Poemas neste tema
Tempo e Passagem
António Ramos Rosa
Imagem Ou Astro
A imagem ou astro perseguido,
na sombra renascido, sob as mesas,
presença oval que luz a um olhar isento
mais além ou à mão ou nada que nos foge
ou tudo em que soçobra toda a espera
ou terra ou só contra o muro a sombra
esta inércia transparente sobre os ombros.
*
Não percorrer esta toalha obscura
nem saber qual rosto nela assoma
nem ver no espelho renascer a sombra.
Mas frente ao assalto sob a onda
mais do que compreender, a sombra ser,
subir, descer, no intervalo que fica,
opacamente respirar, não ver.
*
Um momento, o tronco mutilado
afirma a presença do incompleto.
À volta a clareira em que o repouso
é ver o mar quebrado. E mais que o tempo
se estendem em nós imaginários membros
transparentes.
na sombra renascido, sob as mesas,
presença oval que luz a um olhar isento
mais além ou à mão ou nada que nos foge
ou tudo em que soçobra toda a espera
ou terra ou só contra o muro a sombra
esta inércia transparente sobre os ombros.
*
Não percorrer esta toalha obscura
nem saber qual rosto nela assoma
nem ver no espelho renascer a sombra.
Mas frente ao assalto sob a onda
mais do que compreender, a sombra ser,
subir, descer, no intervalo que fica,
opacamente respirar, não ver.
*
Um momento, o tronco mutilado
afirma a presença do incompleto.
À volta a clareira em que o repouso
é ver o mar quebrado. E mais que o tempo
se estendem em nós imaginários membros
transparentes.
659
António Ramos Rosa
Um Óleo de Manuel Baptista
Na parede as teias
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
1 073
António Ramos Rosa
Ocupação do Espaço
Assim te insurges, leal, frente ao silêncio.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
743
António Ramos Rosa
A Última Oportunidade É Sempre
A última oportunidade é sempre
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
esta
corre
só um pouco mais e o sol e o sangue
invadirá a árvore
a seiva empapará tua língua
eia! um homem
sem nada para a morte
999
António Ramos Rosa
Antecipação À Velhice
Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.
Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
677
António Ramos Rosa
Eis Os Instrumentos
Eis os instrumentos
no vagar da terra
A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
no vagar da terra
A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
965
António Ramos Rosa
Passagem
É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo agora este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.
É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.
Sou eu que escrevo agora este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.
É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.
680
António Ramos Rosa
Telegrama Sem Classificação Especial
Estamos nus e gramamos.
Na grama secular um passarinho verde
canta para um poema lírico, para um poeta lírico,
que se nasceu
é certo que não cantou.
As paisagens continuam a existir.
As paisagens são suaves.
Continuam também a existir
outras coisas que dão matéria para poemas.
A vida continua.
Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.
A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança indestrutível em si mesmo,
é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.
Num mundo descoroçoante de puras imagens
é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,
é bom navegar.
Porque este presente é logo saudoso.
Na grama secular o passarinho canta.
Evidentemente que o poeta suicidou-se.
A vida continua.
Certas coisas que pareciam mortas
estão agora vivas ou, pelo menos, mexem-se.
Ausentes, dominam-nos.
Não é para nós que utilizam palavras,
que insistem,
não é para nós!
Estes grandes ornamentos, estes sábios discursos
fluem em visões, em ondas, como se não no presente.
Ter-se-á o presente extinguido?
A vida continua tão improvavelmente.
Na grama um passarinho canta.
Canta por cantar, ou não, canta.
Eu poderia, com rigor, agora
cantar:
Os anjos exactos
que empunham tesouras
de encontro aos factos
— ó minhas senhoras!
Ou rigorosamente ainda,
com veemente exactidão,
inutilizar o poema,
todos os poemas,
porque
Estamos nus e gramamos.
Na grama secular um passarinho verde
canta para um poema lírico, para um poeta lírico,
que se nasceu
é certo que não cantou.
As paisagens continuam a existir.
As paisagens são suaves.
Continuam também a existir
outras coisas que dão matéria para poemas.
A vida continua.
Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.
A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança indestrutível em si mesmo,
é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.
Num mundo descoroçoante de puras imagens
é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,
é bom navegar.
Porque este presente é logo saudoso.
Na grama secular o passarinho canta.
Evidentemente que o poeta suicidou-se.
A vida continua.
Certas coisas que pareciam mortas
estão agora vivas ou, pelo menos, mexem-se.
Ausentes, dominam-nos.
Não é para nós que utilizam palavras,
que insistem,
não é para nós!
Estes grandes ornamentos, estes sábios discursos
fluem em visões, em ondas, como se não no presente.
Ter-se-á o presente extinguido?
A vida continua tão improvavelmente.
Na grama um passarinho canta.
Canta por cantar, ou não, canta.
Eu poderia, com rigor, agora
cantar:
Os anjos exactos
que empunham tesouras
de encontro aos factos
— ó minhas senhoras!
Ou rigorosamente ainda,
com veemente exactidão,
inutilizar o poema,
todos os poemas,
porque
Estamos nus e gramamos.
1 279
António Ramos Rosa
Por Uma Aridez Fecunda
É o tempo de uma árvore ou de um cão,
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
1 077
António Ramos Rosa
Traços
Eu não vos sei dizer
à claridade
um grito
sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro
o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra
É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo
só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo
como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte
à claridade
um grito
sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro
o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra
É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo
só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo
como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte
584
António Ramos Rosa
E Certas Palavras
a Fernand Verhesen
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas
este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto
Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas
este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto
Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
1 035
António Ramos Rosa
Agora estou entre Sombras e Sombras
Agora estou entre sombras e sombras
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
1 117
António Ramos Rosa
Deixas Passar os Barcos e as Nuvens
Je laisse passer les bateaux les nuages.
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
918
António Ramos Rosa
O Tempo Concreto
O tempo duro
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
772
João Cabral de Melo Neto
O Fim do Mundo
No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
1 177
Edmir Domingues
Soneto de dezembro
De alcantis e falésias contemplamos
o barco abandonado às vagas pretas,
retrato de amplas naus catarinetas
coberto não de velas, mas de ramos
cortados quando antigas ampulhetas
e clepsidras que vão para onde vamos
não supunham verdade nestes gamos
que não fogem de galgos e trombetas
e vão conosco, flauta e sagitário,
aos vales de um dezembro extraordinário
feito de geometria e céu cinzento,
e sabem, como nós e o fauno infante,
se quebramos a bússola e o sextante,
da imprecisão de mapa e de instrumento.
o barco abandonado às vagas pretas,
retrato de amplas naus catarinetas
coberto não de velas, mas de ramos
cortados quando antigas ampulhetas
e clepsidras que vão para onde vamos
não supunham verdade nestes gamos
que não fogem de galgos e trombetas
e vão conosco, flauta e sagitário,
aos vales de um dezembro extraordinário
feito de geometria e céu cinzento,
e sabem, como nós e o fauno infante,
se quebramos a bússola e o sextante,
da imprecisão de mapa e de instrumento.
653
Natasha Tinet
Quando eu era você
Me sigo pela casa com cuidado
não quero me assustar porque sou outra
agora,
enquanto você dança envolta em poeira solar
eu me escondo à sombra dos meus dedos tortos
uma aranha sobe a parede
mnemosyne, ela se chama
tem sujeira sob as patas e é lenta
como os passos de um inimigo perverso
ninguém se perde numa floresta sem motivo
ninguém guarda no livro uma flor
sem o desejo do eterno
me leve para outra dimensão
onde não exista o tempo
somente o cheiro das noites agrestes, do musgo
do sabão nos lençóis ainda úmidos
todo o seu pequeno mundo murmurando
uma sinfonia de árvores e solidões
segredos que crescem no interior de uma fruta
suculenta de futuro, eles não te ouvem
porque têm pressa e você nada fala
um elo foi quebrado e o que resta
é o significado da palavra hereditário
eu te persigo porque respiro conflitos e culpas
ainda encontros escorpiões no jardim e paraliso
enquanto constelações explodem meus pensamentos
me desculpe, há coisas que não entendo
quando eu era você como era o silêncio?
