Poemas neste tema
Animais e Natureza
Bocage
A Macaca
Em verso alexandrino
Nos serros do Brasil diz certo autor que
havia
Uma namoradeira, uma sagaz bugia.
Milhões de chichisbéus pela tafulguinchavam,
E por não terem asa, o rabo lhe arrastavam.
Qual, caindo-lhe aos pés de amores cego e
louco,
Nas cabeludas mãos lhe apresentava umcoco;
Qual do açúcar brilhante a sumarenta cana;
E qual um ananás, e qual uma banana.
Ela com riso astuto, ela com mil caretas,
Lhe entretinha a paixão, lhe ia doirando as
petas;
Os olhos requebrava ao som de um
suspirinho:
A todos prometia o mais fiel carinho,
E, se algum lhe rogava especial favor,
À terna petição dizia: "Sim, senhor."
Mas com muita esperança o fruto eranenhum,
E os pobres animais ficavam em jejum.
Leitores, há mulher tão destra e tão velhaca,
Que nisto não ganha inda a melhor macaca.
Nos serros do Brasil diz certo autor que
havia
Uma namoradeira, uma sagaz bugia.
Milhões de chichisbéus pela tafulguinchavam,
E por não terem asa, o rabo lhe arrastavam.
Qual, caindo-lhe aos pés de amores cego e
louco,
Nas cabeludas mãos lhe apresentava umcoco;
Qual do açúcar brilhante a sumarenta cana;
E qual um ananás, e qual uma banana.
Ela com riso astuto, ela com mil caretas,
Lhe entretinha a paixão, lhe ia doirando as
petas;
Os olhos requebrava ao som de um
suspirinho:
A todos prometia o mais fiel carinho,
E, se algum lhe rogava especial favor,
À terna petição dizia: "Sim, senhor."
Mas com muita esperança o fruto eranenhum,
E os pobres animais ficavam em jejum.
Leitores, há mulher tão destra e tão velhaca,
Que nisto não ganha inda a melhor macaca.
1 586
Antônio Sales
Terra de Sol
O áureo malho do sol bate na incude
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
1 561
Carlyle Martins
A Loucura do Nosso Amor
"Áurea! Vamos andar pelos caminhos,
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
865
Bocage
O Cão e a Cadela
Em verso alexandrino
Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em
vão.
Dando no chichisbéu dentada e maisdentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão
desabridas,
Era coum torpe cão fagueira às
escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.
Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em
vão.
Dando no chichisbéu dentada e maisdentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão
desabridas,
Era coum torpe cão fagueira às
escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.
3 733
Batista Cepelos
Ecce Homo
Trazendo à Natureza uma pujança brava
A doirada sazão do viço e da alegria,
Dispersada por tudo, a Vida triunfava,
Enquanto o Sol, por toda a esfera, ria... ria...
Ria de flor em flor; no inseto que passava,
Ria; nas virações, no azul, na pedra fria,
No pássaro gentil, na furna esconsa e cava,
Ria; por toda parte, em suma, ria... ria...
E o Rei da Criação, o Homem, pausado e lento,
Cravou o olhar no céu, numa grande tristeza,
Que era a sombra talvez de um grande pensamento...
E, alto, na solidão, que lhe aumentava o porte,
Em meio às expansões joviais da Natureza,
Ele tinha na fronte a palidez da morte...
A doirada sazão do viço e da alegria,
Dispersada por tudo, a Vida triunfava,
Enquanto o Sol, por toda a esfera, ria... ria...
Ria de flor em flor; no inseto que passava,
Ria; nas virações, no azul, na pedra fria,
No pássaro gentil, na furna esconsa e cava,
Ria; por toda parte, em suma, ria... ria...
E o Rei da Criação, o Homem, pausado e lento,
Cravou o olhar no céu, numa grande tristeza,
Que era a sombra talvez de um grande pensamento...
E, alto, na solidão, que lhe aumentava o porte,
Em meio às expansões joviais da Natureza,
Ele tinha na fronte a palidez da morte...
