Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Gonçalves de Magalhães
Canto Quarto
(...)
Um ai do peito a mísera soltando,
A maviosa voz destarte exala:
"Só, eis-me aqui no cimo da montanha,
Dos meus abandonada; como um tronco
Despido, inútil no alto da colina,
A que os ramos quebrou Tupã co'a frecha.
"Só, eis-me aqui, do velho pai ausente,
Ausente do querido bem-amado,
Como viúva, solitária rola
Em deserto areal seu mal carpindo!
"Ainda hoje o caro pai vi a meu lado;
Ainda hoje o amante eu vi!... Fugiram ambos,
Velozes como os cervos da floresta:
Já fui feliz; mas hoje desgraçada!"
E os ecos responderam — desgraçada!
"Desgraçada!... E ainda vivo? Antes à guerra
O pai e o bravo amante acompanhasse;
Ouvindo sua voz, seu rosto vendo,
Acabar a seu lado melhor fora."
E os ecos responderam — melhor fora!
"Gênios, que as grotas povoais e os vales,
Gênios, que repetis os meus acentos,
Ide, e do amado murmurai no ouvido
Que a amante sua de saudades morre."
E os ecos responderam — morre... morre!
Morre... morre! soou por longo tempo.
O canto cala um pouco a triste moça,
Murmurando dos ecos o estribilho,
Como se algum presságio concebesse.
Os negros olhos de chorar cansados
Co'as mãos ele os enxuga; mas de novo
Desses doridos olhos as estanques
Lágrimas brotam, que lhe o peito aljofram,
Como goteja em bagas abundantes
Da fendida taboca a pura linfa.
(...)
"Sim, morrerei..."
E mais dizer não pôde;
Em meio de um gemido a voz faltou-lhe.
Os lábios lhe tremiam convulsivos,
Como flores batidas pelos ventos.
Cruza os braços no colo, os olhos cerra,
Pende a fronte, e no peito o queixo apóia,
As derretidas perlas entornando:
Tal num jardim a pálida açucena,
De matutino orvalho o cálix cheio,
Se o zéfiro a bafeja, a fronte inclina,
Puros cristais em lágrimas vertendo.
Não sei se dorme, ou se respira ainda;
Mas parece entre pedras bela estátua,
Que do abandono o desalento exprime!
O sol, que ao ressurgir a viu chorosa,
Nesse mesmo lugar chorosa a deixa.
(...)
Imagem - 00410003
Publicado no livro A Confederação dos Tamoios: poema (1856).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949
NOTA: Poema composto de 10 canto
Um ai do peito a mísera soltando,
A maviosa voz destarte exala:
"Só, eis-me aqui no cimo da montanha,
Dos meus abandonada; como um tronco
Despido, inútil no alto da colina,
A que os ramos quebrou Tupã co'a frecha.
"Só, eis-me aqui, do velho pai ausente,
Ausente do querido bem-amado,
Como viúva, solitária rola
Em deserto areal seu mal carpindo!
"Ainda hoje o caro pai vi a meu lado;
Ainda hoje o amante eu vi!... Fugiram ambos,
Velozes como os cervos da floresta:
Já fui feliz; mas hoje desgraçada!"
E os ecos responderam — desgraçada!
"Desgraçada!... E ainda vivo? Antes à guerra
O pai e o bravo amante acompanhasse;
Ouvindo sua voz, seu rosto vendo,
Acabar a seu lado melhor fora."
E os ecos responderam — melhor fora!
"Gênios, que as grotas povoais e os vales,
Gênios, que repetis os meus acentos,
Ide, e do amado murmurai no ouvido
Que a amante sua de saudades morre."
E os ecos responderam — morre... morre!
Morre... morre! soou por longo tempo.
O canto cala um pouco a triste moça,
Murmurando dos ecos o estribilho,
Como se algum presságio concebesse.
Os negros olhos de chorar cansados
Co'as mãos ele os enxuga; mas de novo
Desses doridos olhos as estanques
Lágrimas brotam, que lhe o peito aljofram,
Como goteja em bagas abundantes
Da fendida taboca a pura linfa.
(...)
"Sim, morrerei..."
E mais dizer não pôde;
Em meio de um gemido a voz faltou-lhe.
Os lábios lhe tremiam convulsivos,
Como flores batidas pelos ventos.
Cruza os braços no colo, os olhos cerra,
Pende a fronte, e no peito o queixo apóia,
As derretidas perlas entornando:
Tal num jardim a pálida açucena,
De matutino orvalho o cálix cheio,
Se o zéfiro a bafeja, a fronte inclina,
Puros cristais em lágrimas vertendo.
Não sei se dorme, ou se respira ainda;
Mas parece entre pedras bela estátua,
Que do abandono o desalento exprime!
O sol, que ao ressurgir a viu chorosa,
Nesse mesmo lugar chorosa a deixa.
