Poemas neste tema
Animais e Natureza
Fred Maia
Haicai
girassol
a luz da manhã
a menina dos olhos dança
enganados
os galos cantam
a lua saída do eclipse
a luz da manhã
a menina dos olhos dança
enganados
os galos cantam
a lua saída do eclipse
1 156
Gabriel Archanjo de Mendonça
Sêmen
Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
953
Flávio Villa-Lobos
Estio
Mar alto, tanto mar... frágil ilha
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
880
Gentil Braga
O Orvalho
Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
2 401
Francisco Carvalho
As Vacas
Nos currais da fazenda
as vacas paridas
acalentam os bezerros
com as suas línguas
transbordantes de oferendas
os seus gemidos de ouro
escrevem uma lenda
de desejos
no espinhaço do touro.
as vacas paridas
acalentam os bezerros
com as suas línguas
transbordantes de oferendas
os seus gemidos de ouro
escrevem uma lenda
de desejos
no espinhaço do touro.
1 738
Filinto Elísio
Soneto
Já vem a primavera, desfraldando
Pelos ares as roupas perfumadas,
E os rios vão, nas águas jaspeadas,
Os frondíferos troncos retratando;
Vão-se as neves dos montes debruçando
Em tortuosas serpes argentadas;
Pelas veigas, o gado, alcatifadas,
A esmeraldina felpa vai tosando.
Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
E a natureza as melindrosas cores
Esmera na pintura das boninas.
Ah! Se assim como brotam novas flores,
Se remoça todo o orbe... das ruínas
Dos zelos renascessem meus amores!
Pelos ares as roupas perfumadas,
E os rios vão, nas águas jaspeadas,
Os frondíferos troncos retratando;
Vão-se as neves dos montes debruçando
Em tortuosas serpes argentadas;
Pelas veigas, o gado, alcatifadas,
A esmeraldina felpa vai tosando.
Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
E a natureza as melindrosas cores
Esmera na pintura das boninas.
Ah! Se assim como brotam novas flores,
Se remoça todo o orbe... das ruínas
Dos zelos renascessem meus amores!
1 858
Flávio Sátiro Fernandes
Paisagem de Guima
O pássaro,
em vôo sereno,
conquista, do alto,
o quanto existe
de luz e de esperança
nesse verd’água sublime.
em vôo sereno,
conquista, do alto,
o quanto existe
de luz e de esperança
nesse verd’água sublime.
875
Francisco Carvalho
Gravura Nordestina
A Eduardo Campos
Este sol é um deus feroz
que dardeja e que incendeia
os esqueletos dos bois.
As redondas oiticicas
são carpideiras de luto
chorando a morte dos brutos.
Em vôos rasantes, ao léu,
os urubus mais parecem
anjos expulsos do céu.
Gaviões roçam de esguelha
as asas martirizadas
nas costelas das ovelhas.
Cigarra, ali,devaneia.
Morre de tanto cantar
em sua concha de areia.
Uma rajada de vento
sacode os gonzos das portas
como se fosse um lamento.
Os leitos secos dos rios
são tumbas de faraós
ou de monarcas fenícios.
Quando o sol chega no vértice
os mandacarus acendem
os seus fanais de quermesse.
Os bichos magros cochilam
à sombra dos juazeiros
à espera de alguma brisa.
O canto da juriti
trespassa as almas dos homens
com seu punhal de vizir.
O balido das ovelhas
assusta as aves e os ninhos
que elas fizeram nas telhas.
Entre esquivâncias e astúcias
jumenta se entrega ao macho
que entorna o vinho das núpcias.
Ao mugido de uma rês
percorre toda a paisagem
um clamor de viuvez.
Nas varandas das fazendas
as redes brancas desenham
corpos que são oferendas.
Ninguém que ouse ou que vá
toldar os sonhos de linho
das moças no copiá.
Este sol é um deus feroz
que dardeja e que incendeia
os esqueletos dos bois.
As redondas oiticicas
são carpideiras de luto
chorando a morte dos brutos.
Em vôos rasantes, ao léu,
os urubus mais parecem
anjos expulsos do céu.
Gaviões roçam de esguelha
as asas martirizadas
nas costelas das ovelhas.
Cigarra, ali,devaneia.
Morre de tanto cantar
em sua concha de areia.
Uma rajada de vento
sacode os gonzos das portas
como se fosse um lamento.
Os leitos secos dos rios
são tumbas de faraós
ou de monarcas fenícios.
Quando o sol chega no vértice
os mandacarus acendem
os seus fanais de quermesse.
Os bichos magros cochilam
à sombra dos juazeiros
à espera de alguma brisa.
O canto da juriti
trespassa as almas dos homens
com seu punhal de vizir.
