Poemas neste tema
Animais e Natureza
José de Oliveira Falcon
Prelúdio
os galos na madrugada
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
897
José Maria Nascimento
A Casa de Palha
A coberta da casa tinha
o verde das palhas.
A colheita da lenha
ao rebentar da madrugada.
O macio lençol de linho
ao calor dos raios solares.
A festa de um novo teto
em um Domingo de Páscoa.
Latas de leite Ninho vazias:
raros tanques de guerra,
fertilizavam as alegrias
dos meus Natais passados.
Nenhuma só moeda queimava
as minhas pequeninas mãos.
Até o presente era uma irmandade
com o futuro sempre fertilizado.
A chama do tempo de leve
tudo foi consumindo tudo.
Levou os meus carneiros
e as verduras do quintal.
O ara da noite se misturou
com cinzas: é sufocante!
Ó misteriosa e amada natureza,
como monótona ficou a existência!
o verde das palhas.
A colheita da lenha
ao rebentar da madrugada.
O macio lençol de linho
ao calor dos raios solares.
A festa de um novo teto
em um Domingo de Páscoa.
Latas de leite Ninho vazias:
raros tanques de guerra,
fertilizavam as alegrias
dos meus Natais passados.
Nenhuma só moeda queimava
as minhas pequeninas mãos.
Até o presente era uma irmandade
com o futuro sempre fertilizado.
A chama do tempo de leve
tudo foi consumindo tudo.
Levou os meus carneiros
e as verduras do quintal.
O ara da noite se misturou
com cinzas: é sufocante!
Ó misteriosa e amada natureza,
como monótona ficou a existência!
1 479
Jorge Pedro Barbosa
Vou Ser Senhor do Mundo
Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.
Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.
E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.
Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.
E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?
1 540
José Eduardo Mendes Camargo
O Vento
Passageiro livre e intrépido da natureza
Veículo do perfume das flores
Música e ritmo das palmeiras
Escultor mutante das nuvens
Semeador sábio da terra
Alma crepitante do fogo
Amante carinhoso das águas
és, a um tempo, a ira do demônio
e, de outro, sopro divino dos deuses.
Veículo do perfume das flores
Música e ritmo das palmeiras
Escultor mutante das nuvens
Semeador sábio da terra
Alma crepitante do fogo
Amante carinhoso das águas
és, a um tempo, a ira do demônio
e, de outro, sopro divino dos deuses.
657
José Eduardo Mendes Camargo
Propósito
Não quero viver sob o signo do medo
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
765
João Fortunato
História Triste
Ao Vasco Granja
Debaixo da magnólia
No jardim sossegado
O menddigo adormecera…
Agora,
Já não tinha calor
Aquele corpo enregelado,
Ali, no banco, abandonado,
A vida, dele se esquecera.
Uma flor que caíra
Ao velho chapéu se lhe prendera…
E os raros que passavam
Na noite silencioso,
Não passavam,
E, de mais não cuidando,
Riam
Da caricatura
Do chapéu roto florido!
Somente um cão vadio
Que se fora aproximando
Tentou saber quqlquer coisa;
Mas logo também se ia,
Soltando triste latido,
Ao sentir a mão tão fria
Que, do banco, imóvel, pendia…
Neste momento fugiu
Um pássaro que se assustou;
A magnólia estremeceu,
E mais uma flor tombou…
Já longe, o cão vadio,
Aos pávidos astros uivou…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Debaixo da magnólia
No jardim sossegado
O menddigo adormecera…
Agora,
Já não tinha calor
Aquele corpo enregelado,
Ali, no banco, abandonado,
A vida, dele se esquecera.
Uma flor que caíra
Ao velho chapéu se lhe prendera…
E os raros que passavam
Na noite silencioso,
Não passavam,
E, de mais não cuidando,
Riam
Da caricatura
Do chapéu roto florido!
Somente um cão vadio
Que se fora aproximando
Tentou saber quqlquer coisa;
Mas logo também se ia,
Soltando triste latido,
Ao sentir a mão tão fria
Que, do banco, imóvel, pendia…
Neste momento fugiu
Um pássaro que se assustou;
A magnólia estremeceu,
E mais uma flor tombou…
Já longe, o cão vadio,
Aos pávidos astros uivou…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
857
Jacinto Freire de Andrade
A um Mosquito
Invencível mosquito,
Émulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um tão alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.