(...)
Imagem - 00410003
Publicado no livro A Confederação dos Tamoios: poema (1856).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949
NOTA: Poema composto de 10 canto
13 307
6
Gonçalves de Magalhães
Canto Quarto
(...)
Um ai do peito a mísera soltando,
A maviosa voz destarte exala:
"Só, eis-me aqui no cimo da montanha,
Dos meus abandonada; como um tronco
Despido, inútil no alto da colina,
A que os ramos quebrou Tupã co'a frecha.
"Só, eis-me aqui, do velho pai ausente,
Ausente do querido bem-amado,
Como viúva, solitária rola
Em deserto areal seu mal carpindo!
"Ainda hoje o caro pai vi a meu lado;
Ainda hoje o amante eu vi!... Fugiram ambos,
Velozes como os cervos da floresta:
Já fui feliz; mas hoje desgraçada!"
E os ecos responderam — desgraçada!
"Desgraçada!... E ainda vivo? Antes à guerra
O pai e o bravo amante acompanhasse;
Ouvindo sua voz, seu rosto vendo,
Acabar a seu lado melhor fora."
E os ecos responderam — melhor fora!
"Gênios, que as grotas povoais e os vales,
Gênios, que repetis os meus acentos,
Ide, e do amado murmurai no ouvido
Que a amante sua de saudades morre."
E os ecos responderam — morre... morre!
Morre... morre! soou por longo tempo.
O canto cala um pouco a triste moça,
Murmurando dos ecos o estribilho,
Como se algum presságio concebesse.
Os negros olhos de chorar cansados
Co'as mãos ele os enxuga; mas de novo
Desses doridos olhos as estanques
Lágrimas brotam, que lhe o peito aljofram,
Como goteja em bagas abundantes
Da fendida taboca a pura linfa.
(...)
"Sim, morrerei..."
E mais dizer não pôde;
Em meio de um gemido a voz faltou-lhe.
Os lábios lhe tremiam convulsivos,
Como flores batidas pelos ventos.
Cruza os braços no colo, os olhos cerra,
Pende a fronte, e no peito o queixo apóia,
As derretidas perlas entornando:
Tal num jardim a pálida açucena,
De matutino orvalho o cálix cheio,
Se o zéfiro a bafeja, a fronte inclina,
Puros cristais em lágrimas vertendo.
Não sei se dorme, ou se respira ainda;
Mas parece entre pedras bela estátua,
Que do abandono o desalento exprime!
O sol, que ao ressurgir a viu chorosa,
Nesse mesmo lugar chorosa a deixa.
(...)
Imagem - 00410003
Publicado no livro A Confederação dos Tamoios: poema (1856).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949
NOTA: Poema composto de 10 canto
Um ai do peito a mísera soltando,
A maviosa voz destarte exala:
"Só, eis-me aqui no cimo da montanha,
Dos meus abandonada; como um tronco
Despido, inútil no alto da colina,
A que os ramos quebrou Tupã co'a frecha.
"Só, eis-me aqui, do velho pai ausente,
Ausente do querido bem-amado,
Como viúva, solitária rola
Em deserto areal seu mal carpindo!
"Ainda hoje o caro pai vi a meu lado;
Ainda hoje o amante eu vi!... Fugiram ambos,
Velozes como os cervos da floresta:
Já fui feliz; mas hoje desgraçada!"
E os ecos responderam — desgraçada!
"Desgraçada!... E ainda vivo? Antes à guerra
O pai e o bravo amante acompanhasse;
Ouvindo sua voz, seu rosto vendo,
Acabar a seu lado melhor fora."
E os ecos responderam — melhor fora!
"Gênios, que as grotas povoais e os vales,
Gênios, que repetis os meus acentos,
Ide, e do amado murmurai no ouvido
Que a amante sua de saudades morre."
E os ecos responderam — morre... morre!
Morre... morre! soou por longo tempo.
O canto cala um pouco a triste moça,
Murmurando dos ecos o estribilho,
Como se algum presságio concebesse.
Os negros olhos de chorar cansados
Co'as mãos ele os enxuga; mas de novo
Desses doridos olhos as estanques
Lágrimas brotam, que lhe o peito aljofram,
Como goteja em bagas abundantes
Da fendida taboca a pura linfa.
(...)
"Sim, morrerei..."
E mais dizer não pôde;
Em meio de um gemido a voz faltou-lhe.
Os lábios lhe tremiam convulsivos,
Como flores batidas pelos ventos.
Cruza os braços no colo, os olhos cerra,
Pende a fronte, e no peito o queixo apóia,
As derretidas perlas entornando:
Tal num jardim a pálida açucena,
De matutino orvalho o cálix cheio,
Se o zéfiro a bafeja, a fronte inclina,
Puros cristais em lágrimas vertendo.
