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Tempo e Passagem

Edmir Domingues

Edmir Domingues

Coroa de sete sonetos

I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.

O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.

As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.

Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.

II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.

Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.

Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.

Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.

III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.

Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.

Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?

Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.

IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.

Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,

para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.

Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.

V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade

deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.

No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
 

Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.

VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.

O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.

É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.

Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.

VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?

Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?

Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.

No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
297
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Coroa de sonetos - Com o estranho pulsar da estrela morta

I
Com o estranho pulsar da estrela morta
a Vida sobrevive, a vida escura,
quase nunca no odor da coisa pura,
quase sempre em feição de coisa torta.

O simples ter na vida não conforta
quando o importante é ser, À iluminura
nunca fala do esforço e da aventura
(ou ventura?) daquele que se importa

com sua essência viva, porque quando
a criou, concebeu, e a fez do nada,
e a resgatou do limbo, o fez vibrando.

Por infinitas noites, longos dias,
viveu o criador que a fez criada
numa parafernália de agonias.

II
Numa parafernália de agonias
cada hora morremos nova morte,
e já não há a mão que nos conforte
nas infinitas noites, longos dias.

Aqui, e nas antigas sesmarias
dos reinados antigos, cuja sorte
as cinzas não cobriram, e onde a coorte
chamada Legião, estrepolias

semeou, como sempre, a vida vive
o constante rosário dos azares
que sempre tu tiveste e eu sempre tive.

Tudo são sofrimentos, neste lado.
Penélope indecisa, em seus teares,
a Vida desenvolve o seu bordado.

III
A Vida desenvolve o seu bordado
no universo das cores, dos matizes,
narcejas, e faisões, e codornizes
estáticas na trama do brocado

enfeitam chãos, paredes, cortinado
com força dos mais fortes chamarizes,
perdição de calhandras e perdizes,
que a velhos susto e a novos dão cuidado.

É os mistérios da vida? Quem desvenda
os mistérios da vida? Quem tem tino
que separe a verdade da legenda?

Eu, pobre semideus, desarvorado,
aflito silencio. E o Destino
esse grande animal sempre a meu lado.

IV
Esse grande animal sempre a meu lado
já não é o Destino, mas a Mente.
Um reflexo no espelho à minha frente
o seu olhar é o meu, o olhar magoado

na rede de torturas torturado,
consequência de um mundo inconseqüente,
tocado da demência mais demente
e para todo o sempre condenado.

Sonoros atambores é atabaques
sonoros, percutidos lua a pino
ao pé dos fogos vivos dos bivaques,

são para nós os pães dos nossos dias
pois é a Mente o mais trágico destino,
egresso de noturnas bruxarias.

V
Egresso de noturnas bruxarias
trago os lábios dormentes da jurema
e da liamba, mas trago as mãos vazias,
e retomo, por isso, o antigo tema

dos fumos da adivinha, do dilema
de não poder chegar, por quaisquer vias,
ao sentido da vida, esse problema
das vigílias noturnas, e dos dias

de vigília também, daquela vaga
sensação de um lugar só de carícias
e de um tranqüilo amor, inconquistado

ou perdido, uma luz que o tempo apaga.
A perda dessa paz, dessas primícias,
conserva-me entre atônito e calado.

VI
Conserva-me entre atônito e calado
o não saber quem sou, o que é que tenho,
por quê carrego sempre o enorme lenho
para o topo do monte designado.

Sendo nada e ninguém na esfera, venho
sem ter para onde ir, em triste estado
de astenia, o cadáver adiado
que procura implodir, mas que contenho.

Quem sou? Que sou? Por quê? Quem me responde
aqui e agora? Quem? Ninguém riposta,
ninguém conhece tais filosofias.

O cálix não se afasta e não se esconde
sempre ofertado, a mesa sempre posta,
por noites infinitas, longos dias.

VII
Por noites infinitas, longos dias,
perguntei-me o que sou, o que conheço
pois não conheço nada. Nem começo
e nem fim, que não sei filosofias.

Olho os buracos negros e estremeço,
quasares e pulsares, correrias
do Cometa, no azul das noites frias,
vindo da nuvem de Oort, o adereço

que restou da explosão, (mas não se prova),
da órbita alongada a eterna presa,
coisa antiga que é sempre coisa nova.

Tudo que é cislunar são teorias
e a minha Religião é a da incerteza
sem consolo de antigas fantasias.

VIII
Sem consolo de antigas fantasias
hoje sei que não sei e eis que sou sábio.
Roteiros de sextante e de astrolábio
não são os meus caminhos, minhas vias.

E essa verdade é quase certa. Sabe-o
quem raciocina e lê, quem faz poesias,
quem frequenta mosteiros, livrarias,
quem guarda o gosto antigo do alfarrábio.

