Poemas neste tema
Justiça e Igualdade
Roberto Pontes
E O Verbo Se Fez Carne
por Margarida Maria Moreira Rodrigues
Verbalizar é transformar o inexistente, o abstrato e o vago em matéria viva e pulsante. Não foi dessa forma que Deus criou o mundo e os homens? O homem é linguagem. É preciso atribuir sentido ao desconhecido e angustiante mundo que o abarca e, ao mesmo tempo, o liberta. Como bem assinalou Wilhelm von Humboldt: "O homem vive com seus objetos relação fundamental, tal como a linguagem lhos apresenta, pois nele o sentir e o atuar dependem de suas representações."
A poesia não é nada senão uma das tantas tentativas desesperadas de ordenar e significar o mundo. Nos versos de Verbo Encarnado, podemos vislumbrar essa tentativa desesperada de compreender o homem e o mundo:
Que sentido tem o céu?
Tingir os olhos de azul.
Deixar voar qualquer asa.
[...]
Que sentido tem o homem?
[...]
Homem, o homem terá sentido?
(VE, p. 41)
No entanto, o Verbo não se limita apenas a construir uma semântica da vida. Ele também se torna um eficaz instrumento de denúncia, uma arma que tem por objetivo o lançar-se e ferir as consciências:
A palavra há de trazer
o peso do chumbo
a quentura
a explosão do peito
enquanto o amor
não for reconhecido.
(VE, p. 21)
A poesia de Roberto Pontes vergasta e acalenta. A leitura de cada verso perpassa paradoxalmente o desconforto e o consolo. Há uma crítica mordaz a todo tipo de opressão e de miséria. Quando o poeta se apropria da gemedeira – forma popular nordestina – é evidente que sua intenção além de valorizar a cultura do Nordeste – é a de colocar em foco a condição miserável das vendedoras de flores do Ceará. Assim, a gemedeira representa a dor e o sofrimento dessas mulheres. E o que aparece de mais belo no lamento da florista é a maneira como seu trabalho é descrito:
Florista fabrica flores
e seu ritual de rua
é um bailado sem som
um triste cantar de loa...
(VE, p. 31)
A poesia oferece ao leitor a imagem triste dessas singulares mulheres que são tão frágeis e belas quanto as flores que produzem. Nesse momento, a sensação de desconforto é inevitável: o leitor não consegue permanecer isento de certa culpa. Entretanto, logo em seguida, após a chamada de consciência para os problemas sociais, o poeta vem afagar e consolar o leitor, porque o sonho ainda é possível: "o amanhã é sempre diferente" (VE, p. 55):
Não desesperes nunca.
A vida é asssim mesmo.
Um dia para a dor
Um outro pra esperança.
(VE, p. 55)
O poeta acredita que o mundo possa renascer, mas, antes de tudo, deve "merecer o flagelo". Somente a dor é capaz de libertar o homem dos mecanismos de opressão que ele próprio constrói. Para isso importa desconstruir o mundo para reconstruí-lo, de tal modo, que o homem, em sua breve existência reconheça a relevância de transformar a sociedade, a fim de que a felicidade não seja somente privilégio de poucos que detêm o poder pelo poder – como nos admoesta Aristóteles – e sim patrimônio dos corações mais puros e das inteligências mais brilhantes.
MARGARIDA MARIA MOREIRA RODRIGUES é do Curso de Letras
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro–UERJ. Participa do
Núcleo de Literatura Comparada e colabora no jornal Comunicando
do Instituto de Letras da mesma Instituição.
Verbalizar é transformar o inexistente, o abstrato e o vago em matéria viva e pulsante. Não foi dessa forma que Deus criou o mundo e os homens? O homem é linguagem. É preciso atribuir sentido ao desconhecido e angustiante mundo que o abarca e, ao mesmo tempo, o liberta. Como bem assinalou Wilhelm von Humboldt: "O homem vive com seus objetos relação fundamental, tal como a linguagem lhos apresenta, pois nele o sentir e o atuar dependem de suas representações."
A poesia não é nada senão uma das tantas tentativas desesperadas de ordenar e significar o mundo. Nos versos de Verbo Encarnado, podemos vislumbrar essa tentativa desesperada de compreender o homem e o mundo:
Que sentido tem o céu?
Tingir os olhos de azul.
Deixar voar qualquer asa.
[...]
Que sentido tem o homem?
[...]
Homem, o homem terá sentido?
(VE, p. 41)
No entanto, o Verbo não se limita apenas a construir uma semântica da vida. Ele também se torna um eficaz instrumento de denúncia, uma arma que tem por objetivo o lançar-se e ferir as consciências:
A palavra há de trazer
o peso do chumbo
a quentura
a explosão do peito
enquanto o amor
não for reconhecido.
(VE, p. 21)
A poesia de Roberto Pontes vergasta e acalenta. A leitura de cada verso perpassa paradoxalmente o desconforto e o consolo. Há uma crítica mordaz a todo tipo de opressão e de miséria. Quando o poeta se apropria da gemedeira – forma popular nordestina – é evidente que sua intenção além de valorizar a cultura do Nordeste – é a de colocar em foco a condição miserável das vendedoras de flores do Ceará. Assim, a gemedeira representa a dor e o sofrimento dessas mulheres. E o que aparece de mais belo no lamento da florista é a maneira como seu trabalho é descrito:
Florista fabrica flores
e seu ritual de rua
é um bailado sem som
um triste cantar de loa...
(VE, p. 31)
A poesia oferece ao leitor a imagem triste dessas singulares mulheres que são tão frágeis e belas quanto as flores que produzem. Nesse momento, a sensação de desconforto é inevitável: o leitor não consegue permanecer isento de certa culpa. Entretanto, logo em seguida, após a chamada de consciência para os problemas sociais, o poeta vem afagar e consolar o leitor, porque o sonho ainda é possível: "o amanhã é sempre diferente" (VE, p. 55):
Não desesperes nunca.
A vida é asssim mesmo.
Um dia para a dor
Um outro pra esperança.
(VE, p. 55)
O poeta acredita que o mundo possa renascer, mas, antes de tudo, deve "merecer o flagelo". Somente a dor é capaz de libertar o homem dos mecanismos de opressão que ele próprio constrói. Para isso importa desconstruir o mundo para reconstruí-lo, de tal modo, que o homem, em sua breve existência reconheça a relevância de transformar a sociedade, a fim de que a felicidade não seja somente privilégio de poucos que detêm o poder pelo poder – como nos admoesta Aristóteles – e sim patrimônio dos corações mais puros e das inteligências mais brilhantes.
MARGARIDA MARIA MOREIRA RODRIGUES é do Curso de Letras
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro–UERJ. Participa do
Núcleo de Literatura Comparada e colabora no jornal Comunicando
do Instituto de Letras da mesma Instituição.
1 451
Roberto Pontes
Poesia e Libertação em Roberto Pontes
por Pedro Lyra
Um dos temas mais problemáticos da teoria literária contemporânea é a sobrevivência do épico. Dada a natureza por essência histórica deste gênero, creio que o problema não pode ser questionado antes de colocado num determinado tempo. Deste modo, a falência e/ou apogeu do épico se encontram vinculados à existência/inexistência de grandes acontecimentos sociais que, numa certa fase da história humana, ofereçam ou não temas de conteúdo épico.