não quero me assustar porque sou outra
agora,
enquanto você dança envolta em poeira solar
eu me escondo à sombra dos meus dedos tortos
uma aranha sobe a parede
mnemosyne, ela se chama
tem sujeira sob as patas e é lenta
como os passos de um inimigo perverso
ninguém se perde numa floresta sem motivo
ninguém guarda no livro uma flor
sem o desejo do eterno
me leve para outra dimensão
onde não exista o tempo
somente o cheiro das noites agrestes, do musgo
do sabão nos lençóis ainda úmidos
todo o seu pequeno mundo murmurando
uma sinfonia de árvores e solidões
segredos que crescem no interior de uma fruta
suculenta de futuro, eles não te ouvem
porque têm pressa e você nada fala
um elo foi quebrado e o que resta
é o significado da palavra hereditário
eu te persigo porque respiro conflitos e culpas
ainda encontros escorpiões no jardim e paraliso
enquanto constelações explodem meus pensamentos
me desculpe, há coisas que não entendo
quando eu era você como era o silêncio?
675
Knut Hamsun
Em cem anos, tudo estará esquecido
Reviro-me insone por noites a fio,
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
566
Francisco de Vasconcelos
À Fragilidade da Vida Humana
Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.
Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse estio em vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave em doce agrado.
Se a nau, o sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,
Olha, cego imortal, e considera
Que és rosa, primavera, sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.
Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse estio em vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave em doce agrado.
Se a nau, o sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,
Olha, cego imortal, e considera
Que és rosa, primavera, sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.
1 312
Edmir Domingues
Das não vindas barcas
Eis-nos cansados do cansaço enorme
que nos penetra os músculos do sono
e em mansa sonolência nos abate
- esperamos as naus que não vieram
cantando uma cantiga muito velha.
As naus de porcelana que trocamos
pelas canções compostas sob o outono,
que há sete dias estariam vindas
não fosse o triste encanto que as deteve
acaso, acaso as luas de naufrágio
dos bruscos temporais que as naus abatem.
Há sete dias estariam vindas.
Há sete dias nossos pés de chumbo
pelos seus frágeis chãos descansariam
de inúteis passos dados sobre o tempo
que ao fim do tempo a nada nos levaram.
Mas se vindas não foram não partiram
e em não terem chegado não levaram
nossos longos cabelos desgrenhados
por longos sete dias de distância,
que a distância seria o pão de trigo
da vida que ficou, porquanto a espera
de espera não passou, nos olhos foscos
não houve conclusão que outra não fosse
que ser na própria essência de inconclusa.
De quando as barcas nossas muito frágeis,
cascos de porcelanas importada
das índias, muito mais do que longínquas,
velas de seda pálida de alguma
península da China, a mais distante,
nos não levaram para aquelas rotas
que Andrômeda ilumina à luz da noite.
Ficamos neste porto imensurável,
maior que as nossas mágoas mais profundas.
Ficamos entre as bússolas inúteis
e os velhos instrumentos de partida,
entregues para sempre à insuficiência
dos nossos pés mais fracos do que as barcas.
E ao nosso amor, que dorme nestas sombras
enroscado entre os galgos do silêncio,
e entre a vaga esperança de que um dia
as naus trocadas toquem neste porto
e inesperadamente se emaranhem
nas magras e enredosas pontas dos
nossos longos cabelos desgrenhados.
que nos penetra os músculos do sono
e em mansa sonolência nos abate
- esperamos as naus que não vieram
cantando uma cantiga muito velha.
As naus de porcelana que trocamos
pelas canções compostas sob o outono,
que há sete dias estariam vindas
não fosse o triste encanto que as deteve
acaso, acaso as luas de naufrágio
dos bruscos temporais que as naus abatem.
Há sete dias estariam vindas.
Há sete dias nossos pés de chumbo
pelos seus frágeis chãos descansariam
de inúteis passos dados sobre o tempo
que ao fim do tempo a nada nos levaram.
