Poemas neste tema
Política e Poder
Carlos Drummond de Andrade
Esboço de Figura
Antonio Candido ou
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
Antônio lúcido, límpido,
que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
— o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
e, com movimentos livres e lépidos,
sente a pulsação culta da obra,
num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
para além das palavras uma conquista do inexprimível
que elas não contêm
e diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
nelas distinguindo a misteriosa ressonância
do inexprimível afinal expressado,
fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio a perceber no leitor consciente
um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
de um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva, discreta pureza
dos sessent’anos.
1 288
Carlos Drummond de Andrade
Relatório de Maio
Naquele maio
decidiu-se a opção
entre violão e violência
voaram paralelepípedos
exigindo a universidade crítica
e a paz sem sandálias
fugindo ao palácio das negociações
martirizou os pés
na vala de encanamentos cortados
naquele maio
o fogo o fogo o fogo o fogo
vinha no vento do telex
soprado de muito longe
tornado muito perto
o delegado saiu prendendo
cortando cabelo
mandando dormir mais cedo
naquele maio
a Bolsa fechou por excesso de instruções
que mandavam fazer o oposto do contrário
ou
o contrário do contrário do contrário
naquele inverno
o grupo Lire le Capital
reformulava a dialética anti-Hegel
e o estruturalismo continuava na onda
passando à frente de Bonnie & Clyde
sem desbancar McLuhan, Chacrinha e o
teatro do absurdo institucionalizado
Qorpo Santo é quem tinha razão
naquele maio
o túnel fechou cansado de servir
a eternos carros e personas
que nunca lhe agradeceram
a abertura para o Sul e para o Norte
naquele maio
os mendigos dormiam abraçados
no gelo da rua
não por amor: para cada um
tirar o quentinho do outro
naquele maio
os municípios eram divididos
em dois pelotões: os autônomos
até certo ponto
e os tutelados
oh tão melhor ser tutelado: vinha um homem
fardado por fora ou por dentro
dizia o que era lícito fazer
dispensando os cidadãos da difícil escolha
entre o azul e o amarelo
o bom e o mau
o nariz e a gaivota
a laranja e a banana
o X e o Y
naquele maio
o Ibope consolava o Governo
meu querido
saiba que tem havido outros piores
mas não pergunte mais que eu não respondo
naquele maio
as manhãs eram lindíssimas, as tardes
pingavam chuva fina
o mar entristecia
a luz era cortada de repente
como prefixo de morte
e mesmo assim na treva uma ave tonta
riscava o céu naquele maio.
26/05/1968
decidiu-se a opção
entre violão e violência
voaram paralelepípedos
exigindo a universidade crítica
e a paz sem sandálias
fugindo ao palácio das negociações
martirizou os pés
na vala de encanamentos cortados
naquele maio
o fogo o fogo o fogo o fogo
vinha no vento do telex
soprado de muito longe
tornado muito perto
o delegado saiu prendendo
cortando cabelo
mandando dormir mais cedo
naquele maio
a Bolsa fechou por excesso de instruções
que mandavam fazer o oposto do contrário
ou
o contrário do contrário do contrário
naquele inverno
o grupo Lire le Capital
reformulava a dialética anti-Hegel
e o estruturalismo continuava na onda
passando à frente de Bonnie & Clyde
sem desbancar McLuhan, Chacrinha e o
teatro do absurdo institucionalizado
Qorpo Santo é quem tinha razão
naquele maio
o túnel fechou cansado de servir
a eternos carros e personas
que nunca lhe agradeceram
a abertura para o Sul e para o Norte
naquele maio
os mendigos dormiam abraçados
no gelo da rua
não por amor: para cada um
tirar o quentinho do outro
naquele maio
os municípios eram divididos
em dois pelotões: os autônomos
até certo ponto
e os tutelados
oh tão melhor ser tutelado: vinha um homem
fardado por fora ou por dentro
dizia o que era lícito fazer
dispensando os cidadãos da difícil escolha
entre o azul e o amarelo
o bom e o mau
o nariz e a gaivota
a laranja e a banana
o X e o Y
naquele maio
o Ibope consolava o Governo
meu querido
saiba que tem havido outros piores
mas não pergunte mais que eu não respondo
naquele maio
as manhãs eram lindíssimas, as tardes
pingavam chuva fina
o mar entristecia
a luz era cortada de repente
como prefixo de morte
e mesmo assim na treva uma ave tonta
riscava o céu naquele maio.
26/05/1968
1 350
Carlos Drummond de Andrade
A Lamentável História Dos Namorados
Namorados, namorados,
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
1 278
Carlos Drummond de Andrade
Carnaval Chegando
A vitória
A Escola de Samba Unidos da Floresta
— já ganhou! já ganhou! —
desponta garbosíssima, sem medo,
na Avenida Antônio Carlos
entre cadáveres de árvores.
Vence todos os quesitos e esquisitos
(outros mais, se inventassem, venceria)
com seu maravilhoso samba-enredo:
Amor, Todo o Amor à Ecologia.
Turista
— Que dura arquibancada! — Este protesta.
Ver o desfile, assim, castiga o corpo…
E o corpo, de sabido, lhe retruca:
— Não é melhor ficar fazendo sesta
naquele hotel da Barra da Tijuca?
