Poemas neste tema
Vida e Existência
Roberto Pontes
A Poesia do Tempo
por Alberto Da Silva
Da poesia cearense atual ressoam a nível nacional as vozes cristalinas de Gerardo Mello Mourão – radicado há décadas no sudeste brasileiro –, do cantador popular Patativa do Assaré, do versejador de raízes sociais Pedro Lyra, do até aqui pouco conhecido Alcides Pinto e deste mais que surpreendente bardo, também vitimado pelos anos de chumbo, Roberto Pontes.
Pela enésima vez deve repetir-se aqui o velho chavão segundo o qual a poesia da província infelizmente não repercute a nível nacional além do eixo Rio-São Paulo, traduzindo uma realidade possivelmente devida ao gigantismo continental do país e às seqüelas da aparição do regime federalista só a contar da República, ou seja, de um século para cá.
Então é lamentável ver-se estiolarem nas fronteiras de sua pequena região poetas federais (como queria Drummond) como Florisvaldo Mattos, na Bahia, Mário Quintana (falecido), no Rio Grande do Sul, e Manuel de Barros – este capaz de desejar a um jornalista: "obrigado por tentar tirar algo do nada". Obviamente, temos aí uma boutade do poeta ou a tradução de uma realidade interior?
Provincianismos à parte, obrigatório imporem-se os condões dos artistas capazes de abrir os olhos de uma geração para acontecimentos ocorridos à sua volta – exemplo de Roberto Pontes –, captados pela antena mágica de quem deixa "cair do queixo a interrogação/ tatuada nos rostos de abismo", porque "a palavra é/ pra desencantar", convencido o poeta, mais que ninguém, que a "noite eterna cairá/ e do seu âmago fluirá a paz".
Autor embrenhado nas sendas da criação desde os idos de 1964 – caminhando e fazendo o seu caminho, porque, como disse outro poeta, "o caminho não existe, o caminho se faz", Roberto Pontes incendeia o verbo encarnado há mais de três décadas, sem jamais esmorecer e sem jamais produzir literatura chapa branca ou poesia de ocasião para agradar à burguesia sedenta de satisfação estética perfeitamente tranqüila e dotada do necessaário soporífero.
O poeta se dispõe a assumir sua tarefa como um compromisso e jamais como um deleite para entorpecer as consciências, justificando sua atitude muitas vezes como alguma coisa "tatuada nos rostos de abismo", sem olvidar jamais a promessa de que "um dia/ quando as noites forem mansas/ e os dias tristes/ todos entenderão o sentido destes versos".
E neste diapasão, colocando sua dicção no alvorecer da antemanhã, ele projeta o futuro: "quando as noites forem novas/ e os dias perpétuo carnaval", tudo poderia se tornar uma "branca voz/ de alvorada". Mas a seguir o criador se depara com situação embaraçosa – no exato instante em que resolve tributar ao velho Ho Chi Minh a homenagem da certeza de que "o pássaro amarelo/ vai cumprindo seu destino", sem esquecer de se voltar para um antigo colega de colégio, Frei Tito, a quem lembra candidamente, que "os ausentes necessitam sempre/ bilhetes", arrematando que "dos ausentes fica sempre um sorriso".
Roberto Pontes não é um poeta ingênuo, imaturo e voltado ao bestialógico do primarismo estéril – professor universitário (Literatura) e bacharel em Direito, percorre a margem do rio há pelo menos uma geração e aprendeu, no terrível período turbulento responsável pela destruição de de milhares de brasileiros, não ser possível erguer as mãos para uma falsa democracia lastreada em bases inócuas e absolutamente hostis.
