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Poemas neste tema

Paixão

Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

O Marruêro

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O canto alegre dos galo
no sertão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracura cantava!...

Cantando passava um bando
das verde maracanã!
Fermosa, cumo a cabôca,
Vinha rompendo a minhã!

O vento manso da serra,
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...

Lá, no fundo duma gróta,
adonde um córgo gimia,
gragaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia.

Uma araponga, atrepada
num braço de mato, im frô,
gritava, como se fosse
os grito da minha dó!!

E a sabiá, lá nos gaio
da larangêra, serena,
cantava, cumo si fosse
uma viola de pena!

Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
satisfeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!

Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
num véio tronco de ipê.

Dênde essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!
Vou vivê com os marruá!

Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
eu fui mordido três vez!...

Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta pontada, sá dona,
munta chifrada eu levei.

Prá riba de mim, Deus pode
mandá o que ele quizé!

O mundo é grande, sá dona!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!

Grande é o pudê de Maria,
isposa de São josé!...
O Diabo, também, sá dona,
foi grande!... Cumo inda é!!!

Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma cornada dos chifre
dos óio duma muié...

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Castro Alves

Castro Alves

O Sibarita Rornano

Este olhar, estes lábios, estas rugas
exprimem uma sede impaciente e
impossível de saciar. Quer e não pode.
Sente o desejo e a impaciência.
LAVATER
Escravo, dá-me a croa de amaranto
Que mandou-me inda há pouco Afra impudente.
Orna-me a fronte... Enrola-me os cabelos,
Quero o mole perfume do Oriente.

Lança nas chamas dessa etrusca pira
O nardo trescalante de Medina.
Vem... desenrola aos pés do meu triclínio
As felpas de uma colcha bizantina.

Ohl tenho tédio... Embalde, ao pôr da tarde,
Pelas nereidas louras embalado,
Vogo em minha galera ao som das harpas,
Da cortesã nos seios recostado.

Debalde, em meu palácio altivo, imenso,
De mosaicos brilhantes embutido,
Nuas, volvem as filhas do Oriente
No morno banho em termas de porfido.

Só amo o circo... a dor, gritos e flores,
A pantera, o leão de hirsuta coma;
Onde o banho de sangue do universo
Rejuvenesce a púrpura de Roma.

E o povo rei — na vítima do mundo
Palpa as entranhas que inda sangue escorrem,
E ergue-se o grito extremo dos cativos:
— Ave, Cesar! saúdam-te os que morrem!

Escravo, quero um canto... Vibra a lira,
De Orfeu desperta a fibra dolorida,
Canta a volúpia das bacantes nudas,
Fere o hino de amor que inflama a vida.

Doce, como do Himeto o mel dourado,
Puro como o perfume... Escravo insano!
Teu canto é o grito rouco das Eumênides,
Sombrio como um verso de Lucano.

Quero a ode de amor que o vento canta
Do Palatino aos flóreos arvoredos.
Quero os cantos de Nero... Escravo infame,
Quebras as cordas nos convulsos dedos!

Deixa esta lira! como o tempo é longo!
Insano! insano! que tormento sinto!
Traze o louro falerno transparente
Na mais custosa taça de Corinto.

Pesa-me a vida!... está deserto o Forum!
E o tédio!... o tédio!... que infernal idéia!
Dá-me a taça, e do ergástulo das servas
Tua irmã trar-me-ás, — a grega Haidéia!

Quero em seu seio... Escravo desgraçado,
A este nome tremeu-te o braço exangue?
Vê... Manchaste-me a toga com o falerno,
Irás manchar o Coliseu com o sangue!...

