Datas e Celebrações
Sílvio Romero
Reisado da Borboleta, do Maracujá e do Pica-Pau
(Aparece uma figura representando a borboleta)
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal,
Venha cantar doces hinos
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Deus lhe dê mui boa noite,
Boa noite lhe dê Deus;
Que eu não sou mal ensinada,
Ensino meu pai me deu.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal;
Venha cantar doces hinos,
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Sou linda, sou feiticeira;
Ando no meio da casa,
Procurando quem me queira.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Verde da cor da esperança,
Ando no meio da casa,
Com alegria e bonança.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Vivo de ar e de luz;
Ando no meio da casa
Com minhas asas azuis.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Adeus, senhores, adeus,
Já são horas de partir;
Entre a bonina e a açucena
Já são horas de dormir.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.150-151. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Augusto dos Anjos
A Meu Pai Morto
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o!" deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E sai para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado céu.
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Silvaney Paes
Pranto de Natal
meninos,
Abrolhados do cio da terra
Insano, promiscuo e profano,
Que comem luz e bebem chuva.
A lama que ocultais da consciência humana.
Não ansiamos por estrela guia,
Nossa realidade é fria e de continua agonia,
Nos recobrimos com a brisa da madrugada
E conhecemos toda ode da galáxia,
Estampada bem no teto de nossa casa.
Nesta noite, haveremos de cear nas latas
Sobre as calçadas, nas sarjetas,
Daquilo que sobejou às vossas mesas,
Para que seja nossa fome sempre farta,
Naquilo que nunca vos causou falta.
Vislumbraremos vossas árvores enfeitadas,
Os vossos mais refinados trajes
E sentireis asco de nossos andrajos,
Mas não poderemos vos tocar
Pois moramos do lado de fora de vossas casas.
Neste Natal... nos vendo deitados nas calçadas,
Havereis de lembrar que possuís alma
E nos trarão agrados e nos farão afagos,
Mas amanhã não será mais Natal...
E voltareis a nos ocultar as faces.
Noutras noites de tenebroso porvir,
Enquanto os vossos brancos linhos
Ainda estiverem provando de caros vinhos,
À noite tecerá seus negros fios,
Para que bebam as calçadas de nosso sangue,
E muitos de nós não poderemos chorar outro Natal.
Nana Corrêa de Lima
Sonhos de Baú
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
Virgílio Maia
Fotos
meu avô me interroga bem de perto,
com aquela usual branda aspereza
que, criança, me punha em desconcerto.
(Na lapela, uma flor, que ele por certo
deixou emurchecida sobre a mesa
e do alto colarinho o branco aperto
incomodava-o um pouco, com certeza).
Tendo ao lado meu pai, que é filho seu,
certamente renovam velhos planos
de terra e gado, açudes e destino.
No fervor de seus vinte e tantos anos,
miram-me assim, mais novos do que eu:
assim mesmo, para eles sou menino.
Zacarias Martins
O Aniversário
o tão esperado dia
de quem comigo ficou
na tristeza e na alegria.
Isso sim é companheira!
Jamais vi nada igual.
Ela é tão faceira,
— não é brincadeira —
é muito especial.
Ela sempre me entende
e eu a entendo, também.
Ao tocar-lhe suavemente
ela fica comovente
e se sente tão bem.
E hoje,
no seu aniversário
eu seria um salafrário
se nada falasse
para comemorar esse dia.
Adelmar Tavares
Francisco, Meu Pai
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
Renato Russo
Esperando Por Mim
Que meu sorriso era sincero
Sou tão cínico às vezes
O tempo todo
Estou tentando me defender
Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição
Hoje não estava nada bem
Mas a tempestade me distrai
Gosto dos pingos de chuva
Dos relâmpagos e dos trovões
Hoje à tarde foi um dia bom
Saí pra caminhar com meu pai
Conversamos sobre coisas da vida
E tivemos um momento de paz
É de noite que tudo faz sentido
No silêncio eu não ouço meus gritos
E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem
Os nossos dias serão para sempre
Teruko Oda
Verão
Na árvore de Natal
Neve de algodão.