1 328
Carlyle Martins
Boiada
Verde largo é o sertão! No claro firmamento
De um azul de safira, alto, esplêndido e lindo,
O sol é um dardo de oiro. E, num tropel violento,
Passa ao longe a boiada, entre poeira, mugindo.
Tudo quieto ao redor. Em passo tardo e lento,
No áspero desdobrar do caminho ermo e infindo,
À canção do vaqueiro, os bois, em movimento,
Vão vencendo a distância e, em tumulto, seguindo
Ficou longe a fazenda! E os bois, de olhos doridos,
Irmanando-se à paz da imensa natureza,
Têm saudades, talvez: — soltam fundos mugidos...
Vendo-os, quanta amargura o espírito me invade!
— Sinto que esse mugir, de profunda tristeza,
Quer dizer, mas não pode, o que seja a Saudade!
De um azul de safira, alto, esplêndido e lindo,
O sol é um dardo de oiro. E, num tropel violento,
Passa ao longe a boiada, entre poeira, mugindo.
Tudo quieto ao redor. Em passo tardo e lento,
No áspero desdobrar do caminho ermo e infindo,
À canção do vaqueiro, os bois, em movimento,
Vão vencendo a distância e, em tumulto, seguindo
Ficou longe a fazenda! E os bois, de olhos doridos,
Irmanando-se à paz da imensa natureza,
Têm saudades, talvez: — soltam fundos mugidos...
Vendo-os, quanta amargura o espírito me invade!
— Sinto que esse mugir, de profunda tristeza,
Quer dizer, mas não pode, o que seja a Saudade!
1 133
Alcides Freitas
O Bambu
Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
1 879
Antônio Chaves
Descendo o Parnaíba
Nas águas, vê que límpidas bonanças...
Que verde o destas árvores florindo!
Parece o verde dessas esperanças
Que em nossos corações brotam sorrindo.
Como as almas sonâmbulas e mansas
Dos lírios virginais que estão dormindo,
Quantas almas de cândidas crianças
Há nas estrelas que já vêm surgindo!
Tu és um quadro desta Natureza!
Minha alma, ao ver em ti tanta beleza,
De ti somente se tornou cativa...
Sem sol a flor sucumbe, morre a planta...
Dá que eu sinta, portanto, ó minha Santa,
O sol do teu amor! Faze que eu viva!
Que verde o destas árvores florindo!
Parece o verde dessas esperanças
Que em nossos corações brotam sorrindo.
Como as almas sonâmbulas e mansas
Dos lírios virginais que estão dormindo,
Quantas almas de cândidas crianças
Há nas estrelas que já vêm surgindo!
Tu és um quadro desta Natureza!
Minha alma, ao ver em ti tanta beleza,
De ti somente se tornou cativa...
Sem sol a flor sucumbe, morre a planta...
Dá que eu sinta, portanto, ó minha Santa,
O sol do teu amor! Faze que eu viva!
998
Zuleika dos Reis
Primavera
Margaridas brancas.
No jardim do meu vizinho,
a primavera.
Rãzinha verde. Entre
as folhas, brinca de
esconde-esconde.
Pétala a pétala
com delícia se desfolha
a alcachofra.
No jardim do meu vizinho,
a primavera.
Rãzinha verde. Entre
as folhas, brinca de
esconde-esconde.
Pétala a pétala
com delícia se desfolha
a alcachofra.
955
Zuleika dos Reis
Outono
Gotas de orvalho
molhando a flor e a avezinha.
Fresca madrugada.
Gotas de orvalho.
Sobre a folha escorregadia
saltita o grilo.
Horizonte rubro.
Ave branca atravessando
branco do luar.
molhando a flor e a avezinha.
Fresca madrugada.
Gotas de orvalho.
Sobre a folha escorregadia
saltita o grilo.
Horizonte rubro.
Ave branca atravessando
branco do luar.
1 029
Adriana Abdenur
Passarinho
Miro,
atiro,
acerto.
