Poemas neste tema
Solidão
Jaumir Valença da Silveira
Da Natureza Dos Anjos
Na casa, o coração era a lareira
e perto, eu descansava os pés gelados.
Não pude achar lembrança mais acesa:
lareira e pés. Sorri - fechava os olhos.
A vista curta de visão extensa - fogo;
a visão curta da vida extensa - negro.
As pálpebras contidas soluçavam.
Lá fora o vento frio uivava assombro.
Os olhos refletiam as labaredas,
as lágrimas ardiam manchas negras.
O fogo era maior fora de mim...
me lembro muito bem que há tanto fora.
Um dia foste parte do brinquedo.
É mesmo séria a história sobre os anjos?
Não posso dormir mesmo sem camisa?
O fogo me guardava - era preciso.
E tinha duas sombras o tapete.
Que voz ouvi atento, e fiquei quieto.
Que as asas não comportam ser tão leve,
os anjos não têm corpo e nem têm forma:
Que quando neste mundo quem precisa
encontra amparo e afeto nos teus ombros
e só por isto torna-te alegria
e a alma é como um fogo que não queima,
um anjo tomou conta do teu corpo
e fez pousada. E dele são teus atos.
Mas anjos não têm asas, é verdade,
portanto não se pode haver quem tolha.
E vai-se embora em busca de outro vivo.
(Mas dizem que, não raro, ele demora
o tempo que demora a vida inteira;
a etérea substância se confina).
e perto, eu descansava os pés gelados.
Não pude achar lembrança mais acesa:
lareira e pés. Sorri - fechava os olhos.
A vista curta de visão extensa - fogo;
a visão curta da vida extensa - negro.
As pálpebras contidas soluçavam.
Lá fora o vento frio uivava assombro.
Os olhos refletiam as labaredas,
as lágrimas ardiam manchas negras.
O fogo era maior fora de mim...
me lembro muito bem que há tanto fora.
Um dia foste parte do brinquedo.
É mesmo séria a história sobre os anjos?
Não posso dormir mesmo sem camisa?
O fogo me guardava - era preciso.
E tinha duas sombras o tapete.
Que voz ouvi atento, e fiquei quieto.
Que as asas não comportam ser tão leve,
os anjos não têm corpo e nem têm forma:
Que quando neste mundo quem precisa
encontra amparo e afeto nos teus ombros
e só por isto torna-te alegria
e a alma é como um fogo que não queima,
um anjo tomou conta do teu corpo
e fez pousada. E dele são teus atos.
Mas anjos não têm asas, é verdade,
portanto não se pode haver quem tolha.
E vai-se embora em busca de outro vivo.
(Mas dizem que, não raro, ele demora
o tempo que demora a vida inteira;
a etérea substância se confina).
990
Augusto Massi
CONVERSA FIADA
Converso com os prédios parados no bairro
Converso com os carros passando na rua
Converso entre o corredor e a cozinha
Converso com o silêncio da vizinha
Converso com meu braço que não pára de falar
Converso animadamente de porta aberta
Converso de conversa em conversa
Converso com o rádio que não me escuta
Converso com nossos passos batendo papo na /calçada
Converso em voz baixa com a samambaia
Converso com os movimentos de tua saia
Converso com pedaços de conversa que ficaram na /sala
Converso pelo telefone madrugada adentro
Conservo o formigamento versátil da conversa
O seu veneno letal:
boatos, ironias e farpas.
Jogo conversa fora
Jogo conversa dentro de outra conversa que rola
Eu me converto em motivo de conversa
Toda conversa tem sua graça
Conversar não custa nada
Converso com os carros passando na rua
Converso entre o corredor e a cozinha
Converso com o silêncio da vizinha
Converso com meu braço que não pára de falar
Converso animadamente de porta aberta
Converso de conversa em conversa
Converso com o rádio que não me escuta
Converso com nossos passos batendo papo na /calçada
Converso em voz baixa com a samambaia
Converso com os movimentos de tua saia
Converso com pedaços de conversa que ficaram na /sala
Converso pelo telefone madrugada adentro
Conservo o formigamento versátil da conversa
O seu veneno letal:
boatos, ironias e farpas.
