Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Luiz de Aquino
Mudanças
Mudanças
Eu tenho uma vaga lembrança
deste prédio, desta casa.
Fui feliz aqui, eu sei,
mas me lembro pouco de ter estado aqui,
me lembro pouco de ter-te assim
tão próxima
e até de ter sido feliz.
Eu tenho uma vaga lembrança
de ter estado aqui
mas gosto de estar aqui.
E te convido para estar comigo
sempre
para estar comigo ao meu lado,
do meu lado,
onde estou daqui para sempre.
Eu tenho uma vaga lembrança
deste prédio, desta casa.
Fui feliz aqui, eu sei,
mas me lembro pouco de ter estado aqui,
me lembro pouco de ter-te assim
tão próxima
e até de ter sido feliz.
Eu tenho uma vaga lembrança
de ter estado aqui
mas gosto de estar aqui.
E te convido para estar comigo
sempre
para estar comigo ao meu lado,
do meu lado,
onde estou daqui para sempre.
967
Luiz de Aquino
Discurso de posse
A cidade — era assim que a chamávamos — não era mais que meia dúzia de ruas casca-lhadas, vermelhas, determinadas por casas hu-mildes onde habitavam pessoas igualmente hu-mildes, além de uns poucos e austeros senhores que jamais imaginávamos em mangas de cami-sa. Na praça, a única praça, o maior edifício era a igreja, mutilada em uma das torres, presidindo o largo onde, poucos anos antes, um jovem prefeito começara a construir o jardim. Aborta-do o projeto pela redemocratização que se se-guiu ao término da Segunda Grande Guerra, fi-cou apenas um calçamento em quadrado, já de-lineadas as alas de travessia.
Aquele começo de urbanização do único logradouro público de convívio e lazer — início inevitável de dezenas de novas famílias e que se resumia ao quadrado de cimento, postes orna-mentais e mudas crescentes de fícus em cada canto — é o cartão-postal que mais evoca a in-fância na remota e esquecida Caldas Novas das boas imagens. O despertar para o turismo nos anos 20 de mim, ou, se preferirem, a casa do tempo que vai de 1965 a 1975, foi significativo. Amadureceu o homem, transfigurou a cidadela.
Hoje, a lembrança dos anos verdes não confere com o cartão-postal que lhe deveria equivaler. As lembranças da paisagem são re-motas. Ficou o recordar do modo de sentir, do jeito de crescer. Há a lembrança das histórias contadas por minha mãe e que serviam para evocar o sono, um livro de páginas amareladas e capa dura, os Contos da Carochinha lidos com voz de acalanto, o beijo na testa, a oração de pedir que Deus nos protegesse e de esperar per-dão pelo dia de alegrias, como se fosse pecado ser criança e feliz.
Desde os mais tenros anos, os acordes em saraus musicais e suas inevitáveis conseqüênci-as, as serenatas, mostravam a carícia dos versos, vestidos em vestes as mais nobres, quais sejam as linhas melódicas. Era ainda um tempo de re-viver preciosidades de Chiquinha Gonzaga, Er-nesto Nazaré, Zequinha de Abreu, Noel Rosa e Lamartine Babo, mas sem desprezar as novida-des, e a novidade mais interessante era Luiz Gonzaga, cantando versos de Humberto Teixei-ra.
A esse ambiente, atribuo a razão de fugir das escalações para o joguinho de bola ao lado da igreja, preferindo dedicar-me a um novo e solitário passatempo, a leitura de imensas pilhas de gibis, descobertos entre os tesouros do primo Rogério, estudante interno em Araguari. Aquele acervo me convenceria, anos depois, que seu dono não teria sido um aluno 0brilhante, mas sempre o respeitaria por ser o responsável, entre outras qualidades e valores morais, pelo prazer descoberto do manuseio dessas coisas feitas em papel e tinta, pelas inebriantes viagens pelo des-conhecido e pelo inusitado a partir das páginas dos livros.
Tanta delonga sobre a infância para tentar justificar o ofício de escriba, a qualidade que me permitiu a sobrevivência nesta terra em que o berro do boi e a extensão monótona dos arais e dos vergéis valem mais que o cultivo das letras.
Acredito nas letras e nas mulheres e ho-mens de letras. E essa crença remonta aos anos dos primeiros aprendizados. Sou do tempo em que estudar os versos era indispensável, mas versejar era considerado uma prática afeminada. Nos primórdios do curso ginasial, no sempre amado Colégio Pedro II, questionava esse con-ceito ao observar que os versos que nos davam de beber foram, em sua quase totalidade abso-luta, criados por homens. E homens que tiveram força na história e geraram famílias que deles se orgulhavam. Já naquela época, no chacoalhar do trem de todos os dias a caminho do colégio, o ritmo das rodas duras sobre os rijos trilhos e o jogar inquieto dos vagões insinuavam versos. Imaginava-me Bandeira a criar a onomotopéia: "Café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão... Voa fumaça, corre cerca, ai, seu foguista, bota fogo na fornalha que eu preciso muita força, muita força, muita força..."