Chego
correndo
mais perto.
Pequena docura
caida no mato --
tamanha tragedia
em tao breve ato.
atiro,
acerto.
Chego
correndo
mais perto.
Pequena docura
caida no mato --
tamanha tragedia
em tao breve ato.
974
Américo Facó
Os Sátiros
De corpos nus, por entre a espessa mata, o bando
Dos Sátiros se interna em constante procura:
Ora um se adianta, além, na intrincada espessura,
E ora outro mais se afasta — olhos fitos, buscando...
Esse, que tem no lábio o rubescente e brando
E esplêndido frescor de uma fruta madura,
Abre o lábio a sorrir... Vendo aquele a frescura
De uma corrente, bebe a água que vai rolando...
Soa ao longe um rumor! o ardente bando, à espreita,
Aquieta-se. E por fim, loiras, nuas, aflantes;
Vêm as Ninfas, a rir, descuidosas, sem vê-los...
E os Sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repente erguem-se, — e os mais amantes
As prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
Dos Sátiros se interna em constante procura:
Ora um se adianta, além, na intrincada espessura,
E ora outro mais se afasta — olhos fitos, buscando...
Esse, que tem no lábio o rubescente e brando
E esplêndido frescor de uma fruta madura,
Abre o lábio a sorrir... Vendo aquele a frescura
De uma corrente, bebe a água que vai rolando...
Soa ao longe um rumor! o ardente bando, à espreita,
Aquieta-se. E por fim, loiras, nuas, aflantes;
Vêm as Ninfas, a rir, descuidosas, sem vê-los...
E os Sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repente erguem-se, — e os mais amantes
As prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
1 403
Yeda Prates Bernis
Variações em Tom Maior
A noite, trêmula,
com seu fardo de sombras
nos ombros.
Ponteiros invisíveis giram,
esgarçam, pouco a pouco,
um fado de opaca tristeza.
Um galo, voz claríssima,
chameja em prata
espaço entre as trevas.
Borboletas brincam de roda:
sobre um sino
acordam o silêncio de bronze.
Uma azaléia
molhada de cristal
ensaia vôo.
Asas de andorinhas
salpicam no céu
claridades e levezas.
com seu fardo de sombras
nos ombros.
Ponteiros invisíveis giram,
esgarçam, pouco a pouco,
um fado de opaca tristeza.
Um galo, voz claríssima,
chameja em prata
espaço entre as trevas.
Borboletas brincam de roda:
sobre um sino
acordam o silêncio de bronze.
Uma azaléia
molhada de cristal
ensaia vôo.
Asas de andorinhas
salpicam no céu
claridades e levezas.
846
Waldomiro Siqueira Jr.
Haicai
O Sentenciado
Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.
Restos
Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.
Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.
Restos
Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.
1 807
Valdir L. Queiroz
Monalisa do Sertão
De cativante
só o aspecto mórbido e moribundo
de gente-bicho.
trazia consigo duas sementes
que parecia ser (ou seria?)
a humildade e a simplicidade
vítimas da peregrinação.
no estômago: asfalto molhado;
no coração: esperança de bicho-gente;
na cabeça: miolos doídos pelo sol
do sertão;
nos pés: a marca do chão que
um dia fez pão e a fome matou...
porque vives no anonimato
monalisa do sertão ?
teu pintor no porão te guardou ?
ou a seca tua paisagem
queimou ?
só o aspecto mórbido e moribundo
de gente-bicho.
trazia consigo duas sementes
que parecia ser (ou seria?)
a humildade e a simplicidade
vítimas da peregrinação.
no estômago: asfalto molhado;
no coração: esperança de bicho-gente;
na cabeça: miolos doídos pelo sol
do sertão;
nos pés: a marca do chão que
um dia fez pão e a fome matou...
porque vives no anonimato
monalisa do sertão ?
teu pintor no porão te guardou ?
ou a seca tua paisagem
queimou ?
1 122
Vitor L. Mendes
Poemas ao Vento
A poesia cavalga no sopro do vento.