1 581
Castro Alves

Castro Alves

O Canto de Bug Jargal

(Traduzido de V. Hugo)
Por que foges de mim? Por que, Maria?
E gelas-te de medo, se me escutas?
Ah! sou bem formidável na verdade,
Sei ter amor, ter dores e ter cantos!
Quando, através das palmas dos coqueiros
Tua forma desliza aérea e pura,
Ó Maria, meus olhos se deslumbram,
Julgo ver um espírito que passa.
E se escuto os acentos encantados,
Que em melodia escapam de teus lábios,
Meu coração palpita em meu ouvido
Misturando um queixoso murmurio
De tua voz à lânguida harmonia.
Ai! tua voz é mais doce do que o canto
Das aves que no céu vibram as asas,
E que vem no horizonte lá da pátria.
Da pátria onde era rei, onde era livre!
Rei e livre, Maria! e esqueceria
Tudo por ti... esqueceria tudo
— A família, o dever, reino e vingança
Sim, até a vingança! ... ainda que cedo
Tenha enfim de colher este acre fruto,
Acre e doce que tarde amadurece.

...................................................................

Ó Maria, pareces a palmeira
Bela, esvelta, embalada pelas auras.
E te miras no olhar de teu amante
Como a palmeira nágua transparente.
Porém ... sabes? Às vezes há no fundo
Do deserto o uragã que tem ciúmes
Da fonte amada... e arroja-se e galopa.
O ar e a areia misturando turvos
Sob o vôo pesado de suas asas.
Num turbilhão de fogo, árvore e fonte
Envolve... e seca a límpida vertente,
Sente a palmeira a um hálito de morte
Crespar-se o verde circlo da folhagem,
Que tinha a majestade de uma croa
E a graça de uma solta cabeleira.

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Oh! treme, branca filha de Espanhola,
Treme, breve talvez tenhas em torno
O uragã e o deserto. Então, Maria,
Lamentarás o amor que hoje pudera
Te conduzir a mim, bem como o kata
— Da salvação o pássaro ditoso —
Através das areias africanas
Guia o viajante lânguido à cisterna.
E por que enjeitas meu amor? Escuta:
Eu sou rei, minha fronte se levanta
Sobre as frontes de todos. Ó Maria,
Eu sei que és branca e eu negro, mas precisa
O dia unir-se à noite feia, escura,
Para criar as tardes e as auroras,
Mais belas do que a luz, mais do que as trevas!

1 762
Castro Alves

Castro Alves

No Camarote

(Sobre motivos de espanhol)

NO CAMAROTE gélida e quieta
Por que imóvel assim cravas a vista?
És o sonho de neve de um poeta?
És a estátua de pedra de um artista?

Debalde cresce de harmonia o canto...
A Moça não o escuta, além perdida!
Que amuleto prendeu-a no quebranto?
Em que céu vai boiando aquela vida?

Onde se engolfa o cisne dessa mente?
Em que vagas azuis desce cantando?
Que bafagem, meu Deus! frouxa, dormente,
Lhe acalenta o cismar no alento brando?

— Arcanjo, deusa ou pálida madona —
Quem é, surpresa, a multidão pergunta...
E ao vê-la mais gentil que Desdemona
Como para rezar as mãos ajunta.

Odalisca talvez de haréns brilhantes,
Ela no lábio as multidões algema.
Talvez destalma nas visões errantes
Voa a pura miragem de um poema.

Nem um riso, entretanto, a flux luzindo
Aos delírios que esfolha a cavatina,
A boca rubra de improviso abrindo,
Esta fronte fatídica ilumina.

Pois naquela alma só se encontra neve?
Nada palpita nessa forma branca?
Pois não freme este mármore de leve?
Pois nem o canto esta friez lhe arranca?

Ai! Ninguém fie dessa calma estranha
— Êxtase santo de harmonias cheio
— Guarda a lava a petrina da montanha,
Guarda Vesúvios o palor de um seio.

Oh! ser a idéia dessa fronte pura,
Ser o desejo desse lábio quente,
Fora o meu sonho de ideal ventura,
Fora o delírio de minhalma ardente.

Feliz quem possa na ansiedade louca
Esta bela mulher prender nos braços...
Beber o mel na rosa desta boca,
Beijar-lhe os pés... quando beijar-lhe os passos!

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