Por que a Antigüidade e o Renascimento foram tão fecundos neste gênero? Simplesmente: pela ocorrência, nessas épocas, de fatos sociais de grandes implicações humanas no sentido universal. Aplicada a tese ao momento presente, o problema se resolve: não foi o épico que morreu como gênero literário, mas um certo épico de linguagem inadequada ao nosso tempo, um épico de conceituação sedimentada nos limites de uma estética restrita ao ideário clássico – o pomposo e solene épico de Homero, Virgílio, Camões, próprio para as sociedades que o gerararm e consumiram, como só elas poderiam gerá-lo e consumí-lo.
A aparente falência do épico em nossa época se explica por esta evidência: a instabilidade do mundo contemporâneo – este pragmatismo materialesco a que nos atiraram – por um lado nega ao escritor o tempo indispensável para o labor épico (pelo menos, para o labor épico "a la antigua") e, por outro lado, nega também ao leitor essa mesma parcela de tempo necessário para o convívio com os longos poemas que requerem exegese.
Mas o epos está presente em qualquer tempo. E a nossa época é, sem talvez, a mais fecunda de toda a história humana em essência épica: aí estão ainda as radiações atômicas da última guerra mundial e das mais recentes bombas de intimidação e exibição; aí estão as lutas de classe propagando a revolução socialista por todo o globo; aí está o surgimento deste vasto Terceiro Mundo para uma nova realidade mundial; e aí está, por fim, a conquista do espaço, afirmando o domínio do homem sobre o seu universo próximo. Tudo isso, junto ou isolado, se oferece ao poeta contemporâneo como num desafio: um desafio àquele que se proponha a deixar, numa obra de fôlego, uma imagem poética deste tempo desesperado.
Pois bem: um desses temas – o último – acaba de ser tratado, num longo poema, por um jovem poeta cearense: Roberto Pontes, prêmio "Esso–Jornal de Letras" de 1970 (com o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e Tese), no livro-poema Lições de Espaço: Teletipos, Módulos e Quânticas 1 , premiado pela Universidade Federal no mesmo ano.
Com certeza, podemos vincular este poema à corrente vanguardista da poesia brasileira: vanguarda pelo tema, vanguarda pela linguagem. Nisto, cabe notar que Roberto não circunscreveu o fazer vanguardista ao problema da linguagem: sendo vanguarda o que sugere um passo à frente – o que, incorporando um dado novo ao patrimônio preexistente, aponte um rumo a seguir – ele se situa como vanguardista menos numa perspectiva lingüística do que numa perspectiva social.
Trabalhando exclusivamente com a palavra, Roberto Pontes compreende que tem de explorá-la ao máximo, para compensar a ausência da contribuição não-solicitada ao figurativo. Por isso ele está sempre experimentando, reinventando, neologizando a matéria-prima do verbo. As múltiplas tendências, os vários processos, a polivalência usual da palavra – todas as diretivas da vanguarada vocabular foram amalgamadas em Lições de Espaço por um tenaz esforço pessoal crítico-teórico-criativo em torno de poetas e movimentos vanguardistas, donde resultou um poema antes de tudo pesquisa-informação, atualizadas pela unidade de linguagem conseguida do primeiro ao último verso.
Através da simples leitura do poema é possível notar a familiaridade do autor com os experimentalistas da tradição internacional, como Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings, Apollinaire, Maiacovski, ou com os da melhor vertente nacional nacional, como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Haroldo de Campos, Mário Chamie. Através dessa convergência de processos, o autor destas lições de espaço integra-se, via experimentalismo com a palavra, na determinante verbal da vanguarda brasileira – na mesma perspectiva em que Guimarães Rosa também é vanguarda, na prosa.
Ele consegue reinventar o épico através de uma inusitada contenção verbal, de uma fala renovada, de um discurso condensado, na melhor terminologia poundiana. Por isso, sendo os seus blocos de verso uma síntese da cultura humana, eles requerem um nível receptor exigente. Mas é exatamente no nível solicitado que se concentra a melhor poesia.
O poema está dividido em três livros.
O primeiro apresenta, em doze pequenos poemas, a problemática do espaço numa perspectiva regional. O espaço é o Nordeste brasileiro. Os poemas vão abrindo, pouco a pouco, um leque de problemas ecológicos, econômicos, antropológicos e sociais de sua sofrida região, ao mesmo tempo em que anatemiza a conivência que os conserva.
O poeta se define diante dos problemas em apenas um texto, apesar de sempre curto, apresentados numa linguagem tão estéril quanto a própria natureza nordestina. Mais que em qualquer outra parte do poema, é neste primeiro livro que se tem a perfeita adequação da linguagem ao tema focalizado: através da aridez da linguagem chega-se a uma idéia da aridez da vida que ela representa.
No poema
o piso não fabula a verdura
engastada na poeira e no salitre
nem mesmo as próprias raízes
desbebidas no lençol de anidro
o solo ingere as forras tessituras
dessangradas dos folículos e folhas
ele suga a sudorência do granito
seus produtos se arrimam na caliça
a terra não concebe o nobre cepo do cedro
cisma a figura inane do xerófito
o gozo estriado dos fibromas
e a indigência epitelial da citra (p.10)
o poeta descreve esse espaço e revela a natureza do solo naquilo que ele pode germinar. Mas esse solo não germina o que pode – "a terra não concebe" – esterilizado pela incipiência da agricultura:
o fazedeiro
de safras
lavra a dor
e lavrador
lavra dores
dá cifras
e não decifra
a grandeza do lavrar (p.22)
uma agricultura desinstrumentalizada, que explora mais o homem ("lavra a dor") do que a terra, num processo onde o sertanejo, ignorante de sua função social ("dá cifras/ e não decifra/ a grandeza do lavrar"), é o forte que, antes de tudo, ainda depende da chuva, preso a um sistema medievalizado que lhe proporciona uma subsistência de conveniência, como na expressiva síntese práxis-concretista destes dois versos-palavra:
salário
solário (p.18)
O segundo livro apresenta, em quarenta poemas de seis versos em média, a configuração do espaço numa perspectiva planetária. O espaço é a Terra. E, para entendê-lo, o poeta ressalta o uso que o homem faz do raciocínio, da inteligência, da sensibilidade e do seu poder de criação. Com o espaço circundante compreendido, vem a apreensão do universo – tônica do segundo livro. E, numa linguagem agora lírica, o poeta tenta uma definição do planeta, apoiado em informações científicas:
o universo
tem seu porte e suporte
em elétrons nêutrons prótons
é urgência ao poema
a fissão da massa atômica
a micro física quântica
os princípia matemática
tem o limite dos cardos
cortantes da metafísica
estrela sistema cosmos
o fascínio da galáxia
o silêncio da palavra
o carpir em abstrato
cem mil milhares de sóis
igual lote de anos-luz
o poeta assim disserta
premissas e teoremas
de sua esfera anilada
entre parábolas e elipses
que vagam por aí em expansão
burila zumbidos de metal (p. 37-40)
Nesse livro, n
Um dos temas mais problemáticos da teoria literária contemporânea é a sobrevivência do épico. Dada a natureza por essência histórica deste gênero, creio que o problema não pode ser questionado antes de colocado num determinado tempo. Deste modo, a falência e/ou apogeu do épico se encontram vinculados à existência/inexistência de grandes acontecimentos sociais que, numa certa fase da história humana, ofereçam ou não temas de conteúdo épico.
