Poemas neste tema
Velhice e Envelhecimento
Charles Bukowski
Charles
92 anos
seu dente tem andado a incomodá-lo
é preciso preenchê-lo
ele perdeu o olho esquerdo 40 anos
atrás
– um açougueiro, ele diz, ele só queria
operar para ganhar grana. mais tarde
descobri que podia ter sido
salvo.
– eu tiro o olho todas as noites, ele diz,
dói. eles nunca fizeram a coisa direito.
– qual dos olhos, Charles?
– este aqui, ele aponta,
então pede licença. ele tem que se levantar e
ir até a
cozinha. ele está assando biscoitos no forno.
logo ele aparece com uma
bandeja.
– experimente alguns.
eu o faço. eles são
bons.
– quer café? ele pergunta.
– não, obrigado, Charles, não tenho conseguido dormir
à noite.
ele se casou aos 70 com uma mulher de
58. 22 anos atrás. agora ela está num lar de idosos.
– ela está melhorando, ele diz, ela me reconhece.
eles a deixam levantar para ir ao banheiro.
– isto é legal, Charles.
– não consigo entender, no entanto, a desgraçada da filha dela, eles acham
que estou atrás de grana.
– há alguma coisa que eu possa fazer por você, Charles? precisa
de alguma coisa da loja, alguma coisa do
gênero?
– não, fiz as compras hoje pela manhã.
suas costas são tão eretas quanto a parede e ele
mal tem
barriga. enquanto conversa
mantém seu único olho na tevê.
– vou indo, Charles, você tem meu número?
– claro.
– como as garotas têm tratado você, Charles?
– meu amigo, faz alguns anos que não tenho pensado
em garotas.
– boa noite, Charles.
– boa noite.
vou até a porta
abro-a
fecho-a
do lado de fora
o cheiro dos biscoitos recém-assados
me acompanha.
seu dente tem andado a incomodá-lo
é preciso preenchê-lo
ele perdeu o olho esquerdo 40 anos
atrás
– um açougueiro, ele diz, ele só queria
operar para ganhar grana. mais tarde
descobri que podia ter sido
salvo.
– eu tiro o olho todas as noites, ele diz,
dói. eles nunca fizeram a coisa direito.
– qual dos olhos, Charles?
– este aqui, ele aponta,
então pede licença. ele tem que se levantar e
ir até a
cozinha. ele está assando biscoitos no forno.
logo ele aparece com uma
bandeja.
– experimente alguns.
eu o faço. eles são
bons.
– quer café? ele pergunta.
– não, obrigado, Charles, não tenho conseguido dormir
à noite.
ele se casou aos 70 com uma mulher de
58. 22 anos atrás. agora ela está num lar de idosos.
– ela está melhorando, ele diz, ela me reconhece.
eles a deixam levantar para ir ao banheiro.
– isto é legal, Charles.
– não consigo entender, no entanto, a desgraçada da filha dela, eles acham
que estou atrás de grana.
– há alguma coisa que eu possa fazer por você, Charles? precisa
de alguma coisa da loja, alguma coisa do
gênero?
– não, fiz as compras hoje pela manhã.
suas costas são tão eretas quanto a parede e ele
mal tem
barriga. enquanto conversa
mantém seu único olho na tevê.
– vou indo, Charles, você tem meu número?
– claro.
– como as garotas têm tratado você, Charles?
– meu amigo, faz alguns anos que não tenho pensado
em garotas.
– boa noite, Charles.
– boa noite.
vou até a porta
abro-a
fecho-a
do lado de fora
o cheiro dos biscoitos recém-assados
me acompanha.