Jogo conversa fora
Jogo conversa dentro de outra conversa que rola
Eu me converto em motivo de conversa
Toda conversa tem sua graça
Conversar não custa nada
1 352
António Gancho
Desenham-se no céu
Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o
fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu,
Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa também te vou cantar
Grande nostalgia do teu néon luminoso a sentir-se
dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céu
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o
fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu,
Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa também te vou cantar
Grande nostalgia do teu néon luminoso a sentir-se
dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céu
1 311
Albano Dias Martins
Microscópio
Oásis
na penumbra
do rosto. A solidão
mais próxima
e distante.
in:Sob os
Limos(1981-1982)
na penumbra
do rosto. A solidão
mais próxima
e distante.
in:Sob os
Limos(1981-1982)
1 262
Carlos de Oliveira
Edgar Allan Poe
O inverno em Boston foi breve.Ele bebia.Sílabas
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
1 637
António Maria Lisboa
Comutador
Ergo-me de ti no zimbório
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn
Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício
Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada
OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn
Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício
Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada
OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.
1 825
Paulo Leminski
ALÉM ALMA (UMA GRAMA DEPOIS)
Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?
2 194
António Lampreia
Sombras da Madrugada
Vi uma sombra bem unida
a dela e a tua
e a minha sombra já esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu não queres
mas já te amou!
É madrugada não importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu não te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.
Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
já não tem nada
anda perdida
quando a manhã, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!
a dela e a tua
e a minha sombra já esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu não queres
mas já te amou!
É madrugada não importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu não te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.
Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
já não tem nada
anda perdida
quando a manhã, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!
939
Fernando Pessoa
Qualquer coisa de obscuro permanece
Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.
Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.
Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.
Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.
Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.
Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.
Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.
4 496
Pedro Ayres de Magalhães
A estrada do monte
Não digas nada a ninguém
que eu ando no mundo triste
a minha amada, que eu mais gostava,
dançou, deixou-me da mão;
Eu a dizer-lhe que queria
ela a dizer-me que não
e a passarada
não se calava
cantando esta canção
Sim, foi na estrada do monte
perdi o teu grande amor
Sim ali ao pé da fonte
perdi o teu grande amor
Ai que tristeza que eu sinto
fiquei no mundo tão só
e aquela fonte, ficou marcada
com tanto que se chorou
Se alguém aqui nunca teve
uma razão para chorar
siga essa estrada
não diga nada
que eu fico aqui a chorar
Sim, foi na estrada do monte
perdi o teu grande amor
Sim ali ao pé da fonte
perdi o teu grande amor
que eu ando no mundo triste
a minha amada, que eu mais gostava,
dançou, deixou-me da mão;
Eu a dizer-lhe que queria
ela a dizer-me que não
e a passarada
não se calava
cantando esta canção
Sim, foi na estrada do monte
perdi o teu grande amor
Sim ali ao pé da fonte
perdi o teu grande amor
Ai que tristeza que eu sinto
fiquei no mundo tão só
e aquela fonte, ficou marcada
com tanto que se chorou
Se alguém aqui nunca teve
uma razão para chorar
siga essa estrada
não diga nada
que eu fico aqui a chorar
Sim, foi na estrada do monte
perdi o teu grande amor
Sim ali ao pé da fonte
perdi o teu grande amor
958
Geraldo Falcão
Sede
Boca invisível
na flor da boca,
lábios rachados
de sol e sal,
de folha e palha.
Língua de brasa
queima a garganta;
voz abafada,
som que farfalha.
As cimitarras
voam ao vento,
cortam papéis
(brancas mortalhas).
Ossos ressecos
feitos de pó,
baixos-relevos
no chão gretado.
Rente à corrente
de águas que fervem
alço o meu corpo
círio fanado,
chama indecisa
que arde tão só.
na flor da boca,
lábios rachados
de sol e sal,
de folha e palha.
Língua de brasa
queima a garganta;
voz abafada,
som que farfalha.
As cimitarras
voam ao vento,
cortam papéis
(brancas mortalhas).
