Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Assis Garrido
A Frase que Matou o Operário
"Não precisamos mais do seu serviço",
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
1 151
Alexandre S. Santos
Por Muito Pouco
E ao léu lançadas
buscam sua própria lógica
as palavras despropositadas,
imbuídas de tarefa lúdica:
Socorro! - um lamento ecoante,
de fibra tensa, tocada,
distendida, balouçante -
dizia a lágrima incontida.
Socorro! - sentia seu orvalhar
no incandescente seio do rosto
dissipar os traços do triste olhar -
pedia à sombra do sol posto.
Socorro! - violentava, o vício,
o templo da gratidão
em atitude de gozo doentio -
pedia, seca, a lágrima, na escuridão.
Socorro! - o vácuo famélico,
cego, justo, punia
o movimento meu, tétrico -
já seu lamento não se via.
Numa inesperada saída:
acorda suarento doidivanas,
deixa de sonho, chegou a alvorada;
sacode essa modorra insana!
buscam sua própria lógica
as palavras despropositadas,
imbuídas de tarefa lúdica:
Socorro! - um lamento ecoante,
de fibra tensa, tocada,
distendida, balouçante -
dizia a lágrima incontida.
Socorro! - sentia seu orvalhar
no incandescente seio do rosto
dissipar os traços do triste olhar -
pedia à sombra do sol posto.
Socorro! - violentava, o vício,
o templo da gratidão
em atitude de gozo doentio -
pedia, seca, a lágrima, na escuridão.
Socorro! - o vácuo famélico,
cego, justo, punia
o movimento meu, tétrico -
já seu lamento não se via.
Numa inesperada saída:
acorda suarento doidivanas,
deixa de sonho, chegou a alvorada;
sacode essa modorra insana!
893
Vittoria Colonna
QUANDO I GRAN LUME
Quando o grão lume surge lá no oriente,
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,
a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.
Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.
Que a um outro olhar scurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,
a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.
Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.
Que a um outro olhar scurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.
1 597
Renier Dias Pereira
Impulso
Impulso
A paixão, semente que nasce
em meu coração clama por
receber uma luz que ebúrnea
do meu sonho
Sentimentos ilhados na
escuridão do infinito
gemem de paixão em
busca da perfeição
Muitissimamente calado
corrói a flor que
brota de uma tristeza
risonha
Finalmente a escuridão
se vai, deixando as
marcas de sua infinita
dor
Resta agora uma caminhada
longa e cruel em busca
de uma nova vida guiada
pelo amor
Chega-se ao final, nada
nos espera, olhamos pela
janela a nossa vida
que passou.
A paixão, semente que nasce
em meu coração clama por
receber uma luz que ebúrnea
do meu sonho
Sentimentos ilhados na
escuridão do infinito
gemem de paixão em
busca da perfeição
Muitissimamente calado
corrói a flor que
brota de uma tristeza
risonha
Finalmente a escuridão
se vai, deixando as
marcas de sua infinita
dor
Resta agora uma caminhada
longa e cruel em busca
de uma nova vida guiada
pelo amor
Chega-se ao final, nada
nos espera, olhamos pela
janela a nossa vida
que passou.
1 035
Renier Dias Pereira
Silêncio Provocador
Silêncio Provocador
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
964
Luís Amaro
Poema dos 20 Anos aReinaldo Ferreira
Uma sombra passou na noite morta,
Ausente, indefenida,
Vindo passar depois à minha porta,
Dentro da minha vida.
É a lembrança dum sonho que sonhei
Lá muito longe, incerto,
Envolto em brumas que chorando, amei
Perdido no deserto.
No deserto perdido, entre fantasmas, só,
Na noite antiga e fria…
Nada mais resta do que cinza e pó
Da sua melodia.
Que lembrança triste me trouxeste,
Ò sombra vaga…
Confunde o teu perfil na noite agreste,
A ver se enfim a minha dor se apaga!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Ausente, indefenida,
Vindo passar depois à minha porta,
Dentro da minha vida.
É a lembrança dum sonho que sonhei
Lá muito longe, incerto,
Envolto em brumas que chorando, amei
Perdido no deserto.
No deserto perdido, entre fantasmas, só,
Na noite antiga e fria…
Nada mais resta do que cinza e pó
Da sua melodia.