Sim, o menino precisava força. Não a for-ça dos tenazes conquistadores de espaços geo-gráficos, nem a força dos que erguem obras físi-cas ou constroem impérios. Geógrafo de forma-ção, parece que nasci para historiar. E como a força de que precisava não era para construir maravilhas da engenharia, o jornalismo foi cres-cendo como opção e prazer, tornando-se profis-são pouco após ter vindo a lume meu livro de estréia.
Leitor de colunistas como Adalgiza Nery, Stanislaw Ponte Preta e Nelson Rodrigues, em tempos da vivência adolescente na velha capital federal, encontrei em Anatole Ramos e Carmo Bernardes meus preferidos após o retorno ao Planalto Central, ambos cronistas no semanário Cinco de Março, depois no matutino O Popu-lar, teimosos em contestar o regime, hábeis em dizer pensamentos em letras de forma de modo a engambelar os censores.
Com o tempo, aprenderia a apreciar ou-tros notáveis homens de letras de nossa terra, em textos de jornais e de livros, e vou restringi-los aos membros desta Casa para não fazer desta peça, escrita para a fala, um enfadonho desfilar de nomes a que sou grato pelo bem que me fizeram ao espírito e pelo aprendizado. Fi-quemos, pois, em Bariani, Eli, Bernardo, Castro Quinta, os irmãos Mendonça Teles, meu velho amigo Coelho Vaz, meu quase irmão Brasigóis, Eliézer Penna — meu editor no já citado Cinco de Março —, Asmar e Bittencourt — compa-nheiros na Folha de Goiaz — e Eurico Barbosa — com quem convivi no Diário da Manhã.
A Carmo Bernardes atribuo o ato da pro-vocação para que me oferecesse ante as senho-ras e os senhores membros desta Academia. Demorei-me a tomar a decisão, e o fiz no mo-mento em que vagava a Cadeira número 8, do meu velho mestre José Sizenando Jayme, sendo vencido pelo notável Isócrates de Oliveira, vigá-rio de minha infância na pacata Caldas Novas. Naquela disputa, uma certeza nos norteava — assegurar um lampejo de continuidade na Cadei-ra, pois que o eleito, como seu antecessor, nas-ceram em Pirenópolis, cidade natal de meu pai e meu torrão preferido pelo sedimento das ori-gens.
Acredito que o fato de vir a ocupar a Ca-deira número 10, a mesma que ocupava Carmo Bernardes, cumpre uma ação de destino. Acom-panhei seus escritos de resistência desde os primórdios de 1963; preocupei-me quando de seu exílio nas lezírias do Araguaia, nos tempos tumultuados do golpe militar de 1964, e pude rir, feliz, ao ouvir que o general Riograndino Kruel, um dos líderes do sectário golpe, o teve por guia de pescaria, sem saber de sua vida. So-zinhos, na solidão dos lagos piscosos do Bana-nal, no limitado espaço de uma canoa, tendo entre ambos não mais que varas, linhas, iscas e molinete e uma espingarda. Talvez providencial, fosse Carmo sanguinário.
Carmo Bernardes trazia na índole a tradi-ção do bom mineiro, o homem da terra, o caipi-ra, na mais pura das acepções do termo, o ho-mem silencioso, observador, que pisa com segu-rança o terreno porque sabe que o mato reserva surpresas ao pé descalço. Mas corajoso o bas-tante para expor sua opinião, espalhar ao mundo sua indignação e mostrar aos que se julgam po-derosos que o poder de verdade é maior que a chance que conseguem alguns de manipular o patrimônio público a bel-prazer. A estes, a his-tória reserva a verdade de suas naturezas; a ho-mens como Carmo, fica assegurado o lugar que lhes cabe por direito de vida, qual seja o reco-nhecimento e o respeito de seus pósteros.
Não gostaria de biografá-lo; muito já se escreveu sobre ele.
Não tenho estatura crítica para apreciar sua obra, e isto já se fez no âmbito acadêmico, até mesmo em redações de mestrado e teses de doutorado. Nunca fui mais que um mero leitor , aprendiz de sua verve. Com ele, em suas crôni-cas e artigos da década de 60, tive excelentes lições de jornalismo — a principal delas talvez seja a prática que cultivo de não pôr em letras de forma o nome de quem não o mereça.
