelos campos fora... Lírios a flux
Lança o azul do céu... e a terra grata
Transforma em mil perfumes toda a luz!
As estrelas cadentes vão ’spalhando
Lírios brancos também... agora a terra
Parece noiva linda, que sonhando
Caminha pro altar, além na serra...
É meia-noite agora. Tudo quieto
Na noite branda, dorme... Entreaberto
Vai esfolhando o lírio do luar
As alvas folhas, que cobrindo o céu,
E todo o mar e toda a terra, um véu
Branco, de noiva, lembra a palpitar!...
1 953
Florbela Espanca
Crisântemos
Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d’amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d’amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!
3 595
Florbela Espanca
Trazes-me em tuas mãos
Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.
0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.
0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
1 665
Florbela Espanca
Primavera
É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!
Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!
Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!
Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!
Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...
6 241
Florbela Espanca
Chopin
Não se acende hoje a luz... Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar,
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho... Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala...
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar,
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho... Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala...
1 991
Florbela Espanca
A Flor do Sonho
A Flor do Sonho alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou talvez, sina...
Ó Flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou talvez, sina...
Ó Flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...
3 579
Frank O'Hara
Linhas ao ler “A pintura” de Coleridge
Já não me resta bondade alguma
tampouco nenhuma ternura
essa fraqueza foi arrancada de mim-
antes ela cercava meu desejo
como pétalas beiram o centro
de uma flor, e agora suas
sementes se esvaem, delicadas asas
ao vento! Onde há de pousar
na terra acolhedora
eu ainda não sei, mas vou
reconhecer seu primeiro
frágil broto e o saudarei
tão terno quanto a chuva
sabendo que cada sucessiva
flor é mais bela quanto
mais apaixonadamente breve.
:
Lines while reading Coleridge"s "The Picture"
I have no kindness left
and no more tenderness
that weakness"s torn from me-
it once surrounded my desire
as petals fringe the center
of a flower, and now it"s
gone to seed, delicate wings
in the wind! and where it
falls to welcoming earth
I don"t know yet, but I will
recognize the first frail
shoot and greet it then
as tenderly as the rain,
knowing that each successive
flower"s more beautiful,
the more passionately short-lived.
tampouco nenhuma ternura
essa fraqueza foi arrancada de mim-
antes ela cercava meu desejo
como pétalas beiram o centro
de uma flor, e agora suas
sementes se esvaem, delicadas asas
ao vento! Onde há de pousar
na terra acolhedora
eu ainda não sei, mas vou
reconhecer seu primeiro
frágil broto e o saudarei
tão terno quanto a chuva
sabendo que cada sucessiva
flor é mais bela quanto
mais apaixonadamente breve.
:
Lines while reading Coleridge"s "The Picture"
I have no kindness left
and no more tenderness
that weakness"s torn from me-
it once surrounded my desire
as petals fringe the center
of a flower, and now it"s
gone to seed, delicate wings
in the wind! and where it
falls to welcoming earth
I don"t know yet, but I will
recognize the first frail
shoot and greet it then
as tenderly as the rain,
knowing that each successive
flower"s more beautiful,
the more passionately short-lived.
1 168
João Apolinário
ecologia lírica
A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
1 248
Tite de Lemos
God (short) story
Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
770
Itamar Assumpção
Abobrinhas não
Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
sobre bugalhos
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite pro alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não
917
Ai Qing
Mensagem do Sol
Janelas, abri-vos!
Portas, abri-vos!
Deixai-me entrar, deixai-me entrar,
Deixai-me pôr os pés na vossa casa humilde.
Entro com ramos de flores douradas,
Entro com a fragrância fresca da floresta,
Entro com a luz e o calor,
Entro com o corpo molhado de orvalho.
Levantai-vos, depressa!
Erguei as cabeças da almofada,
Abri os olhos estremunhados,
Para presenciar a minha chegada.
Abre-me os corações, casa humilde, construída de tábuas.
Abre-me as janelas de há muito fechadas,
Deixa-me encher os teus corações de flores, fragrância, luz,
[calor e orvalho.
14 de Junho de 1942
.
.
.
1 199
Pedro Xisto
uma flor de ameixa
uma flor de ameixa
amei: cheira a beatitude
(nunca o fogo a mexa)
1 403
Alfred Starr Hamilton
Uma Cenoura
Eu queria encontrar um pouco de luz de vela no jardim
:
A Carrot
I wanted to find a little yellow candlelight in the garden.
1 089
Alfred Starr Hamilton
Lençóis
Quão maravilhosamente a lua deveria ter sido engomada noite passada
E cuidadosamente mantida em seu lugar
E noite passada eu engomei a lua
E levantei o narciso de volta sobre o topo da margarida
E dobrei o narciso de volta sobre o topo da lua
E cuidadosamente levei a lua escada acima
E mantive a lua no armário de narcisos
A última vez que eu engomei a lua
:
Sheets
How wonderfully the moon was to have been ironed last night
And carefully kept the moon in its place
And last night I ironed the moon
And lifted the daffodil back on top of the daisy
And folded the daffodil back on top of the moon
And carefully carried the moon upstairs
And kept the moon in the daffodil closet
Last time I ironed the moon
655