Que lembrança triste me trouxeste,
Ò sombra vaga…
Confunde o teu perfil na noite agreste,
A ver se enfim a minha dor se apaga!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 084
Raimundo Bento Sotero
Tapera
Tornei à casa onde morei um dia
E, no espanto mortal de quem se corta,
Eu observava aquela casa torta,
Sem um traço que fosse da alegria.
Ua ventura, meu Deus, não existia.
Só os fantasmas no vão de cada porta,
Em cada canto uma lembrança morta.
Naquela casa nada mais havia!
Cada buraco aberto na parede
Pelo tempo feroz, cruel, adrede,
Semelhava-se a um meu antepassado.
Todos eles me olhavam gravemente,
Pois sabiam que o tempo, indiferente,
Esculpia também o meu passado.
E, no espanto mortal de quem se corta,
Eu observava aquela casa torta,
Sem um traço que fosse da alegria.
Ua ventura, meu Deus, não existia.
Só os fantasmas no vão de cada porta,
Em cada canto uma lembrança morta.
Naquela casa nada mais havia!
Cada buraco aberto na parede
Pelo tempo feroz, cruel, adrede,
Semelhava-se a um meu antepassado.
Todos eles me olhavam gravemente,
Pois sabiam que o tempo, indiferente,
Esculpia também o meu passado.
1 043
Juscelino Vieira Mendes
Chuva
Chuva, chove
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...
Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...
Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.
Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...
Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).
enchente de janeiro de 1977.
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...
Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...
Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.
Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...
Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).
enchente de janeiro de 1977.
1 024
Luís António Cajazeira Ramos
Poema Inédito
Canto de Sereia
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
861
Luís António Cajazeira Ramos
Soneto Áspero
(poema augusto / poesia dos anjos)
Noite de natal, e o mundo é piedoso.
Eu, estou só, no quarto de dormir.
A intermitente (ano não, dia sim)
bondade e caridade é-me demais.
Um papai-noel pousou-me na sorte,
e eu lhe disse, então: — Buuh, você é um saco!
Todos são felizes (na solidão,
eu velo o fim da neve de algodão).
Cheguei até aqui vivo — não sei
se sou melhor ou sou pior por isso.
Apenas, eu cheguei. De qualquer jeito,
hoje sei se ontem amei: não amei.
Burocraticamente, amei amém.
(Nisso, cheguei ao limite do spray.)
Noite de natal, e o mundo é piedoso.
Eu, estou só, no quarto de dormir.
A intermitente (ano não, dia sim)
bondade e caridade é-me demais.
Um papai-noel pousou-me na sorte,
e eu lhe disse, então: — Buuh, você é um saco!
Todos são felizes (na solidão,
eu velo o fim da neve de algodão).
Cheguei até aqui vivo — não sei
se sou melhor ou sou pior por isso.
Apenas, eu cheguei. De qualquer jeito,
hoje sei se ontem amei: não amei.
Burocraticamente, amei amém.
(Nisso, cheguei ao limite do spray.)
1 126
Luís Amaro
Intermédio
Alguém que se ignora
Passeia a sua mágua
Lá pela noite fora.
Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,
Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.
(In Antologia de Poetas Alentejanos,
de Orlando Neves)
Passeia a sua mágua
Lá pela noite fora.
Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,
Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.
(In Antologia de Poetas Alentejanos,
de Orlando Neves)
1 007
Luís António Cajazeira Ramos
Memórias da Casa dos Mortos
Mais parece um túmulo esse meu corpo de pedra.
Túmulo de tantas sensações.
Pedra sem vida — pedra.
Mais parece um túmulo esse meu coração de pedra.
Túmulo de tantas paixões.
Pedra sem amor — pétrea.
Mais parece um túmulo esse meu espírito de pedra.
Túmulo de tantas idéias.
Pedra sem razão — petrificada.
Em visita a esse cemitério de jazigos e lápides,
levei uma pedrada,
e o único sangue possível foi
a palavra.
Túmulo de tantas sensações.
Pedra sem vida — pedra.
Mais parece um túmulo esse meu coração de pedra.
Túmulo de tantas paixões.
Pedra sem amor — pétrea.
Mais parece um túmulo esse meu espírito de pedra.
Túmulo de tantas idéias.
Pedra sem razão — petrificada.