Por que a Antigüidade e o Renascimento foram tão fecundos neste gênero? Simplesmente: pela ocorrência, nessas épocas, de fatos sociais de grandes implicações humanas no sentido universal. Aplicada a tese ao momento presente, o problema se resolve: não foi o épico que morreu como gênero literário, mas um certo épico de linguagem inadequada ao nosso tempo, um épico de conceituação sedimentada nos limites de uma estética restrita ao ideário clássico – o pomposo e solene épico de Homero, Virgílio, Camões, próprio para as sociedades que o gerararm e consumiram, como só elas poderiam gerá-lo e consumí-lo.
A aparente falência do épico em nossa época se explica por esta evidência: a instabilidade do mundo contemporâneo – este pragmatismo materialesco a que nos atiraram – por um lado nega ao escritor o tempo indispensável para o labor épico (pelo menos, para o labor épico "a la antigua") e, por outro lado, nega também ao leitor essa mesma parcela de tempo necessário para o convívio com os longos poemas que requerem exegese.
Mas o epos está presente em qualquer tempo. E a nossa época é, sem talvez, a mais fecunda de toda a história humana em essência épica: aí estão ainda as radiações atômicas da última guerra mundial e das mais recentes bombas de intimidação e exibição; aí estão as lutas de classe propagando a revolução socialista por todo o globo; aí está o surgimento deste vasto Terceiro Mundo para uma nova realidade mundial; e aí está, por fim, a conquista do espaço, afirmando o domínio do homem sobre o seu universo próximo. Tudo isso, junto ou isolado, se oferece ao poeta contemporâneo como num desafio: um desafio àquele que se proponha a deixar, numa obra de fôlego, uma imagem poética deste tempo desesperado.
Pois bem: um desses temas – o último – acaba de ser tratado, num longo poema, por um jovem poeta cearense: Roberto Pontes, prêmio "Esso–Jornal de Letras" de 1970 (com o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e Tese), no livro-poema Lições de Espaço: Teletipos, Módulos e Quânticas 1 , premiado pela Universidade Federal no mesmo ano.
Com certeza, podemos vincular este poema à corrente vanguardista da poesia brasileira: vanguarda pelo tema, vanguarda pela linguagem. Nisto, cabe notar que Roberto não circunscreveu o fazer vanguardista ao problema da linguagem: sendo vanguarda o que sugere um passo à frente – o que, incorporando um dado novo ao patrimônio preexistente, aponte um rumo a seguir – ele se situa como vanguardista menos numa perspectiva lingüística do que numa perspectiva social.
Trabalhando exclusivamente com a palavra, Roberto Pontes compreende que tem de explorá-la ao máximo, para compensar a ausência da contribuição não-solicitada ao figurativo. Por isso ele está sempre experimentando, reinventando, neologizando a matéria-prima do verbo. As múltiplas tendências, os vários processos, a polivalência usual da palavra – todas as diretivas da vanguarada vocabular foram amalgamadas em Lições de Espaço por um tenaz esforço pessoal crítico-teórico-criativo em torno de poetas e movimentos vanguardistas, donde resultou um poema antes de tudo pesquisa-informação, atualizadas pela unidade de linguagem conseguida do primeiro ao último verso.
Através da simples leitura do poema é possível notar a familiaridade do autor com os experimentalistas da tradição internacional, como Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings, Apollinaire, Maiacovski, ou com os da melhor vertente nacional nacional, como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Haroldo de Campos, Mário Chamie. Através dessa convergência de processos, o autor destas lições de espaço integra-se, via experimentalismo com a palavra, na determinante verbal da vanguarda brasileira – na mesma perspectiva em que Guimarães Rosa também é vanguarda, na prosa.
Ele consegue reinventar o épico através de uma inusitada contenção verbal, de uma fala renovada, de um discurso condensado, na melhor terminologia poundiana. Por isso, sendo os seus blocos de verso uma síntese da cultura humana, eles requerem um nível receptor exigente. Mas é exatamente no nível solicitado que se concentra a melhor poesia.
O poema está dividido em três livros.
O primeiro apresenta, em doze pequenos poemas, a problemática do espaço numa perspectiva regional. O espaço é o Nordeste brasileiro. Os poemas vão abrindo, pouco a pouco, um leque de problemas ecológicos, econômicos, antropológicos e sociais de sua sofrida região, ao mesmo tempo em que anatemiza a conivência que os conserva.
O poeta se define diante dos problemas em apenas um texto, apesar de sempre curto, apresentados numa linguagem tão estéril quanto a própria natureza nordestina. Mais que em qualquer outra parte do poema, é neste primeiro livro que se tem a perfeita adequação da linguagem ao tema focalizado: através da aridez da linguagem chega-se a uma idéia da aridez da vida que ela representa.
No poema
o piso não fabula a verdura
engastada na poeira e no salitre
nem mesmo as próprias raízes
desbebidas no lençol de anidro
o solo ingere as forras tessituras
dessangradas dos folículos e folhas
ele suga a sudorência do granito
seus produtos se arrimam na caliça
a terra não concebe o nobre cepo do cedro
cisma a figura inane do xerófito
o gozo estriado dos fibromas
e a indigência epitelial da citra (p.10)
o poeta descreve esse espaço e revela a natureza do solo naquilo que ele pode germinar. Mas esse solo não germina o que pode – "a terra não concebe" – esterilizado pela incipiência da agricultura:
o fazedeiro
de safras
lavra a dor
e lavrador
lavra dores
dá cifras
e não decifra
a grandeza do lavrar (p.22)
uma agricultura desinstrumentalizada, que explora mais o homem ("lavra a dor") do que a terra, num processo onde o sertanejo, ignorante de sua função social ("dá cifras/ e não decifra/ a grandeza do lavrar"), é o forte que, antes de tudo, ainda depende da chuva, preso a um sistema medievalizado que lhe proporciona uma subsistência de conveniência, como na expressiva síntese práxis-concretista destes dois versos-palavra:
salário
solário (p.18)
O segundo livro apresenta, em quarenta poemas de seis versos em média, a configuração do espaço numa perspectiva planetária. O espaço é a Terra. E, para entendê-lo, o poeta ressalta o uso que o homem faz do raciocínio, da inteligência, da sensibilidade e do seu poder de criação. Com o espaço circundante compreendido, vem a apreensão do universo – tônica do segundo livro. E, numa linguagem agora lírica, o poeta tenta uma definição do planeta, apoiado em informações científicas:
o universo
tem seu porte e suporte
em elétrons nêutrons prótons
é urgência ao poema
a fissão da massa atômica
a micro física quântica
os princípia matemática
tem o limite dos cardos
cortantes da metafísica
estrela sistema cosmos
o fascínio da galáxia
o silêncio da palavra
o carpir em abstrato
cem mil milhares de sóis
igual lote de anos-luz
o poeta assim disserta
premissas e teoremas
de sua esfera anilada
entre parábolas e elipses
que vagam por aí em expansão
burila zumbidos de metal (p. 37-40)
Nesse livro, n
1 087
Renato Russo
Perfeição
1
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país com sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa política e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
2
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
3
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
( A lágrima é verdadeira )
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
4
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
5
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que tem é perfeição
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país com sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa política e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
2
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
3
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
( A lágrima é verdadeira )
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
4
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
5
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que tem é perfeição
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Roberto Pontes
Sugestões
Se me dizem a palavra trigo
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
1 016
Roberto Pontes
Olhe a Poça
Há quem olhe a poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
943
Ricardo Moraes Ferreira
Desemprego
Tira do homem seu pão e seu emprego
O orgulho próprio e toda dignidade
Se tira da vida a paz e o sossego
Dizendo que o fazes por prosperidade
Por sorte de quem achaca-se o homem?