1 138
Charles Bukowski
Penso Em Hemingway
penso em Hemingway sentado
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
1 517
Charles Bukowski
Queimando E Queimando E Queimando
eu costumava cruzar com um holandês num bar da Filadélfia
ele botava 3 ovos crus na cerveja,
71, ainda
trabalhando,
forte,
e então eu sentava ali
a 4 ou 5 bancos de distância dele
em meus 20
assustado
suicida
mal-amado.
bem, você sabe, as mágoas se reproduzem
as mágoas
queimando e queimando e queimando,
então alguma outra coisa toma o seu
lugar.
não estou dizendo que seja bom
mas é com certeza
mais confortável,
e em muitas noites agora
penso naquele velho holandês –
é como rever quase uma vida
inteira –
ainda assim me lembro dele lá
meu mestre, então e
agora.
ele botava 3 ovos crus na cerveja,
71, ainda
trabalhando,
forte,
e então eu sentava ali
a 4 ou 5 bancos de distância dele
em meus 20
assustado
suicida
mal-amado.
bem, você sabe, as mágoas se reproduzem
as mágoas
queimando e queimando e queimando,
então alguma outra coisa toma o seu
lugar.
não estou dizendo que seja bom
mas é com certeza
mais confortável,
e em muitas noites agora
penso naquele velho holandês –
é como rever quase uma vida
inteira –
ainda assim me lembro dele lá
meu mestre, então e
agora.
1 015
Charles Bukowski
O Tempo Está Quente Na Parte de Trás do Meu Relógio
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
1 009
Charles Bukowski
A Falta de Quase Tudo
a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 135
Charles Bukowski
Balancem Comigo
balancem comigo, todas as coisas tristes –
loucos em casas de pedra
sem portas,
leprosos vertendo amor e canção
sapos tentando vislumbrar
o céu;
balancem comigo, coisas tristes –
dedos decepados numa forja
a velhice como ovos cozidos de café da manhã
livros usados, pessoas usadas
flores usadas, amores usados
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês:
esta coisa fugiu
como um cavalo ou um cão,
morto ou perdido
ou implacável.
loucos em casas de pedra
sem portas,
leprosos vertendo amor e canção
sapos tentando vislumbrar
o céu;
balancem comigo, coisas tristes –
dedos decepados numa forja
a velhice como ovos cozidos de café da manhã
livros usados, pessoas usadas
flores usadas, amores usados
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês:
esta coisa fugiu
como um cavalo ou um cão,
morto ou perdido
ou implacável.
1 262
Charles Bukowski
Loucura
não bato com meus punhos nas paredes
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
1 264
Charles Bukowski
Poeta Velho
eu preferiria, claro, estar com uma raposa entre as samambaias
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
do que com uma fotografia de um velho Spad em meu bolso
ao som do retinir de uma bigorna e pernas pernas pernas
garotas em passadas altas, mostrando tudo exceto por onde mijam,
mas eu bem poderia estar morto agora
sopra em toda a parte o vento maléfico
e Keats está morto
e eu também estou morrendo.
porque não há nada tão torpemente dissoluto
quanto um velho poeta vencido pelo azedume
no corpo e na mente
na sorte, os cavalos correndo para a eliminação,
o câncer dos dados de Vegas para a magra carteira verde,
Shostakovich ouvido com muita frequência
e latas de cerveja tomadas com um canudinho,
com boca e mente arruinadas em
becos de homens jovens.
na janela da tarde quente
dou um golpe e perco a mosca zombeteira,
e ah, desabo pesado como um trovão
mas escada abaixo eles vão entender:
ou está bêbado ou está morrendo,
um velho poeta acenando vagamente a cabeça em saguões,
rompendo seu cajado nas costas
de cães inocentes
e cuspindo
o que resta de seu sol.
o carteiro trouxe uma pequena encomenda para ele
que a leva para o quarto
e a abre como a uma rosa,
apenas para gritar de forma alta e vã,
e seu caixão se enche
com notas do inferno.
mas pela manhã vocês vão vê-lo
arrumando pequenos envelopes,
ainda preocupado com
aluguel
cigarros
vinho
mulheres
cavalos,
ainda preocupado com
Eric Coates, a 3a de Beethoven e
alguma coisa que Chicago segurou por três meses
e o saco de papel com vinho
e os Pall Malls.