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
1 094
Vargas Neto
Meio-dia
Todo o ar treme sob o sol do meio-dia!
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !
O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.
No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !
O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.
No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...
999
Tereza Cristina Fraga
Querendo
O sol penetra
Traz as pessoas para começar o dia.
As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.
Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.
Sobre um céu
Dentro da terra
E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.
Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.
Traz as pessoas para começar o dia.
As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.
Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.
Sobre um céu
Dentro da terra
E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.
Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.
833
Teófilo Dias
A Matilha
Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante,
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético, respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, disperses,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloqüentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados,
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo entumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca.
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante,
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético, respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, disperses,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloqüentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados,
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo entumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca.
1 818
Tatiana Ramminger
Oferenda
Oferenda
Nos meus momentos de inconsciência
Nos meus momentos de inconsistência
Em um acaso muito bem planejado
Meu beija-flor inconseqüente
Me leva
Ao teu escorpião de asas azuis
E quanto estrago não fazem
Impregnados
Embriagados
Da vida
Pintada relaxadamente com cores fortes
Ofuscando olhares
Desfazendo contornos
Jogando de sombras
Que trazem a realidade
Em oferenda
Nos meus momentos de inconsciência
Nos meus momentos de inconsistência
Em um acaso muito bem planejado
Meu beija-flor inconseqüente
Me leva
Ao teu escorpião de asas azuis
E quanto estrago não fazem
Impregnados
Embriagados
Da vida
Pintada relaxadamente com cores fortes
Ofuscando olhares
Desfazendo contornos
Jogando de sombras
Que trazem a realidade
Em oferenda
1 224
Sérgio Milliet
Tomasina
O cavalo cambaio dirige a caravana
Embaixo na estação o trem cospe um desafio
Calor calado e abafado
Cinza recente
A rua principal do delegado
Um cabo e um soldado para que o cabo possa ser cabo.
Estafetas viajantes andarilhos e cometas
no capilé da venda democrática
A farmácia dos corifeus coronelandos
A matriz morfética e o padre calabrês
e atrás da vila o catatraz da rápida caudal
Cartomancia dos jornais atrasadotes
O correio onde o guri brinca com as cartas registadas
O gado paciente na estrada de carmim
O cafezal tuberculose do Jangote
Os toros das queimadas
Os olhos das amadas
O ciciar da já saudade da cidade.
Embaixo na estação o trem cospe um desafio
Calor calado e abafado
Cinza recente
A rua principal do delegado
Um cabo e um soldado para que o cabo possa ser cabo.
Estafetas viajantes andarilhos e cometas
no capilé da venda democrática
A farmácia dos corifeus coronelandos
A matriz morfética e o padre calabrês
e atrás da vila o catatraz da rápida caudal
Cartomancia dos jornais atrasadotes
O correio onde o guri brinca com as cartas registadas
O gado paciente na estrada de carmim
O cafezal tuberculose do Jangote
Os toros das queimadas
Os olhos das amadas
O ciciar da já saudade da cidade.
1 524
Rodrigo Carvalho
Descrição
à meu irmão, Márcio Carvalho Góes
Tu és como o úmido gosto de terra:
diferente em cada época.
Mas não perdes o gosto pela terra.
Tu és terra!
Ao seu duro itinerário, o prazer matinal,
junta-se ao suspiro da madrugada.
Ainda é madrugada quando te levantas!
E sai pela estrada. . .
A paisagem diverge:
bois, cavalos, foices, braços, flores molhadas,
e os casebres caindo,
na êrma da manhã.
E roupas coloridas, ao longe, dançam nas cercas.
Teu sangue corre como uma boiada,
num grande galope,
ao longo do horizonte. . .
Teu nome.
Teu nome,
num breve erro ortográfico,
sôa macio. . .
Macio como o chão que pisas.
Chão verde.
Cheiro de mato.
E tua mente modela os animais.
Grandes animais,
sem passado, sem futuro.
Apenas com o peso que lhe importa.
