Poemas neste tema
Nação e Patriotismo
Renato Castelo Branco
Brasil
Não te verei, Brasil,
a grande pátria dos trópicos.
Não te verei, remido,
igualares o sonho
dos teus artistas e dos teus poetas.
Não te verei
abençoado por teus filhos,
Canaã prometida,
terra que mana leite e mel.
Mas estarei presente à tua glória
no sangue dos meus filhos
e dos netos dos meus netos.
a grande pátria dos trópicos.
Não te verei, remido,
igualares o sonho
dos teus artistas e dos teus poetas.
Não te verei
abençoado por teus filhos,
Canaã prometida,
terra que mana leite e mel.
Mas estarei presente à tua glória
no sangue dos meus filhos
e dos netos dos meus netos.
1 046
Sidney Neto
O Solar dos Heróis
Cearenses, vocês querem ver
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
354
José Costa Matos
A Vida
A vida não dá presentes.
Podemos até:
colher duas estrelas para reacender
os olhos de Jorge Luís Borges;
denunciar a Deus que os povos ricos
riscaram do dicionário
as moedas dos povos pobres;
revitalizar a esperança no milenarismo,
onde os utopistas de tantos séculos
marcam encontros
para falar mal da natureza humana;
entregar Fernando Pessoa à Polícia,
para protegê-lo dos assaltantes de idiossincrasias;
fundar pátrias, com bandeiras
e hinos de arrepios cívicos.
A vida não dá presentes.
Podemos até:
governar o Brasil com a Constituição-Artigo-Único
de Capistrano de Abreu;
pintar de saúde
os meninos doentes do Nordeste;
escutar as glórias das velhas prostitutas
do Cais de Santos;
entrar na guerra e salvar dos arranha-céus
as mangueiras de Fortaleza;
vestir a sotaina dos jesuítas
e aldear as lagostas no fundo do mar,
contra os Bandeirantes do Capitalismo aqui-e-agora;
retroagir a Máquina do Tempo
e refazer o mundo
sem a semeadura de pavores
que assustou o nosso Pedro Nava;
levar o Pontífice Paulo II ao Congresso Brasileiro
para testemunhar que os índios não são bichos.
Mas a vida não dará presentes.
A plenitude humana
é trabalho de mineração,
com galerias cavadas no Infinito.
Podemos até:
colher duas estrelas para reacender
os olhos de Jorge Luís Borges;
denunciar a Deus que os povos ricos
riscaram do dicionário
as moedas dos povos pobres;
revitalizar a esperança no milenarismo,
onde os utopistas de tantos séculos
marcam encontros
para falar mal da natureza humana;
entregar Fernando Pessoa à Polícia,
para protegê-lo dos assaltantes de idiossincrasias;
fundar pátrias, com bandeiras
e hinos de arrepios cívicos.
A vida não dá presentes.
Podemos até:
governar o Brasil com a Constituição-Artigo-Único
de Capistrano de Abreu;
pintar de saúde
os meninos doentes do Nordeste;
escutar as glórias das velhas prostitutas
do Cais de Santos;
entrar na guerra e salvar dos arranha-céus
as mangueiras de Fortaleza;
vestir a sotaina dos jesuítas
e aldear as lagostas no fundo do mar,
contra os Bandeirantes do Capitalismo aqui-e-agora;
retroagir a Máquina do Tempo
e refazer o mundo
sem a semeadura de pavores
que assustou o nosso Pedro Nava;
levar o Pontífice Paulo II ao Congresso Brasileiro
para testemunhar que os índios não são bichos.
Mas a vida não dará presentes.
A plenitude humana
é trabalho de mineração,
com galerias cavadas no Infinito.
1 021
Hélio Simões
Duas Cidades
Séculos caminharam sobre a pedra
O muro enegreceu.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
Guimarães é a pia batismal
e o castelo roqueiro.
Aqui nasceu Afonso, o príncipe, Primeiro
e ao designo de Deus que tudo impele
nasceu com ele
Portugal.