Mas, embora esse Verbo encarnado condense toda a biografia poética do autor (numa espécie de obra completa), não colhe o leitor nestas páginas o azedume de alguém ressentido, amargurado ou entregue a situações de desabafo catártico – antes, pelo contrário: aqui surgem, como brotando do solo fértil, bafejados pela natureza, o poema dos meninos azuis ("as flores do esqueleto/ são minério e cor"), a contemplação perfeita do mistério da natureza (‘olha como se amam as borboletas/ que fiam corpos no mistério") e a exata compreensão de que "um arco-íris se planta/ onde mora a consciência"– adiantando o artista para os pósteros que "há retalhos de memória semelhantes a certeza".
Roberto Pontes não sabe "para onde vai a história/ em seu velório carpido", dispõe de "migalhas de tempo no bolso", mas não quer a direção em que nós vamos". O tempo se dilui lentamente e murcha os nossos olhos, adverte o poeta, para logo descobrir que o "búzio dorme na madeira enxuta/ e dentro dele, represado, o mar".
Cumpre reiterar não estarmos diante de um autor da obviedade – não podemos aqui esperar os lances dispersos de uma musicalidade tropeçante. Roberto Pontes canta o seu dia e a sua hora, contemplando a janela do tempo, jamais estereotipado em ritmos e dissonâncias obsoletas, viajando na captação do instante por vir. Um poeta do seu tempo e da sua colheita, interessado na construção de algo mais sólido que a pura dispnéia do prazer, da experimentação lúdica e do império da satisfação. Ele adverte para a perenidade da espécie na Terra e levanta sua voz: "As uvas pétreas/ jamais se douram/ junto ao símbolo marinho".
ALBERTO DA SILVA é jornalista (Tribuna de Notícias-RJ; jornal
RioArte; Revista Poesia Sempre) e escritor, autor de Cinema e
humanismo (ensaio) e A primavera mora na rua (contos).
Da poesia cearense atual ressoam a nível nacional as vozes cristalinas de Gerardo Mello Mourão – radicado há décadas no sudeste brasileiro –, do cantador popular Patativa do Assaré, do versejador de raízes sociais Pedro Lyra, do até aqui pouco conhecido Alcides Pinto e deste mais que surpreendente bardo, também vitimado pelos anos de chumbo, Roberto Pontes.
Pela enésima vez deve repetir-se aqui o velho chavão segundo o qual a poesia da província infelizmente não repercute a nível nacional além do eixo Rio-São Paulo, traduzindo uma realidade possivelmente devida ao gigantismo continental do país e às seqüelas da aparição do regime federalista só a contar da República, ou seja, de um século para cá.
Então é lamentável ver-se estiolarem nas fronteiras de sua pequena região poetas federais (como queria Drummond) como Florisvaldo Mattos, na Bahia, Mário Quintana (falecido), no Rio Grande do Sul, e Manuel de Barros – este capaz de desejar a um jornalista: "obrigado por tentar tirar algo do nada". Obviamente, temos aí uma boutade do poeta ou a tradução de uma realidade interior?
Provincianismos à parte, obrigatório imporem-se os condões dos artistas capazes de abrir os olhos de uma geração para acontecimentos ocorridos à sua volta – exemplo de Roberto Pontes –, captados pela antena mágica de quem deixa "cair do queixo a interrogação/ tatuada nos rostos de abismo", porque "a palavra é/ pra desencantar", convencido o poeta, mais que ninguém, que a "noite eterna cairá/ e do seu âmago fluirá a paz".
Autor embrenhado nas sendas da criação desde os idos de 1964 – caminhando e fazendo o seu caminho, porque, como disse outro poeta, "o caminho não existe, o caminho se faz", Roberto Pontes incendeia o verbo encarnado há mais de três décadas, sem jamais esmorecer e sem jamais produzir literatura chapa branca ou poesia de ocasião para agradar à burguesia sedenta de satisfação estética perfeitamente tranqüila e dotada do necessaário soporífero.