Não sei se dorme, ou se respira ainda;
Mas parece entre pedras bela estátua,
Que do abandono o desalento exprime!
O sol, que ao ressurgir a viu chorosa,
Nesse mesmo lugar chorosa a deixa.
(...)
Imagem - 00410003
Publicado no livro A Confederação dos Tamoios: poema (1856).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949
NOTA: Poema composto de 10 canto
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6
Neves e Sousa
Angolano
Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?
Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...
A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?
Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...
A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!
1 773
6
Olavo Bilac
A Jogatina
Maldito invento dum baronete
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível "matar o bicho".
In: BILAC, Olavo. Bom humor. Org. Eloy Pontes. Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940*. p.63-65. (Vida literária
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível "matar o bicho".
In: BILAC, Olavo. Bom humor. Org. Eloy Pontes. Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940*. p.63-65. (Vida literária
5 032
6
Luís Gama
Minha Mãe
Minha mãe era mui bela,
Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas,
Suas palavras sagradas
C'os risos que ela me deu.
JUNQUEIRA FREIRE
Era mui bela e formosa,
Era a mais linda pretinha,
Da adusta Líbia rainha,
E no Brasil pobre escrava!
Oh, que saudades que tenho
Dos seus mimosos carinhos.
Quando c'os tenros filhinhos
Ela sorrindo brincava.
Éramos dois — seus cuidados,
Sonhos de sua alma bela;
Ela a palmeira singela,
Na fulva areia nascida.
Nos roliços braços de ébano,
De amor o fruto apertava,
E à nossa boca juntava
Um beijo seu, que era vida.
Quando o prazer entreabria
Seus lábios de roxo lírio,
Ela fingia o martírio
Nas trevas da solidão.
Os alvos dentes nevados
Da liberdade eram mito,
No rosto a dor do aflito,
Negra a cor da escravidão.
Os olhos negros, altivos,
Dois astros eram luzentes;
Eram estrelas cadentes
Por corpo humano sustidas.
Foram espelhos brilhantes
Da nossa vida primeira,
Foram a luz derradeira
Das nossas crenças perdidas.
Tão terna como a saudade
No frio chão das campinas,
Tão meiga como as boninas
Aos raios do sol de abril,
No gesto grave e sombria
Como a vaga que flutua,
Plácida a mente — era a Lua
Refletindo em Céus de anil.
(...)
Se junto à Cruz penitente,
A Deus orava contrita,
Tinha uma prece infinita
Como o dobrar do sineiro;
As lágrimas que brotavam
Eram pérolas sentidas,
Dos lindos olhos vertidas
Na terra do cativeiro.
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.125-127. (Últimas gerações, 4
Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas,
Suas palavras sagradas
C'os risos que ela me deu.
JUNQUEIRA FREIRE
Era mui bela e formosa,
Era a mais linda pretinha,
Da adusta Líbia rainha,
E no Brasil pobre escrava!
Oh, que saudades que tenho
Dos seus mimosos carinhos.
Quando c'os tenros filhinhos
Ela sorrindo brincava.
Éramos dois — seus cuidados,
Sonhos de sua alma bela;
Ela a palmeira singela,
Na fulva areia nascida.
Nos roliços braços de ébano,
De amor o fruto apertava,
E à nossa boca juntava
Um beijo seu, que era vida.
Quando o prazer entreabria
Seus lábios de roxo lírio,
Ela fingia o martírio
Nas trevas da solidão.
Os alvos dentes nevados
Da liberdade eram mito,
No rosto a dor do aflito,
Negra a cor da escravidão.
Os olhos negros, altivos,
Dois astros eram luzentes;
Eram estrelas cadentes
Por corpo humano sustidas.
Foram espelhos brilhantes
Da nossa vida primeira,
Foram a luz derradeira
Das nossas crenças perdidas.
Tão terna como a saudade
No frio chão das campinas,
Tão meiga como as boninas
Aos raios do sol de abril,
No gesto grave e sombria
Como a vaga que flutua,
Plácida a mente — era a Lua
Refletindo em Céus de anil.
(...)
Se junto à Cruz penitente,
A Deus orava contrita,
Tinha uma prece infinita
Como o dobrar do sineiro;
As lágrimas que brotavam
Eram pérolas sentidas,
Dos lindos olhos vertidas
Na terra do cativeiro.
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.125-127. (Últimas gerações, 4
8 482
6
Luís Gama
Minha Mãe
Minha mãe era mui bela,
Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas,
Suas palavras sagradas
C'os risos que ela me deu.
JUNQUEIRA FREIRE
Era mui bela e formosa,
Era a mais linda pretinha,
Da adusta Líbia rainha,
E no Brasil pobre escrava!
Oh, que saudades que tenho
Dos seus mimosos carinhos.
Quando c'os tenros filhinhos
Ela sorrindo brincava.
