Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Pedro António Correia Garção
Soneto
Três vezes vi, Marília, de alva lua,
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
1 667
Ana Garrett
Poder Cósmico
Poder cósmico tem esse teu olhar,
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
815
Firmino Rodrigues da Silva
Nénia
Niterói, Niterói, que é do sorriso
Donoso de ventura, que teus lábios
Outrora enfeitiçava? Cor de jambo
Pelo sol destes céus enrubescido
Já não são tuas faces; nem teus olhos
Lampejam de alegria. — Que é da coroa
De madressilva, de cecéns e rosas,
Que a fronte engrinaldava? — Ei-la de rojo
Trespassada de pranto, e as flores murchas
Mirradas pelo sopro do infortúnio.
De teus formosos olhos se desatam
Dois arroios de lágrimas; — tu choras,
Desventurada mãe, a perda infausta
Do filho teu amado; e que outro filho
Mais sincero chorar há merecido?!
Da noite o furacão prostrou tremendo
Audaz Jequitibá, que ainda na infância
Com a cima excelsa devassava os céus!
— Eu o vi pelos raios matutinos
Do sol apenas nado, auritingido
Ainda sepulta em trevas a floresta!
Eu o vi, e asilou-me a sua sombra.
Também sou filho teu, oh minha pátria,
E o melhor dos amigos hei perdido,
Da minha guarda o anjo... eia deixemos
Amargurado pranto deslizar-se
Por faces, onde o riso só folgara:
Que ele mitigue dor que não tem cura!
Eu disse; — e majestosa e bela ergueu-se
A princesa do vale... Ei-la que os olhos
Crava nos céus, e aos céus as mãos levanta;
De tanta desventura enternecida
A viração da tarde parecia
Com ela suspirar, gemer-lhe em torno,
As luzidias tranças esparzindo-lhe
Pelo moreno colo tão formoso.
O Sol já descambava pra o ocidente,
E em cima das montanhas semelhando
Um círio aceso pela mão dos séculos
A fronte iluminava-lhe: — direis
Que da maternidade o gênio augusto,
Ante do Eterno as aras majestosas
Que a natureza por si mesmo erguera,
Sobrepondo à montanha altos serros,
Lenitivo a seus males implorava.
— Oh! que mais lhe restava no infortúnio,
Senão volver pra o céu olhos maternos,
Para o céu, derradeiro, único abrigo,
Onde a esperança de vê-lo se acoitava? —
Ouvi que ela dizia:
"— Oh! meu filho,
Entre milhares filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?
Ainda ontem pendente do meu seio
Com sorrisos aos beijos respondias
Que amor de mãe nos lábios te arroiava.
De mil aromas perfumada a brisa
Embalava teu berço na palmeira,
E as rosas das campinas desfolhavam-se,
Porque teu vímeo leito amaciassem:
Oh! de meus filhos, filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?...
Ao donoso raiar da juventude
Vi-o mais belo do que o sol de julho
Que, desfeita a neblina, alto resplende!
De louro mel os lábios borrifou-lhe
Mimosa jataí; — branca açucena
Mais cândida não era que seu peito, —
Puro como os desejos dá inocência
Ingênua simpatia lhe esparzira
Um não sei quê de amável no semblante,
Que vê-lo era prezá-lo; — a fronte augusta
Traía o gênio que alma lhe acendia...
Oh! de meus filhos ufania e glória,
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Que é feito do condor que o vôo ardido
Arrojava por cima desses Andes?
Dos céus nas sendas transviou-se acaso?
...................................... Ai! quão triste,
Quão sozinha deixou-me na floresta,
Gemendo de saudade! Vem, meu filho,
Consolo de meus males, minha esperança;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Tal como o rouco som das rotas vagas
Que contra as penedias bramam fúrias
Confuso burburinho ao longe ecoa
De gente que aproxima: — Ei-los — meus filhos,
Seus semblantes são pálidos; o gênio
Lampeja nos seus olhos cintilantes!
— Marchai avante, prole de esperança,
À glória, à glória, que o futuro é nosso... —
Mas que é dele? Não vai na vossa frente!
Ohl que é feito do rei da mocidade,
Tupá, Tupá, oh numem de meus pais!
Qual majestoso Chimborazo, esbelto
Alcantilado colo dentre os picos
Dos desvairados Andes, oh meu filho,
Em meio dessas turmas avultavas —
Oh Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito!
