Poemas neste tema
Solidão
Virgílio Martinho
A Cerveja Sabe
Preciso de cerveja para viver o poema,
da hora tardia para não ser o outro eu,
preciso de ouvir palavras dentro de mim
e de estar só como a estátua do jardim.
Comecei assim, pelo fim das coisas,
digo, no termo da vida, a cerveja sabe,
não há guerreiro, não há Virgílio,
há a morte como um espanto esperado.
Quando te bebo vejo o pero encarnado,
monto as cenas no palco inventado,
alinho-as uma a uma, são pedras erectas,
são soluços, silêncios, portas fechadas.
Escrever, disseram-me, é não ver quem vive,
é percorrer uma estrada com bicos,
apostar no cavalo alado, com chumbo na asa,
é ter nos lábios a guerra murmurada.
Preciso de cerveja, falo claro, sou eu,
apenas isto, num mundo de surpresas,
temporal inesperado, casa destruída,
flor escarlate, vegetal com cabeça.
Deslumbrado olho o corpo da esfinge,
suponho o arquitecto, deito-me na duna,
detesto a cadeira, odeio a cinza,
no dia em que bebo sento-me à espera.
da hora tardia para não ser o outro eu,
preciso de ouvir palavras dentro de mim
e de estar só como a estátua do jardim.
Comecei assim, pelo fim das coisas,
digo, no termo da vida, a cerveja sabe,
não há guerreiro, não há Virgílio,
há a morte como um espanto esperado.
Quando te bebo vejo o pero encarnado,
monto as cenas no palco inventado,
alinho-as uma a uma, são pedras erectas,
são soluços, silêncios, portas fechadas.
Escrever, disseram-me, é não ver quem vive,
é percorrer uma estrada com bicos,
apostar no cavalo alado, com chumbo na asa,
é ter nos lábios a guerra murmurada.
Preciso de cerveja, falo claro, sou eu,
apenas isto, num mundo de surpresas,
temporal inesperado, casa destruída,
flor escarlate, vegetal com cabeça.
Deslumbrado olho o corpo da esfinge,
suponho o arquitecto, deito-me na duna,
detesto a cadeira, odeio a cinza,
no dia em que bebo sento-me à espera.
1 095
Virgílio Martinho
Canção Em É
A dor que se tem quando só
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
É um guardanapo dobrado, é,
Cada dobra a lágrima que vem,
Pérola que cai pingo a pingo, é.
Desfiar lento, água salgada,
Dor a dor sofrimento ai, é,
Como se fora fonte infinda
No paraíso do amor, o que é?
Tudo pode doer, até o coração,
Feito de carne e sangue como é,
Tudo pode doer até mais não,
Que a solidão é punhal, pois é.
Depois chove, é natureza,
A erva cresce, o líquen é,
Viajo na noite, apanho o escuro,
Meu amor nada continua de pé.
Por assim ser, sendo como é,
Tudo se cose e recose em dó,
Na sinfonia que se compõe, é,
Esta coisa simples de estar só.
1 083
Virgílio Martinho
A Noite Sabe
Preciso da noite para ser poema,
da hora tardia para ser o outro eu,
da palavra emergir dentro de mim,
de estar só como a estátua do jardim.
Tarde comecei, pelo fim dos meus dias,
digo, no termo da viagem, a noite sabe,
o Virgílio branqueou, o guerreiro foi-se,
no túnel a morte é o sinal esperado.
Na noite vejo a maçã encarnada,
polposa na fruteira, cofre de memórias,
saindo uma a uma, visões, imagens
rostos diluídos, são antigas histórias.
Sei, recordar é não ver quem vive
é percorrer gastos empedrados
apostar errado, perder
da hora tardia para ser o outro eu,
da palavra emergir dentro de mim,
de estar só como a estátua do jardim.
Tarde comecei, pelo fim dos meus dias,
digo, no termo da viagem, a noite sabe,
o Virgílio branqueou, o guerreiro foi-se,
no túnel a morte é o sinal esperado.
Na noite vejo a maçã encarnada,
polposa na fruteira, cofre de memórias,
saindo uma a uma, visões, imagens
rostos diluídos, são antigas histórias.