Séculos caminharam sobre a pedra
o muro enegreceu...
Brasília é o crisma. Novo
anseio de fé ardendo no planalto,
confirmação de um povo
no seu destino alto.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
O muro enegreceu.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
Guimarães é a pia batismal
e o castelo roqueiro.
Aqui nasceu Afonso, o príncipe, Primeiro
e ao designo de Deus que tudo impele
nasceu com ele
Portugal.
Séculos caminharam sobre a pedra
o muro enegreceu...
Brasília é o crisma. Novo
anseio de fé ardendo no planalto,
confirmação de um povo
no seu destino alto.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
892
Edigar de Alencar
Lenda
Um dia o sol levantou-se aborrecido
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
928
Edigar de Alencar
Cidade-Sol
Cidade pequena, lavada de sol,
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...
1 073
Celso Pinheiro
Gilbués
Gilbués! Gilbués! ó terra alvissareira,
Como uma flor sonhando aos ósculos do clima!
Que ternura, que amor, que glória é que te anima,
Ó soberba porção da Pátria Brasileira?!...
Foi aqui que pousou a sílfide primeira,
Esfolhando, a cantar, o bogari da Rima,
E a Santa Primavera, em coleios de esgrima,
Semeou graças, perdões e alou-se feiticeira...
Ó doce Gilbués de Serras e Malhadas,
As blandícias de um céu de seda e de veludo,
Como um desdobramento eterno de Alvoradas!
Que pena eu te avistar sob a angustura louca
Da Mágoa que me põe no inferno deste entrudo:
— Fel no coração, fel nos olhos, fel na boca!...
Como uma flor sonhando aos ósculos do clima!
Que ternura, que amor, que glória é que te anima,
Ó soberba porção da Pátria Brasileira?!...
Foi aqui que pousou a sílfide primeira,
Esfolhando, a cantar, o bogari da Rima,
E a Santa Primavera, em coleios de esgrima,
Semeou graças, perdões e alou-se feiticeira...
Ó doce Gilbués de Serras e Malhadas,
As blandícias de um céu de seda e de veludo,
Como um desdobramento eterno de Alvoradas!
Que pena eu te avistar sob a angustura louca
Da Mágoa que me põe no inferno deste entrudo:
— Fel no coração, fel nos olhos, fel na boca!...
1 332
Durvalino Filho
O Rei Estava Ensimesmado
O rei estava ensimesmado,
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
369
Artur de Sales
Grega
Recordo as glórias imortais e as lendas
Da tua Pátria, ó bela peregrina...
Recordo Queronéia e Salamina,
Lanças, escudos e as guerreiras tendas.
Lembro Cassandra e as predições tremendas.
Passam, num sonho fúlgido, à retina,
Homero e as Musas, a legião divina,
Do Tempo, eternos, palmilhando as sendas.
Mas o sonho maior e mais radiante,
É essa visão remota e perturbante,
Esse plaino da Argólida deserta
De onde penso que vens, de mirto e louro
Coroado a fronte, e toda, toda do ouro
Do sepulcro dos Átridas coberta.
Da tua Pátria, ó bela peregrina...
Recordo Queronéia e Salamina,
Lanças, escudos e as guerreiras tendas.
Lembro Cassandra e as predições tremendas.
Passam, num sonho fúlgido, à retina,
Homero e as Musas, a legião divina,
Do Tempo, eternos, palmilhando as sendas.
Mas o sonho maior e mais radiante,
É essa visão remota e perturbante,
Esse plaino da Argólida deserta
De onde penso que vens, de mirto e louro
Coroado a fronte, e toda, toda do ouro
Do sepulcro dos Átridas coberta.
708
Adriana Abdenur
Pátria
Pátria
Era pequenininha. Bebia no leite de minha mãe
os resquícios de sua nostalgia,
e à noite, embriagada, chorava de saudades
de uma terra que tampouco conhecia.
Cresci fabricando números para contar a nossa distância:
falava de léguas e de nós, de jardas infinitas.