42 em agosto, 42,
os ratos percorrendo seu cérebro
devorando os pensamentos antes que eles
possam fazer as chaves.
poetas velhos são tão ruins quanto bichas velhas:
há algo bastante inaceitável:
os editores gostariam de agradecer a você
por enviar os textos mas
lamentam...
seguem
seguem
seguem
pelo saguão escuro
a um saguão sem mulher
para descascar um último ovo
e sentar em busca das chaves:
clic clic um clic,
sobre os sons da televisão
sobre o som das molas,
clic clac um clac:
mais um poeta velho
a se dissipar.
746
Charles Bukowski
Crucifixo Em Uma Mão Morta
sim, elas começam a surgir a partir de um salgueiro, penso
as montanhas enrijecidas começam no salgueiro
e seguem erguendo-se sem qualquer consideração por
pumas e nectarinas
de algum modo essas montanhas são como
uma velha senhora com má memória e
um cesto de compras.
estamos numa depressão. esta é a
ideia. mergulhada na areia e entre alamedas,
esta terra progrediu, soqueou, dividiu,
retida como um crucifixo numa mão morta,
esta terra comprou, revendeu, voltou a comprar e
vendeu de novo, tantas e longas guerras,
os espanhóis refazendo o caminho de volta até a Espanha
mais uma vez os ilhós, e agora
corretores, locadores, sublocadores, engenheiros que discutem
à beira de autoestradas. esta é a terra deles e
eu caminho sobre ela, vivo nela um pouco
perto de Hollywood aqui eu vejo jovens em seus quartos
escutando discos gastos
e também penso em velhos fartos de música
fartos de tudo, e a morte como suicídio
às vezes penso que é voluntário, e que para conseguir
se agarrar a esta terra é melhor voltar ao
Grande Mercado Central, ver as velhas mexicanas,
os pobres... tenho certeza de que você já viu essas mulheres
anos e anos a fio
brigando
com os mesmos e jovens atendentes japoneses
argutos, sábios e dourados
entre seus sublimes estoques de laranjas, maçãs
abacates, tomates, pepinos –
e você sabe o aspecto desses, parecem ótimos
se você pudesse comer todos eles
acender um charuto e numa baforada exalar o mundo mau.
de modo que é melhor retornar para os bares, os mesmos bares
amadeirados, fedidos, implacáveis, verdes
pela presença de jovens policiais que os invadem
assustados e em busca de confusão,
e a cerveja continuará um lixo
com aquele gosto final que é mistura de vômito e
decadência, e mergulhado nas sombras você tem que ser forte
para ignorá-lo, ignorar os pobres e a si mesmo
e a sacola de compras entre suas pernas
ali no chão e se sentindo bem com seus abacates e
laranjas e peixe fresco e garrafas de vinho, quem precisa
de um inverno em Fort Lauderdale?
25 anos atrás costumava haver uma puta ali
com um filme sobre um dos olhos, gorda ao extremo
que fazia pequenas sinetas com o papel laminado do
maço de cigarro. o sol parecia esquentar mais então
ainda que isso dificilmente seja
verdade, e você apanha sua sacola de compras
e sai a caminhar pela rua
e a cerveja verde fica ali
pairando na boca de seu estômago como
uma curta e vergonhosa mantilha, e
você dá uma olhada ao redor e já não
vê nenhum
velho.
as montanhas enrijecidas começam no salgueiro
e seguem erguendo-se sem qualquer consideração por
pumas e nectarinas
de algum modo essas montanhas são como
uma velha senhora com má memória e
um cesto de compras.
