Poemas neste tema
Paixão
Isabel Machado
Estranha
Sou estranha
dentro do meu próprio espaço!
Como posso não estranhar-me
no teu?
Sou vaga nuvem
em noite de tempestade!
A ansiedade me crucifica
mas a paixão não se liberta...
Tenho as asas abertas
para o mundo
terrível mundo que eu enfrento
pelo buraco da fechadura!
Estranha é a coragem
aprisionada
Estranho é quando estou
apaixonada
Estranho-me tudo
Estranho-me nada...
dentro do meu próprio espaço!
Como posso não estranhar-me
no teu?
Sou vaga nuvem
em noite de tempestade!
A ansiedade me crucifica
mas a paixão não se liberta...
Tenho as asas abertas
para o mundo
terrível mundo que eu enfrento
pelo buraco da fechadura!
Estranha é a coragem
aprisionada
Estranho é quando estou
apaixonada
Estranho-me tudo
Estranho-me nada...
1 076
Iderval Miranda
Do Amor e da Loucura
I
diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.
a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.
juntos,
ainda ele em sua totalidade.
II
o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.
e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?
basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.
III
buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.
ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.
adiante,
além do obscuro
do obscuro.
IV
pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.
e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.
pois o um
revela-se no rosto do um.
V
pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.
e esta busca insensata,
quando terá fim?
VI
terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.
é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.
e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.
VII
(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.
(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.
(ante a última deidade)
o prazer
é um.
- o prazer é um -
(ainda assim)
o prazer
é um.
VIII
e eis o corpo
do longe e longe
ainda.
e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.
e esta sombra
do longe e longe
ainda?
IX
e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada
X
clara paisagem do nada
tu dirás
longe longe longe
mulher
deserto e desespero.
diz-se o amor,
o divino
em sua proximidade.
a loucura,
ele mesmo
em sua simplicidade.
juntos,
ainda ele em sua totalidade.
II
o simples traço fará desvendar
o desespero contido no coração
de quem se quer prazer e dor.
e este corpo de mulher
dilacerado pela recusa incontida
do não?
basta, que venha o longe
e eterna seja a carne,
catedral de prazer e dor.
III
buscar o amor
em claro dia
é vã tentativa.
ao longe,
um brilho na escuridão
da tormentosa noite.
adiante,
além do obscuro
do obscuro.
IV
pois o obscuro
revela-se num rosto de mulher.
e quem
loucamente ama o longe
verá o um
eternizado em amor e gozo.
pois o um
revela-se no rosto do um.
V
pois que tudo seja
vanidade e absinto,
o nada será sempre o nada
e o longe findará aqui, dentro de nós.
e esta busca insensata,
quando terá fim?
VI
terás a argila como princesa
e no vergel dos desesperados
serás o fruto maior.
é certo que tudo é um
e mesmo assim,
ante ele, serás o outro.
e o amor mostrará sua face
em forma de mulher e sonho,
e terás o fogo, a paixão e o prazer
não a felicidade,
pois tu és tu,
outro um ante o um.
VII
(desperto pela guitarra do morto)
o prazer
é um.
(ao lado da mulher amada)
o prazer
é um.
(ante a última deidade)
o prazer
é um.
- o prazer é um -
(ainda assim)
o prazer
é um.
VIII
e eis o corpo
do longe e longe
ainda.
e quem mais,
pois o tudo lembrar
é apenas renegar-se.
e esta sombra
do longe e longe
ainda?
IX
e eis que meus sonhos
nomeiam teu corpo
a diluir-se em bruma, névoa
e nada
X
clara paisagem do nada
tu dirás
longe longe longe
mulher
deserto e desespero.
728
Inês Romano
Encanto
Tu me fascinas e encantas
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência
incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou, do que fui,
para somente — ser — em ti.
como o fazem as sereias
com navegantes intrépidos
de incauta inocência
incrédulos dos perigos.
Me atraem teus mistérios
e teu canto me seduz
para mergulhar em teus domínios
me esquecer do que sou, do que fui,
para somente — ser — em ti.
764
Goulart Gomes
Batalha Final
se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
1 075
Gilberto Avelino
Na Piscina
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
2 361
Gilberto Diener
Amor Caipirano
Vaga viola, viola cigana a clarear...