Em visita a esse cemitério de jazigos e lápides,
levei uma pedrada,
e o único sangue possível foi
a palavra.
900
Leonardo Aires Araujo
Se chorar é realmente olhar para o céu
Se chorar é realmente olhar para o céu
Se chorar é realmente olhar para o céu em direção de alívio
Ergue-se aos dividendos daqueles que proclamam
que viver é ignorar a arte dos atos de um caminho sem volta.
Diga uma só lembrança das voltas por entre buracos de cérebros carnais!
E valei-me de sua ignorância futilmente saborosa.
Porque aquele que disser que as metas estão levando nossas almas para certas
dádivas descompactas,
Achará que meus olhos são frutos de uma imaginação retórica,
Feitos de um sentimento mesquinho e inevitavelmente verdadeiro.
Sei, aqueles que estão, não são complexos e desejados àqueles que eu gostaria
ao estar dentro deles
Despojarei meus receios numa limiar de dor e raiva.
Serei uma resposta aos mistérios daquilo que inutimente lutei para não ser
E que as chaves perderam-se no infinito
Do local que se chama coração.
Se chorar é realmente olhar para o céu em direção de alívio
Ergue-se aos dividendos daqueles que proclamam
que viver é ignorar a arte dos atos de um caminho sem volta.
Diga uma só lembrança das voltas por entre buracos de cérebros carnais!
E valei-me de sua ignorância futilmente saborosa.
Porque aquele que disser que as metas estão levando nossas almas para certas
dádivas descompactas,
Achará que meus olhos são frutos de uma imaginação retórica,
Feitos de um sentimento mesquinho e inevitavelmente verdadeiro.
Sei, aqueles que estão, não são complexos e desejados àqueles que eu gostaria
ao estar dentro deles
Despojarei meus receios numa limiar de dor e raiva.
Serei uma resposta aos mistérios daquilo que inutimente lutei para não ser
E que as chaves perderam-se no infinito
Do local que se chama coração.
725
Cirstina Areias
Uma Imagem na TV do Fim do Século
A criança loura da doença letal adquirida
Tem um cansaço no olhar velho que vagueia,
Transpassa...
A criança terminal
Põe a cabeça no ombro infinito da mãe
E deixa escapar, do abnegado aconchego,
Toda a calamidade e infâmia do mundo...
O que há nesse abraço que não é meu,
Que não me pertence,
Mas que me mortifica?!
A criança loura, do olhar castanho cansado,
Da doença terminal adquirida,
(Adquirida nos bancos públicos,
Nos banheiros públicos,
Nos Homens Públicos...)
A criança loura jaz sua cabeça no ombro inútil da mãe
Há um enorme fastio de brinquedos em seu olhar...
A criança loura jaz sua cabeça no ombro da mãe,
A criança loura
Jaz seu olhar em meu olhar...
Tem um cansaço no olhar velho que vagueia,
Transpassa...
A criança terminal
Põe a cabeça no ombro infinito da mãe
E deixa escapar, do abnegado aconchego,
Toda a calamidade e infâmia do mundo...
O que há nesse abraço que não é meu,
Que não me pertence,
Mas que me mortifica?!
A criança loura, do olhar castanho cansado,
Da doença terminal adquirida,
(Adquirida nos bancos públicos,
Nos banheiros públicos,
Nos Homens Públicos...)
A criança loura jaz sua cabeça no ombro inútil da mãe
Há um enorme fastio de brinquedos em seu olhar...
A criança loura jaz sua cabeça no ombro da mãe,
A criança loura
Jaz seu olhar em meu olhar...
782
Cirstina Areias
Rio de Janeiro
É de enfiar a mão na terra que se se contamina de paixão?...
É de pisar descalço?...
Olho pra minha cidade, com jeito mesmo, de cidadã,
E não vejo, dela, a identidade...
(Ao contrário do que o Gerardo falou)
Não tem barro que palpite, em minha gente...
Tem piche e cheiro de obra...
Suor, queda e Hospital!
Tem nome de vento, sim! É o Sudeste:
Dono de chuva, mar zangado,
Dizendo que quem manda é ele!
Outro vento? Não sei, não!
Só se for o que vejo e não sinto,
Desgrenhando os cabelos dos miseráveis...
Tinha rua com palmeira,
Mas agora, não tem mais...