Dos lucros mesquinhos - Desumanidade
Pergunta que a todas cabeças consomem
Quem é consciente bem sabe a verdade.
É pelo dinheiro, pelo vil metal
A ganância é o mal de todo egoísta
Em tudo só vê o que é o Capital.
Pisando em todos, avilta e conquista
Se esquece que Deus é do homem igual
E que nada no mundo lhe foge da vista.
O orgulho próprio e toda dignidade
Se tira da vida a paz e o sossego
Dizendo que o fazes por prosperidade
Por sorte de quem achaca-se o homem?
Dos lucros mesquinhos - Desumanidade
Pergunta que a todas cabeças consomem
Quem é consciente bem sabe a verdade.
É pelo dinheiro, pelo vil metal
A ganância é o mal de todo egoísta
Em tudo só vê o que é o Capital.
Pisando em todos, avilta e conquista
Se esquece que Deus é do homem igual
E que nada no mundo lhe foge da vista.
1 352
Raniere Rodrigues dos Santos
O Indesejável
Não fui ao martírio,
Mas sei o horror
Que é a guerra.
Gente chora,
Gente grita,
Gente enlouquece,
Gente se vê no inferno.
A guerra,
Não traz alegria.
Só traumas.
Gente paralítica,
Gente cega,
Gente muda,
Gente sem vida.
Lutar por petróleo
Que todos
Um pouco desfrutam.
Gente egoísta,
Gente horrorosa,
Gente burra,
Gente diabólica.
Lutar pela paz
Que todos Precisam.
Gente boa,
Gente amorosa,
Gente simples, Gente de Deus.
Mas sei o horror
Que é a guerra.
Gente chora,
Gente grita,
Gente enlouquece,
Gente se vê no inferno.
A guerra,
Não traz alegria.
Só traumas.
Gente paralítica,
Gente cega,
Gente muda,
Gente sem vida.
Lutar por petróleo
Que todos
Um pouco desfrutam.
Gente egoísta,
Gente horrorosa,
Gente burra,
Gente diabólica.
Lutar pela paz
Que todos Precisam.
Gente boa,
Gente amorosa,
Gente simples, Gente de Deus.
875
Paula Nei
A Justiça
A Justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
824
Silvino Pirauá de Lima
História de Crispim e Raimundo
O caso que vou contar
No sertão aconteceu;
É a história de um conflito
Que entre dois homens se deu;
Um foi preso e processado,
O outro na luta morreu.
O primeiro se chamava
Crispim da Cunha Dourado,
Tinha muitos bons costumes
Era homem ponderado;
Como bom pai de família
Era então considerado.
O segundo se chamava
Raimundo Dias Valente,
Era homem viciado,
Cachaceiro e imprudente;
Não respeitava ninguém,
Tinha fama de insolente.
Vindo Crispim do roçado
Encontrou casualmente
O Raimundo que andava
A procura de aguardente;
Já um pouco pre-amar
Intimando de valente.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa,
Mandou Crispim segurar
No copo e beber primeiro
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Tal ataque não me faça;
Para eu virar este copo
Devo encarar a desgraça:
O homem alcoolizado
A qualquer perigo abraça.
Raimundo disse: - Crispim,
Pegou no copo virou!
Bebe por bem ou por mal
Visto que nele pegou,
Se não já lhe mostrarei
No punhal o quanto sou!
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não bebo aguardente;
Para virar este copo
Caio logo de repente;
Mas para satisfazê-lo
Bebo um golpinho somente.
Raimundo foi a Crispim
Pegou-o pela cintura;
Disse: ou você vira o copo
Ou eu dou-lhe a sepultura;
Ferida de meu punhal
Não tem remédio nem cura.
Vendo Crispim que morria
No punhal do tal Raimundo,
Com a foice que trazia
Lhe deu um golpe profundo
Que ele em poucos minutos
Já estava no outro mundo.
Vinha chegando um inspetor
Achou Raimundo no chão,
Prendeu logo ao Crispim
Sem lhe prestar atenção,
Dizendo: eu não admito
Crimes no meu quarteirão.
Seguiu o tal inspetor
Em busca do delegado,
Chegando na casa deste
Com Crispim preso e amarrado,
De chapéu na mão falou-lhe
Todo entusiasmado:
Ilustríssimo senhor,
Honradíssimo delegado,
Aqui está um criminoso
Que por mim foi capturado;
Matou um pai de família
Homem bem considerado.
Logo na cadeia pública
Foi Crispim encarcerado;
Depuseram as testemunhas,
Teve de ser processado,
Sem ser em nada atendido,
Foi logo pronunciado.
A pronúncia sustentando
O libelo oferecido,
Ficou fechado o processo
Sem Crispim ser atendido,
Só no Tribunal do Júri,
Podia ser decidido.
Havendo sessão do Júri,
Para Crispim ser julgado,
Pela forma do direito
Foi o Conselho formado;
O Juiz então perguntou-lhe
Se já tinha advogado.
Respondeu Crispim que tinha,
Visto lhe ser perguntado;
O Juiz disse p’ra ele:
- Diga lá o seu estado.
E se sabe por qual motivo
Vai agora ser julgado.
Tudo Crispim respondeu,
Com toda serenidade;
Falando com energia
Sem se arredar da Verdade;
Assim mostrando que tinha
Alguma dignidade.
Perguntou-lhe o Juiz se houve
Um motivo imperioso
Para ele matar Raimundo
Ficando assim criminoso,
Por ter cometido um crime
Tão medonho e horroroso?
- Que o matei, falo a verdade,
Não posso contradizer:
Fui agredido por ele
Sem poder me defender;
Em minha defesa própria,
Matei para não morrer!...
Nas declarações do réu,
O Juiz não achou excesso;
Ficou o Júri sabendo
Que ele era réu confesso;
O escrivão deu começo
A leitura do processo.
Depois da leitura finda
O tal processo seguiu
Para as mãos do Promotor;
Que sobre a mesa o abriu;
Tendo pedido a palavra,
A acusação proferiu:
- Senhores, tenho nas mãos
Um processo volumoso;
Vede o que diz o libelo
Contra este criminoso;
É um assassino confesso
Autor de um crime horroroso.