Mas o dia, aos poucos, se desmancha.
E no teu campo,
verde campo,
um campo de estrelas irá brotando,
pouco a pouco,
até que tu voltes. . .
Campo: teu continuar da vida!
Salvador, 14 de março de 1995
Tu és como o úmido gosto de terra:
diferente em cada época.
Mas não perdes o gosto pela terra.
Tu és terra!
Ao seu duro itinerário, o prazer matinal,
junta-se ao suspiro da madrugada.
Ainda é madrugada quando te levantas!
E sai pela estrada. . .
A paisagem diverge:
bois, cavalos, foices, braços, flores molhadas,
e os casebres caindo,
na êrma da manhã.
E roupas coloridas, ao longe, dançam nas cercas.
Teu sangue corre como uma boiada,
num grande galope,
ao longo do horizonte. . .
Teu nome.
Teu nome,
num breve erro ortográfico,
sôa macio. . .
Macio como o chão que pisas.
Chão verde.
Cheiro de mato.
E tua mente modela os animais.
Grandes animais,
sem passado, sem futuro.
Apenas com o peso que lhe importa.
Mas o dia, aos poucos, se desmancha.
E no teu campo,
verde campo,
um campo de estrelas irá brotando,
pouco a pouco,
até que tu voltes. . .
Campo: teu continuar da vida!
Salvador, 14 de março de 1995
1 023
Sérgio de Mesquita Serra
Haicai
A lua aparece.
Semeia de brilho a teia
que a aranha tece.
A gota de orvalho,
airosa, conquista a rosa
sem muito trabalho.
Semeia de brilho a teia
que a aranha tece.
A gota de orvalho,
airosa, conquista a rosa
sem muito trabalho.
1 582
Rodrigo Carvalho
Elementos Naturais
Água, ar, fogo, terra.
Às vezes, para definir-me,
caio nos conceitos naturais.
Ao passar de minha vida,
muitas vezes quis ser fogo.
Revidar com chamas,
queimar todas as regras,
explodir em pensamentos. . .
Outras vezes,
desejei ser ar,
e poder escapar ileso
das armadilhas da paixão,
das dúvidas angustiantes,
dos golpes do coração.
Ou ainda, terra.
Firme, forte.
Dura o bastante para resistir à tentações.
Mas nunca pude viver tais conceitos!
Resta-me somente um elemento.
É claro que sou água!!
Deixo fluir, correr. . .
Vejo sempre novas paisagens. . .
Começo o dia como um rio,
que desagua no mar,
que o sol evapora,
que vira nuvem,
que transforma-se em chuva,
que volta à terra em outro rio,
que segue para outro mar,
que se regenera. . .
Sou meio sem raízes,
seguindo correntes.
Sou mutante. . .
Tudo muda!
Hoje sou um,
amanhã serei outro.
Mas,
sempre melhor que ontem.
Itabuna, 30 de junho de 1995
Às vezes, para definir-me,
caio nos conceitos naturais.
Ao passar de minha vida,
muitas vezes quis ser fogo.
Revidar com chamas,
queimar todas as regras,
explodir em pensamentos. . .
Outras vezes,
desejei ser ar,
e poder escapar ileso
das armadilhas da paixão,
das dúvidas angustiantes,
dos golpes do coração.
Ou ainda, terra.
Firme, forte.
Dura o bastante para resistir à tentações.
Mas nunca pude viver tais conceitos!
Resta-me somente um elemento.
É claro que sou água!!
Deixo fluir, correr. . .
Vejo sempre novas paisagens. . .
Começo o dia como um rio,
que desagua no mar,
que o sol evapora,
que vira nuvem,
que transforma-se em chuva,
que volta à terra em outro rio,
que segue para outro mar,
que se regenera. . .
Sou meio sem raízes,
seguindo correntes.
Sou mutante. . .
Tudo muda!
Hoje sou um,
amanhã serei outro.
Mas,
sempre melhor que ontem.
Itabuna, 30 de junho de 1995
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