Éramos dois — seus cuidados,
Sonhos de sua alma bela;
Ela a palmeira singela,
Na fulva areia nascida.
Nos roliços braços de ébano,
De amor o fruto apertava,
E à nossa boca juntava
Um beijo seu, que era vida.
Quando o prazer entreabria
Seus lábios de roxo lírio,
Ela fingia o martírio
Nas trevas da solidão.
Os alvos dentes nevados
Da liberdade eram mito,
No rosto a dor do aflito,
Negra a cor da escravidão.
Os olhos negros, altivos,
Dois astros eram luzentes;
Eram estrelas cadentes
Por corpo humano sustidas.
Foram espelhos brilhantes
Da nossa vida primeira,
Foram a luz derradeira
Das nossas crenças perdidas.
Tão terna como a saudade
No frio chão das campinas,
Tão meiga como as boninas
Aos raios do sol de abril,
No gesto grave e sombria
Como a vaga que flutua,
Plácida a mente — era a Lua
Refletindo em Céus de anil.
(...)
Se junto à Cruz penitente,
A Deus orava contrita,
Tinha uma prece infinita
Como o dobrar do sineiro;
As lágrimas que brotavam
Eram pérolas sentidas,
Dos lindos olhos vertidas
Na terra do cativeiro.
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.125-127. (Últimas gerações, 4
Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas,
Suas palavras sagradas
C'os risos que ela me deu.
JUNQUEIRA FREIRE
Era mui bela e formosa,
Era a mais linda pretinha,
Da adusta Líbia rainha,
E no Brasil pobre escrava!
Oh, que saudades que tenho
Dos seus mimosos carinhos.
Quando c'os tenros filhinhos
Ela sorrindo brincava.
Éramos dois — seus cuidados,
Sonhos de sua alma bela;
Ela a palmeira singela,
Na fulva areia nascida.
Nos roliços braços de ébano,
De amor o fruto apertava,
E à nossa boca juntava
Um beijo seu, que era vida.
Quando o prazer entreabria
Seus lábios de roxo lírio,
Ela fingia o martírio
Nas trevas da solidão.
Os alvos dentes nevados
Da liberdade eram mito,
No rosto a dor do aflito,
Negra a cor da escravidão.
Os olhos negros, altivos,
Dois astros eram luzentes;
Eram estrelas cadentes
Por corpo humano sustidas.
Foram espelhos brilhantes
Da nossa vida primeira,
Foram a luz derradeira
Das nossas crenças perdidas.
Tão terna como a saudade
No frio chão das campinas,
Tão meiga como as boninas
Aos raios do sol de abril,
No gesto grave e sombria
Como a vaga que flutua,
Plácida a mente — era a Lua
Refletindo em Céus de anil.
(...)
Se junto à Cruz penitente,
A Deus orava contrita,
Tinha uma prece infinita
Como o dobrar do sineiro;
As lágrimas que brotavam
Eram pérolas sentidas,
Dos lindos olhos vertidas
Na terra do cativeiro.
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.125-127. (Últimas gerações, 4
8 482
6
Cruz e Sousa
O Assinalado
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouca a pouco...
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
Publicado no livro ÚItimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouca a pouco...
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
Publicado no livro ÚItimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
30 152
6
Pedro Nava
O Defunto
A Afonso Arinos de Melo Franco
Quando morto estiver meu corpo
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz
ou os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.
Eu quero a morte com mau gosto!
Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enormes salva-vidas,
com fitas negras pendentes.
E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
que ela perturbe os amigos
e que lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
a idéia da própria morte.
Descubram bem esta cara!
Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
— Meus amigos! Olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus lábios quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até furtos fracassados
e interrompidos assassinatos...
— Meus amigos! Olhem as mãos
que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam:
elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
— Meus amigos! Olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!
Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as partes sujas sem perdão,
que eu esmagava nos sábados
e aos domingos renasciam!
— Meus amigos! Olhem as partes...
Fujam das partes...
Das punitivas, malditas partes...
— Meus amigos! Arranquem as suas...
Esmaguem as suas...
Amputem as suas...
Eu quero a morte nua, crua,
terrífica e habitual,
com o seu velório habitual
Ah, o seu velório habitual...
Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que não se casa
com meu amor pela Carne
com meu apego ao Mundo.
Eu quero ir de casimira:
calça listrada, plastron...
com os mais altos colarinhos,
com jaquetão com debrum...
Dêem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim, solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que a sua lembrança evenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.
— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...
Rio de Janeiro, 23 julho de 1938
Imagem - 02130005
Publicado no livro O Defunto (1967).
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
Quando morto estiver meu corpo
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz
ou os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.
Eu quero a morte com mau gosto!
Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enormes salva-vidas,
com fitas negras pendentes.
E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
que ela perturbe os amigos
e que lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
a idéia da própria morte.
Descubram bem esta cara!
Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
— Meus amigos! Olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus lábios quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até furtos fracassados
e interrompidos assassinatos...
— Meus amigos! Olhem as mãos
que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam:
elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
— Meus amigos! Olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!
Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as partes sujas sem perdão,
que eu esmagava nos sábados
e aos domingos renasciam!
— Meus amigos! Olhem as partes...
Fujam das partes...
Das punitivas, malditas partes...
— Meus amigos! Arranquem as suas...
Esmaguem as suas...
Amputem as suas...
Eu quero a morte nua, crua,
terrífica e habitual,
com o seu velório habitual
Ah, o seu velório habitual...
Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que não se casa
com meu amor pela Carne
com meu apego ao Mundo.
Eu quero ir de casimira:
calça listrada, plastron...
com os mais altos colarinhos,
com jaquetão com debrum...
Dêem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim, solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que a sua lembrança evenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.
— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...
Rio de Janeiro, 23 julho de 1938
Imagem - 02130005
Publicado no livro O Defunto (1967).
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
10 063
6
Pedro Nava
O Defunto
A Afonso Arinos de Melo Franco
Quando morto estiver meu corpo
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz
ou os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.
Eu quero a morte com mau gosto!
Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enormes salva-vidas,
com fitas negras pendentes.
E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
que ela perturbe os amigos
e que lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
a idéia da própria morte.
Descubram bem esta cara!
Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
— Meus amigos! Olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus lábios quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até furtos fracassados
e interrompidos assassinatos...
— Meus amigos! Olhem as mãos
que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam:
elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
— Meus amigos! Olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!
Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as partes sujas sem perdão,
que eu esmagava nos sábados
e aos domingos renasciam!
— Meus amigos! Olhem as partes...
Fujam das partes...
Das punitivas, malditas partes...
— Meus amigos! Arranquem as suas...
Esmaguem as suas...
Amputem as suas...
Eu quero a morte nua, crua,
terrífica e habitual,
com o seu velório habitual
Ah, o seu velório habitual...
Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que não se casa
com meu amor pela Carne
com meu apego ao Mundo.
Eu quero ir de casimira:
calça listrada, plastron...
com os mais altos colarinhos,
com jaquetão com debrum...
Dêem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim, solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que a sua lembrança evenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.
— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...
Rio de Janeiro, 23 julho de 1938
Imagem - 02130005
Publicado no livro O Defunto (1967).
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
Quando morto estiver meu corpo
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz
ou os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.
Eu quero a morte com mau gosto!
Dêem-me coroas de pano.
Dêem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enormes salva-vidas,
com fitas negras pendentes.
E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
que ela perturbe os amigos
e que lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
a idéia da própria morte.
Descubram bem esta cara!
Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
— Meus amigos! Olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus lábios quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até furtos fracassados
e interrompidos assassinatos...
— Meus amigos! Olhem as mãos
que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam:
elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
— Meus amigos! Olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!
Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as partes sujas sem perdão,
que eu esmagava nos sábados
e aos domingos renasciam!
— Meus amigos! Olhem as partes...
Fujam das partes...
Das punitivas, malditas partes...
— Meus amigos! Arranquem as suas...
Esmaguem as suas...
Amputem as suas...
Eu quero a morte nua, crua,
terrífica e habitual,
com o seu velório habitual
Ah, o seu velório habitual...
Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que não se casa
com meu amor pela Carne
com meu apego ao Mundo.
Eu quero ir de casimira:
calça listrada, plastron...
com os mais altos colarinhos,
com jaquetão com debrum...
Dêem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim, solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que a sua lembrança evenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.
— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...
Rio de Janeiro, 23 julho de 1938
Imagem - 02130005
Publicado no livro O Defunto (1967).
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
10 063
6
Cruz e Sousa
Vida Obscura
Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.
Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.
Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto.
Que o coração te apunhalou no mundo.
Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.
Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.
Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto.
Que o coração te apunhalou no mundo.
Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
18 026
6
Mario Benedetti
Façamos um trato
Companheira
você sabe
que pode contar
comigo
não até dois
ou até dez
senão contar
comigo
se alguma vez
percebe
que a olho nos olhos
e um brilho de amor
reconheces nos meus
não alerte seus fuzis
nem pense que deliro
apesar do brilho
ou talvez porque existe
você pode contar
comigo
se outras vezes
me encontra
intratável sem motivo
não pense que fraquejara
igual pode contar
comigo
porém façamos um trato
eu quisera contar
com você
é tão lindo
saber que você existe
um se sente vivo
e quando digo isto
quero dizer contar
embora seja até dois
embora seja até cinco
não já para que acuda
pressurosa em meu auxílio
senão para saber
a ciência certa
que você sabe que pode
conta comigo.
você sabe
que pode contar
comigo
não até dois
ou até dez
senão contar
comigo
se alguma vez
percebe
que a olho nos olhos
e um brilho de amor
reconheces nos meus
não alerte seus fuzis
nem pense que deliro
apesar do brilho
ou talvez porque existe
você pode contar
comigo
se outras vezes
me encontra
intratável sem motivo
não pense que fraquejara
igual pode contar
comigo
porém façamos um trato
eu quisera contar
com você
é tão lindo
saber que você existe
um se sente vivo
e quando digo isto
quero dizer contar
embora seja até dois
embora seja até cinco
não já para que acuda
pressurosa em meu auxílio
senão para saber
a ciência certa
que você sabe que pode
conta comigo.