Vivia uma vida centrífuga em torno do teu turbilhão,
fazendo de conta que meu eixo
era mais que uma ilusão.
Falava em voltar sem jamais ter ido,
fingindo que te pertencia.
Via teu rosto imprimido
nos jornais da tarde, nos cartões postais, e ria:
-- Vou morar lá um dia, eu dizia.
Mas a vida fez-se ao meu redor,
e ancorou-me no lado de fora.
Vivo agora com a angústia de saber
que a saudade que não se mata
tampouco vai-se embora.
Vejo-me de casa feita e filha no colo.
Sei que lhe passo no leite sedes mais atrozes
do que aquela que sacio:
a vontade de relembrar
um passado ainda vazio,
e a saudade que nos persegue
por esta vida no exílio.
Era pequenininha. Bebia no leite de minha mãe
os resquícios de sua nostalgia,
e à noite, embriagada, chorava de saudades
de uma terra que tampouco conhecia.
Cresci fabricando números para contar a nossa distância:
falava de léguas e de nós, de jardas infinitas.
Vivia uma vida centrífuga em torno do teu turbilhão,
fazendo de conta que meu eixo
era mais que uma ilusão.
Falava em voltar sem jamais ter ido,
fingindo que te pertencia.
Via teu rosto imprimido
nos jornais da tarde, nos cartões postais, e ria:
-- Vou morar lá um dia, eu dizia.
Mas a vida fez-se ao meu redor,
e ancorou-me no lado de fora.
Vivo agora com a angústia de saber
que a saudade que não se mata
tampouco vai-se embora.
Vejo-me de casa feita e filha no colo.
Sei que lhe passo no leite sedes mais atrozes
do que aquela que sacio:
a vontade de relembrar
um passado ainda vazio,
e a saudade que nos persegue
por esta vida no exílio.
1 034
Teixeira de Melo
Ao Sol
Não te amo, ó Sol, senão como rascunho
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.
Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!
Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!
Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!
É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.
Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!
Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,
No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.
Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.
Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!
Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!
Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!
É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.
Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!
Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,
No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.
Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!
1 031
Waldy Sombra
Meu Chão, Minha Canção
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
464
Salomé Queiroga
Piparotes na estátua eqüestre de Pedro I
Pobre país, não tens fé,
Não te causa o crime abalo!
Deixas a virtude a pé,
E pões o vício a cavalo.
Ei-lo! a nova geração
Tem-no aqui bem verdadeiro:
Sem possuir coração
E de bronze todo inteiro.
Esse, que vês esculpido
No bronze monumental,
Foi cá no Brasil Cupido,
Marte foi em Portugal.
Como um primor se apregoa
A estátua de Luís Rochet,
Não pode ser coisa boa:
— "Rien n’est beau que le vrai."
Não te causa o crime abalo!
Deixas a virtude a pé,
E pões o vício a cavalo.
Ei-lo! a nova geração
Tem-no aqui bem verdadeiro:
Sem possuir coração
E de bronze todo inteiro.
Esse, que vês esculpido
No bronze monumental,
Foi cá no Brasil Cupido,
Marte foi em Portugal.
Como um primor se apregoa
A estátua de Luís Rochet,
Não pode ser coisa boa:
— "Rien n’est beau que le vrai."
874
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Mátria
Terra natal, formosa entre as formosas,
abriste para nós a tua luz.
Nesse teu seio, trescalante a rosas,
existe um povo altivo que seduz.
As fibras imortais e generosas
daqueles que te honraram, faze, flux,
que as imitem, viris e justiçosas,
no culto à liberdade que transluz.
O’ gleba de operários e guerreiros !
No trabalho geral ou na cultura,
ante a paz, nunca fomos derradeiros.
Tu, Alagoas, que o valor constróis,
orgulha-te de ler a história pura:
nos campos de batalha - teus heróis.
( datados de novembro de 1956)
abriste para nós a tua luz.
Nesse teu seio, trescalante a rosas,
existe um povo altivo que seduz.
