Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Rosani Abou Adal
Alma Gêmea
Sou tão solitária quanto a lua
rodeada de estrelas.
O céu está nublado,
nenhum habitante me acompanha.
Sou luar sem multidão,
raio-de-luz no azul.
Não escuto vozes e não vejo sombras.
Sou indivisível no universo,
tão pequena diante da terra,
tão grande frente aos homens.
Sou luz que brilha e não se apaga,
um corpo perdido no espaço.
Ninguém me percebe no planeta.
Grito frases de silêncio,
ninguém me escuta.
Murmuro pausas,
ninguém me ouve.
Sou tão pequena e frágil
quanto um milésimo de segundo.
Sou tão forte quanto as Muralhas da China,
ninguém descobre meus segredos,
ninguém sabe a minha história.
Sou pastora das galáxias,
caminho sobre pedras,
procuro sonhos e castelos.
Minha alma gêmea está a quilômetros de distância.
Não tenho nave nem foguete.
Hei de encontrá-la num futuro próximo.
rodeada de estrelas.
O céu está nublado,
nenhum habitante me acompanha.
Sou luar sem multidão,
raio-de-luz no azul.
Não escuto vozes e não vejo sombras.
Sou indivisível no universo,
tão pequena diante da terra,
tão grande frente aos homens.
Sou luz que brilha e não se apaga,
um corpo perdido no espaço.
Ninguém me percebe no planeta.
Grito frases de silêncio,
ninguém me escuta.
Murmuro pausas,
ninguém me ouve.
Sou tão pequena e frágil
quanto um milésimo de segundo.
Sou tão forte quanto as Muralhas da China,
ninguém descobre meus segredos,
ninguém sabe a minha história.
Sou pastora das galáxias,
caminho sobre pedras,
procuro sonhos e castelos.
Minha alma gêmea está a quilômetros de distância.
Não tenho nave nem foguete.
Hei de encontrá-la num futuro próximo.
963
Rosani Abou Adal
Carência na Noite
Procurei-te por todos os cantos e bares.
Nas mesas vazias, nem sinal de tua sombra.
No céu, a estrela solitária.
O silêncio das ruas, a minha inquietude.
Do outro lado da calçada
ninguém me acompanha os passos.
Uma gata mia no cio,
abraça muros e portões
com unhas afiadas.
Os olhos verdes brilham
para encontrar aconchego
na próxima esquina, debaixo de um automóvel,
num casarão de luzes apagadas.
Brilham tanto que parecem
gerar sete gatinhos em cinco minutos.
Com passos lentos, caminho
seguindo teus rastros,
tuas marcas felinas invisíveis.
A calçada sem pegadas.
Em casa, um ombro amigo,
a coberta fria me aquece e me acolhe.
Sem vestes, abraço a espuma e durmo.
Nas mesas vazias, nem sinal de tua sombra.
No céu, a estrela solitária.
O silêncio das ruas, a minha inquietude.
Do outro lado da calçada
ninguém me acompanha os passos.
Uma gata mia no cio,
abraça muros e portões
com unhas afiadas.
Os olhos verdes brilham
para encontrar aconchego
na próxima esquina, debaixo de um automóvel,
num casarão de luzes apagadas.
Brilham tanto que parecem
gerar sete gatinhos em cinco minutos.
Com passos lentos, caminho
seguindo teus rastros,
tuas marcas felinas invisíveis.
A calçada sem pegadas.
Em casa, um ombro amigo,
a coberta fria me aquece e me acolhe.
Sem vestes, abraço a espuma e durmo.
1 006
Rosani Abou Adal
Brahma
O piano tocava notas melodiosas
que vibravam das mãos suaves.
O chope e o bolinho de bacalhau sobre a mesa.
Vozes murmuravam nos bancos rubros.
Abajures solitários iluminavam
a expressão sem sorriso das lâmpadas.
O zunzum do happy-hour,
a falação dos corpos cansados,
as gargalhadas que se equilibravam
no ambiente ébrio como plumas,
deslizavam no vácuo sem fronteiras.
O piano não parava de sussurrar
notas e mais notas harmoniosas.
Dont Cry for me Argentina
gritavam as teclas brancas e pretas.
Gravatas borboletas conduziam
copos de levedura e tira-gosto
para acalentar as peles vermelhas,
brancas, amarelas e negras que se apoiavam
na privacidade de um assento frio/quente.