O balido das ovelhas
assusta as aves e os ninhos
que elas fizeram nas telhas.
Entre esquivâncias e astúcias
jumenta se entrega ao macho
que entorna o vinho das núpcias.
Ao mugido de uma rês
percorre toda a paisagem
um clamor de viuvez.
Nas varandas das fazendas
as redes brancas desenham
corpos que são oferendas.
Ninguém que ouse ou que vá
toldar os sonhos de linho
das moças no copiá.
1 174
Francisco Carvalho
Adágio Para um Tigre
Quando ele passeia pela floresta
os astros se escondem em seus casulos
de cristal e as ramagens genuflexas
derramam no ar gorjeios de alaúdes.
O tigre escuta o cântico das árvores
seduzidas pela flauta de Pã.
Seus olhos, dançarinos entre as flores
querem dormir ao sol de Aldebarã.
A noite arrasta o seu manto de búzios
sobre os pântanos coroados de chamas.
O tigre é um deus que sai de seus refúgios
para comer os brolhos das semanas.
O vento apaga as lâmpadas dos charcos
volta a zumbir nas veias dos cipós.
O tigre escreve a lenda de seus passos.
Em seu rumor canta secreta voz.
As horas passam, suas vestes longas
tocam de leve as harpas das clareiras.
O andar do tigre e o espírito das sombras
são dois impulsos para as profundezas.
os astros se escondem em seus casulos
de cristal e as ramagens genuflexas
derramam no ar gorjeios de alaúdes.
O tigre escuta o cântico das árvores
seduzidas pela flauta de Pã.
Seus olhos, dançarinos entre as flores
querem dormir ao sol de Aldebarã.
A noite arrasta o seu manto de búzios
sobre os pântanos coroados de chamas.
O tigre é um deus que sai de seus refúgios
para comer os brolhos das semanas.
O vento apaga as lâmpadas dos charcos
volta a zumbir nas veias dos cipós.
O tigre escreve a lenda de seus passos.
Em seu rumor canta secreta voz.
As horas passam, suas vestes longas
tocam de leve as harpas das clareiras.
O andar do tigre e o espírito das sombras
são dois impulsos para as profundezas.
1 100
Francisco José Rodrigues
Pagos da Infância
À Aprígio Rodrigues
Enquanto, sob o sol de primavera,
Nossos campos esplendem de verdura;
Enquanto nós olhamos com ternura
Os passarinhos a esvoaçar nas moitas,
O ar puro nosso sangue retempera
E faz nossas andanças mais afoitas
Pelos pagos da infância que perdemos.
Pagos que visitamos e revemos
Com saudade tamanha, desmedida
Que nos penetra fundo e dilacera.
Contingência fatal de nossa vida:
Perder o que era nosso e, após, rever
O que nunca pensamos de perder
Quando tudo era sonho e primavera!
Enquanto, sob o sol de primavera,
Nossos campos esplendem de verdura;
Enquanto nós olhamos com ternura
Os passarinhos a esvoaçar nas moitas,
O ar puro nosso sangue retempera
E faz nossas andanças mais afoitas
Pelos pagos da infância que perdemos.
Pagos que visitamos e revemos
Com saudade tamanha, desmedida
Que nos penetra fundo e dilacera.
Contingência fatal de nossa vida:
Perder o que era nosso e, após, rever
O que nunca pensamos de perder
Quando tudo era sonho e primavera!
926
Francisco Moura Campos
Haicai
Pousou na cal.
É o negro do anu
— tão puro! — no branco.
Na noite de névoa
— branca, sobrenatural —
a lua redonda.
É o negro do anu
— tão puro! — no branco.
Na noite de névoa
— branca, sobrenatural —
a lua redonda.
938
Florisvaldo Mattos
Dezembro
Menino ainda, costumava
romper o cristal da manhã
e do macio horizonte
cavalgar o aromado pêlo
haurindo a seiva do dia, tanto me
comoviam os animais no campo.
Na adolescência,
ave, passei às mãos das incertezas:
como a mim permitiam decidi
a vida cantar por não ser nada.
Transitei pelos vales recolhendo
Um pouco de mim mesmo em cada planta
na água dos riachos me banhava
da pedra me enxugava nas durezas
que ao vento domavam e refaziam
meu secreto saber.
Eu era agora um homem,
tanto me diziam, tanto me provava
o contato com os homens ou algo mais.
A lua cheia matava-me no silêncio,
invariável lua que jamais cantei
por pouco ser e muito dizer.
Amanhecia por vezes sobre um couro,
transido de frio, sem pecados.