Por patrono, tenho o também jornalista Moisés Augusto de Santana. Vilaboense, nasci-do no dia 7 de fevereiro de 1879, quis ser mili-tar. O temperamento irrequieto e a indisciplina de homem
Aquele começo de urbanização do único logradouro público de convívio e lazer — início inevitável de dezenas de novas famílias e que se resumia ao quadrado de cimento, postes orna-mentais e mudas crescentes de fícus em cada canto — é o cartão-postal que mais evoca a in-fância na remota e esquecida Caldas Novas das boas imagens. O despertar para o turismo nos anos 20 de mim, ou, se preferirem, a casa do tempo que vai de 1965 a 1975, foi significativo. Amadureceu o homem, transfigurou a cidadela.
Hoje, a lembrança dos anos verdes não confere com o cartão-postal que lhe deveria equivaler. As lembranças da paisagem são re-motas. Ficou o recordar do modo de sentir, do jeito de crescer. Há a lembrança das histórias contadas por minha mãe e que serviam para evocar o sono, um livro de páginas amareladas e capa dura, os Contos da Carochinha lidos com voz de acalanto, o beijo na testa, a oração de pedir que Deus nos protegesse e de esperar per-dão pelo dia de alegrias, como se fosse pecado ser criança e feliz.
Desde os mais tenros anos, os acordes em saraus musicais e suas inevitáveis conseqüênci-as, as serenatas, mostravam a carícia dos versos, vestidos em vestes as mais nobres, quais sejam as linhas melódicas. Era ainda um tempo de re-viver preciosidades de Chiquinha Gonzaga, Er-nesto Nazaré, Zequinha de Abreu, Noel Rosa e Lamartine Babo, mas sem desprezar as novida-des, e a novidade mais interessante era Luiz Gonzaga, cantando versos de Humberto Teixei-ra.
A esse ambiente, atribuo a razão de fugir das escalações para o joguinho de bola ao lado da igreja, preferindo dedicar-me a um novo e solitário passatempo, a leitura de imensas pilhas de gibis, descobertos entre os tesouros do primo Rogério, estudante interno em Araguari. Aquele acervo me convenceria, anos depois, que seu dono não teria sido um aluno 0brilhante, mas sempre o respeitaria por ser o responsável, entre outras qualidades e valores morais, pelo prazer descoberto do manuseio dessas coisas feitas em papel e tinta, pelas inebriantes viagens pelo des-conhecido e pelo inusitado a partir das páginas dos livros.
Tanta delonga sobre a infância para tentar justificar o ofício de escriba, a qualidade que me permitiu a sobrevivência nesta terra em que o berro do boi e a extensão monótona dos arais e dos vergéis valem mais que o cultivo das letras.
Acredito nas letras e nas mulheres e ho-mens de letras. E essa crença remonta aos anos dos primeiros aprendizados. Sou do tempo em que estudar os versos era indispensável, mas versejar era considerado uma prática afeminada. Nos primórdios do curso ginasial, no sempre amado Colégio Pedro II, questionava esse con-ceito ao observar que os versos que nos davam de beber foram, em sua quase totalidade abso-luta, criados por homens. E homens que tiveram força na história e geraram famílias que deles se orgulhavam. Já naquela época, no chacoalhar do trem de todos os dias a caminho do colégio, o ritmo das rodas duras sobre os rijos trilhos e o jogar inquieto dos vagões insinuavam versos. Imaginava-me Bandeira a criar a onomotopéia: "Café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão... Voa fumaça, corre cerca, ai, seu foguista, bota fogo na fornalha que eu preciso muita força, muita força, muita força..."
Sim, o menino precisava força. Não a for-ça dos tenazes conquistadores de espaços geo-gráficos, nem a força dos que erguem obras físi-cas ou constroem impérios. Geógrafo de forma-ção, parece que nasci para historiar. E como a força de que precisava não era para construir maravilhas da engenharia, o jornalismo foi cres-cendo como opção e prazer, tornando-se profis-são pouco após ter vindo a lume meu livro de estréia.
Leitor de colunistas como Adalgiza Nery, Stanislaw Ponte Preta e Nelson Rodrigues, em tempos da vivência adolescente na velha capital federal, encontrei em Anatole Ramos e Carmo Bernardes meus preferidos após o retorno ao Planalto Central, ambos cronistas no semanário Cinco de Março, depois no matutino O Popu-lar, teimosos em contestar o regime, hábeis em dizer pensamentos em letras de forma de modo a engambelar os censores.
Com o tempo, aprenderia a apreciar ou-tros notáveis homens de letras de nossa terra, em textos de jornais e de livros, e vou restringi-los aos membros desta Casa para não fazer desta peça, escrita para a fala, um enfadonho desfilar de nomes a que sou grato pelo bem que me fizeram ao espírito e pelo aprendizado. Fi-quemos, pois, em Bariani, Eli, Bernardo, Castro Quinta, os irmãos Mendonça Teles, meu velho amigo Coelho Vaz, meu quase irmão Brasigóis, Eliézer Penna — meu editor no já citado Cinco de Março —, Asmar e Bittencourt — compa-nheiros na Folha de Goiaz — e Eurico Barbosa — com quem convivi no Diário da Manhã.