estamos numa depressão. esta é a
ideia. mergulhada na areia e entre alamedas,
esta terra progrediu, soqueou, dividiu,
retida como um crucifixo numa mão morta,
esta terra comprou, revendeu, voltou a comprar e
vendeu de novo, tantas e longas guerras,
os espanhóis refazendo o caminho de volta até a Espanha
mais uma vez os ilhós, e agora
corretores, locadores, sublocadores, engenheiros que discutem
à beira de autoestradas. esta é a terra deles e
eu caminho sobre ela, vivo nela um pouco
perto de Hollywood aqui eu vejo jovens em seus quartos
escutando discos gastos
e também penso em velhos fartos de música
fartos de tudo, e a morte como suicídio
às vezes penso que é voluntário, e que para conseguir
se agarrar a esta terra é melhor voltar ao
Grande Mercado Central, ver as velhas mexicanas,
os pobres... tenho certeza de que você já viu essas mulheres
anos e anos a fio
brigando
com os mesmos e jovens atendentes japoneses
argutos, sábios e dourados
entre seus sublimes estoques de laranjas, maçãs
abacates, tomates, pepinos –
e você sabe o aspecto desses, parecem ótimos
se você pudesse comer todos eles
acender um charuto e numa baforada exalar o mundo mau.
de modo que é melhor retornar para os bares, os mesmos bares
amadeirados, fedidos, implacáveis, verdes
pela presença de jovens policiais que os invadem
assustados e em busca de confusão,
e a cerveja continuará um lixo
com aquele gosto final que é mistura de vômito e
decadência, e mergulhado nas sombras você tem que ser forte
para ignorá-lo, ignorar os pobres e a si mesmo
e a sacola de compras entre suas pernas
ali no chão e se sentindo bem com seus abacates e
laranjas e peixe fresco e garrafas de vinho, quem precisa
de um inverno em Fort Lauderdale?
25 anos atrás costumava haver uma puta ali
com um filme sobre um dos olhos, gorda ao extremo
que fazia pequenas sinetas com o papel laminado do
maço de cigarro. o sol parecia esquentar mais então
ainda que isso dificilmente seja
verdade, e você apanha sua sacola de compras
e sai a caminhar pela rua
e a cerveja verde fica ali
pairando na boca de seu estômago como
uma curta e vergonhosa mantilha, e
você dá uma olhada ao redor e já não
vê nenhum
velho.
1 046
Charles Bukowski
Um Romance Literário
conheci-a de algum jeito por meio de correspondência ou poesia ou revistas
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
1 146
Charles Bukowski
Ruiva de Cima a Baixo
cabelos ruivos
legítimos
ela os põe em movimento
e pergunta
“meu rabo continua gostoso?”
que comédia.
há sempre uma mulher
pra salvar você de outra
e assim que ela o salva
está pronta para
destruí-lo.
“às vezes eu odeio você”,
ela disse.
afastou-se e foi se sentar
na minha varanda para ler meu exemplar
do Catulo, e ficou
por lá cerca de uma hora.
as pessoas passavam de lá para cá
em frente à minha casa
se perguntando como um
cara tão velho e feio podia arranjar
uma beldade daquelas.
nem eu sabia.
assim que ela entrou eu a puxei
para o meu colo.
ergui meu copo e lhe
disse, “beba isso”.
“oh”, ela disse, “você misturou
vinho com Jim Beam, logo vai ficar
safado”.
“você passa hena nos cabelos,
não?”
“você não enxerga nada”, ela disse e
se levantou e baixou
suas calças e a calcinha e
os pelos lá embaixo tinham a
mesma cor dos cabelos
lá em cima.
o próprio Catulo não poderia ter desejado
graça mais histórica ou
magnífica;
depois ele se
enamorou de
rapazolas
insuficientemente loucos
para se tornar
mulheres.
legítimos
ela os põe em movimento
e pergunta
“meu rabo continua gostoso?”
que comédia.
há sempre uma mulher
pra salvar você de outra
e assim que ela o salva
está pronta para
destruí-lo.
“às vezes eu odeio você”,
ela disse.
afastou-se e foi se sentar
na minha varanda para ler meu exemplar
do Catulo, e ficou
por lá cerca de uma hora.
as pessoas passavam de lá para cá
em frente à minha casa
se perguntando como um
cara tão velho e feio podia arranjar
uma beldade daquelas.
nem eu sabia.
assim que ela entrou eu a puxei
para o meu colo.
ergui meu copo e lhe
disse, “beba isso”.