Mas se vindas não foram não partiram
e em não terem chegado não levaram
nossos longos cabelos desgrenhados
por longos sete dias de distância,
que a distância seria o pão de trigo
da vida que ficou, porquanto a espera
de espera não passou, nos olhos foscos
não houve conclusão que outra não fosse
que ser na própria essência de inconclusa.
De quando as barcas nossas muito frágeis,
cascos de porcelanas importada
das índias, muito mais do que longínquas,
velas de seda pálida de alguma
península da China, a mais distante,
nos não levaram para aquelas rotas
que Andrômeda ilumina à luz da noite.
Ficamos neste porto imensurável,
maior que as nossas mágoas mais profundas.
Ficamos entre as bússolas inúteis
e os velhos instrumentos de partida,
entregues para sempre à insuficiência
dos nossos pés mais fracos do que as barcas.
E ao nosso amor, que dorme nestas sombras
enroscado entre os galgos do silêncio,
e entre a vaga esperança de que um dia
as naus trocadas toquem neste porto
e inesperadamente se emaranhem
nas magras e enredosas pontas dos
nossos longos cabelos desgrenhados.
125
Edmir Domingues
soneto XIX - Isso me basta
Antes, desci dos céus complementares
aos mais suplementares artifícios,
e por saber dos ventos não propícios
enfeitei-me de mosto e de lagares.
Depois subi do fundo à flor dos mares
feito assim pela fé de outros ofícios,
banhei-me de equinócios e solstícios
sem que chegasse a hora de chegares.
Não que soubesse o mar no teu vestido
de musgos e de líquenes tecido,
que para mim na dobra se resume.
Mas porque sei que a noite não te afasta.
E mesmo quando é escasso o antigo lume
não te vestes de não e isso me basta.
aos mais suplementares artifícios,
e por saber dos ventos não propícios
enfeitei-me de mosto e de lagares.
Depois subi do fundo à flor dos mares
feito assim pela fé de outros ofícios,
banhei-me de equinócios e solstícios
sem que chegasse a hora de chegares.
Não que soubesse o mar no teu vestido
de musgos e de líquenes tecido,
que para mim na dobra se resume.
Mas porque sei que a noite não te afasta.
E mesmo quando é escasso o antigo lume
não te vestes de não e isso me basta.
544
Edmir Domingues
soneto II - Nunca mais
Nunca mais o ente amado em doce veste
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
de alvos panos sabendo a majestade,
nunca mais na existência e humanidade
o pássaro de prata e azul celeste.
Porque não mostra o espelho que me deste
o mesmo olhar da antiga ingenuidade,
porque o pássaro Lua, asas de jade
curvou, fendendo a rota imensa e agreste.
Nunca mais flores claras pela estrada,
visões leves de riso e madrugada
que ao deus desconhecido não comovem.
Jamais sorriso e amor de lábios francos
ou mãos a rebuscar cabelos brancos
buscando o coração contido e jovem.
659
Edmir Domingues
Vento e conformação
O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
802
Edmir Domingues
soneto I - Quando o mundo acabe
E de espaço e de tempo enfim libertos
seremos quase pássaros no vôo
inconscientemente sexo e vida
burlados preconceitos e limite.
Que a verdade foi vinho e foi desmaio
entre a noite de fumo e de agonia,
sempre antecipação porque sabíamos
composta em nosso sangue a madrugada.
Sejamos ébrios quando o mundo acabe,
e bêbedos nos barcos estejamos
de tímidos e leves quase pássaros.
Que os anjos nos verão rindo e cantando
e nós não voltaremos nem que seja
para enterrar os corpos logo podres.
seremos quase pássaros no vôo
inconscientemente sexo e vida
burlados preconceitos e limite.
Que a verdade foi vinho e foi desmaio
entre a noite de fumo e de agonia,
sempre antecipação porque sabíamos
composta em nosso sangue a madrugada.
Sejamos ébrios quando o mundo acabe,
e bêbedos nos barcos estejamos
de tímidos e leves quase pássaros.
Que os anjos nos verão rindo e cantando
e nós não voltaremos nem que seja
para enterrar os corpos logo podres.
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