As fibras imortais e generosas
daqueles que te honraram, faze, flux,
que as imitem, viris e justiçosas,
no culto à liberdade que transluz.
O’ gleba de operários e guerreiros !
No trabalho geral ou na cultura,
ante a paz, nunca fomos derradeiros.
Tu, Alagoas, que o valor constróis,
orgulha-te de ler a história pura:
nos campos de batalha - teus heróis.
( datados de novembro de 1956)
869
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Pátria
Vasto no solo, forte pela raça,
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.
Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.
Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.
É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.
Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.
Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.
É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.
971
Silvestre de Oliveira Serpa
A El-Rei Nosso Senhor e Protetor
Essa de Jove parto mais que humano,
Palas douta, Tritônia belicosa
Ao arnês militar, a toga honrada
Antepõe por obséquio o Lusitano.
As armas que lhe foram timbre ufano,
Pelas Letras demite vangloriosa;
De que nome maior nas letras goza,
Pelo Rei Luso, Jove Soberano.
Estes dos Renascidos luzimentos,
Por quanto gira o Sol e o pólo abarca,
De glória para o Rei são instrumentos:
Que a Fênix superando as leis da Parca
Tanto são para as letras, os aumentos
Quanto são os pregões para o Monarca.
Palas douta, Tritônia belicosa
Ao arnês militar, a toga honrada
Antepõe por obséquio o Lusitano.
As armas que lhe foram timbre ufano,
Pelas Letras demite vangloriosa;
De que nome maior nas letras goza,
Pelo Rei Luso, Jove Soberano.
Estes dos Renascidos luzimentos,
Por quanto gira o Sol e o pólo abarca,
De glória para o Rei são instrumentos:
Que a Fênix superando as leis da Parca
Tanto são para as letras, os aumentos
Quanto são os pregões para o Monarca.
732
Ruy Pereira e Alvim
Monólogo em Noite sem Estrelas
Da pátria chegam as noites
como semáforos vermelhos
a interromper o caminho
por onde me afoito.
E o jogo de palavras
percorre o tempo
à procura de um sonho entorpecido.
O continente esvazia-se
e flutua sobre pélagos
gelados:
só contém loucura
e sonhos sufocados.
Emergem estranhos arquipélagos
de um estranho rito
de anjos mascarados.
As estrelas apagam suas luzes
e o céu dorme às escuras
na longa noite sem poemas.
como semáforos vermelhos
a interromper o caminho
por onde me afoito.
E o jogo de palavras
percorre o tempo
à procura de um sonho entorpecido.
O continente esvazia-se
e flutua sobre pélagos
gelados:
só contém loucura
e sonhos sufocados.
Emergem estranhos arquipélagos
de um estranho rito
de anjos mascarados.
As estrelas apagam suas luzes
e o céu dorme às escuras
na longa noite sem poemas.
875
Ruy Pereira e Alvim
Manifesto I - Contra o Vento
Príncipe,
cavaleiro audaz
espada cingida
ao pensamento;
Lança erguida
pelo advento
da Nação que faz.
Nem dúvida nem vento
que afaste o braço
criador do evento.
A História
é vontade
de ser
em movimento.
cavaleiro audaz
espada cingida
ao pensamento;
Lança erguida
pelo advento
da Nação que faz.
Nem dúvida nem vento
que afaste o braço
criador do evento.
A História
é vontade
de ser
em movimento.
858
Cezário de Sousa
Continente Brasília
gente de toda parte
arte parte arte parte arte
status estata!
povoação enigmação, _
vazio normal buracultural
diz para mim
enfim, qual teu mal?
Gente de toda arte
quem há derrado afinal?
Onde esteve teu futuro
esse todo tempo
teu fu turo teu futuro teu
tu és boi e computador
qualquer coisa assim
olha aesse cerrado será nosso
será cerrado será cerrado será
que fizeram das lembranças
das mortes da tua infância?
no des-contar da tua glória
ó cidade bela
fizeram jorrar sangue
teu solo foi manchado
continente brazilha
gente de toda mente
a seta da arte incerta te alvejará
pra espalhar flores em forma de trigo
teus hômi é teus próprio inimigo
e a seta da arte incerta não parte
teu lago afundará
vai ser até bão de pescar
mas tuelitelitista num vai tão cedo acabar
vumbora vumbora povo!
