Poemas neste tema
Infância
Fernando Pessoa
As tuas mãos terminam em segredo.
As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...
Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.
Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,
Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo...
Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.
Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,
Será o haver cais num mar distante...
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!
1 262
1
Fernando Pessoa
O horror sórdido do que, a sós consigo,
Faz as malas para Parte Nenhuma!
Embarca para a universalidade negativa de tudo
Com um grande embandeiramento de navios fingidos
Dos navios pequenos, multicolores, da infância!
Faz as malas para o Grande Abandono!
E não esqueças, entre as escovas e a tesoura,
A distância polícroma do que se não pode obter.
Faz as malas definitivamente!
Quem és tu aqui, onde existes gregário e inútil —
E quanto mais útil mais inútil —
E quanto mais verdadeiro mais falso —
Quem és tu aqui? quem és tu aqui? quem és tu aqui?
Embarca, sem malas mesmo, para ti mesmo diverso!
Que te é a terra habitada senão o que não é contigo?
Embarca para a universalidade negativa de tudo
Com um grande embandeiramento de navios fingidos
Dos navios pequenos, multicolores, da infância!
Faz as malas para o Grande Abandono!
E não esqueças, entre as escovas e a tesoura,
A distância polícroma do que se não pode obter.
Faz as malas definitivamente!
Quem és tu aqui, onde existes gregário e inútil —
E quanto mais útil mais inútil —
E quanto mais verdadeiro mais falso —
Quem és tu aqui? quem és tu aqui? quem és tu aqui?
Embarca, sem malas mesmo, para ti mesmo diverso!
Que te é a terra habitada senão o que não é contigo?
1 159
1
Fernando Pessoa
PEDROUÇOS
Quando eu era pequeno não sabia
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.
Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.
Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.
O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.
Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!
Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
1 844
1
Florbela Espanca
Évora
Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!
Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!
Évora!... O teu olhar... o teu perfil...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril
Que o coração no peito me alvoroça!
...Em cada viela o vulto dum fantasma...
E a minha alma soturna escuta e pasma...
E sente-se passar menina-e-moça...
Cor de violetas roxas... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!
Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!
Évora!... O teu olhar... o teu perfil...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril
Que o coração no peito me alvoroça!
...Em cada viela o vulto dum fantasma...
E a minha alma soturna escuta e pasma...
E sente-se passar menina-e-moça...
5 756
1
Adão Ventura
Poemas da morte de um pai
a José Ferreira dos Reis (1905 - 1988)
- Que cesse o barulho das enxadas,
das cantigas de eito
- que a madrinha da tropa
interrompa o curso
de seus passos
em territórios do Serro,
Santo Antônio do Itambé,
Baguari, Folha Larga,
Itapanhoacanga
e São Miguel & Almas de Guanhães.
E José,
novamente menino,
descalço, chapeuzinho de palha,
aguilhada na mão
a se encontrar
com seu Teodoro da Fazenda.
- Que cesse o barulho das enxadas,
das cantigas de eito
- que a madrinha da tropa
interrompa o curso
de seus passos
em territórios do Serro,
Santo Antônio do Itambé,
Baguari, Folha Larga,
Itapanhoacanga
e São Miguel & Almas de Guanhães.
E José,
novamente menino,
descalço, chapeuzinho de palha,
aguilhada na mão
a se encontrar
com seu Teodoro da Fazenda.
1 563
1
Gonzalo Rojas
Matéria de testamento
A meu pai, como convém, de Coquimbo a Lebu, todo o mar;
a minha mãe, a rotação da Terra;
à asma de Abraham Pizarro, ainda que não me entenda,
[um trem de fumo;
a dom Héctor, o apelido May que lhe roubaram;
a Débora, sua mulher, o terceiro dia das rosas;
às minhas cinco irmãs, a ressurreição das estrelas;
a Vallejo, que não chega, a mesa posta com um só serviço;
a meu irmão Jacinto, o melhor dos concertos;
ao Torreão do Renegado, onde nunca estou, Deus;
à minha infância, esse potro vermelho;
à minha adolescência, o abismo;
a Juan Rojas, um peixe pescado no redemoinho
[com sua paciência de santo;
às borboletas, os alerces do sul;
a Hilda, l’amour fou, e ela está aí dormindo;
a Rodrigo Tomás, meu primogênito, o número áureo da coragem
[e do alumbramento;
a Concepción, um espelho quebrado;
a Gonzalo filho, o salto alto da Poesia por cima de minha cabeça;
a Catalina e Valentina, as bodas com formosura – e espero
[que me convidem;
a Valparaíso, esta lágrima;
a meu Alonso, de 12 anos, o novo automóvel
[século XXI pronto para o voo;
a Santiago do Chile, com seus cinco milhões, a mitologia que
[lhe falta;
ao ano de 73, a merda;