Tem olhar de criança pedinte, que não vejo...
Tem muita estrela no céu, que não vejo...
Tem porto! Tem cais!
Navio indo e vindo à toda hora!
- Deve haver bússula pra tanta viagem -
Mas eu não sei, não!
Boi e cavalo?
Nem pensar!
E bode, que nunca vi?!!!
Tem montanha, a minha cidade...
Lua que rouba fôlego
E, de vez em quando, uma flor...
Tem luz e tanta janela!
Tem Cristo iluminado!
(Iluminai, Cristo! a identidade perdida de minha cidade!)
Tem viajante, retirante,
Mendigo, assaltante,
Vadia...
Chorinho, jeitinho,
Samba, cerveja
Minha terra tem preguiça
Onde nem canta o sabiá...
É de pisar descalço?...
Olho pra minha cidade, com jeito mesmo, de cidadã,
E não vejo, dela, a identidade...
(Ao contrário do que o Gerardo falou)
Não tem barro que palpite, em minha gente...
Tem piche e cheiro de obra...
Suor, queda e Hospital!
Tem nome de vento, sim! É o Sudeste:
Dono de chuva, mar zangado,
Dizendo que quem manda é ele!
Outro vento? Não sei, não!
Só se for o que vejo e não sinto,
Desgrenhando os cabelos dos miseráveis...
Tinha rua com palmeira,
Mas agora, não tem mais...
Tem olhar de criança pedinte, que não vejo...
Tem muita estrela no céu, que não vejo...
Tem porto! Tem cais!
Navio indo e vindo à toda hora!
- Deve haver bússula pra tanta viagem -
Mas eu não sei, não!
Boi e cavalo?
Nem pensar!
E bode, que nunca vi?!!!
Tem montanha, a minha cidade...
Lua que rouba fôlego
E, de vez em quando, uma flor...
Tem luz e tanta janela!
Tem Cristo iluminado!
(Iluminai, Cristo! a identidade perdida de minha cidade!)
Tem viajante, retirante,
Mendigo, assaltante,
Vadia...
Chorinho, jeitinho,
Samba, cerveja
Minha terra tem preguiça
Onde nem canta o sabiá...
828
António Maria Lisboa
Comutador
Ergo-me de ti no zimbório
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn
Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício
Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada
OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn
Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício
Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada
OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.
1 838
Carlos Saraiva Pinto
valerá a pena escrever a neve
valerá a pena escrever a neve
em carreiros de água,
como se a noite fosse o líquido
que obedece às películas da distância.
a impressão ágil da sombra
que produz o efeito das tílias
e o sossego longínquo
do nada iluminado.
sobre a boca encontrarás
o sinal do silêncio
a sua mãe terrestre
que esquece as ervas,
os socalcos leves
que chegam ao rio
mortos em verbo.
valerá a pena
a asa envolvente do jasmim
o anjo insubmisso do trigo,
ou o espelho sonoro
que guarda a metafísica dos caminhos.
como o céu e o carvalho milenar,
o leito é isento de mágoa,
e a porta dos peregrinos
busca a religião da luz.
ouve e repara a teimosia
do vinhático
em perfumar o ar.
é inútil o tacto da boca.
descerás
pelos campos subterrâneos da névoa
e crescerá em ti
o profano esquecimento de tudo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
em carreiros de água,
como se a noite fosse o líquido
que obedece às películas da distância.
a impressão ágil da sombra
que produz o efeito das tílias
e o sossego longínquo
do nada iluminado.
sobre a boca encontrarás
o sinal do silêncio
a sua mãe terrestre
que esquece as ervas,
os socalcos leves
que chegam ao rio
mortos em verbo.
valerá a pena
a asa envolvente do jasmim
o anjo insubmisso do trigo,
ou o espelho sonoro
que guarda a metafísica dos caminhos.
como o céu e o carvalho milenar,
o leito é isento de mágoa,
e a porta dos peregrinos
busca a religião da luz.
ouve e repara a teimosia
do vinhático
em perfumar o ar.