Tantos anos depois
O velho político pessedista
nascido perremista
observa, satisfeito,
e pisca o olho, triunfante:
— Agora, lavo o peito.
Vivi bastante
para ver Getúlio Vargas
entregar o poder a Antônio Carlos.
Confidência
— Qual a sua fantasia para o baile do Municipal?
— A você (mas não espalhe) eu digo.
Vai ser a mais original.
Esconderei completamente o umbigo.
Previsão
Qualquer dia
decide o fisco:
Passistas
bateristas
destaques
mestres-salas
porta-estandartes
trabalhadores autônomos
da folia
devem pagar imposto de alegria.
Lacuna carioca
Carece urgentemente construir
larguíssima avenida, reservada
aos caprichosos passos do ir e vir
não de pedestres, mas da batucada.
Pronunciamento
— Caro mestre estruturalista,
pode dizer-me, porventura,
se há perigo aqui na pista,
de me esmagar, a uma lufada,
a estrutura da arquibancada?
— Isso depende (e eu digo antes
que Barthes ponha numa escritura)
da radotagem dos actantes,
como também (partes iguais)
de isotomias fundamentais
verbalizadas quando o problema
dribla o sema e chega ao semema
pela leitura sintagmática
de monemas paradigmáticos…
Morou, ignaro?
— Perfeito, claro. O mestre dava
para letrista de samba-enredo.
09/02/1974
A Escola de Samba Unidos da Floresta
— já ganhou! já ganhou! —
desponta garbosíssima, sem medo,
na Avenida Antônio Carlos
entre cadáveres de árvores.
Vence todos os quesitos e esquisitos
(outros mais, se inventassem, venceria)
com seu maravilhoso samba-enredo:
Amor, Todo o Amor à Ecologia.
Turista
— Que dura arquibancada! — Este protesta.
Ver o desfile, assim, castiga o corpo…
E o corpo, de sabido, lhe retruca:
— Não é melhor ficar fazendo sesta
naquele hotel da Barra da Tijuca?
Tantos anos depois
O velho político pessedista
nascido perremista
observa, satisfeito,
e pisca o olho, triunfante:
— Agora, lavo o peito.
Vivi bastante
para ver Getúlio Vargas
entregar o poder a Antônio Carlos.
Confidência
— Qual a sua fantasia para o baile do Municipal?
— A você (mas não espalhe) eu digo.
Vai ser a mais original.
Esconderei completamente o umbigo.
Previsão
Qualquer dia
decide o fisco:
Passistas
bateristas
destaques
mestres-salas
porta-estandartes
trabalhadores autônomos
da folia
devem pagar imposto de alegria.
Lacuna carioca
Carece urgentemente construir
larguíssima avenida, reservada
aos caprichosos passos do ir e vir
não de pedestres, mas da batucada.
Pronunciamento
— Caro mestre estruturalista,
pode dizer-me, porventura,
se há perigo aqui na pista,
de me esmagar, a uma lufada,
a estrutura da arquibancada?
— Isso depende (e eu digo antes
que Barthes ponha numa escritura)
da radotagem dos actantes,
como também (partes iguais)
de isotomias fundamentais
verbalizadas quando o problema
dribla o sema e chega ao semema
pela leitura sintagmática
de monemas paradigmáticos…
Morou, ignaro?
— Perfeito, claro. O mestre dava
para letrista de samba-enredo.
09/02/1974
1 257
Carlos Drummond de Andrade
A Bolsa, o Bolso
“À Bolsa!” é o novo grito. A Bolsa, a vida
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
1 405
Carlos Drummond de Andrade
Conversa de Amigos
— Meu capitão, alvíssaras! O AI-5
vai ser cassado, e tudo fica brinco
na vida brasileira: uma só lei
que defenda e proteja toda a grei,
sem o estranho fantasma dessa Carta
roída pelo apêndice-lagarta.
— Boas falas, amigo. Celebremos
o sol da liberdade, com extremos
de carinho e fervor, que bem merece
o seu raiar, depois de tanta prece,
tanto esperar e tanto renunciar,
entre crer e descrer e duvidar
e voltar a insistir, em pensamento,
em palavra e silêncio, contra o vento.
Quer dizer que amanhã já temos novo
estatuto ditado pelo povo?
— Bem. Não é tanto assim. Foi dado o mote,
mas não vá com tanta sede ao pote.
Carece ter cuidado, jeito e calma,
não esmoreça e nem tropece a alma…
Capítulo importante: salvaguardas
que sejam eficazes qual bombardas,
mas não venham, com pinta diferente,
mascarar o AI-5 eternamente.
— Estou contigo. Em dose pra leão
qualquer remédio acaba com a Nação.
Mas há os “homens bons”, e com cautela
os vai ouvindo o Senador Portela.
De todas essas vozes concordantes,
uníssonas em pedir o quanto antes
o regresso ao estado de direito
(aspiração ardente em cada peito),
há de surgir a fórmula correta
que não seja de mágico ou de poeta,
capaz de garantir a liberdade
com sua irmã — responsabilidade.
Deve ser forte o Estado? Também forte
que seja o cidadão, de Sul a Norte,
consciente, vibrante, em sua fé,
escolhendo melhor do que Pelé.
