Poemas neste tema
Flores e Jardins
Manuel António Pina
A um Jovem Poeta
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
1 953
Barbara Guest
Uma razão
É por isso que estou aqui
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
:
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
723
Pat Lowther
Antes que chegue o demolidor
Antes que cheguem os demolidores
Arranque pela raiz o lírio
No ângulo duro de terra
Ao lado da casa.
Agache-se sobre o lixo e os despojos
Contra a escada gradeada do porão
(O relâmpago repentino
De sol
Nas suas costas
Por entre o abrir
E fechar
Do varal aos sopros de março,
Ascensão e queda de luz ágil
Como a golpes.)
Aqui o ensaboar em mucos
De uma vida inteira
Azeda a terra,
Neste canto
Sob a escada,
Mas não matou
Os bichos-de-conta
Nem as pupas das mariposas
Que roçam seus dedos
Ao cavar
Em busca da raiz robusta, redonda,
A raiz do lírio
Que de alguma forma, sem sentido,
Tampouco foi morta
Mas cresceu a cada ano
Uma assombrada infância,
Uma arregalada Páscoa.
Encaixote-a entre as fotos,
O polidor da prataria,
E as últimas roupas por lavar
Que não mais
Hão de subir e tremular
Ao sol que destroça.
Marque sua caixa: X
Duas linhas que se cruzam,
Um ponto em grade
Do tempo
E das estações do ano.
Antes que cheguem os demolidores,
Carregue para longe
O bulbo-relâmpago do sol.
(tradução de Ricardo Domeneck)
314
Xue Tao
Canção contemplando a primavera
(I)
As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem
(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste
(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor
(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento
801
Barbara Guest
Lírios vermelhos
Alguém lembrou-se de secar a louça;
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
.
.
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
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680
Sei Shônagon
2 Rengas
O cuco-pequeno
Visitou pr’ouvir-lhe o canto
Mas é do sabor
De brotos de samambaia
Que ela se lembra saudosa!
(em pareceria com Anikobu, de 95)
Na neve que cai
Que com flores se confunde
No gélido céu
De leve faz-se sentir
Presença da primavera
(em parceria com o Conselheiro Consultor Kintô, de 102)
/// Sei Shônagon, trad. de Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro. ///
429
Sosigenes Costa
A Cabeleira da Musa
No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
1 001
Henriqueta Lisboa
Calendário
Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias
de Reverberações (1976)
fictícia
caindo da árvore
dos dias
de Reverberações (1976)
1 328
Francis Ponge
A borboleta
Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.
Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,
Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.
Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega, e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.
Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, ela vagabundeia pelo jardim.
(tradução: Adalberto Müller e Carlos Loria. Publicado em: Francis Ponge O PARTIDO DAS COISAS, S. Paulo, Iluminuras, 2000.)
:
Le papillon
Francis Ponge
.
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Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,
Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.
Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega, e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.
Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, ela vagabundeia pelo jardim.
:
Le papillon
Francis Ponge
Lorsque le sucre élaboré dans les tiges surgit au fond des fleurs, comme des tasses mal lavées, - un grand effort se produit par terre tous les Papillons tout à coup prennent leur vol.
Mais comme chaque chenille eut la tête aveuglée et laissée noire, et le torse amaigri par la véritable explosion d'où les ailes symétriques flambèrent,
Dès lors le papillon erratique ne se pose plus qu'au hasard de sa course, ou tout comme.
Allumette volante, sa flamme n'est pas contagieuse. Et d'ailleurs, il arrive trop tard et ne peut que constater les fleurs écloses. N'importe : se conduisant en lampiste, il vérifie la provision d'huile de chacune. Il pose au sommet des fleurs la guenille atrophiée qu'il emporte et venge ainsi sa longue humiliation amorphe de chenille au pied des tiges.
Minuscule voilier des airs maltraité par le vent en pétale superfétatoire, il vagabonde au jardin.
.
.
.
1 455
Audre Lorde
Encarando
chove há cinco dias
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Coping
Audre Lorde
It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.
.
.
.
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Coping
Audre Lorde
It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.
.