Noite de verão
Na janela envidraçada
Cabe a lua cheia.
Washington Queiroz
A Geografia dos Dias
Esta geografia do silêncio,
a face muda / mudo
calendário - a passar, passar...
Os dias / ímpios
e os segredos invioláveis.
Meu filho tecendo nuvens
ante meu rosto mudo;
tecendo suas cirandas,
perplexo, - meu rosto mudo.
"- Pai, por que o rosto mudo?
por que o rosto mudo?"
- A geografia dos dias:
diáfana,
efêmera,
/meu rosto mudo.
Helena Parente Cunha
Tempo
me rompo entre dois prantos
antes de outrora
era meu pai
além de após
o mesmo ai
entre
antes
e depois
sem agora de meu pai
Hélio Pellegrino
Pai Trinitário
Do descaminho, da treva escura,
Perdoa o filho que ainda perdura
Na sua confusa perversidade.
Perdoa o filho, a sua loucura,
Feito de barro, de luz impura,
Perdoa o Filho, de humanidade
Manchado, aflito, na sua cidade
Feita de asfalto, de aço e guindaste.
Todo pecado, levando-o em rubro
Sangue perene, no qual descubro
Meu nome e origem, minha futura
Rede onde, à noite, submerso em sono,
Hei de encontrar-me de novo, dono
Da eternidade, da eternidade.
Edimilson de Almeida Pereira
Orelha Furada
em sua casa um maconde.
Dançar o nome pai dos deuses que pode tudo
neste mundo e suportar o lagarto querendo ser
bispo na sombra.
Dançar o nome miséria, estrepe e tripa que a
folha do livro é. E se entender dono das letras
em sua cozinha.
Dançar o nome em sete sapatos limpos para
domingo.
Dançar o nome com a mulher nhora dele: a
mulher no seu coração tempestade e ciranda.
Dançar o nome com o braço na palavra berço.
Chico Buarque
Ano Novo
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo
Caio Valério Catulo
1º Ato
Que é isto?! Aqui? No Céu?! Profanação!!
Boêmio
Senhor! Não repareis! É uma surpresa!
Venho, apenas, cantar, festivamente,
em vosso aniversário uma canção!
S. Pedro
Mas na casa de Deus?!... E com um violão?!
Retire-se daqui!
Boêmio
Senhor, perdão!
Que havia de trazer-vos em um dia
tão grande, tão bonito, como o vosso,
de tanto amor, tanta recordação?!
Eu vos chamo, Senhor, vossa atenção.
Este instrumento representa a Música,
esta flor, que colhi no mato virgem,
representa a formosa Natureza,
os versos do meu canto representam
a divina Poesia, e essa trindade
não merece, Senhor, vosso desdém!
Pois Natureza, Música e Poesia
são as únicas coisas de sublime
que o mundo, de onde venho, em si contém.
Se eu venho tão somente com um violão,
é porque, desde que desencarnei,
desde hoje de manhã, desencarnando
vaguei por toda a Terra, procurando
uns músicos, que, enfim, não encontrei,
para, enquanto fizésseis vossas preces,
como estáveis fazendo, agora mesmo,
oferecendo a Deus a vossa oblata,
entrássemos no Céu, com uma cantata,
com cavaquinhos, flautas e violões
acompanhando as vossas orações,
com uma bela e saudosa serenata.
Angela Carneiro
Pai
mas o poema da sua morte não sai
está aqui atravancado
engarrafando minhas letras
Devia canalizar sua perda
dar forma ao seu espírito
transformar seu sono
em algo lírico
Mas desde que morreu meu pai
e faz mais de ano
Meu Deus!como ainda o amo!
a beleza da mortal dor não sai
seu corpo em sono me volta
o choro solta
só sei dizer ai.
Será isso que escrevo o poema prometido?
Será finalmente agora
a hora do que foi sentido?
Preciso deste poema
preciso lembrar sua partida
mas,quando lembro seu rosto adormecido
só sai o poema
da sua vida.