Aguardemos, portanto, na vigília
de toda gente: em forma de família.
E que me contas mais? Outros assuntos?
— Não sei se deva pô-los assim juntos.
Enfim, grande lição vem de Israel
e do Egito, que, surdos ao tropel
de interesses guerreiros e rancores,
curam velhas feridas, velhas dores,
seguindo no bordado da esperança
de um futuro de luz e de bonança.
De Carnaval já vejo indícios mil
aqui no Rio: erige-se o perfil
de arquibancadas para o grande samba
daqui a meses… — Cáspite, caramba!
— O mais importa pouco. Mil buracos?
A gente se acostuma, e volta, aos cacos,
para casa, escapando dos assaltos
(uns escapam), driblando os sobressaltos
do moderno viver, tão mais gostoso
quanto mais o sentimos pavoroso.
— Não sejas tão azedo. Olha, o Natal
já vem pintando… e é o maior Sinal.
06/12/1977
vai ser cassado, e tudo fica brinco
na vida brasileira: uma só lei
que defenda e proteja toda a grei,
sem o estranho fantasma dessa Carta
roída pelo apêndice-lagarta.
— Boas falas, amigo. Celebremos
o sol da liberdade, com extremos
de carinho e fervor, que bem merece
o seu raiar, depois de tanta prece,
tanto esperar e tanto renunciar,
entre crer e descrer e duvidar
e voltar a insistir, em pensamento,
em palavra e silêncio, contra o vento.
Quer dizer que amanhã já temos novo
estatuto ditado pelo povo?
— Bem. Não é tanto assim. Foi dado o mote,
mas não vá com tanta sede ao pote.
Carece ter cuidado, jeito e calma,
não esmoreça e nem tropece a alma…
Capítulo importante: salvaguardas
que sejam eficazes qual bombardas,
mas não venham, com pinta diferente,
mascarar o AI-5 eternamente.
— Estou contigo. Em dose pra leão
qualquer remédio acaba com a Nação.
Mas há os “homens bons”, e com cautela
os vai ouvindo o Senador Portela.
De todas essas vozes concordantes,
uníssonas em pedir o quanto antes
o regresso ao estado de direito
(aspiração ardente em cada peito),
há de surgir a fórmula correta
que não seja de mágico ou de poeta,
capaz de garantir a liberdade
com sua irmã — responsabilidade.
Deve ser forte o Estado? Também forte
que seja o cidadão, de Sul a Norte,
consciente, vibrante, em sua fé,
escolhendo melhor do que Pelé.
Aguardemos, portanto, na vigília
de toda gente: em forma de família.
E que me contas mais? Outros assuntos?
— Não sei se deva pô-los assim juntos.
Enfim, grande lição vem de Israel
e do Egito, que, surdos ao tropel
de interesses guerreiros e rancores,
curam velhas feridas, velhas dores,
seguindo no bordado da esperança
de um futuro de luz e de bonança.
De Carnaval já vejo indícios mil
aqui no Rio: erige-se o perfil
de arquibancadas para o grande samba
daqui a meses… — Cáspite, caramba!
— O mais importa pouco. Mil buracos?
A gente se acostuma, e volta, aos cacos,
para casa, escapando dos assaltos
(uns escapam), driblando os sobressaltos
do moderno viver, tão mais gostoso
quanto mais o sentimos pavoroso.
— Não sejas tão azedo. Olha, o Natal
já vem pintando… e é o maior Sinal.
06/12/1977
745
Carlos Drummond de Andrade
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
1 195
Carlos Drummond de Andrade
Textos Mínimos
Cariocas:
do alto do Pão de Açúcar
40 casais de turistas
vos contemplam sem História.
De repente fica na moda
não estar na moda.
Torna-se impossível
estar, estando.
Arrependido
o ladrão devolveu
aquele quadro falso do Museu.
O sino da igreja desabada
caído no chão
repica em silêncio.
Cada badalada
cria a procissão.
Gosto tanto de ir ao teatro
que por amor ao teatro
vê lá se vou ao teatro.
Solto na jaula
o tigre observa
o Jardim Zoológico
do mundo.
Chovia tanto tanto
naquele reino da Ásia
que a chuva dissolveu
o rei com seu palácio e suas leis.
Arte dos 70:
sacramento
do excremento.
Declara o cientista
que floresta não presta
e no seu lugar
plante-se capim.
Teremos, a perder de vista,
no capinzal da Amazônia,
o pasto da ciência?
Assim termina
o autopoema:
A poesia é necessária,
mas o poeta, será?
— O senhor cultiva
epigramas?
— Não, só a grama
do meu jardim.
Última palavra
em computador:
o anticomputador.
A bomba francesa
detonada longe
da douce France
é uma garantia
para quem escapa
e sendo turista
respira e deduz:
Paris intacta
continua sendo
a Cidade-Luz.
Quando acabarem de consertar
este atrapalhado Rio de Janeiro
haverá morador
para o prazer de morar nele?
E haverá morada
para o morador?
Cartão de identidade
(informa o broto cintilante)
não levo comigo.
Acho bastante
o umbigo.
A casa, na avenida,
postou-se no rumo
do automóvel.