ao que cala, e pelo visto outorga, o Prêmio Nacional;
ao exílio, um par de sapatos sujos e uma roupa baleada;
à neve manchada com nosso sangue, outro Nüremberg;
aos desaparecidos, a grandeza de terem sido homens
[em seu suplício e terem
morrido cantando;
ao Lago Choshuenco, a copa púrpura de suas águas;
às 300 à vez, o risco;
às adivinhas, sua esbeltez;
à rua 42 da cidade de Nova York, o paraíso;
a Wall Street, um dólar e meio;
à torrencialidade destes dias, nada;
aos vizinhos, com esse cão que não me deixa dormir,
[coisa nenhuma;
aos 200 mineiros de El Orito, a quem ensinei a ler
[no abecedário de Heráclito, o encantamento;
a Apollinaire, a chave do infinito que lhe deixou Huidobro;
ao surrealismo, ele mesmo;
a Buñuel, o papel de rei que se sabia de memória;
à enumeração caótica, o fastio;
à morte, um grande crucifixo de latão.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso daModo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
MATERIA DE TESTAMENTO:A mi padre, como corresponde, de Coquimbo a Lebu, todo el mar, / a mi madre la rotación de la Tierra, / al asma de Abraham Pizarro aunque no se me entienda a un tren de humo, / a don Héctor el apellido May que robaron, / a Débora su mujer el tercero día de las rosas, / a mis 5 hermanas la resurrección de las estrellas, / a Vallejo que no llega, la mesa puesta con un solo servicio, / a mi hermano Jacinto, el mejor de los conciertos, / al Torreón del Renegado donde no estoy nunca, Dios, / a mi infancia, ese potro colorado, / a la adolescencia ,el abismo, / a Juan Rojas, un pez pescado en el remolino con su paciencia de santo, / a las mariposas los alerzales del sur, / a Hilda, l’amour fou, y ella está ahí durmiendo, / a Rodrigo Tomás mi primogénito el número áureo del coraje y el alumbramiento, / a Concepción un espejo roto, / a Gonzalo hijo el salto alto de la Poesía por encima de mi cabeza, / a Catalina y Valentina las bodas con hermosura y espero que me inviten, / a Valparaíso esa lágrima, / a mi Alonso de 12 años el nuevo automóvil siglo XXI listo para el vuelo, / a Santiago de Chile con sus 5 millones la mitología que le falta, / al año 73 la mierda, / al que calla y por lo visto otorga el Premio Nacional, / al exilio un par de zapatos sucios y un traje baleado, / a la nieve manchada con nuestra sangre otro Nüremberg, / a los desaparecidos la grandeza de haber sido hombres en el suplicio y haber muerto cantando, / al Lago Choshuenco la copa púrpura de sus aguas, / a las 300 a la vez, el riesgo, / a las adivinas, su esbeltez / a la calle 42 de New York City el paraíso, / a Wall Street un dólar cincuenta, / a la torrencialidad de estos días, nada, / a los vecinos con ese perro que no me deja dormir, ninguna cosa, / a los 200 mineros de El Orito a quienes enseñé a leer en el silabario de Heráclito, el encantamiento, / a Apollinaire la llave del infinito que le dejó Huidobro, / al surrealismo, él mismo, / a Buñuel el papel de rey que se sabía de memoria, / a la enumeración caótica el hastío, / a la Muerte un crucifijo grande de latón.
919
1
Sebastião Alba
Sem título
Para isto de dar
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini
Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará
De pouco serve a ida ao lugar de ausência
que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto
E tudo será sem data e sem prenúncio
E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos
(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini
Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará
De pouco serve a ida ao lugar de ausência
que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto
E tudo será sem data e sem prenúncio
E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos
(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)
1 173
1
Léopold Sédar Senghor
Pérolas
pérolas brancas
lentas goteletas
goteletas de leite fresco,
luzinhas fugitivas ao longo dos fios do telégrafo,
ao longo dos longos dias monótonos e grises!
a qual paraíso? a qual paraíso?
luzinhas primeiras da minha infância
jamais reencontrada...
:
perles
perles blanches,
lentes gouttelettes,
gouttelettes de lait frais,
clarets fugitives le long des fils télégraphiques,
le long des longs jours montones et gris!
à quel paradis? à quel paradis?
clartés premières de mon enfance
jamais retrouvée...)
lentas goteletas
goteletas de leite fresco,
luzinhas fugitivas ao longo dos fios do telégrafo,
ao longo dos longos dias monótonos e grises!
a qual paraíso? a qual paraíso?
luzinhas primeiras da minha infância
jamais reencontrada...
:
perles
perles blanches,
lentes gouttelettes,
gouttelettes de lait frais,
clarets fugitives le long des fils télégraphiques,
le long des longs jours montones et gris!
à quel paradis? à quel paradis?
clartés premières de mon enfance
jamais retrouvée...)
1 118
1
Pedro Corsino Azevedo
Galinha Branca
Sol de Agosto.
Raios a prumo.
Nem dá gosto
Viver.
Litoral ardente.
Montes nus.