Meu pai era grande, enorme
é tão bom ter um pai grande
um abraço cobertor
mão que encolhe a nossa
olhar para o alto quando se pede desculpas
ouvir sua voz grossa.
(como pode tanto homem caber em caixa tão pequena?
Suas cinzas na madeira clara não deviam estar lá
e sim fazer plantar uma flor nobre e rara)
A madrugada, o susto, a dor.
Cadê meu abraço cobertor?
Os pêsames ingleses são mais gentis
os telefonemas interurbanos mais sutis.
Morte anunciada num pedido de pizza...
senti a pista do adeus
mas nada fiz.
A policial foi meiga,
o legista competente
o agente funerário
naquele internacional calvário
era quase gente
saído de um texto de Dickens, alto como meu pai, branco de chuva
negro nas capas
sua voz pausada
como tapas.
Meu pai morreu feliz
Tinha as filhas em Londres por sorteio
a mulher amada ao seu lado
tinha,na véspera, se embriagado
vinho francês, boa safra
nada restou na garrafa
seu diário continha planos
de lá voltar para o ano.
Mas foi outra a viagem
no avião, apenas sua bagagem
Meu pai só queria viajar
o coração não prestava, enchia os pulmões de sangue
e ele queria comer churrasco e não fazer fiasco no amor
terminou seu programa dormindo em sua cama
com um sorriso tranquilo e um filete de vinho e sangue.
Que raiva que me dá!
Não posso te perdoar por me deixar órfã
de sua voz
meus filhos sem o vovô
que dava beijos e broncas
Você tinha tanto para fazer com eles!
Cadê a Disneylândia que prometeu?
Cadê sua mão enorme de carinho e palmada?
Cadê você, papai?
Eu ainda sou tão pequena
estou perdida na faculdade
lá só tem o seu busto em bronze
aquele que eu destestava pois em vida me lembrava
que você ía morrer.
Posso até dizer que foi melhor assim.
não sou egoísta, sou artista e crente
fui cursilhista e acredito em vida após a morte
e por sorte,você foi bom.
Meu discurso é piedoso e inteligente
posso até dizer-me carente mas olho pro céu
como te olhava tão alto
suspiro, foi esperto fugindo aqui perto
Não viu que seu voto para presidente
foi cuspido por um indecente
não viu que sua irmã decidiu a todos atormentar
só falava em se suicidar.
Mas também você perdeu!
Você ia adorar a linha vermelha
ia dizer "formidável!" franzindo a sobrancelha
e perdeu o Coquetel, um programa de TV
como muitos seios a mostra
bem como você gosta
E a seleção de volei? Esta foi sua maior falha
você não ver a nossa medalha.
Será que você vestiria preto naquele domingo?
Ah, meu pai,eu ia me orgulhar se te visse de luto
teríamos caminhado de mãos dadas na orla
por este país defunto
Ah,paizinho, se eu pudesse
te trazia nas minhas preces só pra ver as coisas boas
com olhos turistas eu te mostraria que o Brasil pode ter jeito
que a garotada está mudada
são índios de rosto em pintura
se chamam de caras-pintadas
são outras criaturas.
Você era tão grande
que o coração cansou de bombear.
Olha pai,não quero mais te cansar
sei que ando reclamando de falta de grana
de excesso de preocupação
mas, não liga não,pode deixar
pois se você me ensinou alguma coisa
essa coisa foi lutar.
Feliz dias dos pais, meu querido, Meuzinho, meu
velho, meu papai Darcy!
Beijos carinhosos de sua sempre filhinha caçula e
pequena. Sinto falta docê,pai!
Castro Alves
Poesias Colegiais
o Ilmo. Sr. Dr. Abílio César Borges
I
Grato sempre à mocidade,
Belo dia, hás de raiar;
Sempre ela muito contente
Mil flores te há de ofertar!
Sempre em ti se entregará
Ao prazer com expansão;
Mil cultos render-te-á
Nos altares dafeição.