Quem mandou ser distraída?
Se as nações alinhadas
perdem a linha,
fazem cada papel,
prefiro Tia Miquinha
alegre desalinhada,
revel.
O dono do Sítio Paraíso
derrubou a mata,
mas ecologicamente
comprou uma gravata
verde.
O garoto curioso
pergunta:
No Colégio Eleitoral
haverá prova pública
pelo audiovisual,
ou simples aprovação
por antecipação?
08/09/1973
do alto do Pão de Açúcar
40 casais de turistas
vos contemplam sem História.
De repente fica na moda
não estar na moda.
Torna-se impossível
estar, estando.
Arrependido
o ladrão devolveu
aquele quadro falso do Museu.
O sino da igreja desabada
caído no chão
repica em silêncio.
Cada badalada
cria a procissão.
Gosto tanto de ir ao teatro
que por amor ao teatro
vê lá se vou ao teatro.
Solto na jaula
o tigre observa
o Jardim Zoológico
do mundo.
Chovia tanto tanto
naquele reino da Ásia
que a chuva dissolveu
o rei com seu palácio e suas leis.
Arte dos 70:
sacramento
do excremento.
Declara o cientista
que floresta não presta
e no seu lugar
plante-se capim.
Teremos, a perder de vista,
no capinzal da Amazônia,
o pasto da ciência?
Assim termina
o autopoema:
A poesia é necessária,
mas o poeta, será?
— O senhor cultiva
epigramas?
— Não, só a grama
do meu jardim.
Última palavra
em computador:
o anticomputador.
A bomba francesa
detonada longe
da douce France
é uma garantia
para quem escapa
e sendo turista
respira e deduz:
Paris intacta
continua sendo
a Cidade-Luz.
Quando acabarem de consertar
este atrapalhado Rio de Janeiro
haverá morador
para o prazer de morar nele?
E haverá morada
para o morador?
Cartão de identidade
(informa o broto cintilante)
não levo comigo.
Acho bastante
o umbigo.
A casa, na avenida,
postou-se no rumo
do automóvel.
Quem mandou ser distraída?
Se as nações alinhadas
perdem a linha,
fazem cada papel,
prefiro Tia Miquinha
alegre desalinhada,
revel.
O dono do Sítio Paraíso
derrubou a mata,
mas ecologicamente
comprou uma gravata
verde.
O garoto curioso
pergunta:
No Colégio Eleitoral
haverá prova pública
pelo audiovisual,
ou simples aprovação
por antecipação?
08/09/1973
673
Carlos Drummond de Andrade
Em Março, Esta Semana
Segunda-feira a gente ficou presa
não no Distrito: em casa, ante o combate
de Cassius Clay e Frazier… Que tristeza
ver Muhammad Ali tatibitate,
hesitando, caindo, prolongando
por 15 rounds nossa aflição inglória:
Vai resistir? Virar a luta? Quando
acaba esta cruenta e lenta história?
Sem apostar um dólar ou cruzeiro
(pois nutro por tabefes sacro enjoo),
lamento haver perdido: o palradeiro
tem minha simpatia no seu voo
rumo à ideia de paz, num mundo em guerra.
Até um boxeador acusa o vício
de nos entrematarmos sobre a Terra,
este açougue instalado num hospício.
Lá se foi Harold Lloyd, um velho chapa
do tempo em que o cinema era calado
e a gente é que falava… Eis que à socapa
voltam risos e sombras do passado.
— Viu Carlito no Circo? — Não quis ver,
pois já não sou o broto carlitiano,
e procurando nele o antigo ser,
não mais o encontro… Deve haver engano.
Mudaria Carlito ou mudei eu?
(Sempre me perseguindo o eterno Assis,
como se a vida não me houvesse assaz
revelado o segredo de uma noz
escondida num papo de avestruz.)
A rima neste ponto se perdeu,
mas que importa? Se a Light não me apaga
a luz, visitarei com Geysa Bôscoli
(oh, abram alas!) Chiquinha Gonzaga
no livro que através o tempo fosco lhe
recorda o humano e musical perfil.
Que mulher e que mina de talento
em polca, xote, valsa, tango, mil
composições, arte lançada ao vento!
Mas que é isso, no Parque de Iguaçu?
Que diz o Frisch? Por manhas de posseiros
vejo as fontes secando e o solo nu?
Roubam nossos tesouros derradeiros?
Orlando Villas-Boas, por seu lado,
no Parque do Xingu, pede magoado:
— Mudem-me, por favor, esse traçado
de rodovia, que desmantelado
deixa o viver do índio na floresta
e nada lhe oferece além da triste
integração, essa ilusória festa
a que ele, sem defesa, não resiste.
Falar em índio, grande livro este,
novinho, de Darcy Ribeiro. Leste?
Uma serena avaliação de dados
a serem fundamente meditados
enquanto não se extingue a velha raça
de teto errante e de ventura escassa.
Já não mais tranço as rimas, e daí?
Parelhas são, mas contam o que li,
o que vi (ou não vi), prestando ouvido
na direção do terceiro partido.
Quem é que vai fundar, que pioneiro,
um que falta; o primeiro e verdadeiro?
Havia de ser bom. Mas como? Onde?