6 271
6
Augusto dos Anjos
Budismo Moderno
Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca dextra forte!
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;
Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!
Paraíba, 1909
Publicado no livro Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.84. (Ensaios, 32
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca dextra forte!
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;
Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!
Paraíba, 1909
Publicado no livro Eu (1912).
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.84. (Ensaios, 32
29 785
6
Corsino Fortes
Pecado Original
Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.
Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.
Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.
E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.
Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.
Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.
E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...
5 036
6
Corsino Fortes
Pecado Original
Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.
Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.
Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.
E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.
Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.
Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.
E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...
5 036
6
Lara de Lemos
Poema de Múltipla Escolha - Faça seu Poema
Em que tempo vivo
em que hora? de aço ( )
de água ( )
de mágoa ( )
de arma ( )
em que tempo vivo
em que hora? de faca ( )
de ferro ( )
de fúria ( )
de fuga ( )
em que tempo vivo
em que hora? de canto ( )
castigo ( )
cegueira ( )
cadeia ( )
em que tempo vivo
em que hora? de teia ( )
de muro ( )
de usura ( )
de guerra ( )
Poema integrante da série Tentativa de Ofício II - poemas de pesquisa.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
em que hora? de aço ( )
de água ( )
de mágoa ( )
de arma ( )
em que tempo vivo
em que hora? de faca ( )
de ferro ( )
de fúria ( )
de fuga ( )
em que tempo vivo
em que hora? de canto ( )
castigo ( )
cegueira ( )
cadeia ( )
em que tempo vivo
em que hora? de teia ( )
de muro ( )
de usura ( )
de guerra ( )
Poema integrante da série Tentativa de Ofício II - poemas de pesquisa.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
2 965
6
Lara de Lemos
Poema de Múltipla Escolha - Faça seu Poema
Em que tempo vivo
em que hora? de aço ( )
de água ( )
de mágoa ( )
de arma ( )
em que tempo vivo
em que hora? de faca ( )
de ferro ( )
de fúria ( )
de fuga ( )
em que tempo vivo
em que hora? de canto ( )
castigo ( )
cegueira ( )
cadeia ( )
em que tempo vivo
em que hora? de teia ( )
de muro ( )
de usura ( )
de guerra ( )
Poema integrante da série Tentativa de Ofício II - poemas de pesquisa.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
em que hora? de aço ( )
de água ( )
de mágoa ( )
de arma ( )
em que tempo vivo
em que hora? de faca ( )
de ferro ( )
de fúria ( )
de fuga ( )
em que tempo vivo
em que hora? de canto ( )
castigo ( )
cegueira ( )
cadeia ( )
em que tempo vivo
em que hora? de teia ( )
de muro ( )
de usura ( )
de guerra ( )
Poema integrante da série Tentativa de Ofício II - poemas de pesquisa.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
2 965
6
Chacal
Bermuda Larga
muitos lutam por uma causa justa
eu prefiro uma bermuda larga
só quero o que não me encha o saco
luto pelas pedras fora do sapato
In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.179. (Cantadas literárias, 48
eu prefiro uma bermuda larga
só quero o que não me encha o saco
luto pelas pedras fora do sapato
In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.179. (Cantadas literárias, 48
6 491
6
Carlos Edmilson Vieira
Sofrimentos
A dor que em mim mora
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento
pois esse já fiz oferenda
ao mais Homem de todos os Homens
mumificado pela injustiça humana
que estrangula o nosso ser
a dor que em mim mora
é a que vi em Bissau
é a que viveram na travessia para Dakar
é a que viveram na travessia para Cabo Verde
é a que vejo no corpo dos outros
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento
pois esse já fiz oferenda
ao mais Homem de todos os Homens
mumificado pela injustiça humana
que estrangula o nosso ser
a dor que em mim mora
é a que vi em Bissau
é a que viveram na travessia para Dakar
é a que viveram na travessia para Cabo Verde
é a que vejo no corpo dos outros
1 547
6
Franz Kafka
Renúncia!
