Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Marina Colasanti
Na encosta são
Os ciprestes
na encosta
não são árvores.
Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na encosta
não são árvores.
Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
999
Marina Colasanti
Na encosta são
Os ciprestes
na encosta
não são árvores.
Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na encosta
não são árvores.
Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
999
Marina Colasanti
Matisse em flor
O gerânio que
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
1 154
Marina Colasanti
No túmulo de inox
Morto
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
1 075
Marina Colasanti
Todo dia, à caça
Na savana da tv
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
1 077
Marina Colasanti
Quem saberá?
Aqui
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
1 085
Marina Colasanti
Pobre seria sem elas a porcelana chinesa
Porque ia chover
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
965
Marina Colasanti
Pobre seria sem elas a porcelana chinesa
Porque ia chover
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
os vasos da vila amanheceram
cheios de peônias
o fio da faca garantindo vida
na facetada tumba de cristal.
Delicadas são as peônias
que não suportam chuva
e que ao sol
entregam em dez dias
o seu destino.
Pesadas cabeças de pálida carne
se aprumam nos talos.
Feridas as fendem
no início,
as beiras do corte
franzidas
revelam rubores ao fundo.
Em breve
de dentro
as vísceras claras eclodem
se abrem
se encrespam
se espalham
em tantas camadas
mistérios
anáguas rendadas
que dentro
bem dentro
entregam
o breve pistilo.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
965
Marina Colasanti
Nunca se perguntou
Porque vivia sozinha
em Nova York
toda semana ia
à mesma peixaria em Chinatown
comprar a tartaruga viva.
Depois
dura casca metida em saco plástico
ia atirá-la no Hudson.
Nunca se perguntou
o que acontecia à tartaruga
na água turva
mancha entre manchas
nunca se perguntou
se submersa se enredava em correntes
âncoras cabos
se era estraçalhada pelos hélices.
la toda semana deixar seu dinheiro
na pálida mão do peixeiro chinês
e caminhava até o rio
sentindo estremecer as nadadeiras
para entregá-la ao Hudson
e acreditá-la livre.
em Nova York
toda semana ia
à mesma peixaria em Chinatown
comprar a tartaruga viva.
Depois
dura casca metida em saco plástico
ia atirá-la no Hudson.
Nunca se perguntou
o que acontecia à tartaruga
na água turva
mancha entre manchas
nunca se perguntou
se submersa se enredava em correntes
âncoras cabos
se era estraçalhada pelos hélices.
la toda semana deixar seu dinheiro
na pálida mão do peixeiro chinês
e caminhava até o rio
sentindo estremecer as nadadeiras
para entregá-la ao Hudson
e acreditá-la livre.
1 297
Marina Colasanti
Tempo afora, morte adentro
Gordas como repolhos
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
967
Marina Colasanti
Tempo afora, morte adentro
Gordas como repolhos
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
967
Marina Colasanti
Villa Cimbrone
Os bustos de Villa Cimbrone
não olham o mar.
Cravados de costas
nos caules de pedra
escutam
somente
a fala das ondas distantes.
É justo.
Se olhassem de frente esse mar
o azul entraria como sal
pelos poros
lambendo com língua macia
fazendo do mármore
concha
polindo apagando os contornos
dos olhos
das bocas
dos rostos.
No longo terraço plantados
ciprestes de pedra
os bustos escutam
escutam
sem ver.
Ravello, 2001
não olham o mar.
Cravados de costas
nos caules de pedra
escutam
somente
a fala das ondas distantes.
É justo.
Se olhassem de frente esse mar
o azul entraria como sal
pelos poros
lambendo com língua macia
fazendo do mármore
concha
polindo apagando os contornos
dos olhos
das bocas
dos rostos.
No longo terraço plantados
ciprestes de pedra
os bustos escutam
escutam
sem ver.
Ravello, 2001
1 110
Marina Colasanti
Por instantes
Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 277
Marina Colasanti
Algum vibrar
A borboleta parda
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
983
Marina Colasanti
Talvez saiba
Meu braço é uma extensão imensa
longa colina plana
que o cotovelo rompe
e que o pulso ameaça.
E nessa geografia pulsante
floresta dos meus finos pelos
um inseto desbrava
o áspero chão.
Menos que um ponto
malvisível
sinto o peso nenhum das patas filiformes
pousando em alternância
sobre a pele.
O inseto vai
e talvez saiba aonde
a cabeça examina um lado e outro
os olhos indistintos deste nada
caçam atentos.
Tudo é perigo no seu curto tempo
e no peito
se é peito que se chama
o escuro mais escuro desse corpo
um coração bombeia
em puro medo.
longa colina plana
que o cotovelo rompe
e que o pulso ameaça.
E nessa geografia pulsante
floresta dos meus finos pelos
um inseto desbrava
o áspero chão.
Menos que um ponto
malvisível
sinto o peso nenhum das patas filiformes
pousando em alternância
sobre a pele.
O inseto vai
e talvez saiba aonde
a cabeça examina um lado e outro
os olhos indistintos deste nada
caçam atentos.
Tudo é perigo no seu curto tempo
e no peito
se é peito que se chama
o escuro mais escuro desse corpo
um coração bombeia
em puro medo.
1 155
Marina Colasanti
Ainda há
Deus
era alguém que se encontrava a toda hora
ou mandava emissários
no tempo em que
o arado afundava na terra
o leite esguichava da teta
e a peste abocanhava na garganta.
Multiplicaram-se as gentes
e os deuses não mais deram
atendimento personalizado.
Agora
vou sozinha pela vida
empurrando carrinhos de comida
e não encontro Deus no shopping center
não o vejo na fila do cinema
nem lhe peço licença no aeroporto.
Mas ainda há tardes de chuva e
luzes lentas no engarrafamento
em que a palheta chora contra o vidro
o ar se embaça
e Deus vai
em silêncio
no banco do carona.
era alguém que se encontrava a toda hora
ou mandava emissários
no tempo em que
o arado afundava na terra
o leite esguichava da teta
e a peste abocanhava na garganta.
Multiplicaram-se as gentes
e os deuses não mais deram
atendimento personalizado.
Agora
vou sozinha pela vida
empurrando carrinhos de comida
e não encontro Deus no shopping center
não o vejo na fila do cinema
nem lhe peço licença no aeroporto.
Mas ainda há tardes de chuva e
luzes lentas no engarrafamento
em que a palheta chora contra o vidro
o ar se embaça
e Deus vai
em silêncio
no banco do carona.
989
Marina Colasanti
O perigo é quando
No ano de mil quinhentos e quarenta e dois
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.
O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.
Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.
Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.
À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.
Aí
no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
1 107
Marina Colasanti
UMA CAMÉLIA
Uma camélia só
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
1 176
Marina Colasanti
BRUSIO
Mosconi sul rampicante rosa
pelosi
fra petali e foglie
più che insetti si direbbero
scuri pistilli in volo.
pelosi
fra petali e foglie
più che insetti si direbbero
scuri pistilli in volo.
1 038
Marina Colasanti
BRUSIO
Mosconi sul rampicante rosa
pelosi
fra petali e foglie
più che insetti si direbbero
scuri pistilli in volo.
pelosi
fra petali e foglie
più che insetti si direbbero
scuri pistilli in volo.
1 038
Marina Colasanti
DOMENICA A CERTALDO
Domenica a Certaldo
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
1 018
Marina Colasanti
Nenhum como aqueles
Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
1 277
Marina Colasanti
Nenhum como aqueles
Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
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