Pois em ti, sublime dia,
Do alto dos céus baixou
O anjo que à mocidade
Dos rigores libertou.
Baixou este grande homem,
Que tanto anima a instrução,
Estimulando coamor
O infantil coração.
II
Nasceu hoje meu bom Diretor,
Para honra do grande Brasil,
Preparando na infância, que educa,
Para a pátria futuro gentil.
É por isso que o sol orgulhoso
Ergue a fronte soberba e brilhante;
É por isso que as flores exalam
Um perfume mais doce e fragrante.
É por isso que tão cristalinos
Os regatos se alongam ao mar,
E as aves coas cores tão vivas
Brincam — ternas — voando no ar.
E os ventos tão meigos e frescos
Sussurrando as campinas percorrem.
E as abelhas em busca de mel
Às florinhas contentes já correm.
É por isso enfim que tão bela
A natura se ostenta no mundo;
É por isso que a infância já sente
Regozijos do peito no fundo.
III
Eia! cantemos cantemos!...
Com grinaldas coroemos
Neste belo e grande dia
Do natalício de amor
O nosso bom Diretor,
Que tão zeloso nos guia.
Bahia, Ginásio Baiano, 9 de setembro de 1860
Castro Alves
Sonetos
Mancebos! De mil louros triunfantes
Adornai o Moisés da mocidade,
O Anjo que nos guia da verdade
Pelos doces caminhos sempre ovantes.
Coroai de grinaldas verdejantes
Quem rompeu para a Pátria nova idade,
Guiando pelas leis sãs da amizade
Os moços do progresso sempre amantes.
Vê, Brasil, este filho que o teu nome
Sobre o mapa dos povos ilustrados
Descreve qual o forte de Vendôme.
Conhece que os Andradas e os Machados,
Que inda vivem nas asas do renome
Não morrem nestes céus abençoados;
...................
Mestre, Mestre querido, Pai de Amor,
As glórias que conquistas coa razão,
Enchendo de prazer teu coração
Tatraem grandes bençãos do Senhor!
Os teus louros têm mais vivo fulgor,
Que os ganhos ao ribombo do canhão;
Que os de um Aníbal, dum Napoleão,
Alcançados das mortes entre o horror.
Sim! Que os louros terríveis que Mavorte
Ao soldado concede em dura guerra,
Todos murcha a idéia só da morte!
Mas nos teus vero mérito se encerra,
Que não cede do tempo ao braço forte,
E alcançam justo prêmio além da terra!...
1861
Castro Alves
Sonetos
Mancebos! De mil louros triunfantes
Adornai o Moisés da mocidade,
O Anjo que nos guia da verdade
Pelos doces caminhos sempre ovantes.
Coroai de grinaldas verdejantes
Quem rompeu para a Pátria nova idade,
Guiando pelas leis sãs da amizade
Os moços do progresso sempre amantes.
Vê, Brasil, este filho que o teu nome
Sobre o mapa dos povos ilustrados
Descreve qual o forte de Vendôme.
Conhece que os Andradas e os Machados,
Que inda vivem nas asas do renome
Não morrem nestes céus abençoados;
...................
Mestre, Mestre querido, Pai de Amor,
As glórias que conquistas coa razão,
Enchendo de prazer teu coração
Tatraem grandes bençãos do Senhor!
Os teus louros têm mais vivo fulgor,
Que os ganhos ao ribombo do canhão;
Que os de um Aníbal, dum Napoleão,
Alcançados das mortes entre o horror.
Sim! Que os louros terríveis que Mavorte
Ao soldado concede em dura guerra,
Todos murcha a idéia só da morte!
Mas nos teus vero mérito se encerra,
Que não cede do tempo ao braço forte,
E alcançam justo prêmio além da terra!...
1861
Castro Alves
A LUÍS
A imaginação, com o vôo ousado,
aspira a principio à eternidade...
Depois um pequeno espaço basta em breve
para os destroços de nossas esperanças iludidas! ...
Goethe
Como um perfume de longínquas plagas
Traz o vento da pátria ao peregrino,
Ó meu amigo! que saudade infinda
Tu me trazes dos tempos de menino!