Era muito cedo, pela manhã, as ruas estavam limpas e vazias, eu ia à estação. Ao verificar a hora em meu relógio com a do relógio de uma torre, vi que era muito mais tarde do que eu acreditara, tinha que apressar-me bastante; o susto que me produziu esta descoberta me fêz perder a tranquilidade, não me orientava ainda muito bem naquela cidade. Felizmente havia um policial nas proximidades, fui até ele e perguntei-lhe, sem fôlego, qual era o caminho. Sorriu e disse: -Por mim queres conhecer o caminho? -Sim - disse -, já que não posso encontrá-lo por mim mesmo. -Renuncia, renuncia - disse e voltou-se com grande ímpeto, como as pessoas que querem ficar a sós com o seu riso.
3 776
6
Antero de Quental
Hino à Razão
Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.
Por ti é que a poeira movediça
De astros, sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
Por ti, na arena trágica, as nações
buscam a liberdade entre clarões;
e os que olham o futuro e cismam, mudos,
Por ti podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.
Por ti é que a poeira movediça
De astros, sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
Por ti, na arena trágica, as nações
buscam a liberdade entre clarões;
e os que olham o futuro e cismam, mudos,
Por ti podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!
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6
João Cabral de Melo Neto
Pescadores Pernambucanos
A Rubem Braga
Onde o Goitá vai mais parado
e onde nunca passa nada;
onde o Goitá vai tão parado
que nem mesmo ele rio passa,
um pescador, numa redoma
dessas em que sempre se instalam,
espera um peixe: e tão parado
que nem sequer roça a vidraça.
Mas não está parado
por estar na emboscada:
não é ele quem pesca,
a despeito da vara:
mais bem, é ele a pesca,
e a pose represada
é para não fugir
de algum peixe em que caia.
----------
No mangue lama ou lama mangue,
difícil dizer-se o que é,
entre a espessura nada casta
que se entreabre morna, mulher,
pé ante pé, persegue um peixe
um pescador de jereré,
mergulhando o jereré, sempre,
quando já o que era não é.
Contudo, continua
sem se deter sequer:
fazer e refazer
fazem um só mister;
e ele se refaz, sempre,
a perseguir, até
que tudo haja fugido
ao passo de seu pé.
----------
Qualquer pescador de tarrafa
arremessando a rede langue
dá a sensação que vai pescar
o mundo inteiro nesse lance;
e o vôo espalmado da rede,
planando lento sobre o mangue,
senão o mundo, os alagados,
dá a sensação mesmo que abrange.
Depois, pouco se vê:
como, ao chumbo tirante,
se transforma em profundo
o que era extenso, antes;
vê-se é como o profundo
dá pouco, de relance:
se muito, uma traíra
do imenso circunstante.
----------
Aproveitando-se da noite
(não é bem um pescador, este)
coloca o covo e vai embora:
que sozinho se pesque o peixe;
coloca o covo na gamboa
e se vai, enxuto e terrestre:
mais tarde virá levantá-lo,
quando o bacurau o desperte.
Não é um pescador
aquele que não preze
o fino instante exato
em que o peixe se pesque;
este abandona o covo
e vai, sem interesse:
nem de fazer a pesca
nem de vê-la fazer-se.
Imagem - 00730007
Publicado no livro Terceira feira (1961). Poema integrante da série Serial.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.312-314. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Onde o Goitá vai mais parado
e onde nunca passa nada;
onde o Goitá vai tão parado
que nem mesmo ele rio passa,
um pescador, numa redoma
dessas em que sempre se instalam,
espera um peixe: e tão parado
que nem sequer roça a vidraça.
Mas não está parado
por estar na emboscada:
não é ele quem pesca,
a despeito da vara:
mais bem, é ele a pesca,
e a pose represada
é para não fugir
de algum peixe em que caia.
----------
No mangue lama ou lama mangue,
difícil dizer-se o que é,
entre a espessura nada casta
que se entreabre morna, mulher,
pé ante pé, persegue um peixe
um pescador de jereré,
mergulhando o jereré, sempre,
quando já o que era não é.
Contudo, continua
sem se deter sequer:
fazer e refazer
fazem um só mister;
e ele se refaz, sempre,
a perseguir, até
que tudo haja fugido
ao passo de seu pé.
----------
Qualquer pescador de tarrafa
arremessando a rede langue
dá a sensação que vai pescar
o mundo inteiro nesse lance;
e o vôo espalmado da rede,
planando lento sobre o mangue,
senão o mundo, os alagados,
dá a sensação mesmo que abrange.
Depois, pouco se vê:
como, ao chumbo tirante,
se transforma em profundo
o que era extenso, antes;
vê-se é como o profundo
dá pouco, de relance:
se muito, uma traíra
do imenso circunstante.
----------
Aproveitando-se da noite
(não é bem um pescador, este)
coloca o covo e vai embora:
que sozinho se pesque o peixe;
coloca o covo na gamboa
e se vai, enxuto e terrestre:
mais tarde virá levantá-lo,
quando o bacurau o desperte.