Sei, recordar é não ver quem vive
é percorrer gastos empedrados
apostar errado, perder
945
Virgílio Martinho
Viver Amarelo
Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
963
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
605
Sérgio Medeiros
O caminho
– em cima da mureta
que separa as pistas
da estrada uma bota
envelhece aparentemente
imune aos ventos que
balançam tudo
que separa as pistas
da estrada uma bota
envelhece aparentemente
imune aos ventos que
balançam tudo
642
Francesca Angiolillo
Naxos
Melhor teria sido amar
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso
Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar
o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
dó
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso
Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar
o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
dó
639
Mário-Henrique Leiria
Eu vos afirmo
Eu vos afirmo
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
699
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
719
Sérgio Medeiros
Quase
– entre folhas molengas
uma única folha tenra
a oscilar majestosa como um
pássaro negro num galho
que olha do alto para a estrada
em frente
uma única folha tenra
a oscilar majestosa como um
pássaro negro num galho
que olha do alto para a estrada
em frente
716
Renato Rezende
[Filtros]
Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.
Somos todos vazios,
Sem existência fixa.
A gente vai sempre virando
apenas mais uma vida,
perdida
ARRISCAR TUDO
Todos os recursos
Concentrar todos os esforços
Lançar tudo fora
Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece
se perde
diante do abismo
pisa
no vazio
Nada tem sentido
Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.
Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.
A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.
Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.
Isso é ser livre?
Toda pessoa que se preze é uma fracassada.
Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:
No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.
Somos todos vazios,
Sem existência fixa.
A gente vai sempre virando
apenas mais uma vida,
perdida
ARRISCAR TUDO
Todos os recursos
Concentrar todos os esforços
Lançar tudo fora
Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece
se perde
diante do abismo
pisa
no vazio
Nada tem sentido
Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.
Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.
A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.
Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.
Isso é ser livre?
Toda pessoa que se preze é uma fracassada.
Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:
No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
843
Renato Rezende
Ímpar
nem homem, nem mulher, nem anjo,
nem cachorro, nem demônio
nada
que tenha par
estranho
e no entanto anda
e fala
nem cachorro, nem demônio
nada
que tenha par
estranho
e no entanto anda
e fala
1 017
Renato Rezende
[O Outro]
Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
977
Renato Rezende
No Lixo
O homem mais bonito
está catando restos
no depósito de lixo.
A pessoa pura
se perdeu em apuros.
No mundo moderno
o amor é complexo:
quanto menos beijo
mais eterno.
Há várias epidemias
que assolam a população
como se fôssemos vermes.
Mas não morremos.
Sobrevivemos
ao próprio tempo.
No meio da multidão
no Paço
Imperial,
na estação Central,
eu juro
eu confesso
que me perco.
Sou ninguém,
mas tenho o coração aceso.
Rio de Janeiro, 18 de abril 1997
está catando restos
no depósito de lixo.
A pessoa pura
se perdeu em apuros.
No mundo moderno
o amor é complexo:
quanto menos beijo
mais eterno.
Há várias epidemias
que assolam a população
como se fôssemos vermes.
Mas não morremos.
Sobrevivemos
ao próprio tempo.
No meio da multidão
no Paço
Imperial,
na estação Central,
eu juro
eu confesso
que me perco.
Sou ninguém,
mas tenho o coração aceso.
Rio de Janeiro, 18 de abril 1997
986
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
957
Renato Rezende
Outros Dias
Eu sou o melhor amigo para mim mesmo.
Os dias passam, e esse fluir, lento,
que se espraia, e se abre, e quase pára
é a via que vai me tirar daqui.
De vez em quando escrevo um poema.
Os dias passam, e esse fluir, lento,
que se espraia, e se abre, e quase pára
é a via que vai me tirar daqui.
De vez em quando escrevo um poema.
845
Renato Rezende
Sem Amarras
O amor se faz, entre lágrimas e beijos, mas o gozo
muito intenso surpreende, tem tal força
que é bem mais que a triunfante satisfação
da expectativa dos nossos desejos, dispensa
paradoxalmente a presença da amada, o rosto
delicado e adorado, o corpo com suas bocas
adoradas, olhos, membros, beijos e abraços.
Eu não acreditava, mas agora
o outro deixa de ser, estou só, e o amor voa solto
finalmente sem asas ou amarras.
muito intenso surpreende, tem tal força
que é bem mais que a triunfante satisfação
da expectativa dos nossos desejos, dispensa
paradoxalmente a presença da amada, o rosto
delicado e adorado, o corpo com suas bocas
adoradas, olhos, membros, beijos e abraços.