Não guiarei a turma das donzelas
Quando coréias rápidas tecendo
Por princesa dos jogos me aclamarem.
— Minhas irmãs, eu lhes direi, deixai-me
Na solidão chorar minhas desgraças;
Sem dó, nem compaixão, roubou-me a morte
Do meu cocar a pena mais mimosa;
A jóia peregrina do meu cinto,
O lírio mais formoso das campinas,
O lume de meus olhos! — Oh meu filho,
Ainda canta a araponga, e o rio volve
Na ruiva areia a lôbrega corrente;
Ainda retouca a laranjeira a coma
Verde-negra de flores alvejantes;
E tu já não existes! ..............................
Primeiro volverão séculos e séculos
Que outra palmeira tão gentil se ostente
Nestas florestas altas, gigantescas!
Como estalarão tantas esperanças
Num momento de dor! — Eia, dizei-mo,
Erguidas serras, broncas penedias
Oh! Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito?!...
Não pude mais dizer... por entre as matas
Como um sonho ligeira a vi sumir-se.
E o oco som das vagas nos cachopos,
E o sibilo dos ventos nas florestas,
E o eco das montanhas, e o dos vales,
A modo que num coro majestoso
Ainda as últimas queixas repetiam:
Oh! Tupá! Oh! Tupá! que mal te hei feito
Donoso de ventura, que teus lábios
Outrora enfeitiçava? Cor de jambo
Pelo sol destes céus enrubescido
Já não são tuas faces; nem teus olhos
Lampejam de alegria. — Que é da coroa
De madressilva, de cecéns e rosas,
Que a fronte engrinaldava? — Ei-la de rojo
Trespassada de pranto, e as flores murchas
Mirradas pelo sopro do infortúnio.
De teus formosos olhos se desatam
Dois arroios de lágrimas; — tu choras,
Desventurada mãe, a perda infausta
Do filho teu amado; e que outro filho
Mais sincero chorar há merecido?!
Da noite o furacão prostrou tremendo
Audaz Jequitibá, que ainda na infância
Com a cima excelsa devassava os céus!
— Eu o vi pelos raios matutinos
Do sol apenas nado, auritingido
Ainda sepulta em trevas a floresta!
Eu o vi, e asilou-me a sua sombra.
Também sou filho teu, oh minha pátria,
E o melhor dos amigos hei perdido,
Da minha guarda o anjo... eia deixemos
Amargurado pranto deslizar-se
Por faces, onde o riso só folgara:
Que ele mitigue dor que não tem cura!
Eu disse; — e majestosa e bela ergueu-se
A princesa do vale... Ei-la que os olhos
Crava nos céus, e aos céus as mãos levanta;
De tanta desventura enternecida
A viração da tarde parecia
Com ela suspirar, gemer-lhe em torno,
As luzidias tranças esparzindo-lhe
Pelo moreno colo tão formoso.
O Sol já descambava pra o ocidente,
E em cima das montanhas semelhando
Um círio aceso pela mão dos séculos
A fronte iluminava-lhe: — direis
Que da maternidade o gênio augusto,
Ante do Eterno as aras majestosas
Que a natureza por si mesmo erguera,
Sobrepondo à montanha altos serros,
Lenitivo a seus males implorava.
— Oh! que mais lhe restava no infortúnio,
Senão volver pra o céu olhos maternos,
Para o céu, derradeiro, único abrigo,
Onde a esperança de vê-lo se acoitava? —
Ouvi que ela dizia:
"— Oh! meu filho,
Entre milhares filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?
Ainda ontem pendente do meu seio
Com sorrisos aos beijos respondias
Que amor de mãe nos lábios te arroiava.
De mil aromas perfumada a brisa
Embalava teu berço na palmeira,
E as rosas das campinas desfolhavam-se,
Porque teu vímeo leito amaciassem:
Oh! de meus filhos, filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?...
Ao donoso raiar da juventude
Vi-o mais belo do que o sol de julho
Que, desfeita a neblina, alto resplende!
De louro mel os lábios borrifou-lhe
Mimosa jataí; — branca açucena
Mais cândida não era que seu peito, —
Puro como os desejos dá inocência
Ingênua simpatia lhe esparzira
Um não sei quê de amável no semblante,
Que vê-lo era prezá-lo; — a fronte augusta
Traía o gênio que alma lhe acendia...
