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Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Fora da História

Loucos
monumentos de pedra e tijolo
erguidos a deuses cruéis e a reis insanos
guerras inglórias, impérios exaustos
heróis, profetas e santos
todos povoam o passado,
gravemente.

Tudo é lógico, tudo está registrado em pedras, em papéis, em lendas,
explicam guias turísticos e professores de História
enquanto olhamos pela janela.

Os poderosos venceram batalhas, construíram impérios
massacraram, escravizaram, consolidaram reinos,
salvaram seus povos, fizeram palácios, muralhas e estradas,
sua glória final erguida em pirâmides para os mortos,
gigantescos palácios, templos para os deuses que os protegeram.

Os práticos venceram a Natureza drenando pântanos,
lendo os calendários escritos pelas estrêlas,
ensinando o cultivo de plantas,
construindo canais e cidades,
buscando a imortalidade na cura das doenças,
reescrevendo a superfície da Terra.

Os bons e sábios venceram o Mal,
falaram com a voz da santidade,
convertendo milhões com a sua dor e a sua palavra
(quando tudo isto já for vaga memória
e a maldade tiver reconquistado as almas,
poderemos ainda olhar suas estátuas de olhar solene
e seus coloridos vitrais).

Mas, mas, mas
e os apaixonados felizes,
os que faziam loucuras à espera de um olhar,
que não entendiam diferenças
entre noite e dia, entre sonhar e viver,
e sua felicidade, incontáveis gotas de chuva
a se armazenar em secretos lençóis,
onde estão as lembranças de seus feitos?

E os amargurados,
a olhar sem ver as ondas em algum cais,
a beber sem notar um vinho entre estranhos,
e suas lembranças, reflexos do sol no orvalho
que temem perder com o calor do dia,
doloridas farpas infeccionadas que lhes restam,
em que estranhos templos suas memórias repousarão,
que ruínas conhecerão as suas sombras?

Mas a História a êles não registra,
aos que atravessaram o ar com palavras,
suaves promessas eternas,
para que macias mãos pousassem nas suas,
aos que possuíam longos silêncios
que não conseguiam mais carregar,
quadros de tristeza e dor pintados dentro de si
com lágrimas há muito secas.

Não eram poderosos,
não eram práticos,
não eram bons nem sábios,
nada sabemos deles
mas os entendemos
e estes, sim
fizeram tudo.

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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

A estátua jacente

Mandei, mundano, talhar
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!

Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.

O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.

Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.

Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra

Fui cobiçoso, mesquinho,
Falso, cruel, intrigante,
E numa orgia infamante
Pequei a carne e o vinho.

Morto me acharam um dia
No leito; tão decomposto
Que pelos restos do rosto
Ninguém já me conhecia.

Em vão, com óleos, essências
De aroma arábico e forte,
Se disputaram à morte
Minhas letais pestilências.

Húmido, em nardo, eu jazia;
Mas o fedor que exalava,
Mais que da carne, alastrava
Da alma que apodrecia.

Mãos, num vagar rancoroso,
Vingadas, porque adularam,
Em brocado entalharam
Meu corpo inchado e escabroso.

Por fim, fantoche mitrado,
Entre cem círios a arder
- Pudesse um deles também ser
E consumir-me queimado! -

Entrei na nave deserta
Que do pórtico parecia
Que a todos nos engolia,
Fauce esfaimada e aberta.

Oh! Com que náusea os ouvi
Salmodiar-me; e exausto
De tão falsíssimo fausto,
Com terror me apercebi

De que o cansaço devia
Ter-se extinguido também
Comigo, não ir além
Da vida que em mim havia.

Mas não! Meus cinco sentidos
Desenfreados agora
Os tinha mais do que outrora,
Buscando os vícios preferidos!

Incapaz de movimento,
Eu, cego, impotente e mudo,
Dentro de mim, via tudo
Num pavoroso tormento!

Só a solidão me deixaram
Na cava nave nocturna
E a presença taciturna
Dos que a meu soldo mataram,

Dos que a meu lado morreram
Sem confissão, emboscados,
Dos que ao meu oiro amarrados
Porque os perdi se perderam!

O tempo, enorme, passou.
Mais que um vitral se partiu,
Mais de que um arco ruiu
E eu vivo e morto ainda estou.

Quando o tempo ao fim desbaste
Minhas puídas feições,
Talvez as minhas acções
Também o tempo as desgaste.

A sombra silenciosa
Da cruz, que alonga ao sol posto
Sua brandura ao meu rosto,
Talvez parando piedosa

Sobre os meus olhos, talvez
Dorida do meu quebranto,
Amoleça em meigo pranto
Tanta maciça altivez.

Talvez os vermes, por dó,
Os alicerces minando,
Altos tectos derrubando,
Me restituam ao pó.

Talvez também - maldição! -
Em cada grão inda viva
A minha insónia, cativa
De um remorso sem perdão!

Não creias, pois, viajante
No meu sossego aparente;
Sê calmo, casto e constante,
Sê sóbrio, humano e paciente;

Sê tudo quanto eu não sendo,
Porque o não fui, Deus legou,
À pedra inerme jazendo
A sensação de quem sou.

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