As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.
Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
É prova das setas de Cupido.
Porém de nada disto
Te mostres tão soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
Não ocupas lugar nalguma parte.
Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta pôr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.
Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se não faz o teu corpo nenhum vulto,
Pobre de ti tão pobre,
Que a mesma luz do Sol te descobre.
Hidrópico mosquito,
Por beber sangue assim não te condeno,
Nem cometes delito,
Que com os olhos da alma tão pequeno,
Quando apenas te vejo,
Que desejas lugar para o desejo.
Tanto o saber Divino
Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,
Que Ambrósio Calepino
Não tem nome, que imprima o teu tamanho,
Porque o diminutivo
É mais em ti, que o teu superlativo.
Por tradição antiga
Deves graças a Deus humilde, e mudo;
Pois não falta quem diga,
Que de nada te fez, o que fez tudo:
Sendo que bem pudera
Fazer de ti nada, se quisera.
Causas ao Mundo todo
Admiração tão grande, que se espanta
De ver por novo modo
Em corpo tão pequeno traça tanta;
Porque o entendimento
Fábrica vê em ti sem fundamento.
Oh de suprema ideia,
Subtil debuxo, amostra primorosa!
Porque em ti mais campeia,
Que na máquina altiva, e majestosa:
Que em fazer-te tão pobre
Sua grandeza muito mais descobre.
Somente, se se adverte,
Dos vidraceiros és bem grande afronta;
Pois não têm para ver-te
Óculos nenhuns, que cheguem à conta;
Pois para ver mosquitos
É necessário ter graus infinitos.
E vós, que antes do dia
Das culpas castigais levando a palma,
Por nova tirania,
Que fizeste do corpo inferno da alma
Se fizeste do corpo inferno da alma:
Se por esta vitória
Tendes glória, ou vanglória.
Entre tantos rigores não durmais,
Pois se as almas sem culpas castigais,
Para desinquietar
Vosso rigor severo, e infinito
Basta só o sonida de um mosquito.
Émulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um tão alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.
As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.
Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
É prova das setas de Cupido.
Porém de nada disto
Te mostres tão soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
Não ocupas lugar nalguma parte.
Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta pôr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.
Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se não faz o teu corpo nenhum vulto,
Pobre de ti tão pobre,
Que a mesma luz do Sol te descobre.
Hidrópico mosquito,
Por beber sangue assim não te condeno,
Nem cometes delito,
Que com os olhos da alma tão pequeno,
Quando apenas te vejo,
Que desejas lugar para o desejo.
Tanto o saber Divino
Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,
Que Ambrósio Calepino
Não tem nome, que imprima o teu tamanho,
Porque o diminutivo
É mais em ti, que o teu superlativo.
Por tradição antiga
Deves graças a Deus humilde, e mudo;
Pois não falta quem diga,
Que de nada te fez, o que fez tudo:
Sendo que bem pudera
Fazer de ti nada, se quisera.
Causas ao Mundo todo
Admiração tão grande, que se espanta
De ver por novo modo
Em corpo tão pequeno traça tanta;
Porque o entendimento
Fábrica vê em ti sem fundamento.
Oh de suprema ideia,
Subtil debuxo, amostra primorosa!
Porque em ti mais campeia,
Que na máquina altiva, e majestosa:
Que em fazer-te tão pobre
Sua grandeza muito mais descobre.
Somente, se se adverte,
Dos vidraceiros és bem grande afronta;
Pois não têm para ver-te
Óculos nenhuns, que cheguem à conta;
Pois para ver mosquitos
É necessário ter graus infinitos.
E vós, que antes do dia
Das culpas castigais levando a palma,
Por nova tirania,
Que fizeste do corpo inferno da alma
Se fizeste do corpo inferno da alma:
Se por esta vitória
Tendes glória, ou vanglória.