A Carmo Bernardes atribuo o ato da pro-vocação para que me oferecesse ante as senho-ras e os senhores membros desta Academia. Demorei-me a tomar a decisão, e o fiz no mo-mento em que vagava a Cadeira número 8, do meu velho mestre José Sizenando Jayme, sendo vencido pelo notável Isócrates de Oliveira, vigá-rio de minha infância na pacata Caldas Novas. Naquela disputa, uma certeza nos norteava — assegurar um lampejo de continuidade na Cadei-ra, pois que o eleito, como seu antecessor, nas-ceram em Pirenópolis, cidade natal de meu pai e meu torrão preferido pelo sedimento das ori-gens.
Acredito que o fato de vir a ocupar a Ca-deira número 10, a mesma que ocupava Carmo Bernardes, cumpre uma ação de destino. Acom-panhei seus escritos de resistência desde os primórdios de 1963; preocupei-me quando de seu exílio nas lezírias do Araguaia, nos tempos tumultuados do golpe militar de 1964, e pude rir, feliz, ao ouvir que o general Riograndino Kruel, um dos líderes do sectário golpe, o teve por guia de pescaria, sem saber de sua vida. So-zinhos, na solidão dos lagos piscosos do Bana-nal, no limitado espaço de uma canoa, tendo entre ambos não mais que varas, linhas, iscas e molinete e uma espingarda. Talvez providencial, fosse Carmo sanguinário.
Carmo Bernardes trazia na índole a tradi-ção do bom mineiro, o homem da terra, o caipi-ra, na mais pura das acepções do termo, o ho-mem silencioso, observador, que pisa com segu-rança o terreno porque sabe que o mato reserva surpresas ao pé descalço. Mas corajoso o bas-tante para expor sua opinião, espalhar ao mundo sua indignação e mostrar aos que se julgam po-derosos que o poder de verdade é maior que a chance que conseguem alguns de manipular o patrimônio público a bel-prazer. A estes, a his-tória reserva a verdade de suas naturezas; a ho-mens como Carmo, fica assegurado o lugar que lhes cabe por direito de vida, qual seja o reco-nhecimento e o respeito de seus pósteros.
Não gostaria de biografá-lo; muito já se escreveu sobre ele.
Não tenho estatura crítica para apreciar sua obra, e isto já se fez no âmbito acadêmico, até mesmo em redações de mestrado e teses de doutorado. Nunca fui mais que um mero leitor , aprendiz de sua verve. Com ele, em suas crôni-cas e artigos da década de 60, tive excelentes lições de jornalismo — a principal delas talvez seja a prática que cultivo de não pôr em letras de forma o nome de quem não o mereça.
Por patrono, tenho o também jornalista Moisés Augusto de Santana. Vilaboense, nasci-do no dia 7 de fevereiro de 1879, quis ser mili-tar. O temperamento irrequieto e a indisciplina de homem
919
Lucília Cândida Sobrinho
Tempo de Ilusões
As nuvens passam
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —
Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.
Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.
899
Luiz Nogueira Barros
Do Lírio e da Estrela
De certezas foi a ponte construída.
E a estação, de aromas benfazejos,
fazia antesonhar a flor
nutrida do silêncio da procura.
Calmo rio, teu profundo olhar
ainda refletia lembranças delicadas
dos verdes vales dos caminhos que,
arriscando paisagens proseguiste,
trazendo em teu ventre o intocado
lírio para a festa das fronteiras
da madrugada consumida em chamas.
E quando despertamos era noite ainda:
e o lírio feito estrela já brilhava
- incorporado ao céu das nossas vidas.
E a estação, de aromas benfazejos,
fazia antesonhar a flor
nutrida do silêncio da procura.
Calmo rio, teu profundo olhar
ainda refletia lembranças delicadas
dos verdes vales dos caminhos que,
arriscando paisagens proseguiste,
trazendo em teu ventre o intocado
lírio para a festa das fronteiras
da madrugada consumida em chamas.
E quando despertamos era noite ainda:
e o lírio feito estrela já brilhava
- incorporado ao céu das nossas vidas.
890
Leopoldo Neto
Coreaú
Coreaú , minha terra querida
Do mesmo nome, te banha um rio ,
Onde muito tomei banho e senti frio ,
Na aurora da minha vida !...
És tu bela, és forte, mas traída ,
Por alguém que há muito, viste nascer
Mas , ainda tem , quem te dê guarida
Para quem te traiu , te ver crescer !...
És tão bela, que trouxeste inspiração ,
Para com versos, partidos do coração
Teu filho humilde te ofertar.
Estes versos, são para ti, terra nobre
De um filho , que nasceu em berço pobre...
Mas não te traiu , nem te trairá jamais !...
Do mesmo nome, te banha um rio ,
Onde muito tomei banho e senti frio ,
Na aurora da minha vida !...