Ossos ressecos
feitos de pó,
baixos-relevos
no chão gretado.
Rente à corrente
de águas que fervem
alço o meu corpo
círio fanado,
chama indecisa
que arde tão só.
1 003
Diogo Bernardes
Já não posso ser contente
Já não posso ser contente,
Tenho a esperança perdida,
Ando perdido entre a gente,
Nem morro, nem tenho vida.
Prazeres que tenho visto
Onde se foram, que é deles,
Fora-se a vida com eles
Não ma vira agora nisto,
Vejo-me andar entre a gente
Como coisa esquecida,
Eu triste, outrém contente,
Eu sem vida, outrém com vida.
Vieram os desenganos,
Acabaram os receios;
Agora choro meus danos,
E mais choro bens alheios;
Passou o tempo contente,
E passou tão de corrida,
Que me deixou entre a gente
Sem esperança de vida.
Tenho a esperança perdida,
Ando perdido entre a gente,
Nem morro, nem tenho vida.
Prazeres que tenho visto
Onde se foram, que é deles,
Fora-se a vida com eles
Não ma vira agora nisto,
Vejo-me andar entre a gente
Como coisa esquecida,
Eu triste, outrém contente,
Eu sem vida, outrém com vida.
Vieram os desenganos,
Acabaram os receios;
Agora choro meus danos,
E mais choro bens alheios;
Passou o tempo contente,
E passou tão de corrida,
Que me deixou entre a gente
Sem esperança de vida.
1 674
Luís António Cajazeira Ramos
Porto inseguro
A liberdade bate à minha porta,
tão carente de mim, pedindo abrigo.
Quero ampará-la e penso que consigo
detê-la, mas seria tê-la morta.
Livre para pairar num céu sem peias,
na solidão de um vôo sem destino,
por que perder, nos olhos de águia, o tino,
vindo a quem se agrilhoa sem cadeias?
Deusa das asas! Seu vagar escapa
a meus sentidos, seu desejo alcança
tudo que a mim se esconde atrás da capa.
Vá embora daqui! Siga seu rumo!
Sou prisioneiro, um órfão da esperança
e arrasto um vôo cego em chão sem prumo.
tão carente de mim, pedindo abrigo.
Quero ampará-la e penso que consigo
detê-la, mas seria tê-la morta.
Livre para pairar num céu sem peias,
na solidão de um vôo sem destino,
por que perder, nos olhos de águia, o tino,
vindo a quem se agrilhoa sem cadeias?
Deusa das asas! Seu vagar escapa
a meus sentidos, seu desejo alcança
tudo que a mim se esconde atrás da capa.
Vá embora daqui! Siga seu rumo!
Sou prisioneiro, um órfão da esperança
e arrasto um vôo cego em chão sem prumo.
1 018
Celso Emilio Ferreiro
Longa noite de pedra
O teito é de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.
1 698
Fernando Pessoa
When shall we rest?
When shall we rest?
The ceaseless waves
They have no quest.
The trees peace-ripe.
Their lifeless life
From sorrow saves.
When shall we go?
Wither? We care
Nothing to know.
Sorrow is here.
Aught may us cheer
Now of dim there.
What in us shall
Cease and leave peace?
Life holds in thrall
Our joy like pain,
Our loss-like gain,
Our stayed release.
Love cannot bless.
Bliss cannot live.
Joy's short caress
Passes like wind
Suddenly thinned
We dream and grieve.
Outward from us
There lies the land
Less luminous,
Where we may rest,
Leaving all quest,
Wishing no strand.
Ready the bark
For our repose.
Let us embark.
The sea is lone?
We are alone,
Pain but pain shows.
Remember nought.
Cease like a light
Suddenly not.
Merge like a dream
Into the stream
Of its own night.
25/04/1917
The ceaseless waves
They have no quest.
The trees peace-ripe.
Their lifeless life
From sorrow saves.
When shall we go?
Wither? We care
Nothing to know.
Sorrow is here.
Aught may us cheer
Now of dim there.
What in us shall
Cease and leave peace?
Life holds in thrall
Our joy like pain,
Our loss-like gain,
Our stayed release.