O eco anda maroto, não responde.
E vem-me a tentação, mais uma vez,
de romper estruturas… Um, dois, três:
“Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada…”
— Mas isto é de Bilac! — Então, adeus… Mais nada.
13/03/1971
não no Distrito: em casa, ante o combate
de Cassius Clay e Frazier… Que tristeza
ver Muhammad Ali tatibitate,
hesitando, caindo, prolongando
por 15 rounds nossa aflição inglória:
Vai resistir? Virar a luta? Quando
acaba esta cruenta e lenta história?
Sem apostar um dólar ou cruzeiro
(pois nutro por tabefes sacro enjoo),
lamento haver perdido: o palradeiro
tem minha simpatia no seu voo
rumo à ideia de paz, num mundo em guerra.
Até um boxeador acusa o vício
de nos entrematarmos sobre a Terra,
este açougue instalado num hospício.
Lá se foi Harold Lloyd, um velho chapa
do tempo em que o cinema era calado
e a gente é que falava… Eis que à socapa
voltam risos e sombras do passado.
— Viu Carlito no Circo? — Não quis ver,
pois já não sou o broto carlitiano,
e procurando nele o antigo ser,
não mais o encontro… Deve haver engano.
Mudaria Carlito ou mudei eu?
(Sempre me perseguindo o eterno Assis,
como se a vida não me houvesse assaz
revelado o segredo de uma noz
escondida num papo de avestruz.)
A rima neste ponto se perdeu,
mas que importa? Se a Light não me apaga
a luz, visitarei com Geysa Bôscoli
(oh, abram alas!) Chiquinha Gonzaga
no livro que através o tempo fosco lhe
recorda o humano e musical perfil.
Que mulher e que mina de talento
em polca, xote, valsa, tango, mil
composições, arte lançada ao vento!
Mas que é isso, no Parque de Iguaçu?
Que diz o Frisch? Por manhas de posseiros
vejo as fontes secando e o solo nu?
Roubam nossos tesouros derradeiros?
Orlando Villas-Boas, por seu lado,
no Parque do Xingu, pede magoado:
— Mudem-me, por favor, esse traçado
de rodovia, que desmantelado
deixa o viver do índio na floresta
e nada lhe oferece além da triste
integração, essa ilusória festa
a que ele, sem defesa, não resiste.
Falar em índio, grande livro este,
novinho, de Darcy Ribeiro. Leste?
Uma serena avaliação de dados
a serem fundamente meditados
enquanto não se extingue a velha raça
de teto errante e de ventura escassa.
Já não mais tranço as rimas, e daí?
Parelhas são, mas contam o que li,
o que vi (ou não vi), prestando ouvido
na direção do terceiro partido.
Quem é que vai fundar, que pioneiro,
um que falta; o primeiro e verdadeiro?
Havia de ser bom. Mas como? Onde?
O eco anda maroto, não responde.
E vem-me a tentação, mais uma vez,
de romper estruturas… Um, dois, três:
“Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada…”
— Mas isto é de Bilac! — Então, adeus… Mais nada.
13/03/1971
968
Carlos Drummond de Andrade
Lira Pedestre
Gerontologia econômica
Simone de Beauvoir, tua lição
não me interessa, não, sobre a velhice.
Prefiro agora ver José da Cruz,
mineiro de Ouro Preto (quem diria?),
trabalhando de dar sumiço a velhos.
“Já não valem mais nada”, ele declara.
Como não? Valem muito: à custa deles,
cria José, em meio à vida cara,
uma nova e rendosa profissão.
No balcão
O cafezinho está mais caro?
Sabe melhor o cafezinho?
De diâmetro aumentou a xícara?
A colherzinha não é mais de prata
(se algum dia foi), e um sorriso
de boas-vindas nos acolhe
sob os bigodes do gerente?
É mais café o cafezinho,
mais quente, inspira mais piadas
a seus costumeiros clientes?
Tem um pó mais fino, o adoçante
não mata mais que o ciclamato,
e há no açúcar um princípio
de tornar o dia contente
quando o céu da boca relembra
o cafezinho em pé tomado?
O cafezinho contém mesmo
café do bom, que a velha casa
de nosso avô servia a todos,
e repetiam todos, uai?
Não. Simplesmente, meus amigos,
o cafezinho está mais caro.
Acordo entre cavalheiros
O esquadrão primeiro, depois
de liquidar mil marginais,
ao esquadrão número dois
se dirigiu em termos tais:
— Se tu me tascas, eu te tasco,
não sobra um para semente.
É melhor acordo: um carrasco
não deve morrer inocente!
Quem avisa amigo é
Que vontade antiga de ir a Roma,
ver as coisas antigas, sentir
a alma antiga das coisas.
Certa manhã,
entrar na Basílica de São Pedro,
procurar Miguel Ângelo:
ainda briga muito com Bramante?
Depois, ajoelhar-me,
pedir a Deus a graça, entre milhares,
de que careço…
— Ah, isso não — adverte Paulo VI
em amistoso alarme:
É tão esplendoroso aqui, bofé,
que rezar nesta igreja não dá pé.
25/04/1970
Simone de Beauvoir, tua lição
não me interessa, não, sobre a velhice.