Senhores, o réu presente
Dominado de paixão,
Matou um pai de família,
Sem lhe assistir a razão:
No processo está provado
A sua mal intenção.
O réu matou a Raimundo
Por sua livre vontade,
Deixando a família dele
Na maior necessidade;
A mulher na viuvez
E os filhinhos na orfandade.
O réu assim procedendo
Mostrou ser muito malvado;
Do processo se colige
Que foi de caso pensado,
Que ele quis cometer
Um crime tão reprovado.
O Réu cometeu um crime
Em tudo repugnante,
Qualificado na Lei
Como delito agravante;
Em seu favor não existe
Nem um só atenuante.
A viúva com os filhos
Envoltos em negro véu
Estão sem ter um consolo
Com os olhos fitos no céu,
Pedindo justiça a Deus
E a condenação do Réu
Chorando todos lamentam
O ser amado perdido,
Os filhinhos por seu pai
A mulher por seu marido;
Estão pedindo justiça
Para o crime cometido.
Senhores, o Réu presente
É um monstro da natureza;
Matou o seu semelhante
Somente por malvadeza;
Quem mata sem ter razão,
Nem devia ter defesa.
Senhores, um crime tal,
Só o pratica um incréu,
Que não respeita a justiça
E nem deseja ir ao Céu;
Em nome da Lei eu peço
A condenação do Réu.
Como pede no libelo
No artigo destinado;
Cento e noventa e dois
Gráu máximo confirmado
Faça o conselho justiça
A este Réu acusado.
Terminada a acusação
Por parte do Promotor,
O processo foi entregue
Ao nobre defensor
Para fazer a defesa
Do Réu, com todo valor.
Então o advogado
Se levantou da cadeira,
Principiou a defesa
Por uma boa maneira;
Descrevendo claramente
A história verdadeira.
Meus senhores, eu lamento
Não ser bom advogado,
Para defender o Réu
E ter um bom resultado;
Fazendo ver as razões
Que tem o meu Querelado.
Com toda a minha franqueza,
Atenção a todos peço,
Para mostrar a verdade,
É em que mais interesso
Contra a ilegalidade
Que vejo neste processo.
O primeiro ponto é,
Sobre a causa do delito;
Não foi de caso pensado
Que se deu o tal conflito;
Foi um fato casual
No qual eu muito medito.
Contra meu constituinte
A justiça se tornou
Muito severa de mais;
Pela culpa que formou,
O que era mais necessário
Esquecido então ficou.
Vindo Crispim do roçado,
Sucedeu casualmente
Encontrar-se com Raimundo
Que vinha ligeiramente,
Nessa mesma ocasião
A procurar aguardente.
Como eram conhecidos,
Seguiram juntos então,
Crispim um mau pensamento
Não tinha no coração;
Raimundo, provavelmente,
Já vinha com má tenção.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa
E logo sem demorar
Deu a Crispim p’ra beber
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não costumo beber;
Para virar este copo
Saiba que não pode ser;
Apenas bebo um pouquinho
Para lhe satisfazer.
Raimundo lhe respondeu
De um modo desleal;
- Camarada o nosso encontro
Hoje tem que acabar mal:
Ou você bebe ou morre
Na ponta de meu punhal.
E tendo o punhal em punho
Pegou Crispim<
No sertão aconteceu;
É a história de um conflito
Que entre dois homens se deu;
Um foi preso e processado,
O outro na luta morreu.
O primeiro se chamava
Crispim da Cunha Dourado,
Tinha muitos bons costumes
Era homem ponderado;
Como bom pai de família
Era então considerado.
O segundo se chamava
Raimundo Dias Valente,
Era homem viciado,
Cachaceiro e imprudente;
Não respeitava ninguém,
Tinha fama de insolente.
Vindo Crispim do roçado
Encontrou casualmente
O Raimundo que andava
A procura de aguardente;
Já um pouco pre-amar
Intimando de valente.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa,
Mandou Crispim segurar
No copo e beber primeiro
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Tal ataque não me faça;
Para eu virar este copo
Devo encarar a desgraça:
O homem alcoolizado
A qualquer perigo abraça.
Raimundo disse: - Crispim,
Pegou no copo virou!
Bebe por bem ou por mal
Visto que nele pegou,
Se não já lhe mostrarei
No punhal o quanto sou!
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não bebo aguardente;
Para virar este copo
Caio logo de repente;
Mas para satisfazê-lo
Bebo um golpinho somente.
Raimundo foi a Crispim
Pegou-o pela cintura;
Disse: ou você vira o copo
Ou eu dou-lhe a sepultura;
Ferida de meu punhal
Não tem remédio nem cura.
Vendo Crispim que morria
No punhal do tal Raimundo,
Com a foice que trazia
Lhe deu um golpe profundo
Que ele em poucos minutos
Já estava no outro mundo.
Vinha chegando um inspetor
Achou Raimundo no chão,
Prendeu logo ao Crispim
Sem lhe prestar atenção,
Dizendo: eu não admito
Crimes no meu quarteirão.
Seguiu o tal inspetor
Em busca do delegado,
Chegando na casa deste
Com Crispim preso e amarrado,
De chapéu na mão falou-lhe
Todo entusiasmado:
Ilustríssimo senhor,
Honradíssimo delegado,
Aqui está um criminoso
Que por mim foi capturado;
Matou um pai de família
Homem bem considerado.
Logo na cadeia pública
Foi Crispim encarcerado;
Depuseram as testemunhas,
Teve de ser processado,
Sem ser em nada atendido,
Foi logo pronunciado.
A pronúncia sustentando
O libelo oferecido,
Ficou fechado o processo
Sem Crispim ser atendido,
Só no Tribunal do Júri,
Podia ser decidido.
Havendo sessão do Júri,
Para Crispim ser julgado,
Pela forma do direito
Foi o Conselho formado;
O Juiz então perguntou-lhe
Se já tinha advogado.
Respondeu Crispim que tinha,
Visto lhe ser perguntado;
O Juiz disse p’ra ele:
- Diga lá o seu estado.
E se sabe por qual motivo
Vai agora ser julgado.
Tudo Crispim respondeu,
Com toda serenidade;
Falando com energia
Sem se arredar da Verdade;
Assim mostrando que tinha
Alguma dignidade.
Perguntou-lhe o Juiz se houve
Um motivo imperioso
Para ele matar Raimundo
Ficando assim criminoso,
Por ter cometido um crime
Tão medonho e horroroso?
- Que o matei, falo a verdade,
Não posso contradizer:
Fui agredido por ele
Sem poder me defender;
Em minha defesa própria,
Matei para não morrer!...
Nas declarações do réu,
O Juiz não achou excesso;
Ficou o Júri sabendo
Que ele era réu confesso;
O escrivão deu começo
A leitura do processo.
Depois da leitura finda
O tal processo seguiu
Para as mãos do Promotor;
Que sobre a mesa o abriu;
Tendo pedido a palavra,
A acusação proferiu:
- Senhores, tenho nas mãos
Um processo volumoso;
Vede o que diz o libelo
Contra este criminoso;
É um assassino confesso
Autor de um crime horroroso.