“oh”, ela disse, “você misturou
vinho com Jim Beam, logo vai ficar
safado”.
“você passa hena nos cabelos,
não?”
“você não enxerga nada”, ela disse e
se levantou e baixou
suas calças e a calcinha e
os pelos lá embaixo tinham a
mesma cor dos cabelos
lá em cima.
o próprio Catulo não poderia ter desejado
graça mais histórica ou
magnífica;
depois ele se
enamorou de
rapazolas
insuficientemente loucos
para se tornar
mulheres.
1 470
Charles Bukowski
Voltando Para Onde Eu Estava
eu costumava retirar a parte de trás
do telefone e enchê-la com trapos
e quando batiam à porta
eu me fingia de morto e se eles persistissem
mandava-os em termos vulgares para aquele
lugar.
apenas mais um velho maluco
com asas de ouro
uma pança branca e flácida
mais
um par de olhos capaz de nocautear
o sol.
do telefone e enchê-la com trapos
e quando batiam à porta
eu me fingia de morto e se eles persistissem
mandava-os em termos vulgares para aquele
lugar.
apenas mais um velho maluco
com asas de ouro
uma pança branca e flácida
mais
um par de olhos capaz de nocautear
o sol.
1 080
Charles Bukowski
Eu Também Tenho a Cueca Carimbada
escuto suas vozes do lado de fora:
“ele sempre bate à máquina até tão
tarde?”
“não, é bastante incomum.”
“ele não deveria bater a essa
hora.”
“isso quase nunca acontece.”
“ele bebe?”
“acho que sim.”
“ontem ele foi até a caixa
do correio só de cuecas.”
“eu também vi.”
“ele não tem amigos.”
“está velho.”
“não deveria bater a esta hora.”
eles entram e começa
a chover enquanto
3 disparos soam a meia quadra
de distância e
um dos arranha-céus no
centro de L.A. começa
a arder
em chamas de 8 metros que lambem a escuridão
da noite.
“ele sempre bate à máquina até tão
tarde?”
“não, é bastante incomum.”
“ele não deveria bater a essa
hora.”
“isso quase nunca acontece.”
“ele bebe?”
“acho que sim.”
“ontem ele foi até a caixa
do correio só de cuecas.”
“eu também vi.”
“ele não tem amigos.”
“está velho.”
“não deveria bater a esta hora.”
eles entram e começa
a chover enquanto
3 disparos soam a meia quadra
de distância e
um dos arranha-céus no
centro de L.A. começa
a arder
em chamas de 8 metros que lambem a escuridão
da noite.
1 145
Charles Bukowski
Danação E Hora da Sesta
meu amigo está preocupado com a morte
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
993
Charles Bukowski
Um Poema Para a Velha Dente-Podre
conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
1 434
Charles Bukowski
Sinais de Trânsito
os velhos camaradas jogam
no parque olhando o mar ao longe
pondo marcadores ao longo da pista
com gravetos de madeira.
quatro jogam, dois para cada lado
e 18 ou 20 se sentam ao
sol e assistem
percebo isso enquanto sigo
em direção ao banheiro público
enquanto meu carro está no conserto.
o parque abriga um velho canhão
enferrujado e inútil.
seis ou sete veleiros cortam
o mar lá embaixo.
termino a tarefa
saio
e eles continuam jogando.
uma das mulheres usa uma maquiagem carregada
brincos falsos e fuma
um cigarro.
os homens são muito magros
muito pálidos
usam relógios de pulso que lhes machucam
os pulsos.
a outra mulher é muito gorda
e dá uns risinhos
a cada vez que um ponto é marcado
alguns deles têm a minha idade.
eles me enojam
o modo como esperam pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de trânsito.
essas são as pessoas que acreditam em comerciais
essas são as pessoas que compram dentaduras a prazo
essas são as pessoas que comemoram feriados
essas são as pessoas que têm netos
essas são as pessoas que votam
essas são as pessoas que têm funerais
esses são os mortos
neblina e fumaça
o fedor no ar
os leprosos.