O poeta se dispõe a assumir sua tarefa como um compromisso e jamais como um deleite para entorpecer as consciências, justificando sua atitude muitas vezes como alguma coisa "tatuada nos rostos de abismo", sem olvidar jamais a promessa de que "um dia/ quando as noites forem mansas/ e os dias tristes/ todos entenderão o sentido destes versos".
E neste diapasão, colocando sua dicção no alvorecer da antemanhã, ele projeta o futuro: "quando as noites forem novas/ e os dias perpétuo carnaval", tudo poderia se tornar uma "branca voz/ de alvorada". Mas a seguir o criador se depara com situação embaraçosa – no exato instante em que resolve tributar ao velho Ho Chi Minh a homenagem da certeza de que "o pássaro amarelo/ vai cumprindo seu destino", sem esquecer de se voltar para um antigo colega de colégio, Frei Tito, a quem lembra candidamente, que "os ausentes necessitam sempre/ bilhetes", arrematando que "dos ausentes fica sempre um sorriso".
Roberto Pontes não é um poeta ingênuo, imaturo e voltado ao bestialógico do primarismo estéril – professor universitário (Literatura) e bacharel em Direito, percorre a margem do rio há pelo menos uma geração e aprendeu, no terrível período turbulento responsável pela destruição de de milhares de brasileiros, não ser possível erguer as mãos para uma falsa democracia lastreada em bases inócuas e absolutamente hostis.
Mas, embora esse Verbo encarnado condense toda a biografia poética do autor (numa espécie de obra completa), não colhe o leitor nestas páginas o azedume de alguém ressentido, amargurado ou entregue a situações de desabafo catártico – antes, pelo contrário: aqui surgem, como brotando do solo fértil, bafejados pela natureza, o poema dos meninos azuis ("as flores do esqueleto/ são minério e cor"), a contemplação perfeita do mistério da natureza (‘olha como se amam as borboletas/ que fiam corpos no mistério") e a exata compreensão de que "um arco-íris se planta/ onde mora a consciência"– adiantando o artista para os pósteros que "há retalhos de memória semelhantes a certeza".
Roberto Pontes não sabe "para onde vai a história/ em seu velório carpido", dispõe de "migalhas de tempo no bolso", mas não quer a direção em que nós vamos". O tempo se dilui lentamente e murcha os nossos olhos, adverte o poeta, para logo descobrir que o "búzio dorme na madeira enxuta/ e dentro dele, represado, o mar".
Cumpre reiterar não estarmos diante de um autor da obviedade – não podemos aqui esperar os lances dispersos de uma musicalidade tropeçante. Roberto Pontes canta o seu dia e a sua hora, contemplando a janela do tempo, jamais estereotipado em ritmos e dissonâncias obsoletas, viajando na captação do instante por vir. Um poeta do seu tempo e da sua colheita, interessado na construção de algo mais sólido que a pura dispnéia do prazer, da experimentação lúdica e do império da satisfação. Ele adverte para a perenidade da espécie na Terra e levanta sua voz: "As uvas pétreas/ jamais se douram/ junto ao símbolo marinho".
ALBERTO DA SILVA é jornalista (Tribuna de Notícias-RJ; jornal
RioArte; Revista Poesia Sempre) e escritor, autor de Cinema e
humanismo (ensaio) e A primavera mora na rua (contos).
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2
Pe. Osvaldo Chaves
A Granja dos Séculos
A Natureza, enamorada, um dia,
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.
E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...
E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...
Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.
E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!
Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...
Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.
O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.
E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...
E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.
Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.
Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.
Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!
Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.
Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!
Granja, 30 de agosto de 1957
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.
E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...
E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...
Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.
E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!
Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...
Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.
O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.
E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...
E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.
Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.
Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.
Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!
Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.
Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!
Granja, 30 de agosto de 1957
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2
Martins Fontes
Ser Paulista
Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
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Martins Fontes
Ser Paulista
Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
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2
Jorge de Sena
Declaração
Sinto que vou voltar-me para Ti,
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.