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
924
Hernâni Cidade
À Pertubadora
Olho-te muita vez tão fixamente,
com tal desejo a crepitar no olhar,
que ficas a pensar, vaidosa e crente:
— Mais duas lâmpadas no meu altar…
Vê lá, porém, não te envaideça a ideia
que nestes olhos — lâmpadas votivas —
arda o álcool subtil que em nós ateia
paixões candentes como chamas vivas…
Eu sou romeiro de mais duma santa
e a todos presto um culto assim — banal.
Se não encontro — a ventura é tanta! —
mais que fragmentos do meu santo Graal!…
De alguém eu amo a santidade calma
e os gestos brandos e pacificantes…
E, envolta em seu olhar, minha alma
veste alma túnica em rituais distantes…
Há outra — inacessível Peregrina! —
em que adoro a perfeição sonhada,
fê-la o Senhor numa hora sossegada,
sem descuido ou tremor na mão divina…
Mas em ti amo a graça acidulada
por uma gota de cinismo ingénuo;
muito mais perturbante e desejada
que o vinho mais alcoólico do Reno!
E amo-te a boca… Irregular gomil.
Quando abre em riso, sente-se evolar
não sei que odor de sensação subtil…
(Fermenta nela os beijos que hás-de dar?…)
E a graça dos teus olhos oequeninos!
São duas frestas dum "hyaly" do Oriente,
onde a tua alma — uma sultana ardente —
às vezes surge, a fulminar destinos!
Mas o que mais me turba é o mistério
da tua carne em febre de desejo,
e, assim, a arder, radiando em halo etéreo,
como se a Virgem lhe aflorasse um beijo…
Eis quanto eu amo em ti. É muito?… É pouco?…
Paixão… não creio. Isto é — bem podes ver,
de menos, p’ra seguir-te como louco,
mas demais p’ra te olhar sem estremecer!
(in Antologia de poetas Alentejanos)
com tal desejo a crepitar no olhar,
que ficas a pensar, vaidosa e crente:
— Mais duas lâmpadas no meu altar…
Vê lá, porém, não te envaideça a ideia
que nestes olhos — lâmpadas votivas —
arda o álcool subtil que em nós ateia
paixões candentes como chamas vivas…
Eu sou romeiro de mais duma santa
e a todos presto um culto assim — banal.
Se não encontro — a ventura é tanta! —
mais que fragmentos do meu santo Graal!…
De alguém eu amo a santidade calma
e os gestos brandos e pacificantes…
E, envolta em seu olhar, minha alma
veste alma túnica em rituais distantes…
Há outra — inacessível Peregrina! —
em que adoro a perfeição sonhada,
fê-la o Senhor numa hora sossegada,
sem descuido ou tremor na mão divina…
Mas em ti amo a graça acidulada
por uma gota de cinismo ingénuo;
muito mais perturbante e desejada
que o vinho mais alcoólico do Reno!
E amo-te a boca… Irregular gomil.
Quando abre em riso, sente-se evolar
não sei que odor de sensação subtil…
(Fermenta nela os beijos que hás-de dar?…)
E a graça dos teus olhos oequeninos!
São duas frestas dum "hyaly" do Oriente,
onde a tua alma — uma sultana ardente —
às vezes surge, a fulminar destinos!
Mas o que mais me turba é o mistério
da tua carne em febre de desejo,
e, assim, a arder, radiando em halo etéreo,
como se a Virgem lhe aflorasse um beijo…
Eis quanto eu amo em ti. É muito?… É pouco?…
Paixão… não creio. Isto é — bem podes ver,
de menos, p’ra seguir-te como louco,
mas demais p’ra te olhar sem estremecer!
(in Antologia de poetas Alentejanos)
880
Gilberto Avelino
No Inverno
A forte chuva cessara
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
1 043
Fernanda dos Santos
Inquietação
Estou disposta
a me confundir com você ,
a me deixar levar,
a me sentir seduzir.
Se seu âmago
te diz do se jeito manso
e seu coração
insiste em atrapalhar
o antigo estado de calmaria ;
Se o seu corpo ,
suado tranborda euforia,
te peço que me leve ;
Me arranquue suspiros e delírios,
me pegue de surpresa,
me faça não ter sentidos e
sensações ;
Me aconchegue no seu coração
e sinta nossa aflição.