És tu bela, és forte, mas traída ,
Por alguém que há muito, viste nascer
Mas , ainda tem , quem te dê guarida
Para quem te traiu , te ver crescer !...
És tão bela, que trouxeste inspiração ,
Para com versos, partidos do coração
Teu filho humilde te ofertar.
Estes versos, são para ti, terra nobre
De um filho , que nasceu em berço pobre...
Mas não te traiu , nem te trairá jamais !...
1 296
Linhares Filho
A Minha Mãe, Habitante da Morte
Tua branca rede já não se arma
para a sesta. Todavia guardo,
com o ranger longínquo dos armadores,
a placidez do teu sono
a entreter o meu sonho
No teu aposento, mansa e invisível, dorme uma ave.
À mesa posta, entre o apetite e a lembrança,
há uma cadeira sem dono.
Falta ao alimento o tempero
que de tuas mãos ninguém pôde aprender.
Mas junto a mim está um cântaro
que se encheu de lágrimas que libertam.
As dálias do jardim continuam a florescer,
cada ano, tão brancas, tão viçosas! Contudo
parecem reclamar a sutileza
de um carinho que o meu sono não esquece...
Teus pincéis dormem
com a resignação de pincéis,
Minha alma imperfeita, a despeito de teres sido
artista perfeita, pede, todo dia,
os últimos retoques.
Santa e elmo,
no navio em que eu encontrar borrasca,
os teus olhos serão santelmo...
No silêncio noturno não se ouvem mais
os passos cautelosos com que fechavas
a janela que dá para a rua,
no entanto percebo,
na lã escura da noite,
o abrigo do teu xale.
para a sesta. Todavia guardo,
com o ranger longínquo dos armadores,
a placidez do teu sono
a entreter o meu sonho
No teu aposento, mansa e invisível, dorme uma ave.
À mesa posta, entre o apetite e a lembrança,
há uma cadeira sem dono.
Falta ao alimento o tempero
que de tuas mãos ninguém pôde aprender.
Mas junto a mim está um cântaro
que se encheu de lágrimas que libertam.
As dálias do jardim continuam a florescer,
cada ano, tão brancas, tão viçosas! Contudo
parecem reclamar a sutileza
de um carinho que o meu sono não esquece...
Teus pincéis dormem
com a resignação de pincéis,
Minha alma imperfeita, a despeito de teres sido
artista perfeita, pede, todo dia,
os últimos retoques.
Santa e elmo,
no navio em que eu encontrar borrasca,
os teus olhos serão santelmo...
No silêncio noturno não se ouvem mais
os passos cautelosos com que fechavas
a janela que dá para a rua,
no entanto percebo,
na lã escura da noite,
o abrigo do teu xale.
598
Lúcio José Gusman
Sabor
E depois do amor,
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...
874
Lúcio José Gusman
A segunda canção desesperada
"Sobre mi corazón llueven frías corolas.Oh sentina de escombros, feroz cueva de náufragos!"(Pablo Neruda - La canción desesperada)
Tua lembrança povoa as horas tristes
da noite desesperançada em que estou.
Em moldura de ébano e estampa de cristal
povoa minhas horas tua figura de fada e de ternura.
Meu coração, deserdado a golpes de punhal,
teima em bater descompassado e exangue.
Em ti se acumularam expectativas e anseios,
de ti alçaram vôo graves sonhos e ilusões candentes.
Eras o renascer de minha alma, a minha vida,
meu despertar em meio à solidão que desampara.
Qual bandeira em paragem inóspita e inculta,
teu corpo me penetrou vazando as corolas dos meus sentidos.
Viajantes das estradas iluminadas das quimeras incendidas,
juntos alcançamos os umbrais dos páramos do amor.
Oh! Os lábios mordiscados, os corpos entrelaçados
em instantes de ternura e sublime obsessão.
Oh! Obsessão crivada de desejos incontidos,
brotados das profundezas intangíveis do amor inacabado!
Ternura suavemente sussurrada a meia luz,
por entre os alvos dentes de tua arcada faiscante e bela.
Tua beleza etérea permanece como o melhor presente,
doce recordação que fere e mata a uma só vez.
Tua presença me retrocede à florida campina dos sonhos,
levando-nos lado a lado além do fato e do desejo.
Esse meu desejo de ti e esse teu desejo de mim
se eternizaram na paz e na luz que tu me deste.
Quantas lágrimas se secaram nos arcos dos teus retesados ombros,
quanto riso agasalhado em teu colo alvo e macio!
Ter na, encantadora, menina e fada - única - ,
os brilhos dos teus olhos meigos se cravaram no meu dentro.
Em mim havia sede, fome, solidão e mágoa:
foste a água, o fruto, a companhia suave e a alegria.