4 259
2
Jorge de Sena
Declaração
Sinto que vou voltar-me para Ti,
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.
Para Ti — como te descrevem e não há que fugir,
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres,
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranqüila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas
que dão a Tua Mãe,
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retrato,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença atual e simultânea
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos;
sei que poderei servir a propaganda
— olhem-no!, como se converteu —
e sei que o meu orgulho se revoltará
e tirarei prazer de Ti nessa revolta;
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração,
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo,
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia,
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA
À FRENTE?
que hei de renegar tudo,
e por isso Te previno do que sei
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser
— é que eu conheço-me e adivinho os outros
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros,
mas os meus erros também são eu próprio!
e eu sei que hei de ser eu e Tu
e os meus erros entre nós dois
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei,
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo,
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me! ...
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse,
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda...
e para onde me voltarei eu, eu!. . ., senão por Ti
até acreditar em Ti como te fazem?
É melhor assim — não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito,
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
— é só ouvir,
é só ler,
é só pasmar sereno,
é só ficar.
4 259
2
Ribeiro Couto
Elegia
Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...
Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.
Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.
Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.
Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.
Virei no vento...
Direi: acorda...
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...
Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.
Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.
Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.
Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.
Virei no vento...
Direi: acorda...
2 193
2
Silvino Pirauá de Lima
E Tudo Vem a Ser Nada
Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que idéia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.
Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.
Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.
Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos magestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.
Honra, grandezas, brazões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discursões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.
Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cançada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.
Formosuras e ilusões,
Passa-tempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar,
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.
Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.
Bailes, teatros, festins,
Comadre, drama, assembléa,
Club, liceu, epopéa;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins,
Festas com grande zuada,
Outeiro e Campinada
Frondam, compam e florescem,
Brilham, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada.
O homem se julga honrado,
Repleto de garantia,
De brazões e fidalguia
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.
Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão,
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.
Infindo só temos Deus,
Senhor de toda a grandeza,
Dos céus e da natureza,
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que idéia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.
Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.
Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.
Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos magestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.
Honra, grandezas, brazões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discursões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.
Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cançada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.
Formosuras e ilusões,
Passa-tempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar,
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.
Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.
Bailes, teatros, festins,
Comadre, drama, assembléa,
Club, liceu, epopéa;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins,
Festas com grande zuada,
Outeiro e Campinada
Frondam, compam e florescem,
Brilham, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada.
O homem se julga honrado,
Repleto de garantia,
De brazões e fidalguia
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.
Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão,
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.
Infindo só temos Deus,
Senhor de toda a grandeza,
Dos céus e da natureza,
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.
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2
Silvino Pirauá de Lima
E Tudo Vem a Ser Nada
Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que idéia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.
Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.
Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.
Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos magestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.
Honra, grandezas, brazões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discursões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.
Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cançada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.
Formosuras e ilusões,
Passa-tempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar,
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.
Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.
Bailes, teatros, festins,
Comadre, drama, assembléa,
Club, liceu, epopéa;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins,
Festas com grande zuada,
Outeiro e Campinada
Frondam, compam e florescem,
Brilham, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada.
O homem se julga honrado,
Repleto de garantia,
De brazões e fidalguia
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.
Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão,
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.
Infindo só temos Deus,
Senhor de toda a grandeza,
Dos céus e da natureza,
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que idéia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.
Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.
Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.
Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos magestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.
Honra, grandezas, brazões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discursões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.
Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cançada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.
Formosuras e ilusões,
Passa-tempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar,
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.
Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.
Bailes, teatros, festins,
Comadre, drama, assembléa,
Club, liceu, epopéa;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins,
Festas com grande zuada,
Outeiro e Campinada
Frondam, compam e florescem,
Brilham, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada.
O homem se julga honrado,
Repleto de garantia,
De brazões e fidalguia
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.
Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão,
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.
Infindo só temos Deus,
Senhor de toda a grandeza,
Dos céus e da natureza,
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.