Pó vermelho,
Na valsa doida do vento leste.
Meio-dia.
Nem pinga de água...
O céu plasmando infêrnos.
A agonia
Da gente pobre
- Pobre de tudo -,
O olhar mudo
Que sufoca gritos
Que não partem.
Mas:
Noite de luar,
Vento amainado.
Depois da ceia,
Brincam crianças
Ao canto da varanda:
Galinha
Branca
Que anda
Por casa
De gente
Catando
Grão
De milho.
E mais:
É mim
É bô
É Carlos
É Valério
É Fêdo.
Somos todos, todos,
Catando
Grão
De milho
Em anos de crise,
E mais...
- Não!...
Canivetinho
Canivetão
Vá
Té
França.
Galinha branca
O espectro da morte
A sorte
De todos.
Olha pra mim!
Assim.
Canivetinho
Canivetão
Vá
Té
França.
- A única esperança...
França lendária
Terra longínqua
De onde os meninos
Costumam vir em cestos
E para onde
Em anos de crise
Num cesto de pau
(Mácabra nau!)
Canivetinho
Canivetão
Coitadinhos
Vão!...
Raios a prumo.
Nem dá gosto
Viver.
Litoral ardente.
Montes nus.
Pó vermelho,
Na valsa doida do vento leste.
Meio-dia.
Nem pinga de água...
O céu plasmando infêrnos.
A agonia
Da gente pobre
- Pobre de tudo -,
O olhar mudo
Que sufoca gritos
Que não partem.
Mas:
Noite de luar,
Vento amainado.
Depois da ceia,
Brincam crianças
Ao canto da varanda:
Galinha
Branca
Que anda
Por casa
De gente
Catando
Grão
De milho.
E mais:
É mim
É bô
É Carlos
É Valério
É Fêdo.
Somos todos, todos,
Catando
Grão
De milho
Em anos de crise,
E mais...
- Não!...
Canivetinho
Canivetão
Vá
Té
França.
Galinha branca
O espectro da morte
A sorte
De todos.
Olha pra mim!
Assim.
Canivetinho
Canivetão
Vá
Té
França.
- A única esperança...
França lendária
Terra longínqua
De onde os meninos
Costumam vir em cestos
E para onde
Em anos de crise
Num cesto de pau
(Mácabra nau!)
Canivetinho
Canivetão
Coitadinhos
Vão!...
1 911
1
António Pinto de Abreu
Milagre obstétrico
As lampadas da cidade
fundiram-se todas
e numa das esquinas
da grande aldeia de cimento
um latão urbanizado
pariu um pirilampo...
Glória ao novo ser
que nasceu ao anoitecer.
O jornal não deu a grande notícia
- os fotografos tinham as máquinas
aguardando o plano superior.
Contudo
no velho latão urbanizado
o pirilampo brinca e chora
(como alguns meninos)
luzindo com o satírico brilho
da esvaziada lata de sardinhas
da "ração de combate
fundiram-se todas
e numa das esquinas
da grande aldeia de cimento
um latão urbanizado
pariu um pirilampo...
Glória ao novo ser
que nasceu ao anoitecer.
O jornal não deu a grande notícia
- os fotografos tinham as máquinas
aguardando o plano superior.
Contudo
no velho latão urbanizado
o pirilampo brinca e chora
(como alguns meninos)
luzindo com o satírico brilho
da esvaziada lata de sardinhas
da "ração de combate
1 025
1
Gonçalves Crespo
Ao Rabequista Eugênio Dégremont
Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1877 no Teatro de
S.João do Porto
Vede-o! É tão criança! ó mães, olhai-o!
Como é vivo o fulgor e ardente o raio
Que vibra nesse olhar!
Faz gosto vê-lo assim tão pequenino
Enlevado nos sons do violino
A sonhar, a sonhar...
E ao passo que a sua alma vai sonhando,
Vão-se ante nossos olhos desdobrando
Quadros a mil e mil.
A rabeca suspira? Assim amenas
São na longínqua roça as cantilenas
Das moças do Brasil.
Vibram ríspidos sons? E logo ouvimos
Curvar o vento da floresta os cimos
Com ruidoso fragor...
E uivam pintadas onças e as araras
Roçam, fugindo, as trêmulas taquaras.
E crocita o condor.
Enterrados nas úmidas pastagens
Mugem raivosos búfalos selvagens,
E por entre os sarçais
Pula a pantera; os jacarés astutos
Choram, fingindo lacrimosos lutos
Nos fulvos areais.
Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,
São os negros soltando as lastimosas
Canções do seu país;
Sem família, sem pátria, sem amores,
Ninguém mitiga o fel daquelas dores,
Triste raça infeliz!
Agora, como em namorado anseio,
Sai da rabeca um lânguido gorjeio
Que enleva o coração.
E a saudade repinta-nos ao vivo
Dos sabiás o cântico lascivo
Nas sombras do sertão.
Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
Com meu olhar de prantos não enxuto,
Ó criança gentil,
Que em vez de perseguir as borboletas
Vens batalhar no meio dos atletas
E honrar o teu Brasil!
Não presumas, porém, prodígio das crianças!
Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
A glória chamarás, ser-te-á o apelo em vão.
Pois que! tu cuidarás, criança, porventura
Que sem lutar, sofrer, sem hórridos tormentos
O artista poderia erguer aos quatro ventos
A Epopéia, o Drama, a Estátua, a Partitura?
Vamos, trabalha pois, ó meu precoce artista,
Dos precipícios ri, vinga-me o barrocal!
Para o profundo azul estende a larga vista.
Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!
Imagem - 00030001
Publicado no livro Noturnos (1882).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
S.João do Porto
Vede-o! É tão criança! ó mães, olhai-o!
Como é vivo o fulgor e ardente o raio
Que vibra nesse olhar!
Faz gosto vê-lo assim tão pequenino
Enlevado nos sons do violino
A sonhar, a sonhar...
E ao passo que a sua alma vai sonhando,
Vão-se ante nossos olhos desdobrando
Quadros a mil e mil.
A rabeca suspira? Assim amenas
São na longínqua roça as cantilenas
Das moças do Brasil.
Vibram ríspidos sons? E logo ouvimos
Curvar o vento da floresta os cimos
Com ruidoso fragor...
E uivam pintadas onças e as araras
Roçam, fugindo, as trêmulas taquaras.
E crocita o condor.
Enterrados nas úmidas pastagens
Mugem raivosos búfalos selvagens,
E por entre os sarçais
Pula a pantera; os jacarés astutos
Choram, fingindo lacrimosos lutos
Nos fulvos areais.
Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,
São os negros soltando as lastimosas
Canções do seu país;
Sem família, sem pátria, sem amores,
Ninguém mitiga o fel daquelas dores,
Triste raça infeliz!
Agora, como em namorado anseio,
Sai da rabeca um lânguido gorjeio
Que enleva o coração.
E a saudade repinta-nos ao vivo
Dos sabiás o cântico lascivo
Nas sombras do sertão.
Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
Com meu olhar de prantos não enxuto,
Ó criança gentil,
Que em vez de perseguir as borboletas
Vens batalhar no meio dos atletas
E honrar o teu Brasil!
Não presumas, porém, prodígio das crianças!
Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
A glória chamarás, ser-te-á o apelo em vão.
Pois que! tu cuidarás, criança, porventura
Que sem lutar, sofrer, sem hórridos tormentos
O artista poderia erguer aos quatro ventos
A Epopéia, o Drama, a Estátua, a Partitura?
Vamos, trabalha pois, ó meu precoce artista,
Dos precipícios ri, vinga-me o barrocal!
Para o profundo azul estende a larga vista.
Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!
Imagem - 00030001
Publicado no livro Noturnos (1882).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
1 531
1
Aires de Almeida Santos
A mulemba secou
No barro da rua,
Pisadas, por toda a gente,
Ficaram as folhas
Secas, amareladas
A estalar sob os pés de quem passava.
Depois o vento as levou...
Como as folhas da mulemba
Foram-se os sonhos gaiatos
Dos miúdos do meu bairro.
(De dia,
Espalhavam visgo nos ramos
E apanhavam catituis,
Viúvas, siripipis
Que o Chiquito da Mulemba
Ia vender no Palácio
Numa gaiola de bimba.
De noite,
Faziam roda, sentados,
A ouvir, de olhos esbugalhados
A velha Jaja a contar
Histórias de arrepiar
Do feitiçeiro Catimba.)
Mas a mulemba secou
E com ela,
Secou tambem a alegria
Da miúdagem do bairro;
O Macuto da Ximinha
Que cantava todo o dia
Já não canta.
O Zé Camilo, coitado,
Passa o dia deitado
A pensar em muitas coisas.
E o velhote Camalundo,
Quando passa por ali,
Já ninguém o arrelia,
Já mais ninguém lhe assobia,
Já faz a vida em sossego.
Como o meu bairro mudou,
Como o meu bairro está triste
Porque a mulemba secou...
Só o velho Camalundo
A mulemba secou.
Sorri ao passar por lá!...
Pisadas, por toda a gente,
Ficaram as folhas
Secas, amareladas
A estalar sob os pés de quem passava.
Depois o vento as levou...
Como as folhas da mulemba
Foram-se os sonhos gaiatos
Dos miúdos do meu bairro.
(De dia,
Espalhavam visgo nos ramos
E apanhavam catituis,
Viúvas, siripipis
Que o Chiquito da Mulemba
Ia vender no Palácio
Numa gaiola de bimba.
De noite,
Faziam roda, sentados,
A ouvir, de olhos esbugalhados
A velha Jaja a contar
Histórias de arrepiar
Do feitiçeiro Catimba.)
Mas a mulemba secou
E com ela,
Secou tambem a alegria
Da miúdagem do bairro;
O Macuto da Ximinha
Que cantava todo o dia
Já não canta.
