Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Daniel Loureiro
O Carvão e o Tempo
Os dias se repetem
se repetem os dias
Os dias
se repetem
os dias
Eu gostaria de um dia repetir um dia
Em que a gente se encontrasse
se AMAssaSSE
O que te me atrai
é a diferença
e a minha crença... bem...
Beijos
Beijos
TEMPO
O teu pensamento
é meu, penso atento
e o meu desalento
é a tua fuga fácil
TEMPO
As tuas imagens
quase são miragens
impressões elétricas
nas cores vitais
TEMPO
Irradias tantas impressões
e as minhas impressões
por um breve momento
são todo o meu mundo
TEMPO
Calma! já estamos indo
e ele continua vindo
sem nunca esperar
Os dias se repetem
Se repetem os dias
Se repetem
os dias
repetem-se
Então estamos juntos
Bela, etérea e tão real
Estamos juntos
A natureza enlouquece
Juntos
O chumbo não pesa
o tempo despreza
e o carvão...
agora é diamante.
se repetem os dias
Os dias
se repetem
os dias
Eu gostaria de um dia repetir um dia
Em que a gente se encontrasse
se AMAssaSSE
O que te me atrai
é a diferença
e a minha crença... bem...
Beijos
Beijos
TEMPO
O teu pensamento
é meu, penso atento
e o meu desalento
é a tua fuga fácil
TEMPO
As tuas imagens
quase são miragens
impressões elétricas
nas cores vitais
TEMPO
Irradias tantas impressões
e as minhas impressões
por um breve momento
são todo o meu mundo
TEMPO
Calma! já estamos indo
e ele continua vindo
sem nunca esperar
Os dias se repetem
Se repetem os dias
Se repetem
os dias
repetem-se
Então estamos juntos
Bela, etérea e tão real
Estamos juntos
A natureza enlouquece
Juntos
O chumbo não pesa
o tempo despreza
e o carvão...
agora é diamante.
916
Daniel Loureiro
Pra Bom Enten
Em São Paulo o silêncio é vácuo
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
822
Carolina Vigna Prado
Custos
Você ainda se surpreende. Mérito meu.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
819
Dagmar Destêrro
Corrida
No avanço do tempo corre a vida,
mas nesse tempo há pedras espalhadas,
pedras agudas, carnes esfarrapadas,
sangue jorrando de cada ferida.
o tempo açoita a vida noite e dia
e ele chora, tropeça, levanta e continua.
Só e esperança anima a travessia;
e a alma corre, descabelada e nua.
E a vida não tem tempo, ao tempo, em meio,
de ver o belo existente no caminho;
não perder na corrida é o seu anseio;
sua atenção conserva em desalinho.
No embrião da vida, no tempo, avanço.
Subidas e descidas — tantas conheço:
e na vertigem do correr me canso.
Procuro, em vão, meu horizonte do começo.
mas nesse tempo há pedras espalhadas,
pedras agudas, carnes esfarrapadas,
sangue jorrando de cada ferida.
o tempo açoita a vida noite e dia
e ele chora, tropeça, levanta e continua.
Só e esperança anima a travessia;
e a alma corre, descabelada e nua.
E a vida não tem tempo, ao tempo, em meio,
de ver o belo existente no caminho;
não perder na corrida é o seu anseio;
sua atenção conserva em desalinho.
No embrião da vida, no tempo, avanço.
Subidas e descidas — tantas conheço:
e na vertigem do correr me canso.
Procuro, em vão, meu horizonte do começo.
1 170
Camilo Mota
Alice
As palavras fundiram-se à montanha
sem nada dizerem
...
tempo consumido memória
...
grita o coração: te amo,
incógnita mulher!
metamorfose de cidade
e nuvem,
istmo do beijo anônimo
inaugurando rugas
Na tarde dourada e rósea
vovó virou neblina
sem nada dizerem
...
tempo consumido memória
...
grita o coração: te amo,
incógnita mulher!
metamorfose de cidade
e nuvem,
istmo do beijo anônimo
inaugurando rugas
Na tarde dourada e rósea
vovó virou neblina
885
Carlos Magalhães de Azeredo
Despedida
Não me coroes, Alma querida, de rosas: o encanto
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.
Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...
Da juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.
Também não me coroes de louros: a Glória não fala
Ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.