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Silvino Pirauá de Lima
E Tudo Vem a Ser Nada
Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que idéia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.
Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.
Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.
Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos magestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.
Honra, grandezas, brazões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discursões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.
Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cançada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.
Formosuras e ilusões,
Passa-tempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar,
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.
Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.
Bailes, teatros, festins,
Comadre, drama, assembléa,
Club, liceu, epopéa;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins,
Festas com grande zuada,
Outeiro e Campinada
Frondam, compam e florescem,
Brilham, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada.
O homem se julga honrado,
Repleto de garantia,
De brazões e fidalguia
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.
Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão,
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.
Infindo só temos Deus,
Senhor de toda a grandeza,
Dos céus e da natureza,
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que idéia perdida.
Oh! que mente tão errada,
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.
Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade,
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso,
Vive de venta inchada,
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.
Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter,
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada
À lama, ao sol, ao chuveiro,
Ajuntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.
Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores,
Ministros e senadores,
E mais vultos magestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais,
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.
Honra, grandezas, brazões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões,
Argumentos, discursões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.
Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cançada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.
Formosuras e ilusões,
Passa-tempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar,
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.
Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.
Bailes, teatros, festins,
Comadre, drama, assembléa,
Club, liceu, epopéa;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins,
Festas com grande zuada,
Outeiro e Campinada
Frondam, compam e florescem,
Brilham, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada.
O homem se julga honrado,
Repleto de garantia,
De brazões e fidalguia
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.
Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão,
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.
Infindo só temos Deus,
Senhor de toda a grandeza,
Dos céus e da natureza,
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.
3 932
2
Fernando Pessoa
Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.
Mas finge sem fingimento.
Nada speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.
3 872
2
Jorge de Lima
Invenções de Orfeu
CANTO III
POEMAS RELATIVOS
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme.
II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.
Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.
E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.
VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.
Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.
VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.
Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.
Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.
X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.
XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.
XII
O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.
XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluí
POEMAS RELATIVOS
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme.
II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.
Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.
E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.
VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.
Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.
VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.
Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.
Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.
X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.
XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.
XII
O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.
XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluí
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2
Jorge de Lima
Invenções de Orfeu
CANTO III
POEMAS RELATIVOS
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme.
II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.
Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.
E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.
VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.
Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.
VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.
Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.
Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.
X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.
XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.
XII
O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.
XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluí
POEMAS RELATIVOS
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme.
II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.
Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.
E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.
VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.
Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.
VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.
Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.
Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.
X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.
XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.
XII
O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.
XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluí
7 070
2
Jorge de Lima
Invenções de Orfeu
CANTO III
POEMAS RELATIVOS
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme.
II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.
Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.
E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.
VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.
Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.
VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.
Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.
Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.
X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.
XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.
XII
O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.
XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluí
POEMAS RELATIVOS
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme.
II
Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?
Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.
Subitamente olhas:
nem lês nem desfolhas;
folha, flor, tiveste-as.
E nem as tocaste:
folha e flor. Tu - haste,
elas reais, mas réstias.
III
qualquer voz alou-se
muito desejada.
Branco fosse o espaço
e ela ardente cor.
Quis o espaço a voz
a voz veio e ampliou-o.
Mas se não houvesse
propriamente voz...
Vamos nós supô-los:
dois sem seus sentidos.
Desejemos mesmo
dois incompreensíveis.
Bom nos ecoarmos
na voz recebida.
E o espaço esvaziado
povoá-lo de vez.
Amá-los tão sem
amada presença,
só com o coração
sem correspondência,
só com a vocação
do verso feliz.
IV
Numas noites chegamos à janela,
e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
que os leitos rotos logo deliqüescem
com os nossos corpos complacentemente.
Certos dias olhamos o sol claro;
e a boca hiante das cores nos devora
carnes e sangues, poeiras de costelas,
que ficamos inúteis, sem matéria.