Me beije calmo e profundo
e roube os meus charmes e detalhes ,
os meus beijos e
dentes a morder lábios ;
Feche os olhos ,
e sinta á distâncias o meu calor ;
Não sinta culpas e remorsos ,
nem medos de responsabilidades ;
Me envolva
e me faça ver as estrelas
e a entender seu mundo são .
Ao sentir aquela inclinação
a pesar nos pensamentos,
não resista e não rodeie ,
que encorporarei seus sentimentos.
E tranformaremos os seus esboços
e anseios
em pura realização ;
Que te darei
á flor da pele
a mais inesquecível inquietação .
a me confundir com você ,
a me deixar levar,
a me sentir seduzir.
Se seu âmago
te diz do se jeito manso
e seu coração
insiste em atrapalhar
o antigo estado de calmaria ;
Se o seu corpo ,
suado tranborda euforia,
te peço que me leve ;
Me arranquue suspiros e delírios,
me pegue de surpresa,
me faça não ter sentidos e
sensações ;
Me aconchegue no seu coração
e sinta nossa aflição.
Me beije calmo e profundo
e roube os meus charmes e detalhes ,
os meus beijos e
dentes a morder lábios ;
Feche os olhos ,
e sinta á distâncias o meu calor ;
Não sinta culpas e remorsos ,
nem medos de responsabilidades ;
Me envolva
e me faça ver as estrelas
e a entender seu mundo são .
Ao sentir aquela inclinação
a pesar nos pensamentos,
não resista e não rodeie ,
que encorporarei seus sentimentos.
E tranformaremos os seus esboços
e anseios
em pura realização ;
Que te darei
á flor da pele
a mais inesquecível inquietação .
957
Flávio Villa-Lobos
Sobressalto
Há de acontecer repentinamente
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
uma suburbana paixão.
Avassaladora e tênue, acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.
Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.
Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.
Tempos de recolhimento serão banidos
vigorosamente
do vil mosteiro insensato que perambula
dentro dos inocentes.
Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.
Por fim, exultar-se-á com a descoberta
valiosa e súbita:
sim, ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora
em todo amor juvenil.
916
Fernando Mendes Vianna
Iniciação
Teu fígado certo
inundarei de álcool.
Tua unha clara
sujarei de sangue.
No teu ventre puro
plantarei dez árvores.
No teu peito liso
agitarei as águas.
Em teu olhar gramado
cavarei uma vala,
e nesse longo sulco
sepultarei teu príncipe.
Rasgarás tuas sedas
e vestirás teu corpo.
Esquecerás tua mãe,
tua melhor amiga
e a oração ao anjo da guarda.
E me adorarás.
inundarei de álcool.
Tua unha clara
sujarei de sangue.
No teu ventre puro
plantarei dez árvores.
No teu peito liso
agitarei as águas.
Em teu olhar gramado
cavarei uma vala,
e nesse longo sulco
sepultarei teu príncipe.
Rasgarás tuas sedas
e vestirás teu corpo.
Esquecerás tua mãe,
tua melhor amiga
e a oração ao anjo da guarda.
E me adorarás.
1 065
Francisco Pereira do Lago Barreto
Soneto
Em cuidados de afeto desvelada,
Clície o Amante adora mais luzido,
e quanto este mais dela distraído,
tanto ela em seu amor mais inflamada.
Ama Endimião a Ninfa mais nevada
em delíquios de amor adormecido
e porque só então correspondido
por isso a mágoa então mais afinada.
Vê Clície desprezados seus amores
perde Endimião no sono a vista, e tino
para gozar da Lua altos favores.
Qualquer se ostenta amante peregrino,
pois apostar finezas com rigores
é fineza a maior de um amor fino.
Clície o Amante adora mais luzido,
e quanto este mais dela distraído,
tanto ela em seu amor mais inflamada.
Ama Endimião a Ninfa mais nevada
em delíquios de amor adormecido
e porque só então correspondido
por isso a mágoa então mais afinada.
Vê Clície desprezados seus amores
perde Endimião no sono a vista, e tino
para gozar da Lua altos favores.