Senhores, o réu presente
Dominado de paixão,
Matou um pai de família,
Sem lhe assistir a razão:
No processo está provado
A sua mal intenção.
O réu matou a Raimundo
Por sua livre vontade,
Deixando a família dele
Na maior necessidade;
A mulher na viuvez
E os filhinhos na orfandade.
O réu assim procedendo
Mostrou ser muito malvado;
Do processo se colige
Que foi de caso pensado,
Que ele quis cometer
Um crime tão reprovado.
O Réu cometeu um crime
Em tudo repugnante,
Qualificado na Lei
Como delito agravante;
Em seu favor não existe
Nem um só atenuante.
A viúva com os filhos
Envoltos em negro véu
Estão sem ter um consolo
Com os olhos fitos no céu,
Pedindo justiça a Deus
E a condenação do Réu
Chorando todos lamentam
O ser amado perdido,
Os filhinhos por seu pai
A mulher por seu marido;
Estão pedindo justiça
Para o crime cometido.
Senhores, o Réu presente
É um monstro da natureza;
Matou o seu semelhante
Somente por malvadeza;
Quem mata sem ter razão,
Nem devia ter defesa.
Senhores, um crime tal,
Só o pratica um incréu,
Que não respeita a justiça
E nem deseja ir ao Céu;
Em nome da Lei eu peço
A condenação do Réu.
Como pede no libelo
No artigo destinado;
Cento e noventa e dois
Gráu máximo confirmado
Faça o conselho justiça
A este Réu acusado.
Terminada a acusação
Por parte do Promotor,
O processo foi entregue
Ao nobre defensor
Para fazer a defesa
Do Réu, com todo valor.
Então o advogado
Se levantou da cadeira,
Principiou a defesa
Por uma boa maneira;
Descrevendo claramente
A história verdadeira.
Meus senhores, eu lamento
Não ser bom advogado,
Para defender o Réu
E ter um bom resultado;
Fazendo ver as razões
Que tem o meu Querelado.
Com toda a minha franqueza,
Atenção a todos peço,
Para mostrar a verdade,
É em que mais interesso
Contra a ilegalidade
Que vejo neste processo.
O primeiro ponto é,
Sobre a causa do delito;
Não foi de caso pensado
Que se deu o tal conflito;
Foi um fato casual
No qual eu muito medito.
Contra meu constituinte
A justiça se tornou
Muito severa de mais;
Pela culpa que formou,
O que era mais necessário
Esquecido então ficou.
Vindo Crispim do roçado,
Sucedeu casualmente
Encontrar-se com Raimundo
Que vinha ligeiramente,
Nessa mesma ocasião
A procurar aguardente.
Como eram conhecidos,
Seguiram juntos então,
Crispim um mau pensamento
Não tinha no coração;
Raimundo, provavelmente,
Já vinha com má tenção.
Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa
E logo sem demorar
Deu a Crispim p’ra beber
Com a condição de virar.
Crispim lhe disse: - Raimundo,
Eu não costumo beber;
Para virar este copo
Saiba que não pode ser;
Apenas bebo um pouquinho
Para lhe satisfazer.
Raimundo lhe respondeu
De um modo desleal;
- Camarada o nosso encontro
Hoje tem que acabar mal:
Ou você bebe ou morre
Na ponta de meu punhal.
E tendo o punhal em punho
Pegou Crispim<
1 420
Paulo Silva Ribeiro
Idiotinhas
Idiotinhas
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
860
Noel Rosa
Cansei de Implorar
Já cansei de implorar
Pra você desguiar
Dizendo que a minha filha
Ainda é muito moça pra namorar
Meu Deus, que teimosia
Desista de insistir
Na delegacia você vai residir
Casar sem exibir credenciais
E sem dizer o nome dos seus pais
Não pode ser conversa para mim que sou doutor
Vá-se embora, por favor
Quem casa sem ter casa não se cria
Amor sem nota não tem mais valia
Você me diz que é advogado de valor
Mas eu também sou doutor.
Pra você desguiar
Dizendo que a minha filha
Ainda é muito moça pra namorar
Meu Deus, que teimosia
Desista de insistir
Na delegacia você vai residir
Casar sem exibir credenciais
E sem dizer o nome dos seus pais
Não pode ser conversa para mim que sou doutor
Vá-se embora, por favor
Quem casa sem ter casa não se cria
Amor sem nota não tem mais valia
Você me diz que é advogado de valor
Mas eu também sou doutor.
896
Oliveira Neto
O Solitário
Tristonho e desolado, um homem solitário,
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
1 035
Neco Martins
Pega do Cel Neco e Chica Barrósa
Neco:
Eu, agora estou ciente,
que negro não é cristão
pois a alma dessa gente
saiu debaixo do chão,
e lá na mensão celeste
não entra quem é ladrão
Barrósa:
Mais, seu Neco, a diferença
entre nós é só na cô,
eu também fui batizada,
sô cristão cuma o sinhô
de lançar mão no aleie,
nunca ninguém me acusô !
se quiser Nosso Sinhô
vai o branco pra cozinha
e o preto para o andô !
Neco:
De onde veio essa negra
com fama de cantador ?
querendo ser respeitada
como se fosse um senhor!
pois negro na minha terra
só come é chiquerador !
Barrósa:
Mas seu Neco, me permita
dizer o que foi notado:
que num beco sem saída
quando eu deixo encorrentado:
vem o branco contra mim,
façanhudo e tão irado.
Tome agora um bom conselho,
numa tão boa hora dado,
não é preciso mostrar-se
carrancudo e agastado.
Branco que canta com preto
não pode ser respeitado !
Eu, agora estou ciente,
que negro não é cristão
pois a alma dessa gente
saiu debaixo do chão,
e lá na mensão celeste
não entra quem é ladrão
Barrósa:
Mais, seu Neco, a diferença
entre nós é só na cô,
eu também fui batizada,
sô cristão cuma o sinhô
de lançar mão no aleie,
nunca ninguém me acusô !
se quiser Nosso Sinhô
vai o branco pra cozinha
e o preto para o andô !
Neco:
De onde veio essa negra
com fama de cantador ?
querendo ser respeitada
como se fosse um senhor!
pois negro na minha terra
só come é chiquerador !
Barrósa:
Mas seu Neco, me permita
dizer o que foi notado:
que num beco sem saída
quando eu deixo encorrentado:
vem o branco contra mim,
façanhudo e tão irado.
Tome agora um bom conselho,
numa tão boa hora dado,
não é preciso mostrar-se
carrancudo e agastado.
Branco que canta com preto
não pode ser respeitado !
808
Murillo Mendes
O Filho do Século
Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
1 295
Milena Azevedo
O povo de Morus
Povo perfeito
com um simples jeito
de viver e uma grande
vontade de aprender.
Leis de fácil acesso,
governantes corretos
e modestos;
lá nunca há protestos.
As mulheres têm direitos
igualitários.
Até na guerra são
solidários.
O jogo, a cobiça, a intolerância
não são sinônimos de bonança.
O respeito mútuo e a religião
do ser absoluto é que faz toda essa união.
com um simples jeito
de viver e uma grande
vontade de aprender.
Leis de fácil acesso,
governantes corretos
e modestos;
lá nunca há protestos.