Prefiro agora ver José da Cruz,
mineiro de Ouro Preto (quem diria?),
trabalhando de dar sumiço a velhos.
“Já não valem mais nada”, ele declara.
Como não? Valem muito: à custa deles,
cria José, em meio à vida cara,
uma nova e rendosa profissão.
No balcão
O cafezinho está mais caro?
Sabe melhor o cafezinho?
De diâmetro aumentou a xícara?
A colherzinha não é mais de prata
(se algum dia foi), e um sorriso
de boas-vindas nos acolhe
sob os bigodes do gerente?
É mais café o cafezinho,
mais quente, inspira mais piadas
a seus costumeiros clientes?
Tem um pó mais fino, o adoçante
não mata mais que o ciclamato,
e há no açúcar um princípio
de tornar o dia contente
quando o céu da boca relembra
o cafezinho em pé tomado?
O cafezinho contém mesmo
café do bom, que a velha casa
de nosso avô servia a todos,
e repetiam todos, uai?
Não. Simplesmente, meus amigos,
o cafezinho está mais caro.
Acordo entre cavalheiros
O esquadrão primeiro, depois
de liquidar mil marginais,
ao esquadrão número dois
se dirigiu em termos tais:
— Se tu me tascas, eu te tasco,
não sobra um para semente.
É melhor acordo: um carrasco
não deve morrer inocente!
Quem avisa amigo é
Que vontade antiga de ir a Roma,
ver as coisas antigas, sentir
a alma antiga das coisas.
Certa manhã,
entrar na Basílica de São Pedro,
procurar Miguel Ângelo:
ainda briga muito com Bramante?
Depois, ajoelhar-me,
pedir a Deus a graça, entre milhares,
de que careço…
— Ah, isso não — adverte Paulo VI
em amistoso alarme:
É tão esplendoroso aqui, bofé,
que rezar nesta igreja não dá pé.
25/04/1970
676
Carlos Drummond de Andrade
Praia Palma Paz
A paz tenta pousar no Vietname,
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
mas só depois de cauteloso exame.
Dia após dia, mês seguido a mês,
esvoaça, foge, paira uma outra vez.
Se uma bomba, ao descer, lhe corta o voo?
Se a prendem na gaiola, e vai pro Zoo
como raro animal de espécie extinta?
Se a maculam de alguma negra tinta?
Se, fugindo à natura e sua norma,
lhe pedem que bote ovos de codorna?
Ou mesmo, como de uso no passado,
a depenam e papam num guisado?
Das pombas o destino é muito incerto;
nas sombras o gavião mira, encoberto.
Urso-branco ou falcão? Em cada margem,
Ambição de Poder suja a paisagem.
E o povo, qual a pomba, leva as sobras
entre estrondos, trombetas e manobras.
Vamos, meu bem, resolve, enfrenta o risco
de baixar e fazerem-te petisco.
Ninguém topava mais o tró-ló-ló
desse papo infindável, nem o Jó,
se revivesse, quanto mais a gente,
aqui, ali, no Ocidente ou Oriente,
já cheia dessa estúpida novela
de sadismo, de sangue e de balela.
És pomba de ocasião? Levas no bico
a senha eleitoral do primo rico?
Que importa, se o que importa antes de tudo
é dar folga ao faminto, triste, mudo
civil colhendo a morte onde colhia
o arroz — numa lavoura de agonia?
Ai, chega deste assunto. Olho a palmeira
visitada de raio, e sobranceira
ainda no seu risco vertical,
sereníssima posto que mortal.
Vai-se a inscrição de mármore, mas resta
o longilíneo talhe de floresta.
Salve, princesa-palma, calma linha,
mesmo com a morte a percorrer-te a espinha!
Eis desponta na praia a venusina
miragem de uma esplêndida menina,
melhor dizendo: moça — e de seu busto
desfralda ao sol o panorama augusto.
Horror! beleza! céus! Para tamanha
afronta, a jato chame-se o Façanha!
Quem vai chamar? Quem deixa a areia cálida,
quem, de emoção, não mostra a face pálida?
Vai você. Eu não vou. Eu também não.
Quero ficar aqui na curtição.
E se o Façanha vem, teleavisado,
talvez, quem sabe?, há de ficar parado,
embebido no sonho de beleza,
da graça em flor, de flor da natureza.
Mas atenção, mulheres, a este aviso:
a moda exige um grama de juízo
e, merecendo o belo o meu respeito,
ela só vale pra quem tenha peito.
Apenas se desvende, iluminado,
aquilo que é perfeito, contemplado.
28/10/1972
1 308
Carlos Drummond de Andrade
Microlira
Festival da Canção
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
1 612
Carlos Drummond de Andrade
Esparsos de 1976
Rios de Petrópolis
A poluição faz rios coloridos.
Não é tão feia assim. Como atração
reproduz, em matizes escolhidos,
as belas cores da televisão.
*
Mais uma
Novo serviço: tacar fogo
mediante módico estipêndio.
Se já pagamos taxa d’água,
vamos pagar taxa de incêndio.
*
Propaganda eleitoral
Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?
*
Aniversário
Ó Palácio da Cultura!
Quem te viu e quem te vê,
tão desfigurado, jura
fitar, nesse miserê,
a tua caricatura.