Qualquer se ostenta amante peregrino,
pois apostar finezas com rigores
é fineza a maior de um amor fino.
903
Francisco Orban
Só o deserto
Só o deserto
meu amor
sabe do meu amor
por você,
nem a cidade
com seus bichos
pousados
nem a decisão
de sonhar
ou morrer
Só o mar
com seu tremor
diário
atrelado à voz
dos que sonham
e os peixes
com as presas
do luar nas guelras
sabem
meu amor
sabe do meu amor
por você,
nem a cidade
com seus bichos
pousados
nem a decisão
de sonhar
ou morrer
Só o mar
com seu tremor
diário
atrelado à voz
dos que sonham
e os peixes
com as presas
do luar nas guelras
sabem
895
Francisco Moniz Barreto
Improviso
Ver... e do que se vê logo abrasado,
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
541
Fernando José dos Santos Oliveira
Despedida
Despedida
Prometi separar
lápis do papel
mas, derradeiro,
fui fel.
No meu traço
usei feia cor.
Permita deixar
este canto,
este hino:
sou homem,
menino,
e se desafino...
é coisas do amor.
Um dia te pego
te arrasto prum canto
(não venhas com pranto
de medo ou de dor).
Te encosto à parede,
aplaco esta sede,
e, em lágrimas, confesso
o apaixonado que sou.
Amigos só?! Não
(se bem que assim
retorno à paz)
Mas pensa, concede,
um tantinho assim,
um pouquinho só,
ser só um pouquinho mais.
Prometi separar
lápis do papel
mas, derradeiro,
fui fel.
No meu traço
usei feia cor.
Permita deixar
este canto,
este hino:
sou homem,
menino,
e se desafino...
é coisas do amor.
Um dia te pego
te arrasto prum canto
(não venhas com pranto
de medo ou de dor).
Te encosto à parede,
aplaco esta sede,
e, em lágrimas, confesso
o apaixonado que sou.
Amigos só?! Não
(se bem que assim
retorno à paz)
Mas pensa, concede,
um tantinho assim,
um pouquinho só,
ser só um pouquinho mais.
904
Fausto Costa
Poluição Noturna
Ela corre sóbria
no meu corpo ébrio,
Enquanto cambaleio excitado
no seu ventre molhado. Sonho.
Calmo momento, desse amor a mil
silhueta estampada na cortina.
Essa menina, furacão e mulher,
ondula as águas serenas do meu fogo.
O inesgotável prazer não nos
assusta e sim completa-nos.
Tudo lindo nesse instante,
Onde os amantes se procuram.
Quando os beijos se completam,
Nossas mãos se entrelaçam,
nossas línguas se enroscam.
No ápice do amor,
Eu acordo para a realidade de nossa
distância.
no meu corpo ébrio,
Enquanto cambaleio excitado
no seu ventre molhado. Sonho.
Calmo momento, desse amor a mil
silhueta estampada na cortina.
Essa menina, furacão e mulher,
ondula as águas serenas do meu fogo.
O inesgotável prazer não nos
assusta e sim completa-nos.
Tudo lindo nesse instante,
Onde os amantes se procuram.
Quando os beijos se completam,
Nossas mãos se entrelaçam,
nossas línguas se enroscam.
No ápice do amor,
Eu acordo para a realidade de nossa
distância.
425
Fábio Afonso de Almeida
Chuva
Ela vem como quem não quer
Mas firma devagarinho
Com promessas de mais crescer.
Murmura umas distâncias remotas
E joga meu olhar distraido
Para bem longe daqui.
Lá onde pontos de luz no horizonte
Iluminam de prata o verde da grama
E pingam na minha vida
Uns lampejos que dançam irrequietos
Nos olhos, nos vidros, no coração
Na fantasia de um querer sem lógica.
Ribomba nostálgico das profundezas
O trovão do meu peito
Alcançando estas novas mágoas
Em águas que a idéia traz:
É ela, é ela, cabelos molhados
Súbito relâmpago de um corpo nu.
Mas firma devagarinho
Com promessas de mais crescer.
Murmura umas distâncias remotas
E joga meu olhar distraido
Para bem longe daqui.
Lá onde pontos de luz no horizonte
Iluminam de prata o verde da grama
E pingam na minha vida
Uns lampejos que dançam irrequietos
Nos olhos, nos vidros, no coração
Na fantasia de um querer sem lógica.
