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Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Pe. Osvaldo Chaves

Pe. Osvaldo Chaves

Angelim Intacto

Cearense, 21.10.23, padre católico e
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68

A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.

O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.

A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.

O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.

Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.

Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:

Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...

Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.

Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.

Sobral, setembro de 1985.

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Nauro Machado

Nauro Machado

Contumácia

Maldita a vida me seja,
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
"na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação".

Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!

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Marco Valadares

Marco Valadares

Nossos Caminhos Pela Vida

Eu não saberia da vida
Muito que dela aprendi
Se por caminhos passados
Passasse por longe de ti

E nesses caminhos vividos...
Com amor, mágoa e paixão
Certas vezes eu era sozinho
Mas longe da solidão

Pois solidão é nunca ter tido
Nada pra pensar ou sentir
Mas desde que te conheço
Não me conheço longe de ti

E nesse novo caminho que estamos
Ando com muito cuidado
Pois estou tendo que aprender
A não andar mais do teu lado

Mas quero ter sempre em mente
Que isso é coisa passageira
Pois quero viver novamente
Daquela velha maneira

Como quando numa praia deserta
Ficamos juntos por dez dias
Dias de amor, carinho, amizade,
E um sentimento que crescia

Ou mesmo de um carnaval
Que muitas tristezas senti
Mas quando voltamos pra casa
Podia estar perto de ti

Queria muito me desculpar
Por aquele nosso passado
Mas é de se compreender
Pelo caminho que começou errado

E a vida que desejávamos
Lhe digo com muito amor
Que está mais perto do que pensas
Se reconhecer nosso valor

Pois a tua falta pra mim
Faz com que viver pareça
Semanas durarem anos
E faz, com isso, que eu cresça

Faz com que eu me arrependa
Da liberdade que não lhe dei
Mas foi tão inconsciente
Que fui eu quem me aprisionei

Tanto que não lhe devo desculpas
Pois me sinto em igual situação
Mas devo com muita esperança
Propor-lhe uma solução

De que nossas pegadas na areia
Pelos caminhos que passamos
Não sejam jamais esquecidas
Pra não esquecermos que erramos

Mas que sejam deixadas expostas
Nossas pegadas na vida
Para que o vento possa fechá-las
Fechando nossas feridas

E, nesse dia, finalmente
No meu ombro se deitarás
Como era antigamente
E não deixará de ser mais...

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