*
Candidato
Se sai o tabelamento
de artigos alimentícios,
requeiro neste momento
gozar de seus benefícios,
não para baixar o preço
das coisas essenciais,
mas para entrar sem tropeço
no batalhão dos fiscais.
*
150 anos da Câmara dos Deputados
É rima difícil: Câmara
e controvérsia ilimitada.
A mais tentadora tâmara
perde o sabor quando enlatada.
*
Repetição
Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.
*
Comércio da privacidade
Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.
*
A poluição faz rios coloridos.
Não é tão feia assim. Como atração
reproduz, em matizes escolhidos,
as belas cores da televisão.
*
Mais uma
Novo serviço: tacar fogo
mediante módico estipêndio.
Se já pagamos taxa d’água,
vamos pagar taxa de incêndio.
*
Propaganda eleitoral
Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?
*
Aniversário
Ó Palácio da Cultura!
Quem te viu e quem te vê,
tão desfigurado, jura
fitar, nesse miserê,
a tua caricatura.
*
Candidato
Se sai o tabelamento
de artigos alimentícios,
requeiro neste momento
gozar de seus benefícios,
não para baixar o preço
das coisas essenciais,
mas para entrar sem tropeço
no batalhão dos fiscais.
*
150 anos da Câmara dos Deputados
É rima difícil: Câmara
e controvérsia ilimitada.
A mais tentadora tâmara
perde o sabor quando enlatada.
*
Repetição
Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.
*
Comércio da privacidade
Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.
*
883
Edmir Domingues
Recado ao eleitor
A mão que lavra esta terra
de carinho e de perdão,
a mão que levanta as casas
do barro duro do chão,
a mão que pega do lápis
e que faz planos em vão,
a mão ferida da agulha,
a mão da repartição,
a mão suja do operário
(do operário em construção)
a mão que aprende na escola
a fugir da escravidão,
a mão que tece nos fusos
os fios que vêm e vão,
a mão que trabalha e sofre,
que é irmã de nossa mão,
a mão que se eleva à boca
que cospe aos pés do vilão,
a mão como a mão de Cristo
na sua crucifixão,
a mão que não vende o voto
(se o voto é revolução)
irá votar na certeza
contra as coisas como estão,
dizendo ao Povo que “sim”,
dizendo ao Dinheiro: “não”!
Para a alvorada dos dias
plenos de paz que virão.
de carinho e de perdão,
a mão que levanta as casas
do barro duro do chão,
a mão que pega do lápis
e que faz planos em vão,
a mão ferida da agulha,
a mão da repartição,
a mão suja do operário
(do operário em construção)
a mão que aprende na escola
a fugir da escravidão,
a mão que tece nos fusos
os fios que vêm e vão,
a mão que trabalha e sofre,
que é irmã de nossa mão,
a mão que se eleva à boca
que cospe aos pés do vilão,
a mão como a mão de Cristo
na sua crucifixão,
a mão que não vende o voto
(se o voto é revolução)
irá votar na certeza
contra as coisas como estão,
dizendo ao Povo que “sim”,
dizendo ao Dinheiro: “não”!
Para a alvorada dos dias
plenos de paz que virão.
771
Edmir Domingues
Notificação à propósito da lua
Aos gringos dos States e das Rússias
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.
Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?
Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?
Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.
Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?
Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?
Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
661
Edmir Domingues
Um causo no céu
Um dia destes dias
o manso Padre Eterno
chamou São Pedro e disse:
“Eis façamos um censo
a ver quantos são hoje
os anjinhos do céu”.
Contaram-se os anjinhos
e logo foi notado
que havia muitos deles
negrinhos ou morenos
quando no último censo
quase os anjinhos todos
tinham pálidas jaces,
como restou provado
nas pinturas antigas.
Inquiriu-se o motivo
do causo acontecido
ficando constatado
que nos últimos tempos
crescera o contingente
de anjinhos africanos
hindus e brasileiros.
Vieram logo queixas
contra os ditos anjinhos
nunca porém movidas
por qualquer preconceito.
Mas é que os brasileiros,
incontáveis pelés,
(gastando a eternidade)
jogavam futebol
e quebravam vidraças
das janelas do céu.
Entanto qual a causa
dos anjinhos morenos?
De que morreram tantos
no tempo ultimamente?
Ah! Morreram de fome
dessa doença terrível
que não tem causa orgânica
mas tem causa social.
E o manso Padre Eterno
tomado de ira justa
deu ordens a São Pedro
(as ordens mais severas)
para que os governantes
dos países da fome,
e dos outros países,
industriais da fome,
(não só executivos
como parlamentares),
fossem presto jogados
nas caldeiras do inferno.
o manso Padre Eterno
chamou São Pedro e disse:
“Eis façamos um censo
a ver quantos são hoje
os anjinhos do céu”.
Contaram-se os anjinhos
e logo foi notado
que havia muitos deles
negrinhos ou morenos
quando no último censo
quase os anjinhos todos
tinham pálidas jaces,
como restou provado
nas pinturas antigas.
Inquiriu-se o motivo
do causo acontecido
ficando constatado
que nos últimos tempos
crescera o contingente
de anjinhos africanos
hindus e brasileiros.