Ribomba nostálgico das profundezas
O trovão do meu peito
Alcançando estas novas mágoas
Em águas que a idéia traz:
É ela, é ela, cabelos molhados
Súbito relâmpago de um corpo nu.
800
Éric Ponty
Narcissus
O que somos afinal sobre o sol que a pino,
encerra o silêncio de nossas esperanças,
que encantados com o brilho lunar nos refaz.
O que somos afinal sobre a lua que cheia,
floresce nossos ensejos, e frutifica nossos mitos,
que desiludidos com o solar ofuscamento nos reluz.
Lúgrebe como é lúgrebe o canto que nasce
que jorra límpida nas outras fontes d’água,
silêncios que encerram nossa imagem
de um refletido mito surdo.
Irrigada voz que descanta o pássaro,
que com asas de brancas nuvens
se interroga sobre a matéria tempo,
fúnebre como o paladar do sino a obrar.
Olhos de prata, murmúrios de ouro,
interrogações que se abrumaram,
rudes questionamentos que não se esvam,.
acumulados e dissimulados
na consciência incerta.
Sol e Lua dentro da noite adentro do dia,
dúbia conversa entre astros que não ponderam
se circunferenciam numa rota imutável,
rotineira como o tempo irrefutável.
Despir, rubro significado altivo,
máscara que não tateia simulacro inteira,
Lívia pele, tenra mentira fluida n’água,
paixão que se encadeia, mas não queima,
límpido abismo simulado de realidade.
Entrecortadas vozes que se dissecam,
o vento, o que diz o vento ao vento
que ventila a própria sentença
de outros apagados tempos invernais?
Sim, a paixão é rubra lavra de vulcão,
espessa e fluida e sufocada nuvem,
que dilui a consciência e o logos.
Resistir na verde margem relva,
com o retrato entrecortado n’água,
tingido pelas toscas luzes do prisma,
para que o branco não seja preto,
para que o preto não seja branco,
simulada visão do natural tempo,
arquitetado.
O que somos, àquilo que nós fomos,
dentro de poucos instantes, iremos,
a questão inquestionável que aglutina,
súplice e suplicado que ateia,
ruge o instante dentro de um infinito.
Driblar uma consciência outra, gesto possível,
e a si mesmo, improvável ato que desfigura,
como a cera de uma face resplandecente,
que desfalece na contra luz do tempo.
Um eclipse é uma imagem de pena,
rápido encontro, infindável espera,
que se perde como amantes por acaso,
que desfalecem após o orgasmo.
Admira-se trágica cena de um enamorado,
que enluarado pela límpida água refletida,
soltos suspiros como se outra natureza,
sua máscara fosse esculpida e terminada.
Rogado por tal imagem quer ser altivo,
buscar dentro de si próprio outros gemidos,
que a faça entreter de seus alaridos,
dissimulado como está de si na margem.
Perdido, quer encontrar um pedido, só suspiro,
melodiar, uma canção suave, só grunhido,
entreter ao outro, e a si mesmo, só que entretido.
Desfazer-se de sua própria figura espectral,
sem tal companheira, voar altivo no azul céu,
pintando o que lhe resta da augusta miséria.
O suplicante exaurido de sua ébria consciência,
vê os reflexos na margem cobertos de rubro véu,
os raios de circunferência prata, ledo engano,
são frios como a noite invernal, que o vento retrata,
é tão só esta paixão que exaure e assusta
quem se observa refletido, a si mesmo perdido.
As brancas mãos, os braços abraçados que aguardam
a possibilidade de ali ainda haver um ninho doirado,
que agassa-lhe o pássaro de sua frígida tempestade,
antes que se finde numa escura nuvem do nada.
Altiva é sua boca, carnudos lábios marmóreos,
suspiros e gemidos é feito o martírio que dali, .
parte e retorna num outro segundo de infinita perda,
na paisagem onde um branco mancebo se retraí.
O corpo é branca estátua que não se move mais,
inerte como a mais dura esfinge indecifrável,
corrói o interior sobre o sol angustiante e a pino,
cabelos doirados que não mais doiram a enseada,
só a brisa lhe sussurra, o que antes lhe encantava,
triste é a sua matéria, ledo seu simulacro invólucro.