Coroa-me des heras, que abraçam as graves ruínas:
São da humildade símbolo e da tristeza eterna ...
914
Cláudio Martins
O Tempo Passa
"O tempo passa, a gente vai mudando
Sonhos e esperanças vão morrendo...
deve ser triste envelhecer temendo
o abismo que a idade vai cavando.
É preciso evitar que vãos tormentos,
quase sempre irreais ou superados,
por mera ansiedade exagerados,
transmudem nossas vidas em desalentos.
A Vida é uma jornada, simplesmente
defrontá-la, altaneira e firmemente,
é prova de vivência e de saber
E mesmo fosse triste envelhecer,
jovem sempre será o que, prudente,
não quer mais do que tem, ou pode ter.
Sonhos e esperanças vão morrendo...
deve ser triste envelhecer temendo
o abismo que a idade vai cavando.
É preciso evitar que vãos tormentos,
quase sempre irreais ou superados,
por mera ansiedade exagerados,
transmudem nossas vidas em desalentos.
A Vida é uma jornada, simplesmente
defrontá-la, altaneira e firmemente,
é prova de vivência e de saber
E mesmo fosse triste envelhecer,
jovem sempre será o que, prudente,
não quer mais do que tem, ou pode ter.
944
Camilo Mota
Por trás da palavra há o caos
o caos antecede o tempo
o tempo antevê o homem
o homem antepara o caos
o caos antecede o tempo antevê
o homem antepara o caos
o caos
antepara o homem
antevê o tempo
antecede o caos
o tempo antevê o homem
o homem antepara o caos
o caos antecede o tempo antevê
o homem antepara o caos
o caos
antepara o homem
antevê o tempo
antecede o caos
1 002
Pe. Osvaldo Chaves
Doce e Breve
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
Apenas com saudade:
Uma saudade breve,
Com a duração das rosas.
Poupa-me dos protestos de "saudade
Imorredoura e eterna:"
Sobre o meu corpo a terra
Já é por demais pesada.
O eterno, assim como o infinito,
Me dá vertigens.
Eu amo a flor
Que vive "o espaço de uma manhã",
Eu amo o entardecer, eu amo a aurora,
Que duram menos,
Ainda menos que a flor,
Um pouco mais de uma hora;
E a onda que se eleva, e se encrespa, e se abate
Em flor de espuma,
E o êxtase do amor que dura alguns seguidos ...
Eu amo a vida!
A vida,
Tão doce e breve,
Que tem na flor, no entardecer, na aurora
E tem na onda e no êxtase do amor
A mais perfeita imagem.
Eu amo a vida!
Quando eu morrer, vai lá, olha os meus restos,
Apenas com saudade:
Unia saudade breve,
Com a duração das rosas.
1 085
Cláudio Aguiar
Balada dos Últimos Arcanjos
Arcanjos vão às águas do Jordão
buscar pedras perdidas no seu leito,
enquanto o cão ao olho leva a mão
e seus filhotes cantam: "Oh, bem feito".
Se as águas brilham fortes no verão,
imagens nelas surgem flutuando
nos espelhos das ondas, deslizando,
até que a noite venha a luz cegar.
Só, acordada, a mente vai pensando
no sonho que mais tarde irá sonhar.
Papiro, pergaminho, papelão,
eis o que fica no lodo da terra,
trazido ao dia qual aluvião
se cava a mão e logo os desenterra.
Iluminado arcanjo que se encerra
no leve curso d’água fugidia,
salta desnudo pela margem fria,
alma ou fantasma, dádiva do mundo,
desfigurada e rápida alquimia,
dos que não chegam mais além do fundo.
Desembestado o húmus temporão,
incontinenti, avança e não emperra
diante dos olhares dos que vão
cedo ao combate da planície à serra,
a paz ferindo, loas dando à guerra.
Não pára o tempo e a pedra o pó gerando,
o micro gene ao vento joga e ferra
a semente na sombra, a germinar
nas horas quentes, vidas transformando,
milhões de vozes na torre a falar.
As correntes do rio, qual trovão,
nas cachoeiras vão trombeteando,
milhões de ícones a verberar
o som das eras, voz anunciando,
final estrondo, que o bit vai dar.
buscar pedras perdidas no seu leito,
enquanto o cão ao olho leva a mão
e seus filhotes cantam: "Oh, bem feito".