Agora, há uma estrela ascendente irradiante em sua luz,
e, bem perto, uma nave sem rumo cercada de portos inseguros.
Deuses, que embalastes os sonhos de tantos amantes,
dizei-me, ó deuses, a que inferno o abandonado chegará!
Abelardo e Heloísa, Quixote e Dulcinéia, Romeu e Julieta,
por que sugastes todo o néctar da flor do amor corrrespondido?
Mistério. É noite. No dentro e no fora. Mistério e noite.
Sigo caminhando, a cruz do desencanto cravada no meu peito.
Apesar, a menina-que-veio-dos-céus, a fada-ternura,
terá sempre vindo dos céus, será sempre a fada ternura.
Linda, linda, terna e meiga, fada-menina
à procura do amor que te falhei em dar...
Tua lembrança povoa as horas tristes
da noite desesperançada em que estou.
Em moldura de ébano e estampa de cristal
povoa minhas horas tua figura de fada e de ternura.
Meu coração, deserdado a golpes de punhal,
teima em bater descompassado e exangue.
Em ti se acumularam expectativas e anseios,
de ti alçaram vôo graves sonhos e ilusões candentes.
Eras o renascer de minha alma, a minha vida,
meu despertar em meio à solidão que desampara.
Qual bandeira em paragem inóspita e inculta,
teu corpo me penetrou vazando as corolas dos meus sentidos.
Viajantes das estradas iluminadas das quimeras incendidas,
juntos alcançamos os umbrais dos páramos do amor.
Oh! Os lábios mordiscados, os corpos entrelaçados
em instantes de ternura e sublime obsessão.
Oh! Obsessão crivada de desejos incontidos,
brotados das profundezas intangíveis do amor inacabado!
Ternura suavemente sussurrada a meia luz,
por entre os alvos dentes de tua arcada faiscante e bela.
Tua beleza etérea permanece como o melhor presente,
doce recordação que fere e mata a uma só vez.
Tua presença me retrocede à florida campina dos sonhos,
levando-nos lado a lado além do fato e do desejo.
Esse meu desejo de ti e esse teu desejo de mim
se eternizaram na paz e na luz que tu me deste.
Quantas lágrimas se secaram nos arcos dos teus retesados ombros,
quanto riso agasalhado em teu colo alvo e macio!
Ter na, encantadora, menina e fada - única - ,
os brilhos dos teus olhos meigos se cravaram no meu dentro.
Em mim havia sede, fome, solidão e mágoa:
foste a água, o fruto, a companhia suave e a alegria.
Agora, há uma estrela ascendente irradiante em sua luz,
e, bem perto, uma nave sem rumo cercada de portos inseguros.
Deuses, que embalastes os sonhos de tantos amantes,
dizei-me, ó deuses, a que inferno o abandonado chegará!
Abelardo e Heloísa, Quixote e Dulcinéia, Romeu e Julieta,
por que sugastes todo o néctar da flor do amor corrrespondido?
Mistério. É noite. No dentro e no fora. Mistério e noite.
Sigo caminhando, a cruz do desencanto cravada no meu peito.
Apesar, a menina-que-veio-dos-céus, a fada-ternura,
terá sempre vindo dos céus, será sempre a fada ternura.
Linda, linda, terna e meiga, fada-menina
à procura do amor que te falhei em dar...
1 010
Luiz Fernandes da Silva
Carrossel
Em cada rodada
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
1 183
Maria Thereza Noronha
Soneto ao Estilo Neo-clássico
Em verde indiferença me pressinto
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
1 000
Al Berto
Tentativas para um Regresso à Terra
O sol ensina o único caminho
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras
falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis
hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície
caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras
falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis
hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície
caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos
6 645
Thereza Magalhães Pinto
Intransferível
Deixo exiladas
na distância do tempo
efêmero e rude
as lembranças do amor
que vive em mim e
exaltei mais do que pude.
Queixo-me calada
um saldar de profundo
escuro olhar de sensações
e luzes enfim
inexistentes.
Concentro-me
impiedosa, veemente
nos meus
séculos incríveis
de solidão total.
na distância do tempo
efêmero e rude
as lembranças do amor
que vive em mim e
exaltei mais do que pude.
Queixo-me calada
um saldar de profundo
escuro olhar de sensações
e luzes enfim
inexistentes.
Concentro-me
impiedosa, veemente
nos meus
séculos incríveis
de solidão total.
982
Maria Thereza Noronha
Elegia a Sérgio Campos
"O pássaro morto é seu vôo pousado na morte"
(Sérgio Campos)
A poesia soltava as amarras, aportava
na sala. Viesse de Nova Friburgo,
da Ilha do Governador. Desafiava
a ira dos dias, reacendia
o itinerário das cinzas, viajeira
de um mar anterior.
E chegavam praias, ilhas,
seixos, harpas, naves,
mares absolutos e abismos
de significados de ardilosa chave.