O que somos sobre uma margem de uma relva,
que nos desperta com a limpida água que flui,
é a ébria forma de uma bruma suplicada,
que se perfez, e se desfaz n’água de um lago.
encerra o silêncio de nossas esperanças,
que encantados com o brilho lunar nos refaz.
O que somos afinal sobre a lua que cheia,
floresce nossos ensejos, e frutifica nossos mitos,
que desiludidos com o solar ofuscamento nos reluz.
Lúgrebe como é lúgrebe o canto que nasce
que jorra límpida nas outras fontes d’água,
silêncios que encerram nossa imagem
de um refletido mito surdo.
Irrigada voz que descanta o pássaro,
que com asas de brancas nuvens
se interroga sobre a matéria tempo,
fúnebre como o paladar do sino a obrar.
Olhos de prata, murmúrios de ouro,
interrogações que se abrumaram,
rudes questionamentos que não se esvam,.
acumulados e dissimulados
na consciência incerta.
Sol e Lua dentro da noite adentro do dia,
dúbia conversa entre astros que não ponderam
se circunferenciam numa rota imutável,
rotineira como o tempo irrefutável.
Despir, rubro significado altivo,
máscara que não tateia simulacro inteira,
Lívia pele, tenra mentira fluida n’água,
paixão que se encadeia, mas não queima,
límpido abismo simulado de realidade.
Entrecortadas vozes que se dissecam,
o vento, o que diz o vento ao vento
que ventila a própria sentença
de outros apagados tempos invernais?
Sim, a paixão é rubra lavra de vulcão,
espessa e fluida e sufocada nuvem,
que dilui a consciência e o logos.
Resistir na verde margem relva,
com o retrato entrecortado n’água,
tingido pelas toscas luzes do prisma,
para que o branco não seja preto,
para que o preto não seja branco,
simulada visão do natural tempo,
arquitetado.
O que somos, àquilo que nós fomos,
dentro de poucos instantes, iremos,
a questão inquestionável que aglutina,
súplice e suplicado que ateia,
ruge o instante dentro de um infinito.
Driblar uma consciência outra, gesto possível,
e a si mesmo, improvável ato que desfigura,
como a cera de uma face resplandecente,
que desfalece na contra luz do tempo.
Um eclipse é uma imagem de pena,
rápido encontro, infindável espera,
que se perde como amantes por acaso,
que desfalecem após o orgasmo.
Admira-se trágica cena de um enamorado,
que enluarado pela límpida água refletida,
soltos suspiros como se outra natureza,
sua máscara fosse esculpida e terminada.
Rogado por tal imagem quer ser altivo,
buscar dentro de si próprio outros gemidos,
que a faça entreter de seus alaridos,
dissimulado como está de si na margem.
Perdido, quer encontrar um pedido, só suspiro,
melodiar, uma canção suave, só grunhido,
entreter ao outro, e a si mesmo, só que entretido.
Desfazer-se de sua própria figura espectral,
sem tal companheira, voar altivo no azul céu,
pintando o que lhe resta da augusta miséria.
O suplicante exaurido de sua ébria consciência,
vê os reflexos na margem cobertos de rubro véu,
os raios de circunferência prata, ledo engano,
são frios como a noite invernal, que o vento retrata,
é tão só esta paixão que exaure e assusta
quem se observa refletido, a si mesmo perdido.
As brancas mãos, os braços abraçados que aguardam
a possibilidade de ali ainda haver um ninho doirado,
que agassa-lhe o pássaro de sua frígida tempestade,
antes que se finde numa escura nuvem do nada.
Altiva é sua boca, carnudos lábios marmóreos,
suspiros e gemidos é feito o martírio que dali, .
parte e retorna num outro segundo de infinita perda,
na paisagem onde um branco mancebo se retraí.
O corpo é branca estátua que não se move mais,
inerte como a mais dura esfinge indecifrável,
corrói o interior sobre o sol angustiante e a pino,
cabelos doirados que não mais doiram a enseada,
só a brisa lhe sussurra, o que antes lhe encantava,
triste é a sua matéria, ledo seu simulacro invólucro.