Entre tantos rigores não durmais,
Pois se as almas sem culpas castigais,
Para desinquietar
Vosso rigor severo, e infinito
Basta só o sonida de um mosquito.
553
Jacira Lima
Amor, namorados do tempo sem fronteiras
Não és Deus, Deusa.
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!
Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!
Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!
Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!
Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!
Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!
Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!
882
Jacy Pacheco
Haicai
O luar no mar.
Um peixe salta, enlevado,
banhado de prata.
Por sobre o banhado
— alvas asas — com que graça
a garça esvoaça!
Um peixe salta, enlevado,
banhado de prata.
Por sobre o banhado
— alvas asas — com que graça
a garça esvoaça!
968
Isabel Vilhena
A Borboleta
Na transparência viva e luminosa
Dessa manhã de sol, passou fugindo
A borboleta azul, silenciosa,
Ligeira, breve, qual um sonho lindo,
Cabelo ao sol e face cor-de-rosa,
Dedinhos frágeis, gracioso unindo,
Atrás da flor aérea, vaporosa,
O garotinho ansioso vai seguindo.
A borboleta pousa numa flor,
Devagarinho, mudo, cauteloso,
Quase a prendeu! Fugiu... Que dissabor!
Garoto lindo! Borboleta esquiva!
— Coração moço, crente, esperançoso,
Em busca da ventura fugitiva!
Dessa manhã de sol, passou fugindo
A borboleta azul, silenciosa,
Ligeira, breve, qual um sonho lindo,
Cabelo ao sol e face cor-de-rosa,
Dedinhos frágeis, gracioso unindo,
Atrás da flor aérea, vaporosa,
O garotinho ansioso vai seguindo.
A borboleta pousa numa flor,
Devagarinho, mudo, cauteloso,
Quase a prendeu! Fugiu... Que dissabor!
Garoto lindo! Borboleta esquiva!
— Coração moço, crente, esperançoso,
Em busca da ventura fugitiva!
1 157
J. B. Sayeg
Olhos de Um Melro
Os olhos mecânicos do melro
eram as únicas coisas que se moviam
na sala. O quadro de Paul Klee desenhava
movimentos de um anjo,
eram movimentos eternos, insatisfatórios
porque não eram efêmeros resolúveis
numa fração de segundo. Os olhos porém
eram ágeis, falavam, escutavam, eram olhos
indagadores. Eu mesmo me imobilizei apavorado
perante aqueles movimentos rápidos e impacientes.
Sentei-me na cadeira de grande espaldar
defronte à escrivaninha. Dobrei a página,
deixando o marcador indicando-me a leitura
interrompida. Os olhos se detiveram,
por um instante. A seguir, desesperadamente
recomeçaram seus inteligentes movimentos.
(de Pantomimas e Animação, 1989)
eram as únicas coisas que se moviam
na sala. O quadro de Paul Klee desenhava
movimentos de um anjo,
eram movimentos eternos, insatisfatórios
porque não eram efêmeros resolúveis
numa fração de segundo. Os olhos porém
eram ágeis, falavam, escutavam, eram olhos
indagadores. Eu mesmo me imobilizei apavorado
perante aqueles movimentos rápidos e impacientes.
Sentei-me na cadeira de grande espaldar
defronte à escrivaninha. Dobrei a página,
deixando o marcador indicando-me a leitura
interrompida. Os olhos se detiveram,
por um instante. A seguir, desesperadamente
recomeçaram seus inteligentes movimentos.
(de Pantomimas e Animação, 1989)
889
Ivan Sarney da Costa
Vozes da Noite
Apagaram-se as luzes da cidade.
Longa e densa se compôs a noite.
Onde está o homem de ontem?
O verdureiro, o vendedor de carvão?
Anônimos polichinelos das ruas,
Alegria de todas as manhãs.
(A noite os consumiu no tempo.)
Os sepultou no tempo.
Laje fria de horror e mistério
Sobre os risos efêmeros da vida.
Há pouco piou uma rasga-mortalha.
— Sinal de agouro. Diria meu avô.
No entanto, o vôo da rasga-mortalha
É a única esperança dentro da noite.