esses são afinal quase todos
que existem.
gaivotas são melhores
algas marinhas são melhores
areia suja é melhor
se pudesse posicionar aquele velho canhão
contra eles
e fazê-lo funcionar
eu o faria.
eles me enojam.
no parque olhando o mar ao longe
pondo marcadores ao longo da pista
com gravetos de madeira.
quatro jogam, dois para cada lado
e 18 ou 20 se sentam ao
sol e assistem
percebo isso enquanto sigo
em direção ao banheiro público
enquanto meu carro está no conserto.
o parque abriga um velho canhão
enferrujado e inútil.
seis ou sete veleiros cortam
o mar lá embaixo.
termino a tarefa
saio
e eles continuam jogando.
uma das mulheres usa uma maquiagem carregada
brincos falsos e fuma
um cigarro.
os homens são muito magros
muito pálidos
usam relógios de pulso que lhes machucam
os pulsos.
a outra mulher é muito gorda
e dá uns risinhos
a cada vez que um ponto é marcado
alguns deles têm a minha idade.
eles me enojam
o modo como esperam pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de trânsito.
essas são as pessoas que acreditam em comerciais
essas são as pessoas que compram dentaduras a prazo
essas são as pessoas que comemoram feriados
essas são as pessoas que têm netos
essas são as pessoas que votam
essas são as pessoas que têm funerais
esses são os mortos
neblina e fumaça
o fedor no ar
os leprosos.
esses são afinal quase todos
que existem.
gaivotas são melhores
algas marinhas são melhores
areia suja é melhor
se pudesse posicionar aquele velho canhão
contra eles
e fazê-lo funcionar
eu o faria.
eles me enojam.
1 198
Charles Bukowski
Iron Mike
falamos sobre este filme:
Cagney servia uvas
a uma mulher
mais rápido do que ela conseguia
comer e
então ela se
apaixonava por ele.
“isso nem sempre
funciona”, digo a Iron
Mike.
ele dá uma risadinha e diz,
“claro”.
então ele desceu a mão
e tocou seu cinto.
32 escalpos de mulher
estavam pendurados ali.
“eu e meu enorme cacete
judeu”, ele disse.
então ergue as mãos
para indicar o
tamanho.
“opa, sim, muito bem”,
eu disse.
“elas aparecem”, ele
disse, “eu as traço, elas
começam a ficar, eu lhes digo,
‘é hora de ir’.”
“você é corajoso,
Mike.”
“essa aí não ia se mandar
então eu tive que me levantar e
esbofeteá-la... ela foi
embora.”
“eu não tenho sua fibra,
Mike. elas ficam,
lavam os pratos, esfregam
as manchas de merda no
vaso, jogam fora os
velhos prospectos do Jockey Club...”
“elas jamais vão me pegar”,
ele disse.
“sou invencível.”
olhe, Mike, nenhum homem é
invencível.
algum dia
vão considerá-lo louco pelo
olhar como num desenho a lápis feito por uma
criança. você não conseguirá
beber um copo
d’água ou cruzar um
quarto. haverá as
paredes e o som das
ruas lá fora, e
você ouvirá metralhadoras
e tiros de morteiro. isso se dará
quando você quiser, mas não
puder ter.
os dentes
nunca são por fim
os dentes do amor.
Cagney servia uvas
a uma mulher
mais rápido do que ela conseguia
comer e
então ela se
apaixonava por ele.
“isso nem sempre
funciona”, digo a Iron
Mike.
ele dá uma risadinha e diz,
“claro”.
então ele desceu a mão
e tocou seu cinto.
32 escalpos de mulher
estavam pendurados ali.
“eu e meu enorme cacete
judeu”, ele disse.
então ergue as mãos
para indicar o
tamanho.
“opa, sim, muito bem”,
eu disse.
“elas aparecem”, ele
disse, “eu as traço, elas
começam a ficar, eu lhes digo,
‘é hora de ir’.”