Love cannot bless.
Bliss cannot live.
Joy's short caress
Passes like wind
Suddenly thinned
We dream and grieve.
Outward from us
There lies the land
Less luminous,
Where we may rest,
Leaving all quest,
Wishing no strand.
Ready the bark
For our repose.
Let us embark.
The sea is lone?
We are alone,
Pain but pain shows.
Remember nought.
Cease like a light
Suddenly not.
Merge like a dream
Into the stream
Of its own night.
25/04/1917
4 488
Fernando Pessoa
Mother of things impossible,
Mother of things impossible,
Sister of what can never be,
Thou whose closed lips will never tell
The words whose lack is misery
Sit by my side while I ignore.
Smile by my ignorance of thee,
And my lost solitude restore.
O life is sad as things unwilled,
Love is the day that never comes
To those blind as my soul, and filled
With that presade of coming drums
When the city shall fall, that haunts
The inner vision whose night hums
In us while death startingly chaunts.
O interpret my soul to me!
Give me no truth, no sight, no road,
But take from me the misery
Of conciousness and the unseen goal
Of seeking ever what doth seem.
Lighten with being-near my load!
O let me hold thy hand and dream!
22/07/1916
Sister of what can never be,
Thou whose closed lips will never tell
The words whose lack is misery
Sit by my side while I ignore.
Smile by my ignorance of thee,
And my lost solitude restore.
O life is sad as things unwilled,
Love is the day that never comes
To those blind as my soul, and filled
With that presade of coming drums
When the city shall fall, that haunts
The inner vision whose night hums
In us while death startingly chaunts.
O interpret my soul to me!
Give me no truth, no sight, no road,
But take from me the misery
Of conciousness and the unseen goal
Of seeking ever what doth seem.
Lighten with being-near my load!
O let me hold thy hand and dream!
22/07/1916
4 446
Fernando Pessoa
DESOLATION
DESOLATION
Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.
The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.
The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.
O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.
The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.
The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.
The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.
16/10/1916
Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.
The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.
The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.
O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.
The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.
The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.
The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.
16/10/1916
4 458
Fernando Pessoa
27 - THE BROKEN WINDOW
THE BROKEN WINDOW
My heart is silent as a look.
There is a home beyond the hills.
My heart is silent as a look.
My home is there, beyond the hills.
I bear my heart like an old curse.
There is no reason for regret.
I bear my heart like an old curse.
Why should we reason or regret?
My heart dwells in me like a ghost.
Beyond the hills my hope lies dead.
My heart dwells with me like a ghost.
Beyond my hope the hills lie dead.
They took away my heart like weeds.
It was not true that I should live.
They took away my heart like weeds.
I could not think it true to live.
Now there are great stains in my heart.
They are like blood-stains on a floor.
Now there are great stains in my heart.
And my heart lies upon the floor.
The room is closed for ever now.
My heart is now buried alive.
My heart is closed for ever now.
The whole room is buried alive.
My heart is silent as a look.
There is a home beyond the hills.
My heart is silent as a look.
My home is there, beyond the hills.
I bear my heart like an old curse.
There is no reason for regret.
I bear my heart like an old curse.
Why should we reason or regret?
My heart dwells in me like a ghost.
Beyond the hills my hope lies dead.
My heart dwells with me like a ghost.
Beyond my hope the hills lie dead.
They took away my heart like weeds.
It was not true that I should live.
They took away my heart like weeds.
I could not think it true to live.
Now there are great stains in my heart.
They are like blood-stains on a floor.
Now there are great stains in my heart.
And my heart lies upon the floor.
The room is closed for ever now.
My heart is now buried alive.
My heart is closed for ever now.
The whole room is buried alive.
4 764
Fernando Pessoa
1 - THE MAD FIDDLER
THE MAD FIDDLER
I
THE MAD FIDDLER
THE MAD FIDDLER
Not from the northern road,
Not from the southern way
First his wild music flowed
Into the village that day.
He suddenly was in the lane,
The people came out to hear
He suddenly went, and in vain
Their hopes wished him to appear.
His music strange did fret
Each heart to wish 'twas free.