(palavra de novo mal dita)
na garganta da gravata
teúnico jota cá paz de ser gente
foi-se in-esperado
teus solitários lares decentes
teu dom bosco poliético visionário
teus vários bonitos espaços vazios
onde nos levaremos?
brazileira
filha
tu és brazileira
menina menina menina
cabeça de menina ·
corpo de cheiro de ânsia
continentalmentilha
corcheirosa de cabelos amanteigados
mão te queira
mantequilla
mãe e filha
mar à vila do sossego
desapego
tu és o concreto da arquijuntura
tu futuras
pelos passos dos teus filhos ilhos
para que quem porque foste criada
hoje agora em tédio nadas
pré destinada a ser fada
místico interpretada
lança jogada no centro
vento passaporte muldireções
oeste pé na estrada
abra
berre
erre
ria
tenha
uma
rota
agora
?
Ilha maravilhosamente certa
reta cabeça da nação
decisão precisão ver se dão lassidaão
perfidocraticamente sem coração
teus satélites querem tua luz planoalto
não brilharias tu alguma vez
não terias asas na inspiração?
Onde estaria escondida a vontade do nosso peito
nas asas na cabeça ou no coração do avião?
Gente de toda ilha
sente de toda falta
mente de toda farda
pente de todo flerte
rente de todo porte
tente de toda sorte
gente de todo mistério-vida
cidade jovem de toda parte
encontro de tempos de antes antigos
ainda destinos incertos em Volta do sonho
eorrem atrás do copo da noite
ou escutam o tédio ou vêem a ilusão
ou lêem a falta de imaginação
foi dada a largada
os cavalos estão na frente
e os funcionários montados no medo se borram
detrás da felicidade da mesa
a dor do muro na pichação:
"Ilha e Solidão"
gente de todo porte
porta que vem e que volta
as quadras nasceram enquadradas na LSN
aqui não se comete um grande crime
e todos somos funcionários do SN I
ó felizes meninos que aqui surgirão
pra repetir a cadeira gravata dos pais pais
repetir a dor repetir a dor repetir?
ai` meninas daqui
a prosseguir o passado se submeter
ao másculo caduco poder?
meninas que hão de dançar
hão de dançar dançarão
(o corpo das tuas meninas são só bailarinas?)
quem fará o que quem fará aqui lo quem faremos como
o garoto agora engraçado
filho satélite da quadra do lago
fadado a ser forte conforme o destino
ou dono de si o teimoso menino?
a arte solta salta da rua rua não existe
artista sente por não ser a praça contente
a tua reviração se faremos
quem dera que a gente quisesse
teu profetismo nos encantaremos
pra viver real idade nossa dia~a-dia
toda morte se daria em holocausto
o fausto dos teus ricos se extinguiria
o farto prato então se dividiria
e tanto pranto alegre que a vida choraria
se um dia fosse verdade
sa ída de nossas mãos
é bom gonhar e ver voar teu avião
tem olhos de fora olhando pra gente tem
a tal bastilha atual é forte meu bem
guardada por 49 chaves do além
roma honra amor remo loba rômulo êmulo
hermano hermanito m ío
dónde está nuestra amistad
dónde nuestro proyecto por la libertad
a mil milhas de altura está brazilha
continente filho da filha da quimera
esperam inferno e Verão primavera
a fé no futuro é besteira
sem o eterno-presente na mochila
as lutas a paz hão de vingar
reconhecer os que fazem fizeram a história com H
as mães de brasará
proliferação da vrida
terão mãos hão de ter mãos terá
serão mais onde ir-mãos será
virão filhos que hão de virar
essa terra criança velha
em semente do sempre novo fogo povo a penetrar
arte parte arte parte arte
status estata!
povoação enigmação, _
vazio normal buracultural
diz para mim
enfim, qual teu mal?