Se as águas brilham fortes no verão,
imagens nelas surgem flutuando
nos espelhos das ondas, deslizando,
até que a noite venha a luz cegar.
Só, acordada, a mente vai pensando
no sonho que mais tarde irá sonhar.
Papiro, pergaminho, papelão,
eis o que fica no lodo da terra,
trazido ao dia qual aluvião
se cava a mão e logo os desenterra.
Iluminado arcanjo que se encerra
no leve curso d’água fugidia,
salta desnudo pela margem fria,
alma ou fantasma, dádiva do mundo,
desfigurada e rápida alquimia,
dos que não chegam mais além do fundo.
Desembestado o húmus temporão,
incontinenti, avança e não emperra
diante dos olhares dos que vão
cedo ao combate da planície à serra,
a paz ferindo, loas dando à guerra.
Não pára o tempo e a pedra o pó gerando,
o micro gene ao vento joga e ferra
a semente na sombra, a germinar
nas horas quentes, vidas transformando,
milhões de vozes na torre a falar.
As correntes do rio, qual trovão,
nas cachoeiras vão trombeteando,
milhões de ícones a verberar
o som das eras, voz anunciando,
final estrondo, que o bit vai dar.
808
Cláudio Feldman
Haicai
Seca
Corvos
Nos galhos curvos:
Únicas folhas.
Dia Lento
Dia lento:
Um velho cavalo
Subindo a encosta.
Corvos
Nos galhos curvos:
Únicas folhas.
Dia Lento
Dia lento:
Um velho cavalo
Subindo a encosta.
1 093
Carlos Nóbrega
O Passado
Tudo vive a cair
lentamente
Lentamente
indo ao chão
como um som
vem caindo
em busca de repouso
- lentamente
à sua cova de silêncio
lentamente
Lentamente
indo ao chão
como um som
vem caindo
em busca de repouso
- lentamente
à sua cova de silêncio
1 056
Carlos Nóbrega
Um Gato
meio de louça
meio de sombra
imóveis sobre
si mesmo
o objeto de carne
e espera
espera que a tarde
se vá
de seus olhos
de tédio e sono
meio de sombra
imóveis sobre
si mesmo
o objeto de carne
e espera
espera que a tarde
se vá
de seus olhos
de tédio e sono
898
Carlos Nóbrega
O Banco da Gare
tu que estás morto
sentado num banco da gare
esperando
- vieste pegar o trem?
não não
vim esperar o trem passar:
- vim pegar o tempo.
mas para tu que estás morto
- o tempo não já
passou?
sim sim
o tempo já passou
- Mas eu vim pega-lo.
sentado num banco da gare
esperando
- vieste pegar o trem?
não não
vim esperar o trem passar:
- vim pegar o tempo.
mas para tu que estás morto
- o tempo não já
passou?
sim sim
o tempo já passou
- Mas eu vim pega-lo.
1 012
Carla Bianca
Dia
O relógio parou, imoral, agredindo e violentando a necessidade de um novo dia.
Peço outro sol, qualquer luz que traga delírio, gente nova, para habitar um mundo enredado por teias de aranha.
Um raio dourado, queimando a pele, ardendo nos couros, deixando um vermelho seguido por manchas.
A claridade chegando, chamando para a vida, jogando na cara a renovação.
Traiçoeiro dia, irônico que brinca com a ansiedade lançando promessas com ar descrente, falando com jeito de desmentido.
Peço outro sol, qualquer luz que traga delírio, gente nova, para habitar um mundo enredado por teias de aranha.
Um raio dourado, queimando a pele, ardendo nos couros, deixando um vermelho seguido por manchas.
A claridade chegando, chamando para a vida, jogando na cara a renovação.
Traiçoeiro dia, irônico que brinca com a ansiedade lançando promessas com ar descrente, falando com jeito de desmentido.
1 023
Carlos Nóbrega
O Vento
Já tão velhinho
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
843
Angela Carneiro
Armário
Arrumar o armário
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
1 808
Carlos Nóbrega
Discurso do Tempo
se a pressa iguala
o santo à fera
espera.
Não peça à pressa insana
faça-se, Quimera.