Homens de negócios, secretárias,
profissionais liberais, poetas e artistas
compartilhavam o do-re-mi-fá-sol-lá-si-do,
falavam de suas tristezas, angústias, felicidades,
frustrações, alegrias, de mais um dia de trabalho,
de negócios satisfatórios ou sem frutos,
de prazeres, desamores, de...
Eu acompanhada da esferográfica
esperava teus passos ofegantes
pousarem sobre os pelos gastos do tapete.
que vibravam das mãos suaves.
O chope e o bolinho de bacalhau sobre a mesa.
Vozes murmuravam nos bancos rubros.
Abajures solitários iluminavam
a expressão sem sorriso das lâmpadas.
O zunzum do happy-hour,
a falação dos corpos cansados,
as gargalhadas que se equilibravam
no ambiente ébrio como plumas,
deslizavam no vácuo sem fronteiras.
O piano não parava de sussurrar
notas e mais notas harmoniosas.
Dont Cry for me Argentina
gritavam as teclas brancas e pretas.
Gravatas borboletas conduziam
copos de levedura e tira-gosto
para acalentar as peles vermelhas,
brancas, amarelas e negras que se apoiavam
na privacidade de um assento frio/quente.
Homens de negócios, secretárias,
profissionais liberais, poetas e artistas
compartilhavam o do-re-mi-fá-sol-lá-si-do,
falavam de suas tristezas, angústias, felicidades,
frustrações, alegrias, de mais um dia de trabalho,
de negócios satisfatórios ou sem frutos,
de prazeres, desamores, de...
Eu acompanhada da esferográfica
esperava teus passos ofegantes
pousarem sobre os pelos gastos do tapete.
851
Rosani Abou Adal
Ausência
Sonho te possuir nos meus braços
nas quatro estações do ano,
mas estás sempre distante de mim.
A vontade está aquém dos meus sonhos.
Estou sozinha meio à multidão
que desconhece meus sentimentos.
Quero te tocar e sentir teu calor,
a multidão não pode ser tocada.
Estás sempre fugindo de mim
como uma presa do caçador.
Não posso te identificar,
és meu segredo.
Quero te beijar a todo instante,
não sinto o gosto dos teus lábios.
Quero segurar tuas mãos,
não consigo tocar o invisível.
Quando compartilhamos o mesmo lençol,
assumes forma de felino,
sou uma caçadora que volta feliz da caçada.
Mesmo diante de nossa privacidade
tenho certeza que nunca estaremos juntos.
nas quatro estações do ano,
mas estás sempre distante de mim.
A vontade está aquém dos meus sonhos.
Estou sozinha meio à multidão
que desconhece meus sentimentos.
Quero te tocar e sentir teu calor,
a multidão não pode ser tocada.
Estás sempre fugindo de mim
como uma presa do caçador.
Não posso te identificar,
és meu segredo.
Quero te beijar a todo instante,
não sinto o gosto dos teus lábios.
Quero segurar tuas mãos,
não consigo tocar o invisível.
Quando compartilhamos o mesmo lençol,
assumes forma de felino,
sou uma caçadora que volta feliz da caçada.
Mesmo diante de nossa privacidade
tenho certeza que nunca estaremos juntos.
1 061
Renata Trocoli
Sem Título
Sem Título
A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor
doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.
Tuas macias, delicadas e pequeninas mãos tocavam meu rosto
com tanto carinho e amor que não podia deixar-te
um minuto sem meus abraços e doces palavras de amor.
Quando sentávamos debaixo das estrelas nas noites mornas
da bela primavera da Pérsia, me abraçavas com tanto medo
e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu
peito, e me fazia jura-te amor eterno.
Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.
Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e
preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,
sorrindo com doçura e colocando minha cabeça em teus delicados
ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coração.
Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza
enquanto dormias um sono tranqüilo e
quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados
sem ter vontade de fechar os olhos para não perder tão bela visão.
Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braços
sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.
Me abraçavas com doce saudade e com lágrimas nos olhos
depois de dias de batalha sem ver-me.
E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade
que meus dias pareciam um doce sonho que não poderia nunca ter fim.
O mais triste meu amor foi perder-te.
Foi perceber que teu amor não mais me envolveria o corpo,
que não mais teria tua presença a cuidar de mim
nas noites de cansaço após uma batalha.
Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.
Tu me abraçaste chorosa e amedrontada,
e prometemos um amor eterno
por todos os lugares onde passássemos, aonde estivéssemos.
Hoje a saudade de teus doces olhinhos
a olhar-me com amor cegam meus dias.
Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume
e teus abraços a me envolver...
A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor
doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.
Tuas macias, delicadas e pequeninas mãos tocavam meu rosto
com tanto carinho e amor que não podia deixar-te
um minuto sem meus abraços e doces palavras de amor.
Quando sentávamos debaixo das estrelas nas noites mornas
da bela primavera da Pérsia, me abraçavas com tanto medo
e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu
peito, e me fazia jura-te amor eterno.
Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.
Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e
preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,
sorrindo com doçura e colocando minha cabeça em teus delicados
ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coração.
Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza
enquanto dormias um sono tranqüilo e
quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados
sem ter vontade de fechar os olhos para não perder tão bela visão.
Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braços
sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.
Me abraçavas com doce saudade e com lágrimas nos olhos
depois de dias de batalha sem ver-me.
E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade
que meus dias pareciam um doce sonho que não poderia nunca ter fim.
O mais triste meu amor foi perder-te.
Foi perceber que teu amor não mais me envolveria o corpo,
que não mais teria tua presença a cuidar de mim
nas noites de cansaço após uma batalha.
Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.
Tu me abraçaste chorosa e amedrontada,
e prometemos um amor eterno
por todos os lugares onde passássemos, aonde estivéssemos.
Hoje a saudade de teus doces olhinhos
a olhar-me com amor cegam meus dias.
Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume
e teus abraços a me envolver...
1 001
Rosani Abou Adal
Fragilidade
Teu corpo ausente do meu corpo,
sou tão frágil como um instante,
uma onda que se quebra no ninho de ostras.
Tuas mãos não repousam sobre meu ventre,
sou tão pequena como um segundo.
Tuas mãos não aquecem meu coração,
sou tão fria quanto a neve.
Sou uma camponesa colhendo
tâmaras, pistache, misk e snôbar.
Não sinto frio, teu corpo me aquece.
És sementes florescendo nos campos.
sou tão frágil como um instante,
uma onda que se quebra no ninho de ostras.
Tuas mãos não repousam sobre meu ventre,
sou tão pequena como um segundo.
Tuas mãos não aquecem meu coração,
sou tão fria quanto a neve.
Sou uma camponesa colhendo
tâmaras, pistache, misk e snôbar.
Não sinto frio, teu corpo me aquece.
És sementes florescendo nos campos.
826
Ricardo Madeira
Memórias Perdidas de Tempos Esquecidos
Tudo o que tenho para te recordar
Está a meu lado: o teu vazio lugar
Que ninguém parece poder ocupar.
Que alternativa existe, para além de morrer,
Quando a única razão que temos para viver
É exactamente aquela que tentamos esquecer?
E o mais belo sonho que podemos sonhar
(O teu sorriso... Os teus olhos a brilhar...)
É aquele que temos de matar e enterrar...
As memórias perdidas de tempos esquecidos
Saem das sombras, voltam para me assombrar,
São os ecos das palavras que não te pude dizer,
Todos os sonhos que geram pesadelos ao acordar.
Um corredor sem sentido, nenhuma porta se abre,
Uma vida sem destino, a fechadura recusa a chave.
"Vem muerte tan escondida,
Que no te sienta venir,
Porque el plazer del morrir
No me torne á dar la vida."
-Miguel De Cervantes
Está a meu lado: o teu vazio lugar
Que ninguém parece poder ocupar.
Que alternativa existe, para além de morrer,
Quando a única razão que temos para viver
É exactamente aquela que tentamos esquecer?
E o mais belo sonho que podemos sonhar
(O teu sorriso... Os teus olhos a brilhar...)
É aquele que temos de matar e enterrar...
As memórias perdidas de tempos esquecidos
Saem das sombras, voltam para me assombrar,
São os ecos das palavras que não te pude dizer,
Todos os sonhos que geram pesadelos ao acordar.
Um corredor sem sentido, nenhuma porta se abre,
Uma vida sem destino, a fechadura recusa a chave.
"Vem muerte tan escondida,
Que no te sienta venir,
Porque el plazer del morrir
No me torne á dar la vida."