Há sonhos aqui de amores reprimidos,
Acenos de mãos desencontradas,
Vozes caladas, corações ausentes,
Um peito só que quer conter o mundo.
De que me vale, às vezes, fazer versos
Se meus versos são cheios de egoísmo
E não tocam a boca do homem da rua,
Não cantam o desespero, nem são armas de combate?
Farei um grande e verdadeiro poema,
Com lágrimas, suor e revolta, um dia.
Poderia sair para olhar as estrelas.
Que esforço esse das estrelas.
Para brilharem na escuridão da noite!
Que esforço o da alma para suportar o corpo!
O corpo mergulha na materialidade.
A alma quer éter divinizado.
Não haverá corpo, nem sofrimento amanhã.
Haverá espaço vazio, recordações de rumos palmilhados,
Lembranças perdidas, amargura e solidão. Nada mais.
Como eu queria ouvir agora um grilo,
o alegre diálogo dos sapos,
E ver luzir a luz dos vagalumes,
Pontilhando de luz noite escura.
Como eu queria que estivesse aqui,
Branda, alegre, pueril, brilhante,
Como um bando mágico de inocentes vagalumes.
Longa e densa se compôs a noite.
Onde está o homem de ontem?
O verdureiro, o vendedor de carvão?
Anônimos polichinelos das ruas,
Alegria de todas as manhãs.
(A noite os consumiu no tempo.)
Os sepultou no tempo.
Laje fria de horror e mistério
Sobre os risos efêmeros da vida.
Há pouco piou uma rasga-mortalha.
— Sinal de agouro. Diria meu avô.
No entanto, o vôo da rasga-mortalha
É a única esperança dentro da noite.
Há sonhos aqui de amores reprimidos,
Acenos de mãos desencontradas,
Vozes caladas, corações ausentes,
Um peito só que quer conter o mundo.
De que me vale, às vezes, fazer versos
Se meus versos são cheios de egoísmo
E não tocam a boca do homem da rua,
Não cantam o desespero, nem são armas de combate?
Farei um grande e verdadeiro poema,
Com lágrimas, suor e revolta, um dia.
Poderia sair para olhar as estrelas.
Que esforço esse das estrelas.
Para brilharem na escuridão da noite!
Que esforço o da alma para suportar o corpo!
O corpo mergulha na materialidade.
A alma quer éter divinizado.
Não haverá corpo, nem sofrimento amanhã.
Haverá espaço vazio, recordações de rumos palmilhados,
Lembranças perdidas, amargura e solidão. Nada mais.
Como eu queria ouvir agora um grilo,
o alegre diálogo dos sapos,
E ver luzir a luz dos vagalumes,
Pontilhando de luz noite escura.
Como eu queria que estivesse aqui,
Branda, alegre, pueril, brilhante,
Como um bando mágico de inocentes vagalumes.
921
J. B. Sayeg
Máquina de Fazer Gorjeio
Eu já te disse
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.
(do livro Pantomimas e Animação, 1989).
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.
(do livro Pantomimas e Animação, 1989).
964
Jônatas Batista
Alegria do Céu
Maio... junho...
os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama
pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada
dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo
dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa
é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas
fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para
o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe
em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!
os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama
pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada
dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo
dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa
é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas
fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para
o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe
em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!
835
Hemetério Cabrinha
Geminidade
Numa gôta de orvalho escassa, cintilante,
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
1 503
Hermilo Borba Filho
Revolta na Zona da Mata
Bicho ardente, verde claro
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos,
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.
Recife, 30 de agosto de 1967
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos,
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.
Recife, 30 de agosto de 1967
1 390
Truck Tumleh
Poeta
Eu sou o poeta...
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...
É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.
Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.
Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...
É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.
Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.
Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia
919
Gilberto Diener
Amor Caipirano
Vaga viola, viola cigana a clarear...
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
924
Gilson Nascimento
Biête do sertão
Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
969
Francisco Handa
Inverno
Geou de manhã:
passarinho congelado
aquecendo os ovos.
Menino da feira
molhado pela garoa
arrasta a sacola.
passarinho congelado
aquecendo os ovos.
Menino da feira
molhado pela garoa
arrasta a sacola.