“você é corajoso,
Mike.”
“essa aí não ia se mandar
então eu tive que me levantar e
esbofeteá-la... ela foi
embora.”
“eu não tenho sua fibra,
Mike. elas ficam,
lavam os pratos, esfregam
as manchas de merda no
vaso, jogam fora os
velhos prospectos do Jockey Club...”
“elas jamais vão me pegar”,
ele disse.
“sou invencível.”
olhe, Mike, nenhum homem é
invencível.
algum dia
vão considerá-lo louco pelo
olhar como num desenho a lápis feito por uma
criança. você não conseguirá
beber um copo
d’água ou cruzar um
quarto. haverá as
paredes e o som das
ruas lá fora, e
você ouvirá metralhadoras
e tiros de morteiro. isso se dará
quando você quiser, mas não
puder ter.
os dentes
nunca são por fim
os dentes do amor.
1 243
Charles Bukowski
Quem, Diabos, É Tom Jones?
por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[3].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[3].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
1 200
Charles Bukowski
Velho Limpo
daqui a
uma semana farei
55.
sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?
meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.
chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim
como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.
uma semana farei
55.
sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?
meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.
chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim
como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.
1 168
Charles Bukowski
Uma Das Mais Quentes
ela usava uma peruca de um loiro platinado
e tinha a face carregada de rouge e pó
e não economizava no batom
traçando uma enorme boca pintada
e seu pescoço era coberto de rugas
mas ainda tinha o rabo de uma garota
e as pernas eram boas.
ela usava calcinhas azuis que eu baixei e
ergui seu vestido, e à luz bruxuleante da TV
tomei-a de pé.
enquanto nos digladiávamos ao redor do quarto
(estou fodendo uma cova, pensei,
trazendo os mortos de volta à vida, maravilhoso
tão maravilhoso
como comer azeitonas geladas às 3 da manhã
com metade da cidade em chamas)
gozei.
vocês podem ficar com suas virgens, rapazes
deem-me velhas gostosas no alto de seus saltos
com rabos que esqueceram de envelhecer.
claro, você tem que dar o fora depois
ou ficar muito bêbado
o que é a mesma
coisa.
bebemos vinho por horas e assistimos tevê
e quando fomos pra cama
para dormir
ela não tirou os dentes da boca
a noite toda.
e tinha a face carregada de rouge e pó
e não economizava no batom
traçando uma enorme boca pintada
e seu pescoço era coberto de rugas
mas ainda tinha o rabo de uma garota
e as pernas eram boas.
ela usava calcinhas azuis que eu baixei e
ergui seu vestido, e à luz bruxuleante da TV
tomei-a de pé.
enquanto nos digladiávamos ao redor do quarto
(estou fodendo uma cova, pensei,
trazendo os mortos de volta à vida, maravilhoso
tão maravilhoso
como comer azeitonas geladas às 3 da manhã
com metade da cidade em chamas)
gozei.
vocês podem ficar com suas virgens, rapazes
deem-me velhas gostosas no alto de seus saltos
com rabos que esqueceram de envelhecer.
claro, você tem que dar o fora depois
ou ficar muito bêbado
o que é a mesma
coisa.
bebemos vinho por horas e assistimos tevê
e quando fomos pra cama
para dormir
ela não tirou os dentes da boca
a noite toda.
1 183
Manuel Bandeira
À Maneira de Olegário Mariano
Triste flor de milonga ao abandono,
Betsabé, Betsabé, que mal me fazes!
Ontem, a coqueluche dos rapazes,
E agora? pobre pássaro sem dono.
Primavera e verão foram-se. O outono
Chegou. Folhas no chão... Névoas falazes...
E aí vem o inverno... O fim das lindas frases...
O último sonho, e após, o último sono!
As cigarras calaram-se. Era tarde!
E hoje que no teu sangue já não arde
O fogo em que tanta alma se abrasou,
Choras, sem compreenderes que a saudade
É um bem maior do que a felicidade,
Porque é a felicidade que ficou!
Betsabé, Betsabé, que mal me fazes!
Ontem, a coqueluche dos rapazes,
E agora? pobre pássaro sem dono.
Primavera e verão foram-se. O outono
Chegou. Folhas no chão... Névoas falazes...
E aí vem o inverno... O fim das lindas frases...
O último sonho, e após, o último sono!
As cigarras calaram-se. Era tarde!
E hoje que no teu sangue já não arde
O fogo em que tanta alma se abrasou,
Choras, sem compreenderes que a saudade
É um bem maior do que a felicidade,
Porque é a felicidade que ficou!
781
Manuel Bandeira
A Afonso
Recebi o seu telegrama,
Afonso. Obrigado, obrigado:
Sempre é bom ganhar um agrado
Dos amigos a quem mais se ama.
Gastão gentil como uma dama,
Esse merece ser chamado
Pinheiro, como você o chama.
E Otávio, nunca assaz louvado.
Não me sinto pinheiro, Afonso,
Eu velho bardo, entre mil vários,
À espera da hora do responso.
Sou apenas um setentão
Adido à estranha legação
Dos pinheiros septuagenários.
Afonso. Obrigado, obrigado:
Sempre é bom ganhar um agrado
Dos amigos a quem mais se ama.
Gastão gentil como uma dama,
Esse merece ser chamado
Pinheiro, como você o chama.
E Otávio, nunca assaz louvado.
Não me sinto pinheiro, Afonso,
Eu velho bardo, entre mil vários,
À espera da hora do responso.
Sou apenas um setentão
Adido à estranha legação
Dos pinheiros septuagenários.
1 189
Manuel Bandeira
Viriato Octogenário
"Queixem-se outros de gota, reumatismo",
Diz Viriato, "e de falta de memória.
Nada disso conheço. Nula é a escória
Do tempo em meu minúsculo organismo.
"Não ouço bem? Frequentemente cismo
Que estou gripado? Dizem que é ilusória
Minha gripe (ao revés de minha glória),
E que a minha surdez é comodismo.
"Se eu vos confiar que escassa é a obesidade
Nos meus quadris e de ano em ano o cinto
Aperto um ponto mais, quem de vós há de
"Acreditar-me? E jurareis que minto
Quando eu disser que quanto mais idade
Tenho, mais moço e lépido me sinto!"
Diz Viriato, "e de falta de memória.
Nada disso conheço. Nula é a escória
Do tempo em meu minúsculo organismo.
"Não ouço bem? Frequentemente cismo
Que estou gripado? Dizem que é ilusória
Minha gripe (ao revés de minha glória),
E que a minha surdez é comodismo.
"Se eu vos confiar que escassa é a obesidade
Nos meus quadris e de ano em ano o cinto
Aperto um ponto mais, quem de vós há de
"Acreditar-me? E jurareis que minto
Quando eu disser que quanto mais idade
Tenho, mais moço e lépido me sinto!"
623
Manuel Bandeira
Madrigal para As Debutantes de 1946
Outro, não eu, ó debutantes!
Cante as galas primaveris.
Que o meu estro de relutantes
Octossílabos já senis
Mais imagina do que diz
O que nos primeiros instantes
Do amor e do sonho sentis.
Meus vinte anos vão tão distantes!
Pensando bem, jamais os fiz.
Enfermo, envelheci muito antes.
Aprendi a ser infeliz,
Deus louvado, e por isso quis
Em vossa festa, ó debutantes!
Meter, perdoai!, o meu nariz.
Cante as galas primaveris.
Que o meu estro de relutantes
Octossílabos já senis
Mais imagina do que diz
O que nos primeiros instantes
Do amor e do sonho sentis.
Meus vinte anos vão tão distantes!
Pensando bem, jamais os fiz.
Enfermo, envelheci muito antes.
Aprendi a ser infeliz,
Deus louvado, e por isso quis
Em vossa festa, ó debutantes!
Meter, perdoai!, o meu nariz.
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