Gente de toda arte
quem há derrado afinal?
Onde esteve teu futuro
esse todo tempo
teu fu turo teu futuro teu
tu és boi e computador
qualquer coisa assim
olha aesse cerrado será nosso
será cerrado será cerrado será
que fizeram das lembranças
das mortes da tua infância?
no des-contar da tua glória
ó cidade bela
fizeram jorrar sangue
teu solo foi manchado
continente brazilha
gente de toda mente
a seta da arte incerta te alvejará
pra espalhar flores em forma de trigo
teus hômi é teus próprio inimigo
e a seta da arte incerta não parte
teu lago afundará
vai ser até bão de pescar
mas tuelitelitista num vai tão cedo acabar
vumbora vumbora povo!
(palavra de novo mal dita)
na garganta da gravata
teúnico jota cá paz de ser gente
foi-se in-esperado
teus solitários lares decentes
teu dom bosco poliético visionário
teus vários bonitos espaços vazios
onde nos levaremos?
brazileira
filha
tu és brazileira
menina menina menina
cabeça de menina ·
corpo de cheiro de ânsia
continentalmentilha
corcheirosa de cabelos amanteigados
mão te queira
mantequilla
mãe e filha
mar à vila do sossego
desapego
tu és o concreto da arquijuntura
tu futuras
pelos passos dos teus filhos ilhos
para que quem porque foste criada
hoje agora em tédio nadas
pré destinada a ser fada
místico interpretada
lança jogada no centro
vento passaporte muldireções
oeste pé na estrada
abra
berre
erre
ria
tenha
uma
rota
agora
?
Ilha maravilhosamente certa
reta cabeça da nação
decisão precisão ver se dão lassidaão
perfidocraticamente sem coração
teus satélites querem tua luz planoalto
não brilharias tu alguma vez
não terias asas na inspiração?
Onde estaria escondida a vontade do nosso peito
nas asas na cabeça ou no coração do avião?
Gente de toda ilha
sente de toda falta
mente de toda farda
pente de todo flerte
rente de todo porte
tente de toda sorte
gente de todo mistério-vida
cidade jovem de toda parte
encontro de tempos de antes antigos
ainda destinos incertos em Volta do sonho
eorrem atrás do copo da noite
ou escutam o tédio ou vêem a ilusão
ou lêem a falta de imaginação
foi dada a largada
os cavalos estão na frente
e os funcionários montados no medo se borram
detrás da felicidade da mesa
a dor do muro na pichação:
"Ilha e Solidão"
gente de todo porte
porta que vem e que volta
as quadras nasceram enquadradas na LSN
aqui não se comete um grande crime
e todos somos funcionários do SN I
ó felizes meninos que aqui surgirão
pra repetir a cadeira gravata dos pais pais
repetir a dor repetir a dor repetir?
ai` meninas daqui
a prosseguir o passado se submeter
ao másculo caduco poder?
meninas que hão de dançar
hão de dançar dançarão
(o corpo das tuas meninas são só bailarinas?)
quem fará o que quem fará aqui lo quem faremos como
o garoto agora engraçado
filho satélite da quadra do lago
fadado a ser forte conforme o destino
ou dono de si o teimoso menino?
a arte solta salta da rua rua não existe
artista sente por não ser a praça contente
a tua reviração se faremos
quem dera que a gente quisesse
teu profetismo nos encantaremos
pra viver real idade nossa dia~a-dia
toda morte se daria em holocausto
o fausto dos teus ricos se extinguiria
o farto prato então se dividiria
e tanto pranto alegre que a vida choraria
se um dia fosse verdade
sa ída de nossas mãos
é bom gonhar e ver voar teu avião
tem olhos de fora olhando pra gente tem
a tal bastilha atual é forte meu bem
guardada por 49 chaves do além
roma honra amor remo loba rômulo êmulo
hermano hermanito m ío
dónde está nuestra amistad
dónde nuestro proyecto por la libertad
a mil milhas de altura está brazilha
continente filho da filha da quimera
esperam inferno e Verão primavera
a fé no futuro é besteira
sem o eterno-presente na mochila
as lutas a paz hão de vingar
reconhecer os que fazem fizeram a história com H
as mães de brasará
proliferação da vrida
terão mãos hão de ter mãos terá
serão mais onde ir-mãos será
virão filhos que hão de virar
essa terra criança velha
em semente do sempre novo fogo povo a penetrar
844
Renato Russo
1965 (Duas Tribos)
Vou passar
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem que contra o mal
E você de que lado está ?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos Revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo prá cima
Prá cima
Prá cima
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro
Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui
Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem que contra o mal
E você de que lado está ?