Amava a terra, doação da manhã,
mesmo quando armas rudes me cortavam
a fímbria da existência: eu era
um pouco das safras transportadas,
da poeira que tropeiros levantavam
misturada a rastro de sangue nas ladeiras
"Um cavalo cortado ao meio", me diziam,
e isso valia como identificação
ao que vem e suporta seus tropeços.
Os companheiros de infância,
muito bem mortos, lá estão
esculpidos em ecos, regressando,
do afã diário aos búzios vesperais,
ignorando armadilhas do sol-posto,
tanto falam-me os gestos, os ruídos.
E como vêm falar do que não foram!
Agora é dezembro, e pouco vale
um coração cruzado de datas,
mesmo punhais de lâminas fecundas,
rebrilhando ao sol do meio-dia,
de flores, de frutos na campestre senda.
Humilho-me por não ser o que mais fui,
consciente mas expondo-me aos assédios
de ventos ruminosos, águas várias
— águas de aboio insopitado e lento.
Agora é dezembro: com seu penacho
de luz acende o caminho, incinerando
as fétidas lembranças, colorindo
ausências de sonora geometria.
Antes triste que perdido
ao sol que nos confunde,
à chuva que nos vence.
Agora é dezembro, um mês guerreiro,
que doma sombras ao calor de espadas.
romper o cristal da manhã
e do macio horizonte
cavalgar o aromado pêlo
haurindo a seiva do dia, tanto me
comoviam os animais no campo.
Na adolescência,
ave, passei às mãos das incertezas:
como a mim permitiam decidi
a vida cantar por não ser nada.
Transitei pelos vales recolhendo
Um pouco de mim mesmo em cada planta
na água dos riachos me banhava
da pedra me enxugava nas durezas
que ao vento domavam e refaziam
meu secreto saber.
Eu era agora um homem,
tanto me diziam, tanto me provava
o contato com os homens ou algo mais.
A lua cheia matava-me no silêncio,
invariável lua que jamais cantei
por pouco ser e muito dizer.
Amanhecia por vezes sobre um couro,
transido de frio, sem pecados.
Amava a terra, doação da manhã,
mesmo quando armas rudes me cortavam
a fímbria da existência: eu era
um pouco das safras transportadas,
da poeira que tropeiros levantavam
misturada a rastro de sangue nas ladeiras
"Um cavalo cortado ao meio", me diziam,
e isso valia como identificação
ao que vem e suporta seus tropeços.
Os companheiros de infância,
muito bem mortos, lá estão
esculpidos em ecos, regressando,
do afã diário aos búzios vesperais,
ignorando armadilhas do sol-posto,
tanto falam-me os gestos, os ruídos.
E como vêm falar do que não foram!
Agora é dezembro, e pouco vale
um coração cruzado de datas,
mesmo punhais de lâminas fecundas,
rebrilhando ao sol do meio-dia,
de flores, de frutos na campestre senda.
Humilho-me por não ser o que mais fui,
consciente mas expondo-me aos assédios
de ventos ruminosos, águas várias
— águas de aboio insopitado e lento.
Agora é dezembro: com seu penacho
de luz acende o caminho, incinerando
as fétidas lembranças, colorindo
ausências de sonora geometria.
Antes triste que perdido
ao sol que nos confunde,
à chuva que nos vence.
Agora é dezembro, um mês guerreiro,
que doma sombras ao calor de espadas.
998
Fernanda Botelho
Esplanada
É o processo da forma seca e pobre
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.
Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.
Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.
1 425
Fernandes Soares
Haicai
Chuva de verão.
O rio, num desafio,
é um vagalhão.
A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
O rio, num desafio,
é um vagalhão.
A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
1 008
Fernando Guedes
O Caule
Cinzentas procuras interceptam
o paralelismo recusado.
Sem preferência de ritmo
as fotografias dividiram entre si
os intervalos do tempo. Duas.
No caminho vãos destinos se buscam.
Só a molécula resiste, a flor aberta,
o caule perfumado, a raiz vigorosa.
onde a raposa construiu o seu covil,
a folhagem criada para o abrigo do mocho,
a inteira floresta, espinheiros e buxo,
o labirinto,
o eco da canção antiga,
ingênua e tão distante.
E do eco, do bosque, do labirinto, da flor aberta
se nutre de novo o movimento.
Os símbolos perfilam outro símbolo.
o paralelismo recusado.
Sem preferência de ritmo
as fotografias dividiram entre si
os intervalos do tempo. Duas.
No caminho vãos destinos se buscam.
Só a molécula resiste, a flor aberta,
o caule perfumado, a raiz vigorosa.
onde a raposa construiu o seu covil,
a folhagem criada para o abrigo do mocho,
a inteira floresta, espinheiros e buxo,
o labirinto,
o eco da canção antiga,
ingênua e tão distante.
E do eco, do bosque, do labirinto, da flor aberta
se nutre de novo o movimento.