O que somos sobre uma margem de uma relva,
que nos desperta com a limpida água que flui,
é a ébria forma de uma bruma suplicada,
que se perfez, e se desfaz n’água de um lago.
998
Manoel Elias Filho
Restos
Do amor intensoNa calada da noiteDo fogo do sexoSobraram restosVestígios, marcas.Do encontroSobrou a fuga.Da sociedadeRestou a insegurançaDo ser humanoRestou pedaçosTrapos de um serDivisão, confusão.Que da verdadeRestou a mentira.Que da razãoRestou a loucura.E da realidadeRestou a fantasiaPedaços de mimRestos de vocêSobras de todosRestos do mundo.
936
Emílio Burlamaqui
Angico
Fogão de lenha, carvão de angico.
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.
O cigarro era forte, o pigarro também.
Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.
Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?
Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.
E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.
Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.
Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.
E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.
Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.
O cigarro era forte, o pigarro também.
Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.
Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?
Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.
E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.
Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.
Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.
E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.
Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?
1 088
David Mestre
Ngaieta de beiço
Cantarei
as tuas coxas
entre (o pano) abertas, o clamor
da
minha língua (em guarda).
O oiro
o mel
o silêncio cúmplice
a arca da tua boca
magra.
Por que ardem as fontes
no auge
da alegria?
Eros (em chamas) ousasse
gota
a
gota
um rumor
de cal
aflita.
Tu tem ngaieta de beiço
morro damor lá
as tuas coxas
entre (o pano) abertas, o clamor
da
minha língua (em guarda).
O oiro
o mel
o silêncio cúmplice
a arca da tua boca
magra.
Por que ardem as fontes
no auge
da alegria?
Eros (em chamas) ousasse
gota
a
gota
um rumor
de cal
aflita.
Tu tem ngaieta de beiço
morro damor lá
1 047
Dilercy Adler
Mulher
Corpo desnudo
sob os lençóis
de cetim
pele sedosa
e incandescente
contornos perfeitos
sob medida
para a gratificação
de olhos ávidos
braços vigorosos
e boca sedenta
de paixão!
sob os lençóis
de cetim
pele sedosa
e incandescente
contornos perfeitos
sob medida
para a gratificação
de olhos ávidos
braços vigorosos
e boca sedenta
de paixão!
969
Dilercy Adler
Homem
Massa de músculos
e força
quanta potência
emana do teu corpo
teu corpo
que me entontece
estremece
enlouquece
mas também
enternece
com teu doce jeito de ser
menino
e força
quanta potência
emana do teu corpo
teu corpo
que me entontece
estremece
enlouquece
mas também
enternece
com teu doce jeito de ser
menino
947
Carla Dias
Chove
Chove tuas lágrimas ...
tingem de azul minha visão,
de que a paz é frágil
e a febre é da paixão.
Onde caminham tuas estórias,
descabidas, íntegras estórias?
Passam pela vida e marcam hora
para virar destino ... cada estória.
Chove e tuas mãos jogam-se ao vento,
encharcam de calor um corpo tenso.
Tocam os fantasmas e os devoram ...
apresentam minutos feito horas.
Ensina-me a ser sereno e louco,
controvérsia explícita,
que desfaz enganos e dá de ombros
às mais piegas feridas.
Como viver tão triste e sem cantar,
não escrever versos?
E até patrocinar o esquecimento ...
parir pseudo tédio?
Chove dos teus olhos a madrugada ...
chove tua sina.
Chove e ainda quer enxergar o mar
que cai do céu na tua vida.
tingem de azul minha visão,
de que a paz é frágil
e a febre é da paixão.
Onde caminham tuas estórias,
descabidas, íntegras estórias?
Passam pela vida e marcam hora
para virar destino ... cada estória.
Chove e tuas mãos jogam-se ao vento,
encharcam de calor um corpo tenso.
Tocam os fantasmas e os devoram ...
apresentam minutos feito horas.
Ensina-me a ser sereno e louco,
controvérsia explícita,
que desfaz enganos e dá de ombros
às mais piegas feridas.
Como viver tão triste e sem cantar,
não escrever versos?
E até patrocinar o esquecimento ...
parir pseudo tédio?
Chove dos teus olhos a madrugada ...
chove tua sina.
Chove e ainda quer enxergar o mar
que cai do céu na tua vida.
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