é inútil o tacto da boca.
descerás
pelos campos subterrâneos da névoa
e crescerá em ti
o profano esquecimento de tudo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
1 067
Carlos de Oliveira
Entre duas memórias;
já separadas como estratos,
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.
de Entre Duas Memórias
mas recordando-se uma à outra;
subimos pelo frio:
paredes altas de água a condensar-se
no ar ainda azul;com a transparência
sem som a suavizá-lo;
perguntamos indecisamente:
neve mais silêncio
igual ao fim do azul?
ou a fórmula do esquecimento;
onde passam gelos vagarosos;
deduz-se doutro modo?
seja como for,
nenhuma sombra nos prolonga
por este chão de vidro;
e o ar boreal reflecte-nos os olhos,
tão limpos,que os extingue.
de Entre Duas Memórias
2 249
Aloísio Miguel Marques
Sem Nome
A vida que a gente vive é um quadro que se pinta.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
679
Daniel Faria
Como doem as árvores
Como doem as árvores
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 839
Américo Falcão
Náufragos
Eu, timoneiro audaz, parti, cantando,
Na galera de sonhos, pela vida.
O lindo e imenso mar atravessando...
Vento largo... bonança indefinida...
Do mar a superfície adormecida
Que o sol beijava rútilo, raiando,
Era uma veiga azul toda florida
De espuma leve em flóculos boiando.
Fazendo rumo ao porto da ventura,
Mostrou-se o céu de plúmbea face adunca
E a galera perdeu-se em noite escura...
Ai que momentos lúgubres, medonhos!
Nautas da crença, eu não me esqueço nunca,
Do naufrágio sinistro dos meus sonhos.
Na galera de sonhos, pela vida.
O lindo e imenso mar atravessando...
Vento largo... bonança indefinida...
Do mar a superfície adormecida
Que o sol beijava rútilo, raiando,
Era uma veiga azul toda florida
De espuma leve em flóculos boiando.
Fazendo rumo ao porto da ventura,
Mostrou-se o céu de plúmbea face adunca
E a galera perdeu-se em noite escura...
Ai que momentos lúgubres, medonhos!
Nautas da crença, eu não me esqueço nunca,
Do naufrágio sinistro dos meus sonhos.
1 975
Carlos de Oliveira
Edgar Allan Poe
O inverno em Boston foi breve.Ele bebia.Sílabas
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
abriam-se uma a uma pelos cantos do quarto.Gotas
de álcool.Quem se lembra da chuva caída no seu
nome?
Folheou toda a noite os livros ancestrais e encon-
trou qualquer coisa,ninguém sabe o quê,talvez o
retrato de Annabel Lee.Esboçou-o na vidraça car-
regada de sombra e o quarto amanheceu.
"Mais isso pouco vale(diz a magia negra),o filtro
apenas decompôs mais cedo o horror em luz,não
alterou a solidão dos dias,que a noite separa uns
dos outros para sempre".
de Sobre o Lado Esquerdo
1 647
António Maria Lisboa
Conjugação
A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio e coberta de bolor
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha
A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS
é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente
NUM TÚMULO EXAUSTIVO.
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha
A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS
é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente
NUM TÚMULO EXAUSTIVO.
2 015
Bocage
O Suspiro
Voai, brandos meninos tentadores,
Filhos de Vénus, deuses da ternura,
Adoçai-me a saudade amarga e dura,
Levai-me este suspiro aos meus amores:
Dizei-lhe que nasceu dos dissabores
Que influi nos corações a formosura;
Dizei-lhe que é penhor da fé mais pura,
Porção do mais leal dos amadores:
Se o fado para mim sempre mesquinho,
A outro ofrece o bem de que me afasta,
E em ais lhe envia Ulina o seu carinho:
Quando um deles soltar na esfera vasta,
Trazei-o a mim, torcendo-lhe o caminho;
Eu sou tão infeliz, que isso me basta.
Filhos de Vénus, deuses da ternura,
Adoçai-me a saudade amarga e dura,
Levai-me este suspiro aos meus amores:
Dizei-lhe que nasceu dos dissabores
Que influi nos corações a formosura;
Dizei-lhe que é penhor da fé mais pura,
Porção do mais leal dos amadores:
Se o fado para mim sempre mesquinho,
A outro ofrece o bem de que me afasta,
E em ais lhe envia Ulina o seu carinho:
Quando um deles soltar na esfera vasta,
Trazei-o a mim, torcendo-lhe o caminho;
Eu sou tão infeliz, que isso me basta.
3 014