Essas bocas nos sugam noite e dia,
vigiando dia e noite nossas vidas
um minuto no espaço, menos que ai
de chumbo soluçado nos silêncios,
ou cal de fome longa, revelada,
na noite igual ao dia, de tão gêmeos.
V
Agora o sem senso
sorriso nos ares,
minha alma perdida,
os vales lá embaixo
de minhas lonjuras
de não existido,
parado nos antes,
nem sei de pecados,
nem sei de mim mesmo,
eu mesmo não sou
nem nada me vê;
ausentes palavras
não soam no vácuo
dos antes das coisas,
das coisas sem nexo,
nem fluidos. Só o Verbo
chorando por mim.
VI
Agora, escutai-me
que eu falo de mim;
ouvi que sou eu,
sou eu, eu em mim;
tocai esses cravos
já feitos pra mim,
suores de sangue,
pressuados sem poros
verônica herdada.
sem face do ser.
Embora; escutai-me,
que eu falo com a voz
inata que diz
que a voz não é essa
que fala por mim,
talvez minha fala
saída de ti.
VII
Alegria achareis neste poema
como poema ilícito, como um
corpo casual ou vão, como a memória
dura e acídula, como um homem se
conhece respirando, ou como quando
se entristece sem causa ou se doente,
ou se lavando sempre ou comparando-se
às dimensões das coisas relativas;
ou como sente os ombros de seu ser,
transmitidos e opacos, e os avós
responsabilizando-se presentes.
São alegrias rápidas. Lugares,
reencontrados países, becos, passos
sob as chuvas que não vos molharão.
VIII
Se falta alguém nesses versos
pele vento interminável,
pelas arenas de estátuas,
sucedam-lhe os cegos olhos
sacudidos pelos medos,
mãos de chuvas lhe inteiricem
o corpo com algas remissas
e com matérias tranqüilas
tão soturna como os poços,
exasperados invernos,
ombros de escova comida,
as asas secas caídas,
ante seus netos calados;
e incorporem-se a esse alvitre
esse sabor de cortiça,
essas esponjas morridas,
essas marés estanhadas,
essas escunas de espáduas
estritamente fechadas
como casas de abandono,
restringem-se os conciliábulos,
certos sigilos de pez,
certas coisas enlutadas,
refúgios, dramas ocultos,
pois as rosas são de trapos
e os fios menos que teias,
menos que finos agora,
e as camisas sem os pêlos
enterrados nas ilhargas,
vestem enganos e punhos
e crimes em vez de adegas,
mas tudo em vão, mesmo as plumas,
mesmo os ausentes e as vozes
aderidas a fragmentos
aí moram degredadas,
listrando as grades, de faces
que não conhecem espelhos
IX
Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
do espírito
Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
subindo para as aves; então dardos da matéria.
desceram sobre os mais amados colos
cantando amor com seus sentimentos.
Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
Tudo contém pequenas doces máscaras.
Mas da selva selvagem desce o pranto
dos que mastigam suas próprias fomes,
sem saliva de pão, e o gosto ausente.
Ninguém consegue assim amar os lírios.
E esse amor é amaríssimo e adstringente
com a memória das dores engolidas.
X
Vós não viveis sozinhos
os outros vos invadem
felizes convivências
agregações incômodas
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;
os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;
sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,
e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.
XI
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Clodoveu ou Clodovigo?
Éreis vós por acaso eles?
Éreis vós aqueles nomes,
estes, e os demais já mortos,
os mortos tão renovados
nós mesmos sempre chamados
Lútero, Lotário, otário,
sim otário tão singelo,
tão puro de todo o mal,
relativo, universal.
Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
Dizei-me se acaso vós
éreis eles ou voz sou
de algum avo tão otário,
tão eu mesmo como voz,
como poema de outros vários.