-Miguel De Cervantes
1 050
Rosani Abou Adal
Código Morse
Bolhas de espuma boiam sobre a água,
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.
1 031
Rosani Abou Adal
Aquário
Tudo frio na madrugada.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.
823
Paulo Silva Ribeiro
A Morte Como Vida
A Morte Como Vida
Estranho sentido a vida tem,
Estranho os caminhos da felicidade,
Estranho a busca incessante pelo poder,
Estranho a morte como vida,
Estranho viver sem sofrer...
Desconheço todos os sentidos
Que a vida pode ter
Pelo simples motivo de já tê-los
Abolidos...
Vejo sereno agora
O verdadeiro sentido
Já a muito esquecido,
Saudade não se pode mais sentir...
A morte dona de toda sorte
Que de Súbito nos leva tudo
Amores, dores, angústias
E que sem nos avisar
Vem nos buscar...
Estranho sentido a vida tem,
Estranho os caminhos da felicidade,
Estranho a busca incessante pelo poder,
Estranho a morte como vida,
Estranho viver sem sofrer...
Desconheço todos os sentidos
Que a vida pode ter
Pelo simples motivo de já tê-los
Abolidos...
Vejo sereno agora
O verdadeiro sentido
Já a muito esquecido,
Saudade não se pode mais sentir...
A morte dona de toda sorte
Que de Súbito nos leva tudo
Amores, dores, angústias
E que sem nos avisar
Vem nos buscar...
876
Pedro Paulo de Sena Madureira
O Olhar Branco
O olhar branco
preso ao vazio
depois que as coisas ficaram por ser vistas.
O silêncio branco
despido de harmonia
depois que as palavras ficaram por ser ditas.
A morte branca
sem grito
sem cruz
sem glória
no avesso da história
depois que a agonia toda ficou por ser escrita.
preso ao vazio
depois que as coisas ficaram por ser vistas.
O silêncio branco
despido de harmonia
depois que as palavras ficaram por ser ditas.
A morte branca
sem grito
sem cruz
sem glória
no avesso da história
depois que a agonia toda ficou por ser escrita.
929
Paula Nei
Trança
Esta santa relíquia imaculada
Do teu saudoso amor, esta lembrança
Da vida, que fugiu arrebatada,
Ligeira, como um sonho de criança.
Nas noites do meu sono de bonança
Eu guardo, junto a mim, ah! noiva amada,
Enquanto minha vista não se cansa
De vê-la, de adorá-la, extasiada...
Com o fio desta trança tão escura,
Tão negra, sim, que até minha amargura
Invejara-lhe a cor, e tão macia,
Qual pétala de rosa, eu teço, à noite,
Da viração sentindo o brando açoite,
O epitáfio de minha campa fria.
Do teu saudoso amor, esta lembrança
Da vida, que fugiu arrebatada,
Ligeira, como um sonho de criança.
Nas noites do meu sono de bonança
Eu guardo, junto a mim, ah! noiva amada,
Enquanto minha vista não se cansa
De vê-la, de adorá-la, extasiada...
Com o fio desta trança tão escura,
Tão negra, sim, que até minha amargura
Invejara-lhe a cor, e tão macia,
Qual pétala de rosa, eu teço, à noite,
Da viração sentindo o brando açoite,
O epitáfio de minha campa fria.
978
Domingos dos Reis Quita
Tircéia
Idílio
Já lá sinto rugir das aveleiras
As buliçosas folhas; já escuto
Um rumor leve de sutis pisadas;
Entre as confusas ramas já diviso
Mover-se um vulto; se virá Tircéia!
Por mais que afirmo a vista não distingo.
Ora lá se encobria agora a Lua.
Mas, oh quanto desejo vão me engana?
Uma ovelha é perdida da manada;
Lá vai balando pelo vale abaixo.
Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero?
Oh! quanto da saudade o golpe fero
Nos sentidos me oprime, e me confunde!
Eu não julgava agora, que este vale
Era aquele feliz e deleitoso,
Onde a minha pastora sempre espero?
Que esta sonora fonte, que murmura
Entre cheirosas flores e verdura,
Coberta de sombrios arvoredos,
Era aquele lugar, aonde a calma
Costumamos passar da ardente sesta?
Quem viu já fantasia mais confusa?
Oh poderoso amor, quanto me enleias!