Oh! de meus filhos ufania e glória,
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Que é feito do condor que o vôo ardido
Arrojava por cima desses Andes?
Dos céus nas sendas transviou-se acaso?
...................................... Ai! quão triste,
Quão sozinha deixou-me na floresta,
Gemendo de saudade! Vem, meu filho,
Consolo de meus males, minha esperança;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Tal como o rouco som das rotas vagas
Que contra as penedias bramam fúrias
Confuso burburinho ao longe ecoa
De gente que aproxima: — Ei-los — meus filhos,
Seus semblantes são pálidos; o gênio
Lampeja nos seus olhos cintilantes!
— Marchai avante, prole de esperança,
À glória, à glória, que o futuro é nosso... —
Mas que é dele? Não vai na vossa frente!
Ohl que é feito do rei da mocidade,
Tupá, Tupá, oh numem de meus pais!
Qual majestoso Chimborazo, esbelto
Alcantilado colo dentre os picos
Dos desvairados Andes, oh meu filho,
Em meio dessas turmas avultavas —
Oh Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito!
Não guiarei a turma das donzelas
Quando coréias rápidas tecendo
Por princesa dos jogos me aclamarem.
— Minhas irmãs, eu lhes direi, deixai-me
Na solidão chorar minhas desgraças;
Sem dó, nem compaixão, roubou-me a morte
Do meu cocar a pena mais mimosa;
A jóia peregrina do meu cinto,
O lírio mais formoso das campinas,
O lume de meus olhos! — Oh meu filho,
Ainda canta a araponga, e o rio volve
Na ruiva areia a lôbrega corrente;
Ainda retouca a laranjeira a coma
Verde-negra de flores alvejantes;
E tu já não existes! ..............................
Primeiro volverão séculos e séculos
Que outra palmeira tão gentil se ostente
Nestas florestas altas, gigantescas!
Como estalarão tantas esperanças
Num momento de dor! — Eia, dizei-mo,
Erguidas serras, broncas penedias
Oh! Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito?!...
Não pude mais dizer... por entre as matas
Como um sonho ligeira a vi sumir-se.
E o oco som das vagas nos cachopos,
E o sibilo dos ventos nas florestas,
E o eco das montanhas, e o dos vales,
A modo que num coro majestoso
Ainda as últimas queixas repetiam:
Oh! Tupá! Oh! Tupá! que mal te hei feito
3 145
Flávio Villa-Lobos
Legados
Velejo por entre correntes marítimas
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando meu sonho
em torvelinho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.
Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.
As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando meu sonho
em torvelinho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.
Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.
As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.
921
Gentil Braga
O Orvalho
Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
2 401
Francisco Karam
Coração Viajante
Chegam e vão entrando em mim
Como por um caminho aberto.
Passam e vão
Levando da poeira de minha carne
Na carne do seu corpo.
Ficam em mim, como na estrada,
As marcas dos seus pés
E o murmúrio distante dos seus cânticos.
O meu corpo tem saudades.
Ele as iluminou,
Como o braseiro dos serões,
Dando sangue, dando calor.
O meu corpo tem nostalgia.
Ele vive,
Na carne que elas levaram dele.
Na alma que elas arrancaram,
Aos punhados, dos meus olhos.
Como por um caminho aberto.
Passam e vão
Levando da poeira de minha carne
Na carne do seu corpo.
Ficam em mim, como na estrada,
As marcas dos seus pés
E o murmúrio distante dos seus cânticos.
O meu corpo tem saudades.
Ele as iluminou,
Como o braseiro dos serões,
Dando sangue, dando calor.
O meu corpo tem nostalgia.
Ele vive,
Na carne que elas levaram dele.
Na alma que elas arrancaram,
Aos punhados, dos meus olhos.
1 145
Francisco Carvalho
Lavoura
As minhas mãos
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
já foram robustas
já plantaram
sementes de milho
nas terras dos filisteus
hoje só semeiam
as lavouras do adeus.
2 293
Moacyr Felix
Sentimento Clássico
Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
1 310
Fernanda Benevides
Rememorando
Revejo saudosa
um ontem bonito,
repleto de sonhos, quimeras, fantasias.
Revejo as manhãs primaveris
em que o sol me despertava
e da cama saltava cheia de viço.
Revejo as tardes crepusculares
em que o coração disparava
ao vislumbrar a lua que surgia;
em que meus olhos acendiam
ante o olhar das estrelas...