Não é um pescador
aquele que não preze
o fino instante exato
em que o peixe se pesque;
este abandona o covo
e vai, sem interesse:
nem de fazer a pesca
nem de vê-la fazer-se.
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Publicado no livro Terceira feira (1961). Poema integrante da série Serial.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.312-314. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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Gonçalves de Magalhães
Apólogo: O Carro e o Burro
Um touro, não amestrado
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.
Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.
Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.
Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.
— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —
"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."
Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.
Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.
Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.
Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.
O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.
Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.
Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?
Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.
Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.
Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.
Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.
— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —
"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."
Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.
Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.
Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.
Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.
O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.
Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.
Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?
Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
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Gonçalves de Magalhães
Apólogo: O Carro e o Burro
Um touro, não amestrado
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.
Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.
Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.
Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.
— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —
"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."
Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.
Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.
Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.
Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.
O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.
Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.
Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?
Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.
Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.
Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.
Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.
— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —
"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."
Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.
Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.
Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.
Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.
O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.
Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.
Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?
Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
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Fagundes Varela
Juvenília I
Lembras-te, Iná, dessas noites
Cheias de doce harmonia,
Quando a floresta gemia
Do vento aos brandos açoites?
Quando as estrelas sorriam,
Quando as campinas tremiam
Nas dobras de úmido véu?
E nossas almas unidas
Estreitavam-se, sentidas,
Ao langor daquele céu?
Lembras-te, Iná? Belo e mago,
Da névoa por entre o manto,
Erguia-se ao longe o canto
Dos pescadores do lago.
Os regatos soluçavam,
Os pinheiros murmuravam
No viso das cordilheiras,
E a brisa lenta e tardia
O chão relvoso cobria
Das flores das trepadeiras.
Lembras-te, Iná? Eras bela,
Ainda no albor da vida,
Tinhas a fronte cingida
De uma inocente capela.
Teu seio era como a lira
Que chora, canta e suspira
Ao roçar de leve aragem;
Teus sonhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Por entre a escura folhagem.
(...)
Que é feito agora de tudo?
De tanta ilusão querida?
A selva não tem mais vida,
O lar é deserto e mudo!
Onde foste, ó pomba errante?
Bela estrela cintilante
Que apontavas o porvir?
Dormes acaso no fundo
Do abismo tredo e profundo,
Minha pérola de Ofir?
Ah! Iná! por toda parte
Que teu espírito esteja,
Minh'alma que te deseja
Não cessará de buscar-te!
Irei às nuvens serenas,
Vestindo as ligeiras penas
Do mais ligeiro condor;
Irei ao pego espumante,
Como da Ásia o possante,
Soberbo mergulhador!
Irei à pátria das fadas
E dos silfos errabundos,
Irei aos antros profundos
Das montanhas encantadas;
Se depois de imensas dores,
No seio ardente de amores
Eu não puder apertar-te,
Quebrando a dura barreira
Deste mundo de poeira,
Talvez, Iná, hei de achar-te!
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Publicado no livro Cantos e fantasias: poesias (1865).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.130-13
Cheias de doce harmonia,
Quando a floresta gemia
Do vento aos brandos açoites?
Quando as estrelas sorriam,
Quando as campinas tremiam
Nas dobras de úmido véu?
E nossas almas unidas
Estreitavam-se, sentidas,
Ao langor daquele céu?
Lembras-te, Iná? Belo e mago,
Da névoa por entre o manto,
Erguia-se ao longe o canto
Dos pescadores do lago.
Os regatos soluçavam,
Os pinheiros murmuravam
No viso das cordilheiras,
E a brisa lenta e tardia
O chão relvoso cobria
Das flores das trepadeiras.
Lembras-te, Iná? Eras bela,
Ainda no albor da vida,
Tinhas a fronte cingida
De uma inocente capela.
Teu seio era como a lira
Que chora, canta e suspira
Ao roçar de leve aragem;
Teus sonhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Por entre a escura folhagem.
(...)
Que é feito agora de tudo?
De tanta ilusão querida?
A selva não tem mais vida,
O lar é deserto e mudo!
Onde foste, ó pomba errante?
Bela estrela cintilante
Que apontavas o porvir?
Dormes acaso no fundo
Do abismo tredo e profundo,
Minha pérola de Ofir?
Ah! Iná! por toda parte
Que teu espírito esteja,
Minh'alma que te deseja
Não cessará de buscar-te!
Irei às nuvens serenas,
Vestindo as ligeiras penas
Do mais ligeiro condor;
Irei ao pego espumante,
Como da Ásia o possante,
Soberbo mergulhador!
Irei à pátria das fadas
E dos silfos errabundos,
Irei aos antros profundos
Das montanhas encantadas;
Se depois de imensas dores,
No seio ardente de amores
Eu não puder apertar-te,
Quebrando a dura barreira
Deste mundo de poeira,
Talvez, Iná, hei de achar-te!
Imagem - 00320001
Publicado no livro Cantos e fantasias: poesias (1865).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.130-13
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