Estou do lado do bem
Com a luz e com os anjos
Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo
Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos Revell
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo prá cima
Prá cima
Prá cima
1 346
Renato Russo
Mais do mesmo
Ei menino branco o que é que você faz aqui
Subindo o morro prá tentar se divertir
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz ?
Desses vinte anos nenhum foi feito prá mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui ?
Quem vai tomar conta dos doentes ?
E quando tem chacina de adolescentes
Como é que você se sente ?
Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel
Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir ?
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando sucessos populares
(e todos os índios foram mortos).
Subindo o morro prá tentar se divertir
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz ?
Desses vinte anos nenhum foi feito prá mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui ?
Quem vai tomar conta dos doentes ?
E quando tem chacina de adolescentes
Como é que você se sente ?
Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel
Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir ?
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando sucessos populares
(e todos os índios foram mortos).
2 021
Renato Russo
Petróleo do Futuro
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu sonhei ontem à noite
Você ia querer me dizer o seu sonho também
E o que é que eu tenho a ver com isso ?
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu vi ontem à noite
Você ia querer ver mas não ia acreditar
E o que é que eu tenho a ver com isso ?
Filósofos suicidas
Agricultores famintos
Desaparecendo
Embaixo dos arquivos
Ah, se eu soubesse lhe dizer qual é a sua tribo
Também saberia qual é a minha
Mas você também não sabe
E o que é que eu tenho a ver com isso ?
Ah, se eu soubesse lhe dizer
O que fazer prá todo mundo ficar junto
Todo mundo já estava há muito tempo
E o que é que eu tenho a ver com isso ?
Sou brasileiro errado
Vivendo em separado
Contando os vencidos
De todos os lados
Você ia querer me dizer o seu sonho também
E o que é que eu tenho a ver com isso ?
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu vi ontem à noite
Você ia querer ver mas não ia acreditar
E o que é que eu tenho a ver com isso ?
Filósofos suicidas
Agricultores famintos
Desaparecendo
Embaixo dos arquivos
Ah, se eu soubesse lhe dizer qual é a sua tribo
Também saberia qual é a minha
Mas você também não sabe
E o que é que eu tenho a ver com isso ?
Ah, se eu soubesse lhe dizer
O que fazer prá todo mundo ficar junto
Todo mundo já estava há muito tempo
E o que é que eu tenho a ver com isso ?
Sou brasileiro errado
Vivendo em separado
Contando os vencidos
De todos os lados
1 262
Renato Russo
Geração Coca-Cola
Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês nos empurraram
Com os enlatados dos USA, de 9 às 6
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez -
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Nós somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser ?
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Nós somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
A receber o que vocês nos empurraram
Com os enlatados dos USA, de 9 às 6
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez -
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Nós somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser ?
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis
Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Nós somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola
1 385
Renato Russo
Se fiquei esperando meu amor passar
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que então eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor
Mas você e eu podemos namorar
E era simples: ficamos fortes
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Sei rimar romã com travesseiro
Quero minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
- Espero
Acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu prá mim
"Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Dai-nos a paz"
Já me basta que então eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor
Mas você e eu podemos namorar
E era simples: ficamos fortes
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Sei rimar romã com travesseiro
Quero minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
- Espero
Acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu prá mim
"Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Dai-nos a paz"
1 295