E vinham mitos navegando lendas,
ancorando nos páramos da página,
Ninfas e faunos farfalhando outonos
na exatidão dos sons.
Memória de Sérgio
no ouro dos versos
nos teares de prata, onde tramava
dos heróis epicédio e hospedaria.
Memória de Sérgio
nas rotas de sal
no avesso das palavras à deriva
no punho do poeta feito areia.
(Sérgio Campos)
A poesia soltava as amarras, aportava
na sala. Viesse de Nova Friburgo,
da Ilha do Governador. Desafiava
a ira dos dias, reacendia
o itinerário das cinzas, viajeira
de um mar anterior.
E chegavam praias, ilhas,
seixos, harpas, naves,
mares absolutos e abismos
de significados de ardilosa chave.
E vinham mitos navegando lendas,
ancorando nos páramos da página,
Ninfas e faunos farfalhando outonos
na exatidão dos sons.
Memória de Sérgio
no ouro dos versos
nos teares de prata, onde tramava
dos heróis epicédio e hospedaria.
Memória de Sérgio
nas rotas de sal
no avesso das palavras à deriva
no punho do poeta feito areia.
837
Leão Júnior
Tempo Tempo
certifique-se de que o tempo
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia
do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio
para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria
o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história
a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história
aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio
e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas
que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas
são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)
que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens
que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam
sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio
é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça
pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas
obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição
mal começada a jornada
chegam arquitetos do não
tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado
e rumina arruinando
a forma não digerida
tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo
enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes
quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez
aos homens transmitiu a técnica
de não esperar
nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu
perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente
o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados
quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado
os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado
fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho
(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória
se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)
a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais
quase nada extrai da falta
de origem ou fim
a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte
quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado
a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas
no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar
a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência
a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.
no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa
como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta
e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada
tua vida recordada
Por um apagado de charge
o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente
expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo
e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo
mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo
quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação
que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias
quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável
que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem
a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça
se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado
a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato
para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados
escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala
mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam
e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age
escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga
e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga
deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo
teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez
derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo
os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda
os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda
saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos
que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias
nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia
nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados
pelos becos mais dispersos
das páginas e
417
Lélia Coelho Frota
Hipótese de Maio
Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
1 040
Lago Burnett
A Última Canção da Ilha
Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
958
Leda Costa Lima
Nuvens do Passado
Nuvens do passado,
negras, nebulosas,
de fatos marcantes
— já semi-esquecidos,
por que relembrar?
Contidas em caixa,
o tempo-borracha,
às vezes apaga,
lançando bem fundo,
dentro de um porão.
A caixa é escura:
— é o inconsciente,
parede invisível...
Confirmado, Freud?
Nuvens cor-de-rosa,
de sonhos dourados,
já concretizados,
de amores vividos
no nosso passado
ou vivenciados
no nosso presente,
convém relembrar!
Confirmado, gente?
Nuvens tão douradas,
sonhos aguardados,
que ainda estão por vir
no nosso porvir,
convém esperar
e sempre a sonhar!
Confirmado, amor?
negras, nebulosas,
de fatos marcantes
— já semi-esquecidos,
por que relembrar?
Contidas em caixa,
o tempo-borracha,
às vezes apaga,
lançando bem fundo,
dentro de um porão.
A caixa é escura:
— é o inconsciente,
parede invisível...
Confirmado, Freud?
Nuvens cor-de-rosa,
de sonhos dourados,
já concretizados,
de amores vividos
no nosso passado
ou vivenciados
no nosso presente,
convém relembrar!
Confirmado, gente?
Nuvens tão douradas,
sonhos aguardados,
que ainda estão por vir
no nosso porvir,
convém esperar
e sempre a sonhar!
Confirmado, amor?
925
Lígia Diniz
Depois (de pensar em você)
Sempre, de tudo, fica um pouco
Te roubo de ti sem perceberes
Te roubo de mim sem perceber
Urges, dirias.
Mas eu, também eu, te necessito.
Fica um pouco de tudo sempre
Das tuas palavras
E do teu silêncio.
Da tua fala morna
Do teu silêncio de cristal
(porque, soprando, quebra-se).
Um pouco de tudo sempre fica
Não importa a que conclusão chegamos
E nem que chegamos, se chegamos.
Sempre fica o caminho.
O caminho eu guardo sem notar
Te roubo o caminho?
De tudo sempre de pouco fazemos muito
Dos teus beijos, das tuas mãos
Das minhas mãos e das palavras
Sempre das palavras, nosso engano
E correção.
Te roubo de ti sem perceberes
Te roubo de mim sem perceber
Urges, dirias.
Mas eu, também eu, te necessito.
Fica um pouco de tudo sempre
Das tuas palavras
E do teu silêncio.