If was not a melody yet
It was not no melody.
Somewhere far away
Somewhere far outside
Being forced to live, they
Felt this tune replied.
Replied to that longing
All have in their breasts,
To lost sense belonging
To forgotten quests.
The happy wife now knew
That she had married ill,
The glad fond lover grew
Weary of loving still,
The maid and the boy felt glad
That they had dreaming only
The lone hearts that were sad
Felt somewhere less lonely.
In each soul woke the flower
Whose touch leaves earthless dust,
The soul's husband's first hour,
The thing completing us,
The shadow that comes to bless
From kissed depths unexpressed,
The luminous restlessness
That is better than rest.
As he came, he went.
They felt him but half-be.
Then he was quietly blent
With silence and memory.
Sleep left again their laughter,
Their tranced hope ceased to last,
And but a small time after
They knew not he had passed.
Yet when the sorrow of living,
Because life is not willed,
Comes back in dreams' hours, giving
A sense of life being chilled,
Suddenly each remembers –
It glows like a coming moon
On where their dream-life embers –
The mad fiddlers tune.
I
THE MAD FIDDLER
THE MAD FIDDLER
Not from the northern road,
Not from the southern way
First his wild music flowed
Into the village that day.
He suddenly was in the lane,
The people came out to hear
He suddenly went, and in vain
Their hopes wished him to appear.
His music strange did fret
Each heart to wish 'twas free.
If was not a melody yet
It was not no melody.
Somewhere far away
Somewhere far outside
Being forced to live, they
Felt this tune replied.
Replied to that longing
All have in their breasts,
To lost sense belonging
To forgotten quests.
The happy wife now knew
That she had married ill,
The glad fond lover grew
Weary of loving still,
The maid and the boy felt glad
That they had dreaming only
The lone hearts that were sad
Felt somewhere less lonely.
In each soul woke the flower
Whose touch leaves earthless dust,
The soul's husband's first hour,
The thing completing us,
The shadow that comes to bless
From kissed depths unexpressed,
The luminous restlessness
That is better than rest.
As he came, he went.
They felt him but half-be.
Then he was quietly blent
With silence and memory.
Sleep left again their laughter,
Their tranced hope ceased to last,
And but a small time after
They knew not he had passed.
Yet when the sorrow of living,
Because life is not willed,
Comes back in dreams' hours, giving
A sense of life being chilled,
Suddenly each remembers –
It glows like a coming moon
On where their dream-life embers –
The mad fiddlers tune.
4 717
Fernando Pessoa
XII - As the lone, frightèd user of a night-road
As the lone, frighted user of a night-road
Suddenly turns round, nothing to detect,
Yet on his fear's sense keepeth still the load
Of that brink-nothing he doth but suspect;
And the cold terror moves to him more near
Of something that from nothing casts a spell,
That, when he moves, to fright more is not there,
And's only visible when invisible:
So I upon the world turn round in thought,
And nothing viewing do no courage take,
But my more terror, from no seen cause got,
To that felt corporate emptiness forsake,
And draw my sense of mystery's horror from
Seeing no mystery's mystery alone.
Suddenly turns round, nothing to detect,
Yet on his fear's sense keepeth still the load
Of that brink-nothing he doth but suspect;
And the cold terror moves to him more near
Of something that from nothing casts a spell,
That, when he moves, to fright more is not there,
And's only visible when invisible:
So I upon the world turn round in thought,
And nothing viewing do no courage take,
But my more terror, from no seen cause got,
To that felt corporate emptiness forsake,
And draw my sense of mystery's horror from
Seeing no mystery's mystery alone.
4 581
Fernando Pessoa
XXXIV - Happy the maimed, the halt, the mad, the blind —
Happy the maimed, the halt, the mad, the blind –
All who, stamped separate by curtailing birth,
Owe no duty's allegiance to mankind
Nor stand a valuing in their scheme of worth!
But I, whom Fate, not Nature, did curtail,
By no exterior voidness being exempt,
Must bear accusing glances where I fail,
Fixed in the general orbit of contempt.