Oh quem pisara agora os venturosos
Campos, que os resplendores luminosos
Dos olhos de Tircéia estão gozando!
Quem vira agora o seu formoso rosto!
Oh quem sequer ao menos escutara
Os conhecidos ladros, os balidos
De suas ovelhinhas e rafeiro!
Oh duras penhas, oh sombrios vales,
Que meus saudosos ais estais ouvindo!
Se agora aqueles belos olhos vísseis,
Por quem meu coração tanto suspira!
Veríeis de repente a roxa aurora
Verter o fresco orvalho sobre as flores;
Raiar o louro sol nos horizontes;
E enriquecer de luz os altos montes.
Parece-me, Tircéia, que te vejo
Deixar na fonte o cântaro vazio,
E na mais alta penha dessa praia
Subida estar os olhos estendendo,
Cheios de pranto para as altas serras,
Onde tão larga ausência estou chorando.
Que saudosa dali estás chamando:
"Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?"
Parece-me que te ouço a voz magoada
Já de ingrato acusar-me, de esquecido;
Que vais depois ao vale suspirando,
E que ali muitas vezes estás lendo
Os amorosos versos, que nos troncos
Eu escrevi na amarga despedida.
Oh pastora mais firme do que os montes!
Mais amante, mais terna do que as rolas!
Mais perfeita, mais cândida e formosa,
Que a pura neve, que a vermelha rosa!
Só por ti, eu o juro a estas penhas,
Só por ti há de amor dentro em meu peito
Cravar as setas, acender as chamas.
Só por ti meus suspiros serão dados;
Só por ti chorarão de amor meus olhos:
Meus olhos, que por esses tão formosos
Agora estão chorando tão saudosos.
Já lá sinto rugir das aveleiras
As buliçosas folhas; já escuto
Um rumor leve de sutis pisadas;
Entre as confusas ramas já diviso
Mover-se um vulto; se virá Tircéia!
Por mais que afirmo a vista não distingo.
Ora lá se encobria agora a Lua.
Mas, oh quanto desejo vão me engana?
Uma ovelha é perdida da manada;
Lá vai balando pelo vale abaixo.
Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero?
Oh! quanto da saudade o golpe fero
Nos sentidos me oprime, e me confunde!
Eu não julgava agora, que este vale
Era aquele feliz e deleitoso,
Onde a minha pastora sempre espero?
Que esta sonora fonte, que murmura
Entre cheirosas flores e verdura,
Coberta de sombrios arvoredos,
Era aquele lugar, aonde a calma
Costumamos passar da ardente sesta?
Quem viu já fantasia mais confusa?
Oh poderoso amor, quanto me enleias!
Oh quem pisara agora os venturosos
Campos, que os resplendores luminosos
Dos olhos de Tircéia estão gozando!
Quem vira agora o seu formoso rosto!
Oh quem sequer ao menos escutara
Os conhecidos ladros, os balidos
De suas ovelhinhas e rafeiro!
Oh duras penhas, oh sombrios vales,
Que meus saudosos ais estais ouvindo!
Se agora aqueles belos olhos vísseis,
Por quem meu coração tanto suspira!
Veríeis de repente a roxa aurora
Verter o fresco orvalho sobre as flores;
Raiar o louro sol nos horizontes;
E enriquecer de luz os altos montes.
Parece-me, Tircéia, que te vejo
Deixar na fonte o cântaro vazio,
E na mais alta penha dessa praia
Subida estar os olhos estendendo,
Cheios de pranto para as altas serras,
Onde tão larga ausência estou chorando.
Que saudosa dali estás chamando:
"Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?"
Parece-me que te ouço a voz magoada
Já de ingrato acusar-me, de esquecido;
Que vais depois ao vale suspirando,
E que ali muitas vezes estás lendo
Os amorosos versos, que nos troncos
Eu escrevi na amarga despedida.
Oh pastora mais firme do que os montes!
Mais amante, mais terna do que as rolas!
Mais perfeita, mais cândida e formosa,
Que a pura neve, que a vermelha rosa!
Só por ti, eu o juro a estas penhas,
Só por ti há de amor dentro em meu peito
Cravar as setas, acender as chamas.
Só por ti meus suspiros serão dados;
Só por ti chorarão de amor meus olhos:
Meus olhos, que por esses tão formosos
Agora estão chorando tão saudosos.