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1 048
Lalla Romano
Caminhávamos tranquilos
Caminhávamos tranqüilos
uma noite de verão
no frescor de um jardim?
aflorei tua mão
ou foi uma folha?
beijei tua boca
ou uma fruta úmida e doce?
não sei se bebi o silêncio
da folhagem noturna
ou teu amoroso silêncio
Tua mão me acenou por entre as folhas
mas era a foice da lua
que longe se escondia
:
Noi andavamo leggeri
una notte d'estate
per un fresco giardino?
la tua mano
ho sfiorato o una foglia?
la tua bocca ho baciato
o un frutto umido e dolce?
non so se ho bevuto il silenzio
delle piante notturne
o il tuo amoroso silenzio
La tua mano mi salutò tra le piante
ma era falce di luna
che tramontava lontano
uma noite de verão
no frescor de um jardim?
aflorei tua mão
ou foi uma folha?
beijei tua boca
ou uma fruta úmida e doce?
não sei se bebi o silêncio
da folhagem noturna
ou teu amoroso silêncio
Tua mão me acenou por entre as folhas
mas era a foice da lua
que longe se escondia
:
Noi andavamo leggeri
una notte d'estate
per un fresco giardino?
la tua mano
ho sfiorato o una foglia?
la tua bocca ho baciato
o un frutto umido e dolce?
non so se ho bevuto il silenzio
delle piante notturne
o il tuo amoroso silenzio
La tua mano mi salutò tra le piante
ma era falce di luna
che tramontava lontano
875
Vasco Graça Moura
Junto ao retrato
era vermelha a rosa
que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato
de minha mãe, que fazia anos ontem.
era de um fulgor surdo e recatado,
a implodir tantas coisas já sem nome
para o interior macio das pétalas.
"pus uma rosa do jardim junto ao retrato
da tua mãe", disse ela então ao telefone,
"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou
com uma leve sombra na voz e era sombria
a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia
dos seus anos. e era sombrio recordá-la.
uma flor pode ser de uma obscura incandescência
junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória
como a cabelos enredados. era sombria a rosa
sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,
o que de minha mãe não se desfigorou
e a rosa iluminava devagar,
junto ao retrato.
que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato
de minha mãe, que fazia anos ontem.
era de um fulgor surdo e recatado,
a implodir tantas coisas já sem nome
para o interior macio das pétalas.
"pus uma rosa do jardim junto ao retrato
da tua mãe", disse ela então ao telefone,
"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou
com uma leve sombra na voz e era sombria
a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia
dos seus anos. e era sombrio recordá-la.
uma flor pode ser de uma obscura incandescência
junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória
como a cabelos enredados. era sombria a rosa
sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,
o que de minha mãe não se desfigorou
e a rosa iluminava devagar,
junto ao retrato.
2 291
David Bromige
Este lótus lindo é enorme
Este lótus lindo é enorme
Nele um flamingo dormita
Uma perna erguida flamingo
Entre ocre& orange
Roxo& azul & rosa
Esta figura lembra um elefante
Cereal& orange muco místico
Dependem da sua probóscide
Lembram medalhas toscas
A chamar o sol à mente
Você foi destinado ao anterior
Tornou-se porém o posterior
Instituições correm para explicar
Coringa de cereal no escuro "ar"
Você está preso ali ad aeternitatem
Cercado por distintivos e delegados
E símbolos místicos destarte
O espaço foi tagarelado às migalhas
Para figura em saia justa nada mais
Brandindo objeto cortante para matar
Com o lótus o texto esqueceu menção
A quatro linhas de escrita tesa
Você podia tê-lo previsto
Regido conduta mais apropriada
Beijado largamente o lótus
Agora é C abaixo de meio e tarde
Lembre todo mundo que você foi
Um dia será& o que você virou
Aponte para si mesmo e diga Eu
288
Donizete Galvão
Invenção do branco
“...all this had to be imagined
as an inevitable knowledge.”
Wallace Stevens
O tanque é o avesso da casa.
A rebarba.
A ferrugem tomando conta da boca.
O tanque é a parenta decaída,
que machuca os olhos das visitas
com suas carnes rachadas.
O tanque é onde se lava o coador
e o pó de café de seguidas manhãs
desenha uma poça de água preta.
Uma arraia-miúda,
ervas e craca e limo,
flora sem -vergonha,
infiltra-se em suas paredes.
À beira do poço,
alguém imaginou copos-de-leite.
Bebendo a umidade,
em verde e branco brotaram.
Reinventados pela distância,
erguem-se vívidos,
mais brancos que o branco,
artifício de vidro.
Recém-nascidos.
Só porque eles existem,
o tanque e seu corpo saloio
foram salvos do esquecimento.