O Zé Camilo, coitado,
Passa o dia deitado
A pensar em muitas coisas.
E o velhote Camalundo,
Quando passa por ali,
Já ninguém o arrelia,
Já mais ninguém lhe assobia,
Já faz a vida em sossego.
Como o meu bairro mudou,
Como o meu bairro está triste
Porque a mulemba secou...
Só o velho Camalundo
A mulemba secou.
Sorri ao passar por lá!...
1 995
1
Geraldo Bessa-Victor
O menino negro não entrou na roda
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas - as crianças brancas
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas , gargalhadas francas...
menino negro não entrou na roda.
E chegou o vento junto das crianças
- e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.
O menino negro não entrou na roda.
Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus vôos, cantando seus hinos...
O menino negro não entrou na roda.
"Venha cá, pretinho, venha cá brincar"
- disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino branco já não quiz, não quiz...
o menino negro não entrou na roda.
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar cego,
ficou só, calado com voz de morto.
das crianças brancas - as crianças brancas
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas , gargalhadas francas...
menino negro não entrou na roda.
E chegou o vento junto das crianças
- e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.
O menino negro não entrou na roda.
Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus vôos, cantando seus hinos...
O menino negro não entrou na roda.
"Venha cá, pretinho, venha cá brincar"
- disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino branco já não quiz, não quiz...
o menino negro não entrou na roda.
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar cego,
ficou só, calado com voz de morto.
2 200
1
Ilka Brunhilde Laurito
Autobiografia de Mãos Dadas
"Qual uma criança desmamada sobre o seio de
sua mãe, qual uma criança desmamada está a
minha alma para comigo" — Salmo 131
Madreminha, dócil madreminha,
dá-me tuas mãos
agora és tão menina.
Cada ano que passa vais diminuindo
e eu vou ficando cada vez maior na tua saudade.
Vem comigo. É a minha hora de guiar-te.
Tu esqueceste o caminho quando em mim passaste.
Eu passo agora elucidando o olvido.
Madre, a vida é simples chão difícil.
Estamos num árduo labirinto
de uma saída livre e múltiplas esquinas.
Mas já não há perigo.
Eu te dirijo
com minha bússola instruída
imantada nas estrelas que jorraram das feridas
quando o céu da infância desabou de mim.
Mãe: cresci.
Tu, sim, ficaste sempre ingênua, arisca, intuitiva.
Madremenina. Madrefilha.
Não me ensinaste a ler porque não lias.
Mas na cartilha em que aprendeste a rir
soletraste em minha origem
as palavras vitais de tua ciência: alegria, pureza, infância, vento;
e me deste o empirismo das flores, dos astros, do silêncio;
e me agitaste nas veias o ritmo das coisas e dos seres.
(...)
Madreminha, eu sei: a vida é perfumada por espinhos.
Sabes disso. Já o sabias
quando calçando os pés com meu cilício
alfombraste de aroma o que doía em meu ritmo.
Madre: já não há que imunizar meus olhos de sua vista.
Agora eu sei como ela é
assustadoramente bela a vida:
alegre na periferia de sua polpa triste.
Sabes disso. Já o sabias
quando acariciaste meu sopro de cruz em teus ouvidos
e devolveste em cantiga o que te dei em grito.
(...)
(...)
Madre: ouves-me? E reconheces em meu canto a tua agonia?
É minha vida. Inédita, exclusiva, a minha vida.
Ela gritou quando calei em ti
e agora a angústia é minha.
Mas que digo? Oh madre-sensitiva, a angústia é minha?
Mas são teus olhos que eu pressinto
duas fontes de sangue, rubro rio
transbordando em meu rosto com delírio
ao sorver esta secura ardente de meu riso
e a canção adusta nas feições tranquilas.
(...)
Tímida-mãe-poesia:
nunca tiveste essa ousadia
de verter em canto teus sonambulismos
ou de lançar ao vento como desafio
uma orquestra de êxtases cadentes.
Mãe, eu tive.
Por isso tu sorris
quase com medo desta filha
que descobriu em teu organismo
uma latência de revolta lírica.
Estavas tão só com o teu silêncio
e essa fervente ânsia de explodir-te.
Bati à tua porta e disse: Eis-me aqui. Eu te redimo agora.
Dorme.
(...)
Imagem - 00660001
Publicado no livro Autobiografia de mãos dadas (1958).
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.78-82. (Sélesis, 13
sua mãe, qual uma criança desmamada está a
minha alma para comigo" — Salmo 131
Madreminha, dócil madreminha,
dá-me tuas mãos
agora és tão menina.
Cada ano que passa vais diminuindo
e eu vou ficando cada vez maior na tua saudade.
Vem comigo. É a minha hora de guiar-te.
Tu esqueceste o caminho quando em mim passaste.
Eu passo agora elucidando o olvido.
Madre, a vida é simples chão difícil.