Revejo aquelas noites tumultuosas
em que rompia as amarras
e corria, ofegante, ao teu encalço.
Ah! Sentia-me um pássaro!
Rememorando um doce passado,
diluído, transformado,
revejo retalhos bonitos
dos quais não posso olvidar
e chego mesmo a suspirar...
um ontem bonito,
repleto de sonhos, quimeras, fantasias.
Revejo as manhãs primaveris
em que o sol me despertava
e da cama saltava cheia de viço.
Revejo as tardes crepusculares
em que o coração disparava
ao vislumbrar a lua que surgia;
em que meus olhos acendiam
ante o olhar das estrelas...
Revejo aquelas noites tumultuosas
em que rompia as amarras
e corria, ofegante, ao teu encalço.
Ah! Sentia-me um pássaro!
Rememorando um doce passado,
diluído, transformado,
revejo retalhos bonitos
dos quais não posso olvidar
e chego mesmo a suspirar...
818
Ernani Sátyro
Recife
(Recordando)
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio da aurora
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades que tenho
De meus sonhos tão branquinhos
Lavando as águas barrentas,
Das águas levando os sonhos
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades meu Deus
De meus passos na calçada
Acordando aquela estátua
Do Conde de Boa Vista,
Eu querendo ser estátua
Só não querendo morrer.
Oh que saudades também
Do meu amor em Olinda.
Navegava em pensamento
Nos navios que passavam
Mas nadava de verdade
Dando braçadas nas águas
E no corpo da amada.
Oh que saudades, já quantas,
Do Diário e do Comercio
Que só são bons de ser lidos
Bem quentinhos com o café
Numa pensão de estudantes
Vendidos por gazeteiros.
Oh que saudades que tenho
Da minha ama de leite
Joana Pé de Papagaio
Que não conheceu Recife
Mas cujo leite escorria
Nas águas daquele rio
Levado pelos meus olhos
Onde nunca ele secou
E ainda hoje umedece
Um certo modo de olhar.
A outra saudade grande
É dos sonhos bem sonhados
Bem pouco realizados.
E das frases preparadas
Pra serem ditas ao povo
a multidões inflamadas
Pela força do meu verbo
Mas que foi bom não ter dito
Porque eram ruins demais.
Minha saudade maior
É daquelas esperanças
De ser um bom promotor
Lá bem dentro do sertão
Discursando para o júri
Namorando as moças todas
Depois casando orgulhoso
Com a filha do coronel.
Se outras coisas alcancei
Tão boas e até melhores
Não são as coisas sonhadas
Com os passos firmes no chão
Os olhos bem para cima
Desfiando as estrelas
Que não sabiam de nada.
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio na aurora
Que as águas não trazem mais.
Saudades são mil saudades
Do rio que corre agora
Pra outros que não o vêem
Mas termina sempre em mim
Que eu é que sou seu mar.
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio da aurora
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades que tenho
De meus sonhos tão branquinhos
Lavando as águas barrentas,
Das águas levando os sonhos
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades meu Deus
De meus passos na calçada
Acordando aquela estátua
Do Conde de Boa Vista,
Eu querendo ser estátua
Só não querendo morrer.
Oh que saudades também
Do meu amor em Olinda.
Navegava em pensamento
Nos navios que passavam
Mas nadava de verdade
Dando braçadas nas águas
E no corpo da amada.
Oh que saudades, já quantas,
Do Diário e do Comercio
Que só são bons de ser lidos
Bem quentinhos com o café
Numa pensão de estudantes
Vendidos por gazeteiros.
Oh que saudades que tenho
Da minha ama de leite
Joana Pé de Papagaio
Que não conheceu Recife
Mas cujo leite escorria
Nas águas daquele rio
Levado pelos meus olhos
Onde nunca ele secou
E ainda hoje umedece
Um certo modo de olhar.
A outra saudade grande
É dos sonhos bem sonhados
Bem pouco realizados.
E das frases preparadas
Pra serem ditas ao povo
a multidões inflamadas
Pela força do meu verbo
Mas que foi bom não ter dito
Porque eram ruins demais.
Minha saudade maior
É daquelas esperanças
De ser um bom promotor
Lá bem dentro do sertão
Discursando para o júri
Namorando as moças todas
Depois casando orgulhoso
Com a filha do coronel.
Se outras coisas alcancei
Tão boas e até melhores
Não são as coisas sonhadas
Com os passos firmes no chão
Os olhos bem para cima
Desfiando as estrelas
Que não sabiam de nada.