Da tua fala morna
Do teu silêncio de cristal
(porque, soprando, quebra-se).
Um pouco de tudo sempre fica
Não importa a que conclusão chegamos
E nem que chegamos, se chegamos.
Sempre fica o caminho.
O caminho eu guardo sem notar
Te roubo o caminho?
De tudo sempre de pouco fazemos muito
Dos teus beijos, das tuas mãos
Das minhas mãos e das palavras
Sempre das palavras, nosso engano
E correção.
829
José Sarney
Carta do Anti-Santo José
aos seus tristes
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
1 647
Luís António Cajazeira Ramos
O Canto do Cisne
Quando me vi no instante derradeiro,
a musa das vontades (ela existe!),
num tom que é quase sempre terno e triste,
ofereceu-me o último desejo.
Não sei dizer que brumas me envolveram
nas lembranças de amores que não tive.
Que saudade me deu!... Desde as raízes,
degredos mal guardados soergueram.
Momento de magia e plenitude,
fremi no ardor de lívidos enlevos;
meu sonho se elevou que a mais nem pude.
Qual desejo matar?... Qual liberdade?...
Ó musa maga! música sem medos!
Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me!
a musa das vontades (ela existe!),
num tom que é quase sempre terno e triste,
ofereceu-me o último desejo.
Não sei dizer que brumas me envolveram
nas lembranças de amores que não tive.
Que saudade me deu!... Desde as raízes,
degredos mal guardados soergueram.
Momento de magia e plenitude,
fremi no ardor de lívidos enlevos;
meu sonho se elevou que a mais nem pude.
Qual desejo matar?... Qual liberdade?...
Ó musa maga! música sem medos!
Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me!
1 221
Luiz Augusto Kehl
Tintim
Entre a noite e a aurora, nalguma hora em que vaga a mente
e vê o que foi sem ter sido,
noutras noites, a bordo daquele cargueiro rangente,
na Filipina distante, ou nalgum porto, no Pacífico imenso,
pedras do calçamento molhado rebrilhantes à luz da lua,
meandros de ruas e casas à fraca vela dos postes,
ninhos de putas às portas dos bares em que nunca estivemos,
sombras e luzes e o girar lento das palmeiras e das pás de vento
pendentes no teto descansando, banhando-se nas fímbrias e nas
réstias
de luz por entre cortinados de bambu, e a fumaça
de milhares de cigarros vagabundos misturando-se
aos perfumes molhados da selva e das veredas tropicais sob as
estrelas;
e embarcávamos resolutos
nalgum navio de ferro e homens suados em que não fomos
tatuados de amor e morte entre calados sábios papagaios,
sinais de rádio e de telégrafo, carcaça balouçante entre as ondas
e o praguejar do cozinheiro, relâmpagos e trovões oceânicos
rugentes
sobre os lamentos cavos das vagas a nos tragar
e a nos vomitar um dia nas calmarias e no sal do mar, a nós
inebriados do sal lambido dos sovacos das cadelas das bairas dos
cais
a naufragar-nos dentro da goela macia da baleia, entranhas
de mobydick e matahari, sexo dos contrabandistas e dos piratas
e nada além de uma página de pergaminho virada encharcada
coberta de nada, e significando tudo.
e vê o que foi sem ter sido,
noutras noites, a bordo daquele cargueiro rangente,
na Filipina distante, ou nalgum porto, no Pacífico imenso,
pedras do calçamento molhado rebrilhantes à luz da lua,
meandros de ruas e casas à fraca vela dos postes,
ninhos de putas às portas dos bares em que nunca estivemos,
sombras e luzes e o girar lento das palmeiras e das pás de vento
pendentes no teto descansando, banhando-se nas fímbrias e nas
réstias
de luz por entre cortinados de bambu, e a fumaça
de milhares de cigarros vagabundos misturando-se
aos perfumes molhados da selva e das veredas tropicais sob as
estrelas;
e embarcávamos resolutos
nalgum navio de ferro e homens suados em que não fomos
tatuados de amor e morte entre calados sábios papagaios,
sinais de rádio e de telégrafo, carcaça balouçante entre as ondas
e o praguejar do cozinheiro, relâmpagos e trovões oceânicos
rugentes
sobre os lamentos cavos das vagas a nos tragar
e a nos vomitar um dia nas calmarias e no sal do mar, a nós
inebriados do sal lambido dos sovacos das cadelas das bairas dos
cais
a naufragar-nos dentro da goela macia da baleia, entranhas
de mobydick e matahari, sexo dos contrabandistas e dos piratas
e nada além de uma página de pergaminho virada encharcada
coberta de nada, e significando tudo.
505
Valéry Larbaud
Mise au Point
Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.
E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.
Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.
E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.
Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.
988
Luís António Cajazeira Ramos
Ai, Cais!
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.
Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.
Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.
Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.
Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...
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