837
Hilda Machado
Cabo Frio
Nuvens passageiras
miragens peregrinas enfunadas pelo Nordeste
queda de folhagem
muda retórica
O Sudoeste dá rédeas à repulsa
nuvens erráticas devoram rivais
Orfeu despedaçado por bacantes drapejadas de vapor
Em dia sem vento
a falta de engenho permite
purezas de sabão e macieiras em flor
talco no chão do banheiro
sorvete marca Aristófanes
Mas quase sempre ele pisa seus véus
Duas mãos de cinza desmaiado
sobre fundo esmaltado é perícia
renda
luxo magnífico e corrupto
realização elegante de algum mandarim
leque de plumas de avestruz tintas de rosa
levemente agitado diante da luz
(poemas publicados originalmente na revistaInimigo Rumor)
1 742
Vasco Graça Moura
Borges e as rosas
sonhou as rosas, rosas de ninguém
de substâncias de sombras evanescentes,
e na roda das pétalas ausentes
ficou o olhar perdido, no vaivém
das brisas no jardim do esquecimento.
tinham carne de noite e de perfume
e tacteou-as devagar, o gume
afiou-se num macio desalento
de lhes ter dado o nome: rosas, rosas
factícias alastrando o seu vermelho
de golfadas de sangue ao vão do espelho
das águas e das luas ardilosas.
e soube que o real era essa imagem
devolvida no espelho, de passagem.
de substâncias de sombras evanescentes,
e na roda das pétalas ausentes
ficou o olhar perdido, no vaivém
das brisas no jardim do esquecimento.
tinham carne de noite e de perfume
e tacteou-as devagar, o gume
afiou-se num macio desalento
de lhes ter dado o nome: rosas, rosas
factícias alastrando o seu vermelho
de golfadas de sangue ao vão do espelho
das águas e das luas ardilosas.
e soube que o real era essa imagem
devolvida no espelho, de passagem.
2 174
Machado de Assis
O Verme
Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.52. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.52. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
7 762
Augusto Frederico Schmidt
Pequena Igreja
Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!
Publicado no livro Estrela solitária (1940).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!
Publicado no livro Estrela solitária (1940).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 509
Olga Savary
Gazel
De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 994
Ronald de Carvalho
Écloga Tropical
Entre a chuva de ouro das carambolas
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.
O ar cheira a mel de abelhas...
E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.
O ar cheira a mel de abelhas...
E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
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Alceu de Freitas Wamosy
Claude Debussy
Maintenant tout est gris sur lande nocturne...
F. Viellé-Griffin.
Chove cinza do céu. Todo o rosal ajoelha,
balbuciando uma suave oração de perfume.
Não há, no firmamento, uma sombra vermelha:
— Tudo é ausente de cor — tudo é viúvo de lume.
A tristeza do instante em teus olhos se espelha,
minha estranha Quimera, ó sacrossanto Nume,
que acendeste em meu sonho a radiosa centelha
na qual todo o esplendor deste amor se resume...
Sob a chuva do espaço o jardim adormece.
E, sobre nós os dois, como um mistério, desce
a carícia da tarde, essa divina viúva.
Andam lábios errando, invisíveis, no ambiente;
e, morrendo de amor, dentro da luz morrente,
os nossos corações são Jardins sob a Chuva...
Publicado no livro Coroa de sonho: poemas (1923).
In: FILIPOUSKI, Ana Mariza. Alceu Wamosy. Porto Alegre: IEL, 1989. p.31. (Letras rio-grandenses
F. Viellé-Griffin.
Chove cinza do céu. Todo o rosal ajoelha,
balbuciando uma suave oração de perfume.
Não há, no firmamento, uma sombra vermelha:
— Tudo é ausente de cor — tudo é viúvo de lume.
A tristeza do instante em teus olhos se espelha,
minha estranha Quimera, ó sacrossanto Nume,
que acendeste em meu sonho a radiosa centelha
na qual todo o esplendor deste amor se resume...
Sob a chuva do espaço o jardim adormece.
E, sobre nós os dois, como um mistério, desce
a carícia da tarde, essa divina viúva.
Andam lábios errando, invisíveis, no ambiente;
e, morrendo de amor, dentro da luz morrente,
os nossos corações são Jardins sob a Chuva...
Publicado no livro Coroa de sonho: poemas (1923).
In: FILIPOUSKI, Ana Mariza. Alceu Wamosy. Porto Alegre: IEL, 1989. p.31. (Letras rio-grandenses
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Orides Fontela
Poemetos
a) manhã
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.
b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.
c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.
d) lua
Integralidade.
Fixidez.
e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.
f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.
g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.
h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...
i) vaso
mas incomunicante.
j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.
Publicado no livro Helianto (1973).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.
b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.
c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.
d) lua
Integralidade.
Fixidez.
e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.
f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.
g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.
h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...
i) vaso
mas incomunicante.
j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.
Publicado no livro Helianto (1973).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 794
Afrânio Peixoto
Arte de Resumir
O ipê florido,
Perdendo todas as folhas,
Fez-se uma flor só.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
Perdendo todas as folhas,
Fez-se uma flor só.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 790
Sousa Caldas
Ode II [Oh! quanto és bela
Oh! quanto és bela
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
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