Estamos num árduo labirinto
de uma saída livre e múltiplas esquinas.
Mas já não há perigo.
Eu te dirijo
com minha bússola instruída
imantada nas estrelas que jorraram das feridas
quando o céu da infância desabou de mim.
Mãe: cresci.
Tu, sim, ficaste sempre ingênua, arisca, intuitiva.
Madremenina. Madrefilha.
Não me ensinaste a ler porque não lias.
Mas na cartilha em que aprendeste a rir
soletraste em minha origem
as palavras vitais de tua ciência: alegria, pureza, infância, vento;
e me deste o empirismo das flores, dos astros, do silêncio;
e me agitaste nas veias o ritmo das coisas e dos seres.
(...)
Madreminha, eu sei: a vida é perfumada por espinhos.
Sabes disso. Já o sabias
quando calçando os pés com meu cilício
alfombraste de aroma o que doía em meu ritmo.
Madre: já não há que imunizar meus olhos de sua vista.
Agora eu sei como ela é
assustadoramente bela a vida:
alegre na periferia de sua polpa triste.
Sabes disso. Já o sabias
quando acariciaste meu sopro de cruz em teus ouvidos
e devolveste em cantiga o que te dei em grito.
(...)
(...)
Madre: ouves-me? E reconheces em meu canto a tua agonia?
É minha vida. Inédita, exclusiva, a minha vida.
Ela gritou quando calei em ti
e agora a angústia é minha.
Mas que digo? Oh madre-sensitiva, a angústia é minha?
Mas são teus olhos que eu pressinto
duas fontes de sangue, rubro rio
transbordando em meu rosto com delírio
ao sorver esta secura ardente de meu riso
e a canção adusta nas feições tranquilas.
(...)
Tímida-mãe-poesia:
nunca tiveste essa ousadia
de verter em canto teus sonambulismos
ou de lançar ao vento como desafio
uma orquestra de êxtases cadentes.
Mãe, eu tive.
Por isso tu sorris
quase com medo desta filha
que descobriu em teu organismo
uma latência de revolta lírica.
Estavas tão só com o teu silêncio
e essa fervente ânsia de explodir-te.
Bati à tua porta e disse: Eis-me aqui. Eu te redimo agora.
Dorme.
(...)
Imagem - 00660001
Publicado no livro Autobiografia de mãos dadas (1958).
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.78-82. (Sélesis, 13
1 638
1
Cassiano Ricardo
Meus Oito Anos
No tempo de pequenino
eu tinha medo da cuca
velhinha de óculos pretos
que morava atrás da porta...
Um gato a dizer currumiau
de noite na casa escura...
De manhã, por travessura,
pica-pau, pica-pau.
Quando eu era pequenino
fazia bolotas de barro
que punha ao sol pra secar.
Cada bolota daquela,
dura, redonda, amarela,
jogada com o meu certeiro
bodoque de guatambu
matava canário, rolinha,
matava inambu.
Quando eu era pequenino
vivia armando arapuca
pra caçar "vira" e urutau.
Mas de noite vinha a cuca
com o seu gato currumiau...
Como este menino é mau!
Rolinha caiu no laço...
Ia contar, não conto não.
Como batia o coração
daquele verde sanhaço
na palma da minha mão!
Ah! se eu pudesse, algum dia,
caçar a vida num poema,
em seu minuto de dor
ou de alegria suprema,
que bom que pra mim seria
ter a vida em minha mão
pererecando de susto
como um sanhaço qualquer
na grade de um alçapão!
Mas... de noite vinha a cuca
(e por sinal que a noite parecia uma arapuca
com grandes pássaros de estrelas)
vinha com o gato currumiau:
menino mau, menino mau,
meninomaumeninomau.
Na minha imaginação
ficou pra sempre o pica-pau.
Pica-pau batendo o bico
numa casca de pau.
Pica-pau, pau-pau.
Currumiau miando de noite...
Currumiau, miau-miau.
In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
eu tinha medo da cuca
velhinha de óculos pretos
que morava atrás da porta...
Um gato a dizer currumiau
de noite na casa escura...
De manhã, por travessura,
pica-pau, pica-pau.
Quando eu era pequenino
fazia bolotas de barro
que punha ao sol pra secar.
Cada bolota daquela,
dura, redonda, amarela,
jogada com o meu certeiro
bodoque de guatambu
matava canário, rolinha,
matava inambu.
Quando eu era pequenino
vivia armando arapuca
pra caçar "vira" e urutau.
Mas de noite vinha a cuca
com o seu gato currumiau...
Como este menino é mau!
Rolinha caiu no laço...
Ia contar, não conto não.
Como batia o coração
daquele verde sanhaço
na palma da minha mão!
Ah! se eu pudesse, algum dia,
caçar a vida num poema,
em seu minuto de dor
ou de alegria suprema,
que bom que pra mim seria
ter a vida em minha mão
pererecando de susto
como um sanhaço qualquer
na grade de um alçapão!