As mulheres têm direitos
igualitários.
Até na guerra são
solidários.
O jogo, a cobiça, a intolerância
não são sinônimos de bonança.
O respeito mútuo e a religião
do ser absoluto é que faz toda essa união.
813
Mário Donizete Massari
Trilogia
nascimento
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
808
Mário Donizete Massari
Estação
Perdi o trem,
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
992
Mário Donizete Massari
Medicina
O DOUTOR
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
833
Gerardo Mello Mourão
Restauração em Cristo
Não é verdade que a Igreja Católica tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes
GERARDO MELLO MOURÃO
O poeta Murilo Mendes, católico de confissão e católico militante, empreendeu ao lado de Jorge de Lima, lá nos anos 30, o movimento que foi um dos momentos mais altos da revolução de nossas letras, sob uma consigna singular: a ``restauração da poesia em Cristo. Projetada ao longo da obra dos dois poetas, a ``restauração apregoada desaguou, afinal, na cantata estupenda da ``Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, que o juízo praticamente unânime da melhor crítica, nacional e estrangeira, considera a obra poética mais importante da literatura brasileira em todos os tempos.
O nome de Murilo Mendes entra aqui não como uma instância poética, mas como uma referência para debater a suposta crise que algumas pobres perdições ideológicas atribuem, no Brasil, ao cristianismo em geral e à Igreja Católica em particular. No século passado, e ainda no primeiro quartel deste século, estava na moda ser anticlerical e atacar a igreja, como lembrava Jorge Luís Borges, referindo-se a seu próprio pai.
Todo mundo contava anedotas de padres corruptos, cheios de mulheres e de filhos, como se isso fosse razão para execrar a igreja. Uma tarde, um sujeito aproximou-se de Murilo Mendes, numa esquina do Rio, para apontar-lhe um padre que saía de um banco, com sua rica batina de seda. Naquele tempo, a Cúria ainda não cometera o equívoco de abolir as vestes talares. O indivíduo agarrou o braço do poeta e gritou-lhe: ``Como é que você tem coragem de ser católico, quando todo mundo sabe que padres como este têm uma amante e guardam uma fortuna nos bancos?
``Pois eu sei mais do que isto, respondeu o poeta. ``Sei até de bispos, cardeais e papas que não tinham apenas uma amante.
Tinham haréns. E não possuíam apenas uma pobre conta de banco. Eram donos de castelos, palácios e empresas. E, para mim, esta é uma das provas mais claras da divindade da igreja, que sobrevive, com seus santos e mártires, há 2.000 anos, apesar de formada e até dirigida às vezes por alguns patifes. No Brasil, grupos anacrônicos estão empenhados, em nossos dias, numa campanha de demolição da Igreja Católica e da fé cristã em geral, embora a grande maioria silenciosa, em todo o Ocidente, continue fiel ao cristianismo. São cerca de 90 os cristãos na Europa e nas Américas.
Pois, apesar disso, recentemente destaca-se, na grande imprensa, como um acontecimento estrondoso, um ``happening do sr.
Leonardo Boff, no Centro Cultural Banco do Brasil, em que aquele frade goliardo e desertor de seu juramento anuncia o fim da Igreja Católica. Pelo menos da igreja como a entendem o papa, a hierarquia e os fiéis.
Os jornais apresentam como um triunfo do frei gaudério, cornaca maior da Teologia da Libertação, a presença de 400 pessoas no auditório do Banco do Brasil, em evento pago com dinheiro meu e do leitor, por meio dos R$ 8 bilhões com que o Banco do Brasil socorreu, recentemente, aquela combalida casa bancária da República. Quatrocentas pessoas é um bom público para o Boff.
Mas o ``bispo Macedo reúne muito mais...
A promessa da fé ao ser humano não é a libertação do salário mínimo e dos juros altos, mas do pecado, do mal que tolda a limpidez da alma. A igreja é uma agência espiritual da fé, não um birô do salário mínimo nem da reforma agrária e outros instrumentos do convívio social, próprios do governo político.
Depositária do testamento de seu fundador, Jesus Cristo, ela não é e nunca foi indiferente às práticas da injustiça e das tiranias. Mas não cabe aos fiéis ou aos sacerdotes o exercício do governo político e econômico. Os que pretendem atribuir à Igreja Católica o monopólio da justiça temporal são partidários de uma teocracia semelhante à dos xiitas, dos ``mullahs e dos aiatolás de Khomeini.
Também não é verdade, como sustenta o Boff do Centro Cultural Banco do Brasil, onde já se montaram comédias mais originais, que a igreja tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes. A igreja não nasceu em Medellín, como pensa o Boff.
Nasceu com um menino num curral em Belém de Judá, cresceu numa oficina de carpinteiro e com um grupo de homens e mulheres do povo. A história de sua luta contra os poderosos começa nos tribunais de Anás e Caifás, atravessa os impérios, tem momentos fulgurantes na Idade Média, na Renascença e no Iluminismo. Conhece o martírio e a perseguição na Revolução Francesa e nas repúblicas marxistas. Aqui mesmo, durante a monarquia, dois bispos vão para a cadeia, condenados a trabalhos forçados, por defenderem a liberdade de expressão. É um vilipêndio à memória desses bispos e uma injúria aos mais de 200 padres fuzilados nas revoluções nordestinas a acusação de que a igreja a que pertenciam estava a serviço do estabelecimento político ou econômico. Foram, isso sim, mártires da liberdade e da justiça, na luta pela restauração da sociedade em Cristo, tarefa da igreja, ontem e hoje. Coisa muito diferente da insensatez de instaurar um clero de aiatolás e frades sindicais, que querem tomar o lugar do Vicentinho, do Medeiros e do Canindé.
Gerardo Mello Mourão, 75, poeta e escritor, é membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Foi professor de história e cultura da América na Universidade Católica do Chile (1964-67) e correspondente da Folha em Pequim (China) de 1980 a 82.
(in Folha de São Paulo 10/10/96
Leia obra sobre Jorge de Lima
GERARDO MELLO MOURÃO
O poeta Murilo Mendes, católico de confissão e católico militante, empreendeu ao lado de Jorge de Lima, lá nos anos 30, o movimento que foi um dos momentos mais altos da revolução de nossas letras, sob uma consigna singular: a ``restauração da poesia em Cristo. Projetada ao longo da obra dos dois poetas, a ``restauração apregoada desaguou, afinal, na cantata estupenda da ``Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, que o juízo praticamente unânime da melhor crítica, nacional e estrangeira, considera a obra poética mais importante da literatura brasileira em todos os tempos.
O nome de Murilo Mendes entra aqui não como uma instância poética, mas como uma referência para debater a suposta crise que algumas pobres perdições ideológicas atribuem, no Brasil, ao cristianismo em geral e à Igreja Católica em particular. No século passado, e ainda no primeiro quartel deste século, estava na moda ser anticlerical e atacar a igreja, como lembrava Jorge Luís Borges, referindo-se a seu próprio pai.