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio na aurora
Que as águas não trazem mais.
Saudades são mil saudades
Do rio que corre agora
Pra outros que não o vêem
Mas termina sempre em mim
Que eu é que sou seu mar.
996
Eustáquio Gorgone
Semana Santa
A Despedida na Rua
Adeus, mulher lavrada numa tora de árvore
De nariz afilado e as mãos em preces
Onde as crianças espetam flores.
Adeus! O instrumento da morte
Afinou as minhas unhas e toca
A canção que fere teus ouvidos.
Vejo teus lábios descascados, mãe!
Foi a umidade que roubou
O verniz de tua face
E agora a noite puxa teus cabelos ruivos
Fazendo deles um cabresto
Para o sofrimento.
Volta, mãe! Não fiques mascando o pó
Atrás de mim e trazendo minha puberdade
Em teu olhar cheio de lágrimas.
Tenho muito que andar
Com essa cruz de bétula.
Tenho que atravessar rios e fazendas
Que se espremem
No capim das montanhas.
Não venhas, mãe! A ventania
Corta os corações.
Adeus, mulher lavrada numa tora de árvore
De nariz afilado e as mãos em preces
Onde as crianças espetam flores.
Adeus! O instrumento da morte
Afinou as minhas unhas e toca
A canção que fere teus ouvidos.
Vejo teus lábios descascados, mãe!
Foi a umidade que roubou
O verniz de tua face
E agora a noite puxa teus cabelos ruivos
Fazendo deles um cabresto
Para o sofrimento.
Volta, mãe! Não fiques mascando o pó
Atrás de mim e trazendo minha puberdade
Em teu olhar cheio de lágrimas.
Tenho muito que andar
Com essa cruz de bétula.
Tenho que atravessar rios e fazendas
Que se espremem
No capim das montanhas.
Não venhas, mãe! A ventania
Corta os corações.
894
Epiphânia Nogueira
Saudade Ancestral
A saudade ancestral me trouxe ao mar,
e o líquido elemento me acolheu;
a imensidão azul foi o meu lar,
e fui peixe, e fui concha, e não fui eu.
Das ondas meu cabelo foi espuma
e brinquei nua e pura à luz da lua.
Com o verme e com o lodo me fiz uma,
e renasci, eterna, à voz que é tua.
Vivo, o incêndio do sol a água queimou,
e toda a minha vida vi arder
nesse mar onde a luz me penetrou.
E o sangue que foi água se refez;
e a carne que foi lodo quis viver;
e, à luz do sol o mar o ser me fez
e o líquido elemento me acolheu;
a imensidão azul foi o meu lar,
e fui peixe, e fui concha, e não fui eu.
Das ondas meu cabelo foi espuma
e brinquei nua e pura à luz da lua.
Com o verme e com o lodo me fiz uma,
e renasci, eterna, à voz que é tua.
Vivo, o incêndio do sol a água queimou,
e toda a minha vida vi arder
nesse mar onde a luz me penetrou.
E o sangue que foi água se refez;
e a carne que foi lodo quis viver;
e, à luz do sol o mar o ser me fez
966
Fábio Afonso de Almeida
Espere
Espere, que na noite mais profunda,
Os furores do anseio tirarão meu sono
E aflito, correrei sem rumo
Na busca frenética de mim mesmo.
As horas, desfiando em silêncio,
Irão esfriar meu corpo cansado, a sofrer
Os tremores convulsos da ausência da carne,
Transformados, na dor, em gozo estranho.
A alma solitária, em vôo sem rumo,
Estará confusa pelo nada do ato estéril,
E se debaterá como um manto incontrolado,
Estendido ao fragor da tempestade.
Nessas noites incontroláveis de solidão,
O Espirito, como uma criança abandonada,
Procura perdidamente o corpo que o abriga
E juntos, cristalizam uma lágrima mansa.
Que rola sem rumor, enquanto quente
E única. Mas ao multiplicar-se sem controle
Em gigantescas torrentes de estrépida revolta
Tornará também impossível seu sono de pedra.
Os furores do anseio tirarão meu sono
E aflito, correrei sem rumo
Na busca frenética de mim mesmo.
As horas, desfiando em silêncio,
Irão esfriar meu corpo cansado, a sofrer
Os tremores convulsos da ausência da carne,
Transformados, na dor, em gozo estranho.