921
Gregório de Matos
No Dia Em Que Fazia Anos
No Dia Em Que Fazia Anos Esta Divina Beleza; Este Portento De Formosura Dona Angela, Por Quem o Poeta Se Considerava Amorosamente Perdido, e Quase Sem Remédio Pela Grande Impossibilidade De Poder Lograr Seus Amores: Celebra Obsequiosa, e Primorosamente Suas Florentes Primaveras Com Esta Lindíssima Canção.
1.Pois os prados, as aves, as flores
ensinam amores,
carinhos, e afetos:
venham correndo
aos anos felizes,
que hoje festejo:
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem atentos
as aves canoras
as flores fragrantes
e os prados amenos.
2. Pois os dias, as horas, os anos
alegres, e ufanos
dilatam as eras;
Venham depressa
aos anos felizes,
que Amor festeja.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem deveras
os anos fecundos,
os dias alegres,
as horas serenas.
3.Pois o Céu, os Planetas, e Estrelas
com Luzes tão belas
auspiciam as vidas,
venham luzidas
aos anos felizes
que Amor publica.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem um dia
a esfera imóvel,
os astros errantes,
e as estrelas fixas.
4.Pois o fogo, água, terra, e os ventos
são quatro elementos,
que alentam a idade,
venham achar-se
aos anos felizes
que hoje se aplaudem.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem constantes
a terra florida,
o fogo abrasado,
o mar furioso,
e as auras suaves.
1.Pois os prados, as aves, as flores
ensinam amores,
carinhos, e afetos:
venham correndo
aos anos felizes,
que hoje festejo:
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem atentos
as aves canoras
as flores fragrantes
e os prados amenos.
2. Pois os dias, as horas, os anos
alegres, e ufanos
dilatam as eras;
Venham depressa
aos anos felizes,
que Amor festeja.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem deveras
os anos fecundos,
os dias alegres,
as horas serenas.
3.Pois o Céu, os Planetas, e Estrelas
com Luzes tão belas
auspiciam as vidas,
venham luzidas
aos anos felizes
que Amor publica.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem um dia
a esfera imóvel,
os astros errantes,
e as estrelas fixas.
4.Pois o fogo, água, terra, e os ventos
são quatro elementos,
que alentam a idade,
venham achar-se
aos anos felizes
que hoje se aplaudem.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem constantes
a terra florida,
o fogo abrasado,
o mar furioso,
e as auras suaves.
2 737
Carlos Gondim
As Cimbúlias
Irrequietas, à flor das ondas, em cardumes,
Ora róseas, abrindo as asas, ora azúleas,
Vogam na espuma argêntea, em seus radiosos lumes,
Como efêmeros sóis, errantes, as Cimbúlias,
Centenares, ao léu das vagas em cerúleas
Conchas, de burgalhões e remotos negrumes
Surgem, bailando ao som de misteriosas dúlias,
Haurindo à equórea planta os estranhos perfumes.
Loucas, no amplo lençol das águas espumantes,
Brincam: - e é todo o mar refúlgida Golconda
De topázios, rubis, safiras e diamantes ...
E, volúveis, ruflando as asas sobre as vagas,
Em farândola ideal, elas vão de onda em onda:
— Borboletas do oceano, adormecer nas fragas.
(Ânsia Revel 1929)
Ora róseas, abrindo as asas, ora azúleas,
Vogam na espuma argêntea, em seus radiosos lumes,
Como efêmeros sóis, errantes, as Cimbúlias,
Centenares, ao léu das vagas em cerúleas
Conchas, de burgalhões e remotos negrumes
Surgem, bailando ao som de misteriosas dúlias,
Haurindo à equórea planta os estranhos perfumes.
Loucas, no amplo lençol das águas espumantes,
Brincam: - e é todo o mar refúlgida Golconda
De topázios, rubis, safiras e diamantes ...
E, volúveis, ruflando as asas sobre as vagas,
Em farândola ideal, elas vão de onda em onda:
— Borboletas do oceano, adormecer nas fragas.
(Ânsia Revel 1929)
973
Gilberto Avelino
No Inverno
A forte chuva cessara
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
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