467
Pedro Magussi
Anjo Meu
Anjo Meu
A tua imagem esvanecida
Não está no tempo perdida
Também , não foi esquecida.
Jamais será por mim apagada,
Pois está bem guardada
No fundo do meu coração.
A tua presença , eu sentia
Quando via,
Crescendo dia a dia
O ventre de sua mãe .
Você, foi tão esperada,
Que contava a tua chegada
Nos dedos de minha mão.
Mas, quis o destino, num dia
De azar ou de má sorte
Desfazer os sonhos meus,
Pois Deus , dono da vida e da morte
Fechou os olhos teus.
Foi então que o dia tão esperado
Se tornou desesperado
De repente , tão amargo
Que não de para esquecer.
Mas hoje , quando eu olho pro céu eu sei
Que deus, diante de sua inocência,
Vendo a tua beleza,
Fez de ti um anjo seu.
Só ai eu me consolo,
Pois se na terra, jaz no solo
És no céu, também
Um anjo meu.
A tua imagem esvanecida
Não está no tempo perdida
Também , não foi esquecida.
Jamais será por mim apagada,
Pois está bem guardada
No fundo do meu coração.
A tua presença , eu sentia
Quando via,
Crescendo dia a dia
O ventre de sua mãe .
Você, foi tão esperada,
Que contava a tua chegada
Nos dedos de minha mão.
Mas, quis o destino, num dia
De azar ou de má sorte
Desfazer os sonhos meus,
Pois Deus , dono da vida e da morte
Fechou os olhos teus.
Foi então que o dia tão esperado
Se tornou desesperado
De repente , tão amargo
Que não de para esquecer.
Mas hoje , quando eu olho pro céu eu sei
Que deus, diante de sua inocência,
Vendo a tua beleza,
Fez de ti um anjo seu.
Só ai eu me consolo,
Pois se na terra, jaz no solo
És no céu, também
Um anjo meu.
930
Silvino Pirauá de Lima
Necrológio de Francisco Romano
Na era 91
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.
Ele, antes de morrer,
Tinha em casa destinado
De ir buscar uma imagem
Com quem tinha se pegado,
Mas antes dessa viagem.
Primeiro foi ao roçado.
Pegou o chapéu, saiu
Com uma faca na mão
E uma foice no ombro,
Foi tapar um boqueirão,
Embora fosse domingo,
Mas havia precisão.
Justamente foi o tempo
De a hora lhe ser chegada...
Romano dentro da roça,
Morreu de morte apressada:
Apagou-se aquele esprito,
Seu corpo virou em nada.
Foi num dia de domingo
Esse caso acontecido...
Nesse dia, às quatro horas,
Foi Jesus Cristo servido:
Duma morte violenta
Romano foi falecido.
De bruço caiu em terra
Com a tal faca na mão,
A outra mão sobre o peito,
Em riba do coração,
A foice do outro lado,
Bem junto dele, no chão.
Nesse entre, um filho dele,
Tendo de ir ao roçado,
Pra dar água a uns animais,
Por seu mano ter mandado,
Chegou, foi vendo o cadave
No chão, morto, istoporado.
O menino, quando viu,
Ficou cheio de agonia
De ver seu querido pai
Se acabar naquele dia...
Foi levar a notiça à mãe,
Coitada, que não sabia!
Choroso voltou pra trás
Do caso que aconteceu,
Foi chegando e foi dizendo:
- "Ruim notiça trago eu!
Minha mãe, meus irmãozinho,
Meu querido pai morreu!"
Em casa o choro foi tanto
Que fez um grande alarido,
A mulher correu pra roça,
À procura do marido,
Não morreu de sentimento
Porque Deus não foi servido.
Atrás da pobre mulher
O povo todo seguiu...
Quando ela viu o cadave
Por cima dele caiu,
A prece que fez ao céu
Parece que Deus ouviu.
Voltaram tristes pra casa,
O choro ninguém continha,
Romano veio numa rede,
A mulher em braços vinha,
Mandaram comprar mortalha
Na rua, de noitezinha.
Eu senti a morte dele,
Que ninguém não esperava!
Quando me veio a notiça
Que Romano morto estava,
Logo me veio à lembrança
O tempo em que nós cantava.
Conheço, desde esse dia,
Cantador entusiasmado...