Vieram logo queixas
contra os ditos anjinhos
nunca porém movidas
por qualquer preconceito.
Mas é que os brasileiros,
incontáveis pelés,
(gastando a eternidade)
jogavam futebol
e quebravam vidraças
das janelas do céu.
Entanto qual a causa
dos anjinhos morenos?
De que morreram tantos
no tempo ultimamente?
Ah! Morreram de fome
dessa doença terrível
que não tem causa orgânica
mas tem causa social.
E o manso Padre Eterno
tomado de ira justa
deu ordens a São Pedro
(as ordens mais severas)
para que os governantes
dos países da fome,
e dos outros países,
industriais da fome,
(não só executivos
como parlamentares),
fossem presto jogados
nas caldeiras do inferno.
225
Ruy Belo
Andamento final de poema
o civil e redondo sacrifício de quem raivosamente tem
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
830
Ruy Belo
Rua do Sol a Sant'Ana
Entretanto, num ano, na cidade em construção
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante
Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]
Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra
E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr
Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre
Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte
Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia
Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante
Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]
Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra
E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr
Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre
Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte
Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia
Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984
1 985
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lagos I
«Un jour à Lagos ouverte sur la mer comme l’autre Lagos»
Senghor
Em Lagos
Virada para o mar como a outra Lagos
Muitas vezes penso em Leopoldo Sedar Senghor:
A precisa limpidez de Lagos onde a limpeza
É uma arte poética e uma forma de honestidade
Acorda em mim a nostalgia de um projecto
Racional limpo e poético
Os ditadores — é sabido — não olham para os mapas
Suas excursões desmesuradas fundam-se em confusões
O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos
Jovens corpos mortos ao longo das extensões
Na precisa claridade de Lagos é-me mais difícil
Aceitar o confuso o disforme a ocultação
Na nitidez de Lagos onde o visível
Tem o recorte simples e claro de um projecto
O meu amor da geometria e do concreto
Rejeita o balofo oco da degradação
Na luz de Lagos matinal e aberta
Na praça quadrada tão concisa e grega
Na brancura da cal tão veemente e directa
O meu país se invoca e se projecta
Lagos, 20 de Abril de 1974
Senghor
Em Lagos
Virada para o mar como a outra Lagos
Muitas vezes penso em Leopoldo Sedar Senghor:
A precisa limpidez de Lagos onde a limpeza
É uma arte poética e uma forma de honestidade
Acorda em mim a nostalgia de um projecto
Racional limpo e poético
Os ditadores — é sabido — não olham para os mapas
Suas excursões desmesuradas fundam-se em confusões
O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos
Jovens corpos mortos ao longo das extensões
Na precisa claridade de Lagos é-me mais difícil
Aceitar o confuso o disforme a ocultação
Na nitidez de Lagos onde o visível
Tem o recorte simples e claro de um projecto
O meu amor da geometria e do concreto
Rejeita o balofo oco da degradação
Na luz de Lagos matinal e aberta
Na praça quadrada tão concisa e grega
Na brancura da cal tão veemente e directa
O meu país se invoca e se projecta
Lagos, 20 de Abril de 1974
3 857
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poema
Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga
O limiar e o linear perdidos
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga
1 920
Sophia de Mello Breyner Andresen
O País Sem Mal
Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal —
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal —
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado
2 072
Raquel Nobre Guerra
É evidente que nos mentem
É evidente que nos mentem quando põem por escrito
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)
Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.
Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.
Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.
Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.
Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.
Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.
E estava certo.
Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
747
José Miguel Silva
Feios, porcos e maus - Ettore Scola (1976)
Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.
Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.
A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.
Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.
A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.
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José Miguel Silva
Via del Corno
O primeiro tema do sentimento cristão é a compaixão,
que podia ter fundado a equidade, se a Igreja
não tivesse para os homens um projecto faraónico
/semita de poder, humilhação e dependência.
Tinha tudo, a compaixão (essa réplica possível
ao desastre natural) para coser a lei de Zeus
Hospitaleiro à promissão comutadora da justiça,
traduzida na sensata isonomia mundial e
no empenho de aumentar a produção do tempo
livre (de maneira a que chegasse para todos).
Desterrada, todavia, para dentro, deformada
em caridade, sem efeitos no real que sobrelevem
o regalo duma lágrima local, a compaixão reduz-se
ao gosto complacente duma liberalidade baratucha
- toda feita de moções, duplicidades, emoções
e florações de lavadinha consciência. E, assim,
para que serve, que adianta a compaixão?
que podia ter fundado a equidade, se a Igreja
não tivesse para os homens um projecto faraónico
/semita de poder, humilhação e dependência.
Tinha tudo, a compaixão (essa réplica possível
ao desastre natural) para coser a lei de Zeus
Hospitaleiro à promissão comutadora da justiça,
traduzida na sensata isonomia mundial e
no empenho de aumentar a produção do tempo
livre (de maneira a que chegasse para todos).
Desterrada, todavia, para dentro, deformada
em caridade, sem efeitos no real que sobrelevem
o regalo duma lágrima local, a compaixão reduz-se
ao gosto complacente duma liberalidade baratucha
- toda feita de moções, duplicidades, emoções
e florações de lavadinha consciência. E, assim,
para que serve, que adianta a compaixão?
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