Nem pense que o porvir
será de pura primavera
pois que ao nascer a flor em si se desinteira.
Por isso o tempo passava
antes dos relógios
e era maior
quanto selvagem era.
o santo à fera
espera.
Não peça à pressa insana
faça-se, Quimera.
Nem pense que o porvir
será de pura primavera
pois que ao nascer a flor em si se desinteira.
Por isso o tempo passava
antes dos relógios
e era maior
quanto selvagem era.
889
Bráulio de Abreu
Pássaros
O espaço era cheio de asas
porque os pássaros chegaram
As árvores estremeceram
porque os pássaros pousaram.
O silêncio fugiu
porque os pássaros cantaram.
Sonho, por que vieste em forma de asas?
Desejo, por que vieste em forma de pouso sutil?
Esperança, por que vieste em forma de canto?
E os pássaros partiram...
E com eles, o pássaro da Infância,
O pássaro da Juventude,
O pássaro da Mocidade.
Quando o silêncio retornou,
só havia o pássaro da Velhice:
veio para ficar.
porque os pássaros chegaram
As árvores estremeceram
porque os pássaros pousaram.
O silêncio fugiu
porque os pássaros cantaram.
Sonho, por que vieste em forma de asas?
Desejo, por que vieste em forma de pouso sutil?
Esperança, por que vieste em forma de canto?
E os pássaros partiram...
E com eles, o pássaro da Infância,
O pássaro da Juventude,
O pássaro da Mocidade.
Quando o silêncio retornou,
só havia o pássaro da Velhice:
veio para ficar.
1 031
Bandeira Tribuzi
O homem em pele e osso
A pele é superfície,
os ossos são entranha.
A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.
A pele é uma casca,
os ossos uma safra.
A pele é entrega,
o osso é arma.
A pele é palma,
o osso é clava.
A pele é a pintura,
os ossos são a casa.
A pele é o acidente,
o osso o permanente.
A pele são as nuvens,
os ossos são a água.
A pele são os musgos,
os ossos são as montanhas.
A pele é o agora,
os ossos são milênios.
A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.
(Pele & Osso / 1970)
os ossos são entranha.
A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.
A pele é uma casca,
os ossos uma safra.
A pele é entrega,
o osso é arma.
A pele é palma,
o osso é clava.
A pele é a pintura,
os ossos são a casa.
A pele é o acidente,
o osso o permanente.
A pele são as nuvens,
os ossos são a água.
A pele são os musgos,
os ossos são as montanhas.
A pele é o agora,
os ossos são milênios.
A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.
(Pele & Osso / 1970)
3 427
José Maria de Barros Pinho
Aviso Prévio
o sonho
uma borboleta
quando menos
se espera
a gente acorda
e vai-se
embora
sem deixar
aviso prévio
uma borboleta
quando menos
se espera
a gente acorda
e vai-se
embora
sem deixar
aviso prévio
1 339
Castro Alves
Numa Página
(Do álbum de desenho do autor)
Horas de tédio ou de amorosa espr’ança,
— Meteoros da vida!... errantes astros!...
Fugi!... porém que fique uma lembrança!
Passai!... deixando os perfumosos rastros!...
Horas de tédio ou de amorosa espr’ança,
— Meteoros da vida!... errantes astros!...
Fugi!... porém que fique uma lembrança!
Passai!... deixando os perfumosos rastros!...
1 748
José Maria de Barros Pinho
O Retrato nas Paredes
As casas como as pessoas
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.
Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.
As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.
De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.
São Luis / junho 1997
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.
Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.
As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.
De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.
São Luis / junho 1997
1 156
Aymar Mendonça
Karma
Saber travar o gosto da framboesa
louvar a luz do sol
fugir da neve que estilhaça
O vento
o vento em manhãs de rocio
e á noite o fanal das madrugadas
em portos ancestrais
Gente de olhar gris e têmpora marcada
ou gente aos trapos
tropa de trapos
e o rio a correr
levando troncos e cardumes.
louvar a luz do sol
fugir da neve que estilhaça
O vento
o vento em manhãs de rocio
e á noite o fanal das madrugadas
em portos ancestrais
Gente de olhar gris e têmpora marcada
ou gente aos trapos
tropa de trapos
e o rio a correr
levando troncos e cardumes.
946