Mas... de noite vinha a cuca
(e por sinal que a noite parecia uma arapuca
com grandes pássaros de estrelas)
vinha com o gato currumiau:
menino mau, menino mau,
meninomaumeninomau.
Na minha imaginação
ficou pra sempre o pica-pau.
Pica-pau batendo o bico
numa casca de pau.
Pica-pau, pau-pau.
Currumiau miando de noite...
Currumiau, miau-miau.
In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
3 878
1
Paulo Bomfim
Poema das Grandes Catedrais
As grandes catedrais ressurgirão das águas,
E as aves da floresta conhecerão
A linguagem dos peixes noturnos...
As grandes catedrais ressurgirão das ondas,
Trazendo para o mundo das nuvens
As princesas sem reino coroadas de coral...
As grandes catedrais ressurgirão dos tempos,
E os homens serão crianças,
Contemplando o mar pela primeira vez!
Publicado no livro Poema do Silêncio (1954).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.3
E as aves da floresta conhecerão
A linguagem dos peixes noturnos...
As grandes catedrais ressurgirão das ondas,
Trazendo para o mundo das nuvens
As princesas sem reino coroadas de coral...
As grandes catedrais ressurgirão dos tempos,
E os homens serão crianças,
Contemplando o mar pela primeira vez!
Publicado no livro Poema do Silêncio (1954).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.3
1 654
1
Manoel de Barros
O Solitário
Os muros enflorados caminhavam ao lado de um
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...
No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Publicado no livro Face Imóvel (1942).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
homem solitário
Que olhava fixo para certa música estranha
Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer
Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que faziam esquecer de tudo
Olhando os barcos sobre as ondas...
No entanto o homem passava ladeado de muros!
E eu não pude descobrir em seu olhar de morto
O mais pequeno sinal de que estivesse esperando
alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Publicado no livro Face Imóvel (1942).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 733
1
Sílvio Romero
Outra [Parlendas
Dinglin, dingues, Maria Pires?
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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1
Stella Leonardos
Azul Menino
ONDE AZULA
na campina
um menino
de azul-fino,
pés descalços,
braços nus,
do azul lado
da campina
de azulado
mais celeste
que os celestes
mais azuis,
onde os ares
azuleam
de árias de águas
de cachoeira
de cantar a-
zuis cantares,
onde as águas
burborejam
burburinho
de azuis círculos
e áreas se asam
de azuis asas,
uma infância
de azul leste
de azul lesto
de azul terno
no azul presto
cantoeterno.
Poema integrante da série Reamanhecer.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
na campina
um menino
de azul-fino,
pés descalços,
braços nus,
do azul lado
da campina
de azulado
mais celeste
que os celestes
mais azuis,
onde os ares
azuleam
de árias de águas
de cachoeira
de cantar a-
zuis cantares,
onde as águas
burborejam
burburinho
de azuis círculos
e áreas se asam
de azuis asas,
uma infância
de azul leste
de azul lesto
de azul terno
no azul presto
cantoeterno.
Poema integrante da série Reamanhecer.
In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
1 195
1
Sílvio Romero
Jogo dos Dedos
(Sergipe e Pernambuco)
Dedo miudinho,
Seu vizinho,
Maior de todos,
Fura-bolos,
Cata piolhos.
Este diz que está com fome,
Este diz que não tem o quê;
Este diz vai furtar;
Este diz que não vá lá,
Este diz que Deus dará.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.292. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Dedo miudinho,
Seu vizinho,
Maior de todos,
Fura-bolos,
Cata piolhos.
Este diz que está com fome,
Este diz que não tem o quê;
Este diz vai furtar;
Este diz que não vá lá,
Este diz que Deus dará.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.292. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 971
1
Antônio Barreto
Roda Ecológica
Abanando o rabo
a cachorrinha serelepe
abrindo o leque do pavão.
— Olha que calor dentro do parque!
Menininha molequinha
tá com cara de soneca?
Sonhe com gatos e ratos,
dê pipoca pros patos,
pra mim seu coração.
Seu coração de boneca
é algodão-doce no olhar
do menino enamorado
de um balão lá no céu.
Vou buscar um girassol
pra colorir de sol e mel
a roupa velha da onça.
Roda o gigante do elefante
no trem
dos lábios livres
da infância.
Um menino espanta um zangão
na orelha do rinoceronte
e ri do gesto do macaco:
— Vem cá, bicho safado,
tem banana no buraco!
E uma fada dorminhoca,
de maiô, queimadinha de sol,
transforma tudo o que toca
em doce, sorvete e pipoca.
In: BARRETO, Antônio. Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.18-19. (Falas poéticas
a cachorrinha serelepe
abrindo o leque do pavão.
— Olha que calor dentro do parque!
Menininha molequinha
tá com cara de soneca?
Sonhe com gatos e ratos,
dê pipoca pros patos,
pra mim seu coração.