Todo mundo quer cantar,
Cada qual dá seu recado
Porque quem se respeitava
Ja está em cinzas tornado!
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.
Ele, antes de morrer,
Tinha em casa destinado
De ir buscar uma imagem
Com quem tinha se pegado,
Mas antes dessa viagem.
Primeiro foi ao roçado.
Pegou o chapéu, saiu
Com uma faca na mão
E uma foice no ombro,
Foi tapar um boqueirão,
Embora fosse domingo,
Mas havia precisão.
Justamente foi o tempo
De a hora lhe ser chegada...
Romano dentro da roça,
Morreu de morte apressada:
Apagou-se aquele esprito,
Seu corpo virou em nada.
Foi num dia de domingo
Esse caso acontecido...
Nesse dia, às quatro horas,
Foi Jesus Cristo servido:
Duma morte violenta
Romano foi falecido.
De bruço caiu em terra
Com a tal faca na mão,
A outra mão sobre o peito,
Em riba do coração,
A foice do outro lado,
Bem junto dele, no chão.
Nesse entre, um filho dele,
Tendo de ir ao roçado,
Pra dar água a uns animais,
Por seu mano ter mandado,
Chegou, foi vendo o cadave
No chão, morto, istoporado.
O menino, quando viu,
Ficou cheio de agonia
De ver seu querido pai
Se acabar naquele dia...
Foi levar a notiça à mãe,
Coitada, que não sabia!
Choroso voltou pra trás
Do caso que aconteceu,
Foi chegando e foi dizendo:
- "Ruim notiça trago eu!
Minha mãe, meus irmãozinho,
Meu querido pai morreu!"
Em casa o choro foi tanto
Que fez um grande alarido,
A mulher correu pra roça,
À procura do marido,
Não morreu de sentimento
Porque Deus não foi servido.
Atrás da pobre mulher
O povo todo seguiu...
Quando ela viu o cadave
Por cima dele caiu,
A prece que fez ao céu
Parece que Deus ouviu.
Voltaram tristes pra casa,
O choro ninguém continha,
Romano veio numa rede,
A mulher em braços vinha,
Mandaram comprar mortalha
Na rua, de noitezinha.
Eu senti a morte dele,
Que ninguém não esperava!
Quando me veio a notiça
Que Romano morto estava,
Logo me veio à lembrança
O tempo em que nós cantava.
Conheço, desde esse dia,
Cantador entusiasmado...
Todo mundo quer cantar,
Cada qual dá seu recado
Porque quem se respeitava
Ja está em cinzas tornado!
1 340
Paulo F. Cunha
Pseudônimos
Amor tem vários pseudônimos :
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
994
Raimundo Oswald Cavalcante Barroso
Lembrança
A lua te recordará
a branca noite
em que ela se despiu
e, vermelha,
se fez cúmplice
do nosso amor.
O mar te lembrará
nosso costume
de caminhar nas tardes
até o horizonte,
pois que o mar
também é cúmplice
dos namorados distantes.
E quando vires, amor,
num vão de céu
uma estrela,
tu não chorarás,
porque, então,
aprenderás o meu caminho.
Mas, quando o povo
andar triste pelos becos,
tu saberás do meu luto
e sentirás a dor
da dura separação.
Porém, se a multidão
ensaiar um canto,
tu saberás do meu riso
e nela me encontrarás.
a branca noite
em que ela se despiu
e, vermelha,
se fez cúmplice
do nosso amor.
O mar te lembrará
nosso costume
de caminhar nas tardes
até o horizonte,
pois que o mar
também é cúmplice
dos namorados distantes.
E quando vires, amor,
num vão de céu
uma estrela,
tu não chorarás,
porque, então,
aprenderás o meu caminho.
Mas, quando o povo
andar triste pelos becos,
tu saberás do meu luto
e sentirás a dor
da dura separação.
Porém, se a multidão
ensaiar um canto,
tu saberás do meu riso
e nela me encontrarás.
797
Paulo F. Cunha
Te Quero
Te quero , te preciso .
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
860
Olinda Marques de Azevedo
Inverno
Como uma mortalha
branca geada
sobre o cafezal.
Céu iluminado
balões subindo
ao clarão da lua.
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
branca geada
sobre o cafezal.
Céu iluminado
balões subindo
ao clarão da lua.