A certeza é a incerteza, com certeza.
No reinado dos quanta, na beleza
de saber-se a constância da inconstância.

O tapete invisível e ondulado,
eu nutrindo-me apenas da ignorância
e para todo o sempre condenado.

IX
E para todo o sempre condenado
é preciso ficar. Nada sabemos
desse olho que nos olha dos extremos
do universo. Um olhar que é do passado

de muitos anos-luz, e que é chegado
agora, e vem de longe, dos supremos
confins, para que um dia o decifremos
para tê-lo, por fim, por decifrado.

Aqui, do grão de areia, na tormenta,
a que o vento solar nutre e alimenta,
é que o bicho da terra mais se achata.

Falo de mim, que vivo ao desabrigo,
quero viver em paz e não consigo,
não consigo matar o que me mata.

X
Não consigo matar o que me mata.
A dúvida de tudo, a dolorosa,
que não sabe porque é que a rosa é a rosa,
que não sabe porque é que a angústia é inata.

Olhar o firmamento, há longa data,
ver M-trinta e um, maravilhosa,
depois para nós mesmos, na inditosa
visão da poeira humilde da alparcata.

Nosso sistema é pobre, e está num canto
do Universo, vivendo a curvatura
com que se encurva a linha curviforme.

Ao lodo a ciência. O céu é um simples manto,
e nada já nos sobra nesta altura
so restando morrer na noite enorme.

XI
So restando morrer na noite enorme
eis que então me questiono, novamente,
da Razão inicial e da presente,
do porquê da existência multiforme,

e desafio a Esfinge à nossa frente,
que nos devora sempre, que não dorme,
esse oráculo antigo e desconforme
na sua danação. Constantemente

a vida se renova em novas provas,
anãs brancas, e novas, supernovas,
número infindo de ergs libertando.

Se a dúvida é constante, sempre ingrata,
na solidão da noite sigo andando
banhado de um luar de pura prata.

XII
Banhado de um luar de pura prata
(o leite de Amaltéia?) enquanto vivo
é preciso seguir o imperativo
a imposição que vem de longa data,

desde quando, da carnação cativo,
o Mundo esmaga os ossos da omoplata,
o macro e o microcosmo, a serenata
do nada contorcido e negativo.

Que é que eu tenho de meu? A chuva, o vento,
a larga estrada real onde transito,
um raro ser feliz por um momento,

um pobre sonho vago, de uniforme
presença, que é cansaço e que é conflito,
porque já quase morto e já disforme.

XIII
Porque já quase morto e já disforme
morrer aos pés do Deus não desejado
que tudo nos negou, nos fez cansado
e cego e surdo e só, na noite enorme.

Pedir contas ao Deus, quando chamado
ao juízo final. Não se conforme
quem foi o Prisioneiro, em pluriforme
universo, o mais curvo e o mais fechado.

Pedir contas ao Deus, quem foi na vida
convicto de universo sem saída,
e que teve, por isso, a vida morta.

Desafio que é apenas asteísmo
porque mesmo que role o cataclismo
bate o meu coração, fechada porta.

XIV
Bate o meu coração, fechada porta,
a espera seja Nêmesis tornada,
nossa Estrela Assassina, a inculpada,
que tudo purifica e a vida corta.

Que tudo morra então. O que é que importa
quando a Vida não morre? Eternizada,
nascida novamente, e renovada
que numa nova vida se transporta?

Por não restar diversa alternativa,
ser feliz, assumindo a ignorância
e as Sementes da Morte, sempre viva.

Conformação que, é certo, já conforta
o coração que pulsa na inconstância
com o estranho pulsar da estrela morta.

XV COROA
Numa parafernália de agonias
a Vida desenvolve o seu bordado.
Esse grande animal, sempre a meu lado,
egresso de noturnas bruxarias,

conserva-me entre atônito e calado
por noites infinitas, longos dias,
sem consolo de antigas fantasias
e para todo o sempre condenado.

Não consigo matar o que me mata,
só restando morrer, na noite enorme,
banhado de um luar de pura prata.

Porque já quase morto e já disforme
bate o meu coração, fechada porta,
com o estranho pulsar da estrela morta.
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Ruy Belo

Ruy Belo

Tempora nubila

Chove há muito no mundo sobre o homem
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos

Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me  a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos

Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)

E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu

Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 323
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice (5)

Como se o sol não trouxesse com ele a hostilidade
do dia! E o seu esplendor não comprometesse a recordação
que me enche, e o desejo com que a mão procura a mão
que lhe falta! As estações prosseguem o seu ciclo; a um inverno
sucede a primavera; e as árvores respiram o primeiro vento
com uma ânsia diferente, anunciando a próxima floração. Eu,
preso às palavras, perco-me no seu labirinto. Ouço-te,
porém: e é sempre no caminho que fica sem saída,
de onde há muito caiu a cal, deixando
as feridas de gesso de onde os meus olhos bebem
o que sobra da tua imagem, que a tua voz me traz a música todos os dias
que não voltarão a nascer.