A alma solitária, em vôo sem rumo,
Estará confusa pelo nada do ato estéril,
E se debaterá como um manto incontrolado,
Estendido ao fragor da tempestade.
Nessas noites incontroláveis de solidão,
O Espirito, como uma criança abandonada,
Procura perdidamente o corpo que o abriga
E juntos, cristalizam uma lágrima mansa.
Que rola sem rumor, enquanto quente
E única. Mas ao multiplicar-se sem controle
Em gigantescas torrentes de estrépida revolta
Tornará também impossível seu sono de pedra.
856
Elisa Lucinda
Incompreensão dos Mistérios
Saudades de minha mãe.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.
1 995
Emílio Moura
Exílio
Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.
Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?
Alma, és só tempo e solidão.
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.
Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?
Alma, és só tempo e solidão.
1 228
Emílio Moura
Marinha
Grito teu nome aos ventos.
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.
Velas esguias,
para onde voam?
Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.
Velas esguias,
para onde voam?
Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?
1 008
Fernanda Teixeira
Não Pedirei Adeus
Reflito minha vida,
a compartilho contigo.
De uma luz preciso,
de um caminho para seguir;
A saudade
que
como nunca me atingiu
Ao pensar nos bons momentos
que só você...
Volta,
preciso,
volta, volta pra mim!
Nem esses campos infinitos me consolam
da tristeza de assim...
Não me faça pedir adeus
pois nesses campos me afogaria,
ao me lembrar de teus beijos molhados,
que ainda tocam os meus lábios,
e vagam por mim;
Não, não foste embora,
continuaste aqui,
em minha memória,
mas ainda preciso de ti;
te clamo:
volta,
volta pra mim !
a compartilho contigo.
De uma luz preciso,
de um caminho para seguir;
A saudade
que
como nunca me atingiu
Ao pensar nos bons momentos
que só você...
Volta,
preciso,
volta, volta pra mim!
Nem esses campos infinitos me consolam
da tristeza de assim...
Não me faça pedir adeus
pois nesses campos me afogaria,
ao me lembrar de teus beijos molhados,
que ainda tocam os meus lábios,
e vagam por mim;
Não, não foste embora,
continuaste aqui,
em minha memória,
mas ainda preciso de ti;
te clamo:
volta,
volta pra mim !
789
Diamond
Horário de Verão
Por razão econômica, interesse nacional
Uma porra de decreto, governamental!
Me rouba uma hora de vida,
Pra me devolver, caso eu sobreviva
À chatura daquele horário eleitoral,
Ao calor e ao cupim, que voando
Em squizo zig-zag, me entra pelas ventas
Com a maior intimidade, e nada é pessoal.
Lá pelas horas tantas, em frente à televisão,
Se não faltar energia, essa única diversão,
Suando tomo outro banho, por pura recreação
Já não consigo dormir, desde que você partiu,
Com saudade da hora roubada, eta decreto de m....
P.... que o pariu.
Viver a plenitude da liberdade poética e depois
morrer.
Uma porra de decreto, governamental!
Me rouba uma hora de vida,
Pra me devolver, caso eu sobreviva
À chatura daquele horário eleitoral,
Ao calor e ao cupim, que voando
Em squizo zig-zag, me entra pelas ventas
Com a maior intimidade, e nada é pessoal.
Lá pelas horas tantas, em frente à televisão,
Se não faltar energia, essa única diversão,
Suando tomo outro banho, por pura recreação
Já não consigo dormir, desde que você partiu,
Com saudade da hora roubada, eta decreto de m....
P.... que o pariu.
Viver a plenitude da liberdade poética e depois
morrer.
841
Edmundo de Bettencourt
Canção
Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.
Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.
Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.
Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.
Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!
1 167
Deborah Brennand
Anjo da Noite
Dá-me a ilha de Samos como brinde de noivado
BENGIERD
E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.
Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.
E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?
BENGIERD
E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.
Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.
E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?
1 083
Diamond
Gorda! Eu?
Hoje, lá na praia
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim
Nesse domingo blue
A vi com um carrinho de bebe
Tão lindo seu filhinho
Não quis me aproximar, baby
Mas de longe observei que
Continuas a mais linda mulher
Que eu conheci, three years ago
O cabelo, outra cor, melhor
Um pouco mais gorda, talvez
O busto um pouco maior
O mesmo lindo sorriso
Os mesmos olhos azuis
Nenhuma saudade de mim
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