XII
O simples ar
de uma só corda
em curta raia,
mão de menino,
punhado escasso,
ar perfumado,
sem o alvoroço
dos vendavais;
anjo acolhido
em róseo céu
abrigo instante,
pranto lavado,
chorar em ti
de arrependido,
subir teus vales,
amar teu pólen,
nunca escapar-me
de tuas pétalas
cair com elas.
XIII
Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.
XIV
O contro era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluí
7 070
2
Helena Parente Cunha
Vinda
venho não sei
venho de que sombra
caminhando como
enveredando névoa
venho talvez
de perdido onde
buscando porque
tateando através
eu venho noite
de remoto aquém
rastejando treva
que nasci de mim
venho de que sombra
caminhando como
enveredando névoa
venho talvez
de perdido onde
buscando porque
tateando através
eu venho noite
de remoto aquém
rastejando treva
que nasci de mim
1 359
2
Helena Parente Cunha
Vinda
venho não sei
venho de que sombra
caminhando como
enveredando névoa
venho talvez
de perdido onde
buscando porque
tateando através
eu venho noite
de remoto aquém
rastejando treva
que nasci de mim
venho de que sombra
caminhando como
enveredando névoa
venho talvez
de perdido onde
buscando porque
tateando através
eu venho noite
de remoto aquém
rastejando treva
que nasci de mim
1 359
2
Marta Gonçalves
Poema da Alemanha
Os mortos dos campos da Alemanha crescem
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
2 433
2
Marta Gonçalves
Poema da Alemanha
Os mortos dos campos da Alemanha crescem
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
2 433
2
Cruz e Sousa
Temor
Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
Não sinta o nosso peso.
Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
Ou morreremos juntos.
Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz, - nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.
Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto.
Somente pra os meus beijos.
Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olha que a terra
Não sinta o nosso peso.
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
Não sinta o nosso peso.
Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
Ou morreremos juntos.
Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz, - nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.
Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto.
Somente pra os meus beijos.
Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olha que a terra
Não sinta o nosso peso.
2 332
2
Helena Amin
Manhã
Estais de volta!
Espirais de luz...
Múltiplas faces!
Cala em mim
a corrosão do desencanto.
Dá-me o direito
de tê-la assim:
desejada e liberta
— infinitamente! —
Espirais de luz...
Múltiplas faces!
Cala em mim
a corrosão do desencanto.
Dá-me o direito
de tê-la assim:
desejada e liberta
— infinitamente! —
800
2
Hélio Pellegrino
Mar Alto
Esta água é todas as águas,
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.
Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.
Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.
Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.
Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.
1 402
2
António Nobre
Ladainha
Teu coração
dentro do meu descansa,
Teu coraçãop, desde que lá entrou
Tem tão bom dormir essa criança,
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.
Dorme, menino! Dorme..dorme...
O que te importa o que no mundo vai?
Ao acordares desse sono enorme
Tu julgarás que se passou num ai.
Dorme, criança! Dorme sossegada,
Teus sonos brancos ainda por abrir:
Depois, a morte não te custa nada,
Porque a ela te habituaste a dormir...
Dorme, meu anjo ( anoite é tão comprida)
Que doces sonhos tu não hás-de Ter!
Assim, com o hábito de os Ter na vida
Continuarás depois de falecer....
Dorme, meu filho! Cheio de sossego
Esquece-te de tudo e até de mim.
Depois...de olhos fechados, és um cego,
Tu nada vês, meu filho e antes assim.
Dorme os teus sonhos, dorme e não mos digas,
Dorme, filhinho! Dorme, dorme "ó-ó"....
Dorme, a minha alma canta-te cantigas
Que ela é velhinha como a tua avó!
Nenhuma ama tem um pequenino
Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou!
E tem tão bom dormir esse menino...
Deitou-se, ali caiu, ali ficou
dentro do meu descansa,
Teu coraçãop, desde que lá entrou
Tem tão bom dormir essa criança,
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.
Dorme, menino! Dorme..dorme...