Os símbolos perfilam outro símbolo.
1 217
Fanny Luíza Dupré
Primavera
De asas multicores
pousam nas flores do campo
frágeis borboletas.
Raios de luar.
Bolhas nas águas do lago.
Saltam rãs e sapos.
pousam nas flores do campo
frágeis borboletas.
Raios de luar.
Bolhas nas águas do lago.
Saltam rãs e sapos.
1 118
Urhacy Faustino
Inventário de safras
Ceifar o trigo;
ordenhar a vaca;
moer café.
Beneficiar o pão;
manipular o leite;
extrair a essência.
Preparar a mesa, da manhã.
II
Observar lua propícia,
plantar, na certa colher:
arroz, feijão, hortaliças e flores -
não esquecer: colibri precisa comer.
Tratar bem galo e suas galinhas,
pra ter ovos e despertador.
E rezas para agradecer farturas
no almoço e no jantar.
III
Noite,
piar de coruja, longe.
Um silêncio quase,
não fosse o ruminar dos animais.
Pirilampo que se perdeu do pasto,
faz-se estrela única,
no teto do quarto escuro.
IV
Cão amigo,
para ladrar estranhos.
Gatos no telhado —
aquecedores de pés em noites de inverno.
Livros, muitos deles,
espalhados nos cantos certos da casa.
E uma avó, cheia de histórias,
na mesa de cabeceira,
para os dias de preguiça.
ordenhar a vaca;
moer café.
Beneficiar o pão;
manipular o leite;
extrair a essência.
Preparar a mesa, da manhã.
II
Observar lua propícia,
plantar, na certa colher:
arroz, feijão, hortaliças e flores -
não esquecer: colibri precisa comer.
Tratar bem galo e suas galinhas,
pra ter ovos e despertador.
E rezas para agradecer farturas
no almoço e no jantar.
III
Noite,
piar de coruja, longe.
Um silêncio quase,
não fosse o ruminar dos animais.
Pirilampo que se perdeu do pasto,
faz-se estrela única,
no teto do quarto escuro.
IV
Cão amigo,
para ladrar estranhos.
Gatos no telhado —
aquecedores de pés em noites de inverno.
Livros, muitos deles,
espalhados nos cantos certos da casa.
E uma avó, cheia de histórias,
na mesa de cabeceira,
para os dias de preguiça.
823
Adriano Espínola
Haicai
Tristeza
Uma árvore torta.
Uma ave cantando grave.
A tarde já morta.
Outono
Folhas. Ventania.
Cajus se despencam nus:
apodrece o dia.
Uma árvore torta.
Uma ave cantando grave.
A tarde já morta.
Outono
Folhas. Ventania.
Cajus se despencam nus:
apodrece o dia.
2 735
Epitácio Mendes Silva
Nós e natureza
Cores de todas as manhãs,
manhãs de todas as cores.
Dia de todas as luzes,
luzes de todos os dias.
Noite de todas as luzes,
luzes de todas as noites.
Gotas de orvalho das flores
e flores com gotas de orvalho.
Pássaros que os dias festejam
e dias que festejam os pássaros.
Céu de todos os azuis
e azuis de todos os céus.
Cristalinas águas das fontes
e fontes de águas cristalinas.
Mundo de todos os sons
e sons de todos os mundos.
Dizei-me oh, coisas divinais:
por que em tudo isso me reflito
e tudo me faz pensar em ti ?...
manhãs de todas as cores.
Dia de todas as luzes,
luzes de todos os dias.
Noite de todas as luzes,
luzes de todas as noites.
Gotas de orvalho das flores
e flores com gotas de orvalho.
Pássaros que os dias festejam
e dias que festejam os pássaros.
Céu de todos os azuis
e azuis de todos os céus.
Cristalinas águas das fontes
e fontes de águas cristalinas.
Mundo de todos os sons
e sons de todos os mundos.
Dizei-me oh, coisas divinais:
por que em tudo isso me reflito
e tudo me faz pensar em ti ?...
1 047
Douglas Eden Brotto
Primavera
No galpão, o ferreiro
descansa ao malho, ao canto,
rival, da araponga!...
Penumbra nos bosques
onde escachoam os riachos...
Ah... a primavera...
descansa ao malho, ao canto,
rival, da araponga!...
Penumbra nos bosques
onde escachoam os riachos...
Ah... a primavera...
1 037
Edércio Fanasca
Haicai
Espreitando o orvalho
entre corolas e cálices
uma aranha tece.
Na paz do cerrado
a cigarra estridula
quebrando o silêncio.
entre corolas e cálices
uma aranha tece.
Na paz do cerrado
a cigarra estridula
quebrando o silêncio.
923