Seu coração de boneca
é algodão-doce no olhar
do menino enamorado
de um balão lá no céu.
Vou buscar um girassol
pra colorir de sol e mel
a roupa velha da onça.
Roda o gigante do elefante
no trem
dos lábios livres
da infância.
Um menino espanta um zangão
na orelha do rinoceronte
e ri do gesto do macaco:
— Vem cá, bicho safado,
tem banana no buraco!
E uma fada dorminhoca,
de maiô, queimadinha de sol,
transforma tudo o que toca
em doce, sorvete e pipoca.
In: BARRETO, Antônio. Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.18-19. (Falas poéticas
1 379
1
Sílvio Romero
Outra [Parlendas
(Sergipe, Rio de Janeiro e Pernambuco)
Amanhã é domingo,
Pé de cachimbo;
Galo monteiro
Pisou na areia;
A areia é fina
Que dá no sino;
O sino é douro
Que dá no besouro;
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente,
Que dá no tenente;
O tenente é mofino,
Que dá no menino;
Menino é valente
Que dá em toda gente.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.294. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Amanhã é domingo,
Pé de cachimbo;
Galo monteiro
Pisou na areia;
A areia é fina
Que dá no sino;
O sino é douro
Que dá no besouro;
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente,
Que dá no tenente;
O tenente é mofino,
Que dá no menino;
Menino é valente
Que dá em toda gente.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.294. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 665
1
Antônio Barreto
E o menino dormia e sonhava
E o menino dormia e sonhava
que o mundo era grande e o que era?
— Era a mágica música das fadas
cantarolando no escuro?
— Ou a rua que morava em tudo,
no mundo que ele imaginava?
E no mundo cabia o Circo, o peixe, o gorila.
E no mundo cabia o riso, o palhaço, a nuvem
e cabia também no mundo
formiga lutando boxe...
e a barata tirando a roupa, pra nadar na poça d'água
e a minhoca de patins, com seu penteado esquisito
e a lesma veloz que corria, atrás de sua própria sombra
e o percevejo percebendo que a perereca pulava
e a pulga de pára-quedas descendo num cão deitado
(...)
e o tatu-bola bolando um plano pra chegar do outro lado
e aquela baleia de nuvem que o vento desenhava no céu
e o dinossauro correndo da lagartixa marrom
e o jacaré com ciúmes de antepassado tão bom!
e o peru que bebia pinga, um dia antes do Natal,
e o galo conferindo as horas, no seu relógio de bolso,
e o pinhé trepado no boi, catando os seus carrapatos,
e a cegonha que nunca teve filho, por falta de tempo e mais,
nada
e a alva elegância da garça, doendo de branco no verde!
(...)
E o menino espichava a janela
pra ver se era tudo verdade:
era a Lua encurralada na rua enluarada
dormindo bem fresquinha
numa poça d'água.
In: BARRETO, Antônio. Lua no varal. Il. Paulo Bernardo F. Vaz. Belo Horizonte: Miguilim, 1987. p.18. Poema integrante da série A Poça d'Água
que o mundo era grande e o que era?
— Era a mágica música das fadas
cantarolando no escuro?
— Ou a rua que morava em tudo,
no mundo que ele imaginava?
E no mundo cabia o Circo, o peixe, o gorila.
E no mundo cabia o riso, o palhaço, a nuvem
e cabia também no mundo
formiga lutando boxe...
e a barata tirando a roupa, pra nadar na poça d'água
e a minhoca de patins, com seu penteado esquisito
e a lesma veloz que corria, atrás de sua própria sombra
e o percevejo percebendo que a perereca pulava
e a pulga de pára-quedas descendo num cão deitado
(...)
e o tatu-bola bolando um plano pra chegar do outro lado
e aquela baleia de nuvem que o vento desenhava no céu
e o dinossauro correndo da lagartixa marrom
e o jacaré com ciúmes de antepassado tão bom!
e o peru que bebia pinga, um dia antes do Natal,
e o galo conferindo as horas, no seu relógio de bolso,
e o pinhé trepado no boi, catando os seus carrapatos,
e a cegonha que nunca teve filho, por falta de tempo e mais,
nada
e a alva elegância da garça, doendo de branco no verde!
(...)
E o menino espichava a janela
pra ver se era tudo verdade:
era a Lua encurralada na rua enluarada
dormindo bem fresquinha
numa poça d'água.
In: BARRETO, Antônio. Lua no varal. Il. Paulo Bernardo F. Vaz. Belo Horizonte: Miguilim, 1987. p.18. Poema integrante da série A Poça d'Água
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1
Edimilson de Almeida Pereira
30 [um menino pode com o infinito
um menino pode com o infinito
mas não pode um policial
crescer tanto que o diminua
afinal como pode um esqueleto
roer a música que o atravessa
um menino é também infinito
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.42. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
mas não pode um policial
crescer tanto que o diminua
afinal como pode um esqueleto
roer a música que o atravessa
um menino é também infinito
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.42. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
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