O que te importa o que no mundo vai?
Ao acordares desse sono enorme
Tu julgarás que se passou num ai.
Dorme, criança! Dorme sossegada,
Teus sonos brancos ainda por abrir:
Depois, a morte não te custa nada,
Porque a ela te habituaste a dormir...
Dorme, meu anjo ( anoite é tão comprida)
Que doces sonhos tu não hás-de Ter!
Assim, com o hábito de os Ter na vida
Continuarás depois de falecer....
Dorme, meu filho! Cheio de sossego
Esquece-te de tudo e até de mim.
Depois...de olhos fechados, és um cego,
Tu nada vês, meu filho e antes assim.
Dorme os teus sonhos, dorme e não mos digas,
Dorme, filhinho! Dorme, dorme "ó-ó"....
Dorme, a minha alma canta-te cantigas
Que ela é velhinha como a tua avó!
Nenhuma ama tem um pequenino
Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou!
E tem tão bom dormir esse menino...
Deitou-se, ali caiu, ali ficou
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José Eustáquio da Silva
Fazer Amor
fazer amor requer arte inconsciente
fazer amor transcende o feio e o bonito
fazer amor requer a alma despida
fazer amor transcende a sexualidade
fazer amor é ignorar todos os conceitos formais da humanidade
e se entregar como quem se doa a si mesmo
fazer amor não tem vínculo algum
com o lado físico dos seres
fazer amor é um divindade.
divindade que advém do mais nobre dom da vida : a própria vida.
fazer amor é enlouquecer a anatomia.
não importa a forma.
o que importa é não importar com coisa nenhuma.
fazer amor é fazer de inconcebíveis palavrões um lindo poema.
fazer amor é fazer do corpo um banquete de sonhos
e fazer da alma o berço do gozo...
fazer amor transcende o feio e o bonito
fazer amor requer a alma despida
fazer amor transcende a sexualidade
fazer amor é ignorar todos os conceitos formais da humanidade
e se entregar como quem se doa a si mesmo
fazer amor não tem vínculo algum
com o lado físico dos seres
fazer amor é um divindade.
divindade que advém do mais nobre dom da vida : a própria vida.
fazer amor é enlouquecer a anatomia.
não importa a forma.
o que importa é não importar com coisa nenhuma.
fazer amor é fazer de inconcebíveis palavrões um lindo poema.
fazer amor é fazer do corpo um banquete de sonhos
e fazer da alma o berço do gozo...
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José Eustáquio da Silva
Fazer Amor
fazer amor requer arte inconsciente
fazer amor transcende o feio e o bonito
fazer amor requer a alma despida
fazer amor transcende a sexualidade
fazer amor é ignorar todos os conceitos formais da humanidade
e se entregar como quem se doa a si mesmo
fazer amor não tem vínculo algum
com o lado físico dos seres
fazer amor é um divindade.
divindade que advém do mais nobre dom da vida : a própria vida.
fazer amor é enlouquecer a anatomia.
não importa a forma.
o que importa é não importar com coisa nenhuma.
fazer amor é fazer de inconcebíveis palavrões um lindo poema.
fazer amor é fazer do corpo um banquete de sonhos
e fazer da alma o berço do gozo...
fazer amor transcende o feio e o bonito
fazer amor requer a alma despida
fazer amor transcende a sexualidade
fazer amor é ignorar todos os conceitos formais da humanidade
e se entregar como quem se doa a si mesmo
fazer amor não tem vínculo algum
com o lado físico dos seres
fazer amor é um divindade.
divindade que advém do mais nobre dom da vida : a própria vida.
fazer amor é enlouquecer a anatomia.
não importa a forma.
o que importa é não importar com coisa nenhuma.
fazer amor é fazer de inconcebíveis palavrões um lindo poema.
fazer amor é fazer do corpo um banquete de sonhos
e fazer da alma o berço do gozo...
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