Todo mundo contava anedotas de padres corruptos, cheios de mulheres e de filhos, como se isso fosse razão para execrar a igreja. Uma tarde, um sujeito aproximou-se de Murilo Mendes, numa esquina do Rio, para apontar-lhe um padre que saía de um banco, com sua rica batina de seda. Naquele tempo, a Cúria ainda não cometera o equívoco de abolir as vestes talares. O indivíduo agarrou o braço do poeta e gritou-lhe: ``Como é que você tem coragem de ser católico, quando todo mundo sabe que padres como este têm uma amante e guardam uma fortuna nos bancos?
``Pois eu sei mais do que isto, respondeu o poeta. ``Sei até de bispos, cardeais e papas que não tinham apenas uma amante.
Tinham haréns. E não possuíam apenas uma pobre conta de banco. Eram donos de castelos, palácios e empresas. E, para mim, esta é uma das provas mais claras da divindade da igreja, que sobrevive, com seus santos e mártires, há 2.000 anos, apesar de formada e até dirigida às vezes por alguns patifes. No Brasil, grupos anacrônicos estão empenhados, em nossos dias, numa campanha de demolição da Igreja Católica e da fé cristã em geral, embora a grande maioria silenciosa, em todo o Ocidente, continue fiel ao cristianismo. São cerca de 90 os cristãos na Europa e nas Américas.
Pois, apesar disso, recentemente destaca-se, na grande imprensa, como um acontecimento estrondoso, um ``happening do sr.
Leonardo Boff, no Centro Cultural Banco do Brasil, em que aquele frade goliardo e desertor de seu juramento anuncia o fim da Igreja Católica. Pelo menos da igreja como a entendem o papa, a hierarquia e os fiéis.
Os jornais apresentam como um triunfo do frei gaudério, cornaca maior da Teologia da Libertação, a presença de 400 pessoas no auditório do Banco do Brasil, em evento pago com dinheiro meu e do leitor, por meio dos R$ 8 bilhões com que o Banco do Brasil socorreu, recentemente, aquela combalida casa bancária da República. Quatrocentas pessoas é um bom público para o Boff.
Mas o ``bispo Macedo reúne muito mais...
A promessa da fé ao ser humano não é a libertação do salário mínimo e dos juros altos, mas do pecado, do mal que tolda a limpidez da alma. A igreja é uma agência espiritual da fé, não um birô do salário mínimo nem da reforma agrária e outros instrumentos do convívio social, próprios do governo político.
Depositária do testamento de seu fundador, Jesus Cristo, ela não é e nunca foi indiferente às práticas da injustiça e das tiranias. Mas não cabe aos fiéis ou aos sacerdotes o exercício do governo político e econômico. Os que pretendem atribuir à Igreja Católica o monopólio da justiça temporal são partidários de uma teocracia semelhante à dos xiitas, dos ``mullahs e dos aiatolás de Khomeini.
Também não é verdade, como sustenta o Boff do Centro Cultural Banco do Brasil, onde já se montaram comédias mais originais, que a igreja tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes. A igreja não nasceu em Medellín, como pensa o Boff.
Nasceu com um menino num curral em Belém de Judá, cresceu numa oficina de carpinteiro e com um grupo de homens e mulheres do povo. A história de sua luta contra os poderosos começa nos tribunais de Anás e Caifás, atravessa os impérios, tem momentos fulgurantes na Idade Média, na Renascença e no Iluminismo. Conhece o martírio e a perseguição na Revolução Francesa e nas repúblicas marxistas. Aqui mesmo, durante a monarquia, dois bispos vão para a cadeia, condenados a trabalhos forçados, por defenderem a liberdade de expressão. É um vilipêndio à memória desses bispos e uma injúria aos mais de 200 padres fuzilados nas revoluções nordestinas a acusação de que a igreja a que pertenciam estava a serviço do estabelecimento político ou econômico. Foram, isso sim, mártires da liberdade e da justiça, na luta pela restauração da sociedade em Cristo, tarefa da igreja, ontem e hoje. Coisa muito diferente da insensatez de instaurar um clero de aiatolás e frades sindicais, que querem tomar o lugar do Vicentinho, do Medeiros e do Canindé.
Gerardo Mello Mourão, 75, poeta e escritor, é membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Foi professor de história e cultura da América na Universidade Católica do Chile (1964-67) e correspondente da Folha em Pequim (China) de 1980 a 82.
(in Folha de São Paulo 10/10/96
Leia obra sobre Jorge de Lima
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Maria Inês Gambogi
Resta não misturar as dores
Resta não misturar as dores
cada dor no seu lugar.
Resta não capitular nenhuma dor
dor pode vir ou não disso.
(a justiça como a injustiça hoje
me fazem chorar)
Nenhuma dor presta.
Uma dor nunca se faz companhia
nem de uma outra dor.
Sofra cada dor na casa dessa dor
então sem pranto
sem explicar a dor viva
que no acúmulo de qualquer descaminho
saiba preciso
a dor que chora.
cada dor no seu lugar.
Resta não capitular nenhuma dor
dor pode vir ou não disso.
(a justiça como a injustiça hoje
me fazem chorar)
Nenhuma dor presta.
Uma dor nunca se faz companhia
nem de uma outra dor.
Sofra cada dor na casa dessa dor
então sem pranto
sem explicar a dor viva
que no acúmulo de qualquer descaminho
saiba preciso
a dor que chora.
673
Mário Donizete Massari
Moeda
A moeda
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
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Mário Donizete Massari
Raimundo
(Perfil de um cidadão comum)
Raimundo
imundo perfil do mundo
(aos olhos de quem se faz surdo)
e não ouve do profundo os gritos
soturnos de fé.
Raimundo
imundo perfil do mundo
mundo que se fez muro
e dividiu vários mundos.
Mundo, todo mundo
te busca; no dia a dia
dos vagabundos
nos palhaços do olhos
escuros
cujo brilho já muito se perdeu.
Somos todos palhaços do mundo
e Raimundo é apenas o perfil imundo
aos olhos de quem é surdo.
Raimundo
imundo perfil do mundo
(aos olhos de quem se faz surdo)
e não ouve do profundo os gritos
soturnos de fé.
Raimundo
imundo perfil do mundo
mundo que se fez muro
e dividiu vários mundos.
Mundo, todo mundo
te busca; no dia a dia
dos vagabundos
nos palhaços do olhos
escuros
cujo brilho já muito se perdeu.
Somos todos palhaços do mundo
e Raimundo é apenas o perfil imundo
aos olhos de quem é surdo.
907
Mário Donizete Massari
Muro
No povo
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
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Mário Donizete Massari
Monafa
Notícia de Jornal
"Morreu ninguém
nesse dia qualquer
a tal hora
não carece cuidados"
M aria
O ndulava
R eluzia
T ranscendia
A brangia a essência de "ser"
N ascia com a brancura do dia
A manhecia
F estiva do
A mor que
V ivia
E xalava
L eve
A ragem, feito brisa
Renascia com a morte que lhe sorria
"Morreu ninguém
nesse dia qualquer
a tal hora
não carece cuidados"
M aria
O ndulava
R eluzia
T ranscendia
A brangia a essência de "ser"
N ascia com a brancura do dia
A manhecia
F estiva do
A mor que
V ivia
E xalava
L eve
A ragem, feito brisa
Renascia com a morte que lhe sorria
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