Eu não acreditava, mas agora
o outro deixa de ser, estou só, e o amor voa solto
finalmente sem asas ou amarras.
1 147
Renato Rezende
Águas de Março
Amanhece chovendo
no meu apartamento
em Laranjeiras.
Tudo está mais lento.
Até mesmo o morro de pedra, sob a água,
o mirante de Dona Marta
fica mais doce, doce molhado, doce aço.
Chega até minha cama de solteiro
o cheiro suave da chuva,
e do vento:
o casamento
entre todos os elementos do universo.
Trégua
na luta geral da vida.
A cortina d'água na janela
se transforma numa tela
onde se projeta meu exílio
(esta vida nesta terra).
Memória.
A chuva molha
antigas companheiras
de cama em manhãs cinzentas como esta.
As férias na fazenda,
a infância
e o que ela teve de assombrosa e santa.
As tardes solitárias
na Espanha, na Itália, na França.
Ah, a Europa
de poliglotas cópulas.
(Toda chuva
a continuação da última).
Talvez em algumas dessas horas
eu tenha sido pleno.
Talvez em alguns desses momentos
de silêncio
eu tenha sido inteiro.
Chove. A água
silencia o tempo
e une a pedra à alma.
Rio de Janeiro, 17 de março 1997
no meu apartamento
em Laranjeiras.
Tudo está mais lento.
Até mesmo o morro de pedra, sob a água,
o mirante de Dona Marta
fica mais doce, doce molhado, doce aço.
Chega até minha cama de solteiro
o cheiro suave da chuva,
e do vento:
o casamento
entre todos os elementos do universo.
Trégua
na luta geral da vida.
A cortina d'água na janela
se transforma numa tela
onde se projeta meu exílio
(esta vida nesta terra).
Memória.
A chuva molha
antigas companheiras
de cama em manhãs cinzentas como esta.
As férias na fazenda,
a infância
e o que ela teve de assombrosa e santa.
As tardes solitárias
na Espanha, na Itália, na França.
Ah, a Europa
de poliglotas cópulas.
(Toda chuva
a continuação da última).
Talvez em algumas dessas horas
eu tenha sido pleno.
Talvez em alguns desses momentos
de silêncio
eu tenha sido inteiro.
Chove. A água
silencia o tempo
e une a pedra à alma.
Rio de Janeiro, 17 de março 1997
989
Renato Rezende
Passeio
Demoro-me
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
1 084
Renato Rezende
Copacabana, 1997
O mar brilha e arde.
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
959
Renato Rezende
Prenúncios de Gaivotas
Sou uma alma pequena
pousada na Terra.
Mais precisamente pousada numa pedra
na Urca, esta tarde.
Observo as nuvens, o céu
as gaivotas, o mar.
Tudo passa.
Adiante caminham
no calçamento da encosta da praia
--que brilha num banho de luz e ar--
dezenas de pessoas iguais a mim.
Todas passam, mas não notam
o esplendor da natureza.
Todas passam e percebo que pensam,
e são seus pensamentos que limitam o mar.
Seria a mente o limite do tempo?
Estamos todos vivendo menos,
presos dentro de nós mesmos.
Estamos todos sós
neste planeta azul, sob o sol.
Mas sinto que se der um salto
aprendo a voar.
Rio de Janeiro, 24 de fevereiro 1997
pousada na Terra.
Mais precisamente pousada numa pedra
na Urca, esta tarde.
Observo as nuvens, o céu
as gaivotas, o mar.
Tudo passa.
Adiante caminham
no calçamento da encosta da praia
--que brilha num banho de luz e ar--
dezenas de pessoas iguais a mim.
Todas passam, mas não notam
o esplendor da natureza.
Todas passam e percebo que pensam,
e são seus pensamentos que limitam o mar.
Seria a mente o limite do tempo?
Estamos todos vivendo menos,
presos dentro de nós mesmos.
Estamos todos sós
neste planeta azul, sob o sol.
Mas sinto que se der um salto
aprendo a voar.
Rio de Janeiro, 24 de fevereiro 1997
956
Renato Rezende
O Outro Em Mim
Presta atenção: a vida inteira
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
742
Renato Rezende
O Balde
Rio de Janeiro,
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
750