Talvez não fosse por aí que eu devesse ter
ido; mas que outra saída tem um labirinto senão a que parece
abrir-se num descampado florido, para depois se fechar
em becos, no reino sem futuro das sombras? Diz-me:
adivinhavas o que iria suceder? Ou não ouviste
o que te disse, quando falámos, em frente
desses cafés que arrefeciam, de tudo e nada: o nada
das coisas da vida, as que nos prendem ao instante que passa,
a súbita solidão de um fim de tarde, ou o ruído das crianças,
vindo da rua, que atravessa o espírito até se perder numa obscura
memória de infância; e tudo o resto - esse castelo antigo para que me empurra
um impulso do coração, agora que a taça se esvazia à minha frente
e nenhuma curva de caminho me desvia para o teu rosto.

Então, apago uma a uma as lâmpadas do ocaso? Como
o sacristão louco que avançou pela cripta, derrubando as estátuas
do culto? Não é isso o amor - essa outra religião a que devotamos o mais secreto do ser; a hesitação de uma bailarina
sem saber o lugar que lhe pertence num cenário de conversas; ou
o céu a que aspiramos, nesta terra que nos rouba cada pedaço
de tempo, para o devorar num banquete de astros finais. Podia
explicar-te o que é fictício, o que se perde do outro lado
do que pensamos que seja - a própria vida. Mas ela é
outra coisa: o que se constrói por dentro de nós,
nos intervalos da sensação, e se ergue de todas as horas
solitárias; e o que nos indica, na flor, o que não perece,
para além do seu centro de efémera beleza.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 54 a 56 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 645
Ruy Belo

Ruy Belo

No tumulo de sardanapalo

Umas dezenas de anos boa idade
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar

Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia

Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar  

Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a  palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 333
Martha Medeiros

Martha Medeiros

A alegria na tristeza

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil. 

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la. 

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir. 

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora. 

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento. 

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida. 

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.
1 292
Ruy Belo

Ruy Belo

O último inimigo

A pêra após a pêra entretanto amadurece
a uva após a uva após o figo o figo
E eu que canto? Canto talvez a lua vagabunda e os eclipses do sol
ou a rota do âmbar escalando os entrepostos do mar Báltico
talvez o fim (ou o princípio) dos homens e dos seres

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
ao peso de todos os anos que teriam
os mortos se houvessem morrido
Nenhuma outra idade lhe convém
e distraidamente eu o convoco
por cada criança que perdeu a inocência
E dir-me-à: "Esquece o teu nome a casa dos teus pais
pelo que não é teu terás um nome novo
Também Pilur
outrora recebeu o nome de Nilur"

Alguém - Febe, Cloé, Ápia, Lídia, Priscila... quem? -
se move repentinamente nas derramadas casas
aonde é mais real a sucessão das estações
e nem o filho pródigo nos vem já redimir
de tudo quanto tem uma cidade que se preza
se não nos esquecermos da carreta funerária
por cada voz extinta na garganta da cidade
O corpo é superior a vítimas e oblações
Não vem à flor do sonho o símbolo mulher
e há um ramo de oliveira e luz e campos entre dois ou vários rostos
e o fumo em que se esvaem tantos dias
e as crianças e as árvores e o mar
Como haveremos de salgar o sal?
Eu sempre fui estrangeiro nesta terra
eu não fiz mal a Deus por nada deste mundo
Só vi cair as árvores em julho
e conheci também a extrema solidão do vento
cravada como um escrúpulo na carne

A muitos anos-luz da infância inverosímil
enquanto nada acabou de todo ainda
nem no solo de Tróia cresce a sombra de uma lança
preparo cuidadosamente a minha morte
seguindo a linha norte-sul do litoral do medo
e acompanhando a progressiva imposição de línguas mais que indo-europeias
a noroeste das penínsulas do sonho
Volto-me para a morte e chamo como só Deus se chama
A morte é um vizinho que se ama

Não és ainda tu
Nunca nenhum de nós
É que não há ninguém
Deus é distante como o vento ou a vida
e no cúmulo da sede nenhuma fonte nasce
Naqueles que morreram confiávamos
mas não mais se erguerão no dia a dia desta terra
onde se colhe em cada rosto a flor imperecível do instante
Afunde então a melhor mão na mais profunda dor
entre as convulsas caravelas do teu pranto
e não mais saberás onde a haverás de pôr
Eu digo-te que é Jonas o único sinal
e Argos afinal a cidade onde devíamos voltar
levando em cada mão as tácteis flores de Santa Maria
para vivermos lá como dez anos antes
Não choraremos com as filhas de Jerusalém?