Fate, less than Nature in being kind to lacking,
Giving the ill, shows not as outer cause,
Making our mock-free will the mirror's backing
Which Fate s own acts as if in itself shows;
And men, like children, seeing the image there,
Take place for cause and make our will Fate bear.
All who, stamped separate by curtailing birth,
Owe no duty's allegiance to mankind
Nor stand a valuing in their scheme of worth!
But I, whom Fate, not Nature, did curtail,
By no exterior voidness being exempt,
Must bear accusing glances where I fail,
Fixed in the general orbit of contempt.
Fate, less than Nature in being kind to lacking,
Giving the ill, shows not as outer cause,
Making our mock-free will the mirror's backing
Which Fate s own acts as if in itself shows;
And men, like children, seeing the image there,
Take place for cause and make our will Fate bear.
4 210
Fernando Pessoa
19 - EMPTINESS
EMPTINESS
The day sickens into the lake
The colour that its pallor wears.
A loss of outline overtakes
The landscape, and the horizon bears
Like a defeated flag the dim
Purposelessness of its dead rim.
Let my heart forsake everything.
I shall be richer by all I.
Every breath, each passing wing
Takes me from myself. The whole sky
Eats into my self-consciousness
And detracts from my true distress.
For my true sorrow is not that
The day is sad as I am sad,
But that no moment can abate
The pain that I but pain have had
To take with me and see and feel
While life goes by like a mere wheel.
No: vaguer things than skies and plains
Are dark and lowered o'er in me;
My sorrows are more empty pains
Than of which plains can symbols be;
And my void weight of life and self
Resembles nothing but itself.
The day sickens into the lake
The colour that its pallor wears.
A loss of outline overtakes
The landscape, and the horizon bears
Like a defeated flag the dim
Purposelessness of its dead rim.
Let my heart forsake everything.
I shall be richer by all I.
Every breath, each passing wing
Takes me from myself. The whole sky
Eats into my self-consciousness
And detracts from my true distress.
For my true sorrow is not that
The day is sad as I am sad,
But that no moment can abate
The pain that I but pain have had
To take with me and see and feel
While life goes by like a mere wheel.
No: vaguer things than skies and plains
Are dark and lowered o'er in me;
My sorrows are more empty pains
Than of which plains can symbols be;
And my void weight of life and self
Resembles nothing but itself.
4 528
Fernando Pessoa
I - Whether we write or speak or do but look
35 SONETS
I
Whether we write or speak or do but look
We are ever unapparent. What we are
Cannot be transfused into word or book.
Our soul from us is infinitely far.
However much we give our thoughts the will
To be our soul and gesture it abroad,
Our hearts are incommunicable still.
In what we show ourselves we are ignored.
The abyss from soul to soul cannot be bridged
By any skill of thought or trick of seeming.
Unto our very selves we are abridged
When we would utter to our thought our being.
We are our dreams of ourselves, souls by gleams,
And each to each other dreams of others' dreams.
I
Whether we write or speak or do but look
We are ever unapparent. What we are
Cannot be transfused into word or book.
Our soul from us is infinitely far.
However much we give our thoughts the will
To be our soul and gesture it abroad,
Our hearts are incommunicable still.
In what we show ourselves we are ignored.
The abyss from soul to soul cannot be bridged
By any skill of thought or trick of seeming.
Unto our very selves we are abridged
When we would utter to our thought our being.
We are our dreams of ourselves, souls by gleams,
And each to each other dreams of others' dreams.
4 731
Fernando Pessoa
Não sei de que maneira a sucessão
ACTO III
Não sei de que maneira a sucessão
Dos dias tem achado este meu ser
Que a si mesmo se tem ignorado.
Não sei que tempo vago atravessei
Nos breves dias de febril ausência
De parte do meu ser. Agora
Não sei o que há em mim que sobrenada
A ignorada coisa que perdi.
Cansado já doutra maneira vaga,
Sinto-me diferentemente o mesmo;
Não sei detidamente o que mudou
Em mim, nem sei o que de mim me resta
A não ser esta vaga e horrorosa
Sufocação da existência inerte
Num pavor. Mas a mesma já não é.