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
1 051
Nogueira Tapety
A Teia de Penélope
Penélope tecendo e destecendo a trama,
Num trabalho incessante, improfícuo e exaustivo
Simboliza este amor fatal que nos inflama
A cuja ação ela há de viver, como eu vivo.
Ao seu lado fui sempre inexprimido e esquivo,
Entretanto hoje, ausente, em mim tudo a reclama
E ela que me foi sempre um vulto fugitivo,
Há de, a esta hora, sentir que sua alma me chama.
Ah! capricho cruel, como dói teu efeito
Que me isola inda mais na minha soledade
E um deserto sem fim vem semear no meu peito.
Agora, busco-a em vão na maior ansiedade;
Desgraçado que eu sou, pois nem sinto o direito
De invocá-la através desta amarga saudade.
Num trabalho incessante, improfícuo e exaustivo
Simboliza este amor fatal que nos inflama
A cuja ação ela há de viver, como eu vivo.
Ao seu lado fui sempre inexprimido e esquivo,
Entretanto hoje, ausente, em mim tudo a reclama
E ela que me foi sempre um vulto fugitivo,
Há de, a esta hora, sentir que sua alma me chama.
Ah! capricho cruel, como dói teu efeito
Que me isola inda mais na minha soledade
E um deserto sem fim vem semear no meu peito.
Agora, busco-a em vão na maior ansiedade;
Desgraçado que eu sou, pois nem sinto o direito
De invocá-la através desta amarga saudade.
1 238
Newton de Freitas
O Natal
Senhor! No teu Natal tanta ventura,
tantos sorrisos, tantas esperanças,
e eu cansado e sozinho,
sentindo tanta mágoa em meu Natal?
Senhor, no teu Natal tanta alegria,
e eu sem fé, sem vontade de viver?
Ah! Meus dez anos de ilusão tão bons,
o tempo em que eu beijava a borda dos presepes
e sorria feliz, contemplando os pastores!
Senhor! No teu Natal tanta ventura
e eu pensando em saudade e eu sentindo amargura!
tantos sorrisos, tantas esperanças,
e eu cansado e sozinho,
sentindo tanta mágoa em meu Natal?
Senhor, no teu Natal tanta alegria,
e eu sem fé, sem vontade de viver?
Ah! Meus dez anos de ilusão tão bons,
o tempo em que eu beijava a borda dos presepes
e sorria feliz, contemplando os pastores!
Senhor! No teu Natal tanta ventura
e eu pensando em saudade e eu sentindo amargura!
1 078
Oliveira Neto
Trovas
Sou poeta e fui vaqueiro
— qualidades bem diversas.
No cavalo fui ligeiro
atrás das reses dispersas.
Tenho saudade das matas,
dos verdejantes baixões,
do feitiço das mulatas
nos pagodes dos sertões.
Adorei as noites belas
neste mundão de meu Deus,
Conversando com as estrelas
luzindo no azul dos céus.
Curtinha está minha vista,
andando estou de bengala!
mesmo que a velhice insista,
só falta de amor me abala!
— qualidades bem diversas.
No cavalo fui ligeiro
atrás das reses dispersas.
Tenho saudade das matas,
dos verdejantes baixões,
do feitiço das mulatas
nos pagodes dos sertões.
Adorei as noites belas
neste mundão de meu Deus,
Conversando com as estrelas
luzindo no azul dos céus.
Curtinha está minha vista,
andando estou de bengala!
mesmo que a velhice insista,
só falta de amor me abala!
1 159
Neide Archanjo
Ontem
Ontem
noite alta
na cama desfeita
tua imagem me surpreendia
cravando um punhal doce
no meio do meu corpo
onde o desejo renascia.
Ninguém nos via
nem o sono
que diante da tua presença
bruscamente se evadia.
Ontem
noite alta
na cama desfeita
nasciam flores
nasciam flores.
noite alta
na cama desfeita
tua imagem me surpreendia
cravando um punhal doce
no meio do meu corpo
onde o desejo renascia.
Ninguém nos via
nem o sono
que diante da tua presença
bruscamente se evadia.
Ontem
noite alta
na cama desfeita
nasciam flores
nasciam flores.
1 238
Noel de Arriaga
Guitarra
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.
Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.
Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.
Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...
Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.
Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.
E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!
Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.
Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.
Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.
Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...
Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.
Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.
E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!
Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
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