Permanecer sentados tantos dias sem nenhuma ideia
ou distraído olhar para a mosca de súbito importante
à frente um simples prato Moscavide e a manhã
sereno mundo líquido num copo
contrário desacordo com o corpo
e as árvores de pé como um insulto
ou na areia de qualquer perdida e pequenina praia ousar o gesto de imolar
às planas e quebradas mãos do mar a flor do que sabemos
e assim à líquida embaixada ensinar a soletrar
a orla do país que nesse instante fomos
talvez a ocidente do melhor que somos
- que as palavras remirão estes ou outros movimentos do olvido?

O inverno veio e não o recebemos
havia tanta coisa a receber
talvez nem fosse propriamente o inverno
mas tu, o grande distraído, que nos ouves
Quare ergo rubra vestimenta tua,
vindo de vestes rubras desde Bosra
na sempre repetida impiedade de Jacob?
Generationem eius quis narrabit?
A tua face, ó meu amigo, é alta como as coisas que se perdem
e demoramos nela os nossos melhores olhos
Aonde estás, Emmanuel, aonde?
Eu tive-te na boca e não te conhecia
e desejava ter aquilo que mais tinha
no próprio acto de o ter (e de o perder),
ó alegria inerente ao começo das coisas
Como desceste, ó desejado, das colinas eternas
para quebrares as pernas contra tantas portas fechadas sobre ti?
Que vieste fazer a Elsenor?
Perder-te nos passinhos insistentes miudinhos
usados nos caminhos das modernas praias
entre risos e lágrimas locais?
Ó grande distraído, que fizeste esta manhã?

Alguma coisa é a casa mais séria da vida
Não mais outras palavras que punhais
cravados como rios no flanco do mar
lá onde for mais íntimo o abraço
que gera o horizonte e sacrifica o espaço
Curae non ipsa in morte relinquimus
O homem é ainda o maior erro
e que melhor vingança que estender
a sua ausência toda sobre a terra devastada
O homem é um homem derrotado
um ser para chorar e nunca assaz chorado
um ser para cair excessivamente levantado
e Roma continua sobre as veias de Lucano

A morte é a verdade e a verdade é a morte
Ao homem não foi dado nenhum outro dia
e a vida é qualquer coisa como nunca mais chegar
É humano nascer
é humano tomar e apodrecer
oculta e lentamente
qualquer pedra última pedra
duobus duabus crianças diabos
pequeno almoço grande belt pequeno lord
o túnel Dante pace este relógio não anda
Coimbra onde é inumerável pedra
O homem Adão vindo do chão é um animal doente
ser permanentemente moribundo
coisa para esconder sob um pouco de terra
- em que lar faltará esta mulher? -
e vale a pena chorar


Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 120 a 123 | Círculo de Leitores, Dez 2000
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Ruy Belo

Ruy Belo

Imaginatio locorum

Era uma vez talvez algum país de sinos
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos

Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez

Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso

Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma

Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)

Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz

Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória

Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha

Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo

E a alegria é uma casa demolida




Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice - 3

A brevidade: por vezes, a mais longa das linhas
do tempo, cruzando-se com o desejo de permanência
que sustenta a sua ilusão. Logo, porém, a realidade nos
impõe a sua regra. O que é transforma-se no que foi,
com a melancolia que arrasta o sentimento da
passagem, como se o rio pudesse parar para sempre
no instante em que a felicidade parece suspender
o seu curso. Avançamos, então, contra essas sensações
que nos trazem um esplendor de rosa, aberta ao sol
do meio-dia, antes que a sombra da tarde a atinja
com a sua seta obscura. Uma ferida sangra entre pétalas
emurchecidas; e o ramo sugere a queda nocturna, onde
uma perseguição de prazer se confunde com a inquietação
da morte.

Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Conto
cada uma das olheiras construídas no trabalho
do amor, sabendo que um vórtice de esquecimento
as restituirá à insónia da madrugada. Nessa hora, quantas
palavras trocaram esses amantes que o passado
vestiu com o seu manto de memória... Como se a manhã
não chegasse, trazendo a separação que corrói
a pele da alma, e prende toda a esperança a uma ilusão
de saudade. Por que lhe resistes?, pergunto. Em que
vazio afogarás este amor que insiste em respirar, como
se não soubesses que nada o substitui? Não
te enganes, como não se engana esse des cego às concessões
do presente, voando para os espaços mais inacessíveis,
e levando no bater das asas o mais fundo
dos abraços.

Segue esse voo com o impulso antigo; e
não percas o sabor desse filtro que os nossos lábios
trocaram, no mais solitário dos instantes.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 51 e 52 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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