Sinto pavor, mas já não é o mesmo
Pavor, nem é a mesma solidão
D'outrora, a solidão em que me sinto.
Queimei livros, papéis,
Destruí tudo por ficar bem só,
Por quê não sei, não sabê-lo desejo.
Resta-me apenas um desejo ermo
De amar e de sentir, mas não me sinto
Educado no ser ou natural
Ao sentimento, à emoção, à vida,
Mas alheado (...) e negramente
E orgulhoso mais por ser distante
Do que distante por ser orgulhoso.
Pesado fardo da grandeza! Horror!
Não a reis ou a príncipes lhes pesa
E o responsável ânimo (...)
Como a mim o existir. Pesa-me mais
Do que dantes, mas – como o sei?
Menos misteriosamente, menos
Intimamente. Estou mais apagado
E a minha antiga dor imorredoura
Mais escondida dentro em mim de mim
E eu menos, não sei como, isolado
Só de mim mesmo, perdido (...)
Neste atordoamento nasce em mim
Qualquer coisa de negro e estranho e novo
Que pressinto com medo, e que, outrora,
Arredado de mim dentro em minha alma,
Eu pressentia sem o pressentir,
Sem consciência consciente dela.
Como a linha de negro num poente
Se ergue em negra nuvem e enegrece
E cresce levantando-se e obumbrando
O firmamento, sinto despontar
Prenúncios de tormento e confusão
Num silêncio que insiste dentro em mim.
Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim, íntima,
Uma impossibilidade de existir
De que abortei, vivendo.
Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, coisas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.
No mais simples dos factos é que existe
O horror maior nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro uma amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah, que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção – o que eu
Mais odeio e mais prezo – e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regato de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo – se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu – se morre alguém
Que amo – admitamo-lo – já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
Não sei de que maneira a sucessão
Dos dias tem achado este meu ser
Que a si mesmo se tem ignorado.
Não sei que tempo vago atravessei
Nos breves dias de febril ausência
De parte do meu ser. Agora
Não sei o que há em mim que sobrenada
A ignorada coisa que perdi.
Cansado já doutra maneira vaga,
Sinto-me diferentemente o mesmo;
Não sei detidamente o que mudou
Em mim, nem sei o que de mim me resta
A não ser esta vaga e horrorosa
Sufocação da existência inerte
Num pavor. Mas a mesma já não é.
Sinto pavor, mas já não é o mesmo
Pavor, nem é a mesma solidão
D'outrora, a solidão em que me sinto.
Queimei livros, papéis,
Destruí tudo por ficar bem só,
Por quê não sei, não sabê-lo desejo.
Resta-me apenas um desejo ermo
De amar e de sentir, mas não me sinto
Educado no ser ou natural
Ao sentimento, à emoção, à vida,
Mas alheado (...) e negramente
E orgulhoso mais por ser distante
Do que distante por ser orgulhoso.
Pesado fardo da grandeza! Horror!
Não a reis ou a príncipes lhes pesa
E o responsável ânimo (...)
Como a mim o existir. Pesa-me mais
Do que dantes, mas – como o sei?
Menos misteriosamente, menos
Intimamente. Estou mais apagado
E a minha antiga dor imorredoura
Mais escondida dentro em mim de mim
E eu menos, não sei como, isolado
Só de mim mesmo, perdido (...)
Neste atordoamento nasce em mim
Qualquer coisa de negro e estranho e novo
Que pressinto com medo, e que, outrora,
Arredado de mim dentro em minha alma,
Eu pressentia sem o pressentir,
Sem consciência consciente dela.
Como a linha de negro num poente
Se ergue em negra nuvem e enegrece
E cresce levantando-se e obumbrando
O firmamento, sinto despontar
Prenúncios de tormento e confusão
Num silêncio que insiste dentro em mim.
Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim, íntima,
Uma impossibilidade de existir
De que abortei, vivendo.
Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, coisas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.
No mais simples dos factos é que existe
O horror maior nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro uma amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah, que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção – o que eu
Mais odeio e mais prezo – e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regato de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo – se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu – se morre alguém
Que amo – admitamo-lo – já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
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