É o ledo enxame de sutis abelhas
Que vem lembrar à flor o mel daurora...
Acres perfumes de uma idade ardente
Quando o lábio sorri... mas nunca chora!
Que tempos idos! que esperanças louras!
Que cismas de poesia e de futuro!
Nas páginas do triste Lamartine
Quanto sonho de amor pousava puro! ...
E tu falavas de um amor celeste,
De um anjo, que depois se fez esposa...
— Moça, que troca os risos de criança
Pelo meigo cismar de mãe formosa.
Oh! meu amigo! neste doce instante
o vento do passado em mim suspira,
E minhalma estremece de alegria,
Como ao beijo da noite geme a lira.
Tu paraste na tenda, ó peregrino!
Eu vou seguindo do deserto a trilha;
Pois bem... que a lira do poeta errante
Seja a bênção do lar e da família.
Adélia Prado
Moça Na Sua Cama
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
Augusto Massi
CEMITÉRIO DO ARAÇÁ
voltava calado pra casa,
margeando teu muro alto.
Era o melhor dos vizinhos.
Habituado a jogar futebol
na rua que dava pros fundos,
estranhava: por que as bolas
não voltavam do teu mundo?
Quantas vezes fui comprar
flores na Doutor Arnaldo,
paradoxo confinado à data:
os aniversários da morte.
Você resistiu ao cerco
da cidade que cresceu
(eu também cresci)
sempre à tua volta.
Repisando nosso passado,
hoje, afinal, te visito.
busco meu pai enterrado
dentro do teu labirinto.
Filipa Leal
Estátua da liberdade
a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho,
a mãe de óculos e écharpe, a Marta que em breve seria mãe também
mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro,
o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não doessem
de tantas avenidas, e o João Pedro, tão recém-casado, tão recém-feliz,
tão quase pai também sem o saber;
nós ao sol, de costas para ela, de frente uns para os outros, pressentindo
que Nova Iorque só interessaria por ali termos estado muito juntos,
e que na passagem dos anos apenas isso importaria, apenas isso:
termos ali estado distraídos, sentadíssimos, confortáveis
como os nossos corações.
E de repente ali estava ela a imitar os montes, de um verde indecifrável,
ali estava a imitar os homens invadidos, pesada, com picos na cabeça,
de braço esticado a tentar a luz, de livro pendurado,
ali estava séria, muda, quieta,
toda feita de pausa como um susto, como se jogássemos mímica,
como se a seguir nos pregasse uma partida, um grito,
e desfizesse a pose e risse de boca muito aberta à brincadeira,
livre então dos curiosos que empunhavam câmaras como se vê-la
assim, parada e incapaz, fosse espectáculo digno de registo.
Nós a chegarmos à ilha, a desembarcarmos do alheamento,
nós do tamanho familiar, todos de cabeça ao alto na inacessível sombra,
nós a rirmos das pessoas que lhe descobríamos na cabeça,
eles literalmente à varanda da cabeça, os visitantes,
ignorando que um futuro dia de Setembro inibiria aquela subida aos céus.
E ali estava ela de nariz empinado, recusando o gesto de anfitriã:
alta e ofendida
estátua
que era preciso limpar.
Marcelo Montenegro
Três pensatos
PENSO naquela única gota
gelada do chuveiro quente.
Nas ilíadas clandestinas
que a febre percorre
até virar suor. Penso nas caretas
que os músicos fazem
quando estão solando.
No meu pai me dizendo
que tudo isso aqui era mato.
Penso na imagem exata
de uma aurora indecisa.
Penso em calços de papelão
para pianos mancos.
2.
PENSO em alguém que, na manhã
do dia de sua morte, desiste
de usar a camisa que mais gosta,
preferindo guardá-la para uma festa
que terá na noite seguinte.
3.
PENSO em você, por exemplo,
largando o controle
remoto e dizendo –
do jeito mais lindo